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quarta-feira, 23 de março de 2016

Crítica: "Boa Noite, Mamãe" (GoodNight, Mommy)

"Isso dói?"



(Recomendação: Só leiam o texto, após assistir o filme. Contem spoilers e descrição explicativa de varias cenas, incluindo o final e seu significado)


Dirigido e roteirizado pela dupla Severin Fiala e Veronika Franz, esse filme austríaco - que tentou representar seu país no Oscar desse ano, e arrematou dezenas de prêmios mundo afora - "ICH SEH, ICH SEH" - do original "Eu vejo, Eu vejo" e traduzido pro inglês e pro português como "Boa noite, Mamãe (GoodNight, Mommy)" - é um deleite para os olhos atentos de cinéfilos de qualquer geração.

Isso porque sua força reside nos detalhes e na busca de refletir o cinema suspense com toques de terror lá em seu ápice em anos passados, - mais especificadamente, com referencias a obras dos anos 70 - onde tivemos um considerável requinte de linguagem pro gênero.

É preciso dizer que o filme tem seu plot real apenas nos dez minutos finais de projeção. Talvez nos cinco últimos se considerarmos os elementos que os compõem. Por tanto, a revelação do "implícito" envolvendo os dois irmãos não é o que o filme quer segurar até o final. O roteiro não visa tornar misterioso a condição que une os dois irmãos no filme; muito pelo contrário. Ele espalha pistas escancaradas ao longo da projeção sem nenhum pudor. Ainda assim é belo constatar sua comunicação visual na sutileza nessas indicações.

Primeiro de tudo devemos lembrar que Hollywood nos acostumou mal. Nos criou a base de obviedade onde sutileza não existe e onde diálogo e edição frenética são sinônimos de Bons filmes (pra eles). Aqui, temos cinema base de suspense, onde se tem comunicação por imagens e não por ação ou fala.

Assim, o que se deve prestar atenção nesse filme é a construção narrativa de sua Mise-en-scène, o cenário que compõe o quadro em cena. Atribuir significado à água, aos reflexos, ao solo mole, às sombras, as cores, as árvores, aos quadros, fotos, a maneira que a câmera se posiciona, a maneira que a câmera se movimenta.

O ambiente é o verdadeiro protagonista do filme. É quem está narrando tudo.

Assim é brilhante notar como o filme nos conta através de um gato, através de um isqueiro, através de um quadro feito por silhuetas de sombras, através de reflexos, da ausência de calendários e relógios, bem como através de um cripta e seus ossos, sua real intenção de existir.

O tempo aqui não é fluido, e é importante salientar isso para que se entenda o seu desfecho final. Que sim é aberto a interpretações, mas é um fato planejado também. Os insetos e seu significado quase mitológico e psicológico, também tem papel importante na construção narrativa do filme. E não o bastante, ainda temos o silêncio que é a melhor fala de todo o roteiro.

Falando de aspectos técnicos, é preciso dar louros ao diretor de fotografia Martin Gschlacht, que compreende o universo que esta trabalhando, inserindo uma palheta de cores vibrantes sempre que estamos em lugar comum aos gêmeos, em contraste a palheta de cores mais escuras e opacas de quando nos encontramos diante da mãe deles - que obviamente oferece uma especie de perigo e apreensão às duas crianças. E isso ocorre, por que acompanhamos o filme pela perspectiva dos meninos, ate o inicio do terceiro ato. A partir dali, de maneira bem assertiva pelos diretores, passamos a ser meros espectadores das cenas. Um manejo do cinema de terror eficaz e esquecido atualmente.



A partir daqui escancararei sem a mesma sutileza do filme, o seu entendimento para ajudar aqueles que não compreenderam. Pois é impossível eu falar sobre alguns elementos sem dar spoilers.

Estejam avisados e só leiam depois de ver o filme. Pois, qualquer informação, como disse no inicio do texto, pode 'estragar' a experiencia visual e narrativa do filme. Só leiam, apos terem assistido.




Temos dois irmãos gêmeos, Lukas e Elias. Elias, que surge primeiro em tela com a regata clara, e Lukas com a regata escura.

Após uma brincadeira com o irmão, Lukas morre afogado no lago em frente à casa. Essa cena é mostrada no inicio do filme, entre varias outras brincadeiras dos gêmeos. Logo, após esse acidente, ha um incêndio na casa deles, e seus pais acabam se separando. (A indícios durante o filme, nas ações de submissão e dominação entre os gêmeos, de que o incêndio tenha sido efetuado pelo Lukas, antes deste morrer afogado).
A mãe fica gravemente ferida no incêndio e precisa fazer algumas plásticas no rosto pra reconstruir a face.
Após a morte do irmão, Elias passa a vê-lo, achando que ele continua vivo. Ele passa a negar a morte do irmão.

Eles se mudam da casa queimada, para uma nova casa, mais moderna. A mãe ao retornar pra nova casa comprada após o incêndio, se recusa a fingir que o filho morto está ainda entre eles. E passa a tratar o filho Elias, mais rispidamente. Por dois motivos. Primeiro, pelo trauma da perda do outro filho, ja que ambos são gêmeos e claramente o vivo faz ela lembrar do outro morto, e pelo acidente em si, onde surge o sentimento de culpa versus a separação do marido. Tudo isso culmina num distanciamento da relação dela com o filho.

Por causa das cirurgias, e desse novo comportamento da mãe, Elias e Lukas (morto) passam a achar que aquela mulher, não é sua verdadeira mãe. E após tortura-la, para querer saber onde esta a mãe verdadeira, colocam fogo nela e na nova casa ( somente o Elias no caso).

Assim ao final o que vemos é um vislumbre da primeira casa pegando fogo, seguida da segunda em flashes.

Como eu disse o tempo não é fluido. A montagem do filme de maneira assertiva pelo montador Michael Palm, não é linear, afinal estamos tratando de um mundo entre o real e o mundo dos mortos. Após o segundo incêndio, mãe e filho (Elias) morrem queimados e se juntam a Lukas o filho morto afogado, enfim juntos na floresta.

Assim além de ter uma comunicação visual genial, o filme brilha principalmente por conta de sua montagem, que escolheu essa direção de fragmentar o quebra cabeça. Quando vemos a os gêmeos olhando a nova casa a venda na verdade estamos vislumbrando momentos após o primeiro incêndio. E é notável que eles fazem a distinção de temporalidade, aos olhos atentos, pelas roupas dos meninos. As roupas indicam qual tempo narrativo estamos vendo.

As simbologias do fogo, da água, dos insetos, tudo remete a esse caráter de morte que ronda o filme. Inclusive a analogia da floresta e das mascaras. As cenas da floresta, indicam o submundo psicológico e sentimental de mãe e filhos. Quando vemos a mãe despida na floresta com o rosto em transe, na verdade, é uma representação dos ecos de angustia desta diante daquela nova realidade. Da perda do filho, do corpo mutilado por um do filhos, da inadequação a ela mesma diante do espelho e do papel de mãe, da nova vida distante de tudo. A floresta representa em filmes de suspense e terror, a quebra do palpável e a chegada do mistico. Pode representar tanto a perdição horrenda, quanto a purificação sagrada. O humano dentro dela, o humano urbano, tende a se quebrar de facetas diante de uma floresta. O filme explora bem isso também. Assim como as mascaras tribais. A mascara da cirurgia contrastando com a mascara dos garotos e ambas escondendo a realidade daqueles três personagens. Um morto, um pirotécnico, uma mãe morta-viva - e interessante ainda a a referencia a múmia nesse sentido, inclusive nos planos que mostram seus primeiros passos em tela, e aquele em que ela surge nas sombras do quarto com as persianas fechadas.

Há ainda outro detalhe bacana, que é quando os gêmeos acham a foto da amiga da mãe, que surge parecido, e que causa toda a comoção neles de que estão diante de uma impostora.

A tortura, como é claro ali, serve não só pro terror psicológico crescente de agonia, como também para simbolizar aquela relação que temos de sagrada entre mãe e filhos se quebrando. E o filme extrapola isso sem pudor algum, quando escolhe os ferimentos em ordem materna e progenitora perfeita, ao fazer os gêmeos primeiro ferirem a boca da mãe - a boca que simboliza fala, educação e alimentação -, depois o útero - quando saem insetos de la, denotando a morte das crias - e em seguida, o arrancar de dentes e da mãe tendo urinado. O filme inteira jogo com a relação materna de maneira inversa. A proteção e criação que se transforma em destruição e perigo. Isso em si perturba.

Ainda há cenas de caráter psicológico, claro, em que mostra os gêmeos constantemente disputando, correndo, e se batendo, com destaque a cena em que eles batem no rosto um do outro e perguntam se aquilo dói.



É um filme denso, perturbador e que carrega um terror psicológico a altura de seus prêmios e reconhecimento.

Não tem nada de ''o mistérios das duas irmãs'' ali. Aqui temos o mistérios dos dois irmãos, e sua querida mamãe.


Imperdível!



Ficha Técnica:

Gênero: Suspense
Direção: Severin Fiala, Veronika Franz
Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
Elenco: Christian Schatz, Elfriede Schatz, Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest
Produção: Ulrich Seidl
Fotografia: Martin Gschlacht
Montador: Michael Palm
Trilha Sonora: Ekkehart Baumung


Trailer:

 









sábado, 28 de novembro de 2015

Crítica: O Pequeno Príncipe


''O essencial é invisível aos olhos.''



''Só se vê bem com o coração.''
''Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.''

Tais frases icônicas, permanecem desde 1943 no imaginário de milhares de pessoas ao redor do mundo. Sejam crianças ou adultos, O Pequeno Príncipe escrito pelo escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry, é considerado um dos livros mais famosos da historia da literatura. Considerado também infantil; ele é uma das raras exceções em que seu publico alvo se subverte para se tornar universal, devido a riqueza de parábolas e metáforas com a vida adulta que o livro trás.
Em 1974, o cinema se arriscou a produzir uma adaptação do livro. Dirigido por
Stanley Donen; o filme que apostou numa especie de comedia musical, trazia Gene Wilder no elenco.
Veja o trailer abaixo:



Dessa vez, o diretor Mark Osborne, apoiado pelo roteiro de Irena Brignull, arriscaram em trazer o "Pequeno" novamente às telas grandes, mas desta vez em forma de animação.

Nessa nova animação, uma garota acaba de se mudar com a mãe, uma controladora obsessiva que deseja definir antecipadamente todos os passos da filha para que ela seja aprovada em uma escola conceituada. Entretanto, um acidente provocado por seu vizinho faz com que a hélice de um avião abra um enorme buraco em sua casa. Curiosa em saber como o objeto parou ali, ela decide investigar. Logo conhece e se torna amiga de seu novo vizinho, um senhor que lhe conta a história de um pequeno príncipe que vive em um asteroide com sua rosa e, um dia, se encontrou com ele - um aviador perdido no deserto do Saara -  em plena Terra.

O primeiro que tem que se dizer sobre essa animação, é que ao contrario do que possa parecer aos saudosista e aos novos admiradores do principezinho, o filme não é uma adaptação do livro. Na realidade não é nem mesmo uma versão. Pois, a historia do Príncipe é apenas base para empurrar e estruturar a narrativa que é sobre a historia da pequena garota. Assim, essa animação, na realidade, é baseada no livro.
Isso é importante para que não se crie a expectativa lúdica de que a experiencia em tela sera a mesma do livro.

Dito isso, é muito interessante e valida a maneira que a roteirista escolheu de calcar a jornada da garota rumo a descoberta do que é ser adulto, através da historia do pequeno príncipe.

O que o roteiro quis, foi fazer uma reflexão paralela das ideologias de Antoine, com a vida real. Quase adotando um sentido religioso e de fé ao Príncipe nesse sentido. Pois o velho aviador parece crer que a existência do pequeno é o que o sustenta para aguentar a vida cotidiana tão pesada e as vezes cruel. Nesse ponto é interessante o fato de que o aviador velho da animação, seja o mesmo aviador narrador do livro e que por excelência seja o próprio Antoine num universo paralelo onde ele envelheceu ate esta tenra idade e tenha conhecida uma pequena garota simpática e curiosa.
Isso porque o velho aviador da historia, não apresenta o pequeno príncipe para a garota, como se fosse uma historia que ele ouviu e esta repassando. Mas, como uma historia que ele viveu, ele escreveu e desenhou. a construção logica do roteiro peca em alguns diálogos, como por exemplo o uso de uma fala da garota, que é extremamente inteligente e racional, e problematiza o fato de não ser possível que o aviador tenha encontrado um garoto no deserto. Por que crianças não poderiam sobreviver tanto tempo naquele ambiente inóspito e porque pelo seu conhecimento da escola, não havia evidencias de vida em planetas pequenos. Ela então diz que a unica possibilidade era se ele viesse de uma estrela. Ora, estrelas são corpos quentes, onde ali sim, não poderia haver vida. Esse detalhe pequeno e irrelevante, mas que mostra um desleixo na construção da logica da personagem, cuja a logica é justamente sua principal característica.

A animação ainda traz um visual incrível.

A vida real da garota é representada em computação gráfica. A cidade, os adultos, os carros, tudo em linhas de simetria extrema, retas, sem ''imaginação alguma''. Cores cinzas e opacas, numa unilinearidade sóbria e sem vida. Tudo em constante movimento mas, sem sentimento. Sem riso ou alegria.

A exceção é justamente a casa do velho aviador. Disforme, repleta de cores vivas, que contrasta absurdamente com o cinza da urbanidade. É interessante esse cuidado com a direção de arte. Representar a metáfora da vida adulta tão "chata" aos olhos na ideologia do Livro com a construção da arte aqui.
Já o velho que não se esqueceu como é ser criança mantém a cor em seu dia a dia, e por isso é visto como louco biruta pela sociedade geral. Que não o entende e nem o aceita. Eles tem medo do velho.

Mas, o real encanto fica por conta da animação em stop motion, que representa a história paralela do príncipe. O aviador narra a história para a garota e vemos o desenrolar em um stop motion rico em detalhes e fluidez de movimento. É fascinante.

E aqui, inclusive o entendimento artístico do universo da obra pra realidade é satisfatório. Uma vez que a computação, justamente seria a tecnologia humana, do adulto humano artificializando o natural. E o que seria a fantasia fantástica do mundo do pequeno príncipe, com o stop motion tão clássico e originário do cinema em seus primórdios. Esse detalhe é bonito de se constatar.

No entanto, o maior problema do filme está no não entendimento aparente ou na ambição furada de não compreender a mensagem simplista que o livro trás. Sim, suas mazelas são complexas. Tanto que conquistam adultos até hoje. Mas sua mensagem base é simples. É imaginativa. É utópica.
E o filme aqui tenta racionalizar essa mensagem a partir do segundo ato.
A sensação que fica é a de que ironicamente, o melhor do filme é justamente sua técnica regrada e ''adulta'', e não seu roteiro, seu sentimento.

É um projeto ambicioso e muito interessante, mas que peca ao tentar recriar uma obra que não precisa e nem deve ser recriada, somente revista. É diferente essas duas mazelas.
O terceiro ato, apesar de valido, principalmente para aqueles que não conhecem a historia original, representa uma especie de 'traição' ao original para aqueles que conhecem as aventuras do Pequeno.
O essencial ficou visível aos olhos e não se mostrou muito bem.

Assim, o Pequeno Príncipe é uma experiencia valida pela sua beleza, pela historia base que carrega, mas que frusta por demonstrar que afinal de contas, não importa quão lindo visualmente ele possa ser, ele ainda assim, é uma animação feita para crianças, mas criada por adultos.

É, adultos são tão chatos... Eles nunca entendem...

Ps: A raposa - em todas as suas faces - é a coisa mais querida do mundo, como não poderia deixar de ser.


Trailer:



Ficha Técnica:

Gênero: Animação
Direção: Mark Osborne
Roteiro: Irena Brignull
Elenco: (vozes) Albert Brooks, Benicio Del Toro, Bud Cort, Jacquie Barnbrook, James Franco, Jeff Bridges, Jeffy Branion, Mackenzie Foy, Marcel Bridges, Marion Cotillard, Paul Giamatti, Paul Rudd, Rachel McAdams, Ricky Gervais, Riley Osborne
Produção: Alexis Vonarb, Aton Soumache, Dimitri Rassam
Fotografia: Kris Kapp











segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Resenha (breve): Beira Mar





'Eu sei quem eu sou 
Eu sei, eu sei,
eu sei, eu sei
Eu sei quem eu sou
Eu sei quem eu sou
Eu sei onde estou 
Eu sei quem eu sou"


Esse trecho faz parte de uma musica chamada ''NoPorn'' do grupo Xingu, e faz parte da trilha sonora do filme ''Beira Mar'', dirigido com competência pelos cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.
O filme foi selecionado para o 65º festival de Berlim.
Coloquei esse trecho, por que Beira Mar fala sobre a adolescência, e esta, como todos nós sabemos - ou saberão - se trata justamente da magia e do terror de tentar entender quem se é no mundo.
Pois bem, Beira Mar possui a competência de tratar do assunto de maneira despretensiosa, de maneira natural, e pra isso ocorrer, grande parte do mérito esta nos diálogos por vezes ate banais dos personagens e principalmente pela dupla de protagonistas - Mateus Almada e Mauricio José Barcellos -, que claramente são inexperientes em termos de segurança na atuação, mas que justamente por isso, se encaixam perfeitamente para a trama.

O filme é lindo esteticamente, uma fotografia que investe bastante em profundidades de campo, imagens turvas, movimentos dispersos de câmera, cores frias, que passam tanto o clima de monotonia quanto de apreensão própria dessa parte da vida. A adolescência não é fácil, não é colorida. Ela é profunda, é embaçada, é fria, ainda que tenha seus momentos de prazeres intensos e alegrias que permanecem pelo resto da vida. O som é algo que me incomodou bastante.
O problema de Beira Mar, é que ele demora dois atos inteiros para parecer se encontrar. Como se o filme usasse de metalinguagem extrema, parece ser um adolescência que inicia ditando seu ritmo, batendo no peito que sabe quem é, que se conhece, mas que ao longo da narrativa se confunde. Fala, fala, fala; mostra, mostra, mostra, mas não chega a lugar nenhum.

A sensação que fica é que não ha historia. Não ha trama. Parece que estamos vendo apenas momentos de dois adolescentes numa viagem. Só.

Isso se deve pelo fato, dos diretores terem escolhido o caminho inverso da máxima narrativa que se aprende no cinema, de que o filme precisa se justificar, se fazer entender ate o final de seu primeiro ato (por volta de 20/30 minutos de historia). Nada é explicado de inicio. Não sabemos qual o conflito que impulsiona aqueles dois garotos naquela viagem, naquele peso aparente que ambos carregam nos olhares que se desviam, nos silêncios que presenciam e protagonizam, no riso bobo, que logo vira melancolia e osmose. É visível que ambos possuem alguma carga emocional de conflito interno, que encontra um escape na amizade e intimidade que parecem ter um com outro. Mas, o que é? como é? onde é? quando é esse conflito?

Não nos deixam saber.

Se por um lado poderia ser um exercício interessante ainda mais pela temática proposta, no filme não funciona. E o mistério deixa de ser mistério que prende, para se tornar algo 'broxante' que enjoa e cansa. O filme possui 1 hora e 23 minutos de duração, mas a sensação que fica é que tem mais de duas horas.

O filme tem sido vendido como um filme ''adolescente com características gays.'' Titulo que faz com que haja uma especie de antecipação no espectador para que pelo menos se espere algo relacionado a isso. 

Percebe? 

O filme perde a oportunidade de desenvolver a complexidade que criou.
Mas, o terceiro ato, os momentos finais o filme dá show. Tudo que se esperava acontece, ele se justifica e brilha.

Mas, precisava de 1 hora de enrolação?
Enfim, um bom filme sobre descobertas da vida, que poderia ser mais, mas talvez ainda não seja maduro o suficiente.
BAH, recomendo!

Ps: O sotaque do sul é simplesmente fascinante 


Trailer:



FICHA TÉCNICA:

PAÍS DE ORIGEM: Brasil
ANO: 2015
DIREÇÃO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
ROTEIRO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
FOTOGRAFIA: João Gabriel de Queiroz
MÚSICA: Felipe Puperi
DIREÇÃO DE ARTE: Manuela Falcão
PRODUÇÃO: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon, Tainá Rocha








Emoticon he

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Crítica/Análise : Bling Ring - A Gangue de Hollywood


“Eu realmente acredito em carma. E acho que essa situação entrou em minha vida para que eu pudesse aprender uma importante lição para crescer e me desenvolver espiritualmente. Posso me ver me transformando em alguém como a Angelina Jolie.”
Alexis Neiers, 18 anos- Membro da Gangue The Bling Ring durante declaração à policia sobre seus crimes.- Ela é interpretada por Emma Watson no longa sob a personagem ‘Nicki’.




Sofia Coppola se destaca no mundo cinematográfico por uma característica bem peculiar: o de conseguir mesclar tramas de cunho complexo e intrínsecos, numa narrativa e estética aparentemente superficial e simples. No geral, seus filmes têm um ‘Q’ de estética de vídeo clipes, são filmes artísticos, não comerciais e que por isso se embrenham em circuitos alternativos, mas sempre estão presentes em premiações e mostras ao redor do mundo. A princípio pelo sobrenome de peso que carrega vindo do pai, mas atualmente por mérito próprio, principalmente depois das indicações e do Oscar ganho por roteiro original com “Encontros e Desencontros’ seu filme mais famoso em sua pequena, mas invejável filmografia.

Explicar a sensibilidade e peculiaridade de Sofia é pertinente, pois para compreender sua nova obra Bling Ring, é se embrenhar nas características que a fazem ser a cineasta que é e entender as escolhas que fez para contar essa historia fantástica, baseada em fatos reais, e que fazem desta película um dos melhores lançamentos desse ano.

Primeiro vamos a historia real: Entre os anos de 2008 e 2009 um grupo de adolescentes com idades entre 17 e 18 anos de idade, moradores dos subúrbios ricos de Los Angeles efetuaram uma serie de crimes, entre roubos e arrombamentos, a mansões e casas de famosas celebridades. Entre elas Paris Hilton, Lindsey Lohan e Orlando Bloom. Eles: Courtney Ames, Tess Taylor, Rachel Lee, Nick Prugo e Alexis Neiers, foram presos e condenados a cerca de 4 anos de prisão, depois de um saldo de mais de US$3 milhões em roubos. O caso ficou conhecido como 'o caso de Calabasas', e os garotos foram intitulados como a Gangue “The Bling Ring” uma expressão que denota futilidade luxuriosa, é usada para retratar em diversos contextos algo com cunho de ostentação.

Vamos ao filme: Baseado no artigo ‘Os Suspeitos Usavam Louboutins’, da jornalista Nancy Jo Sales para a Vanity Fair, o longa da Coppola retrata essa série de invasões deste referido grupo de adolescentes a casas de famosos.

Numa espécie de falso documentário, Sofia Coppola escolhe entre montagens que se assemelham às típicas de programas de reality-show e programas de ‘fofocas’ a lá TV Fama e TMZ, e uma edição lenta, por vezes contemplativa, tratar do assunto de maneira simplesmente demonstrativa. É como se Bling Ring fosse um painel, sem julgamentos ou justificativas que apenas mostra os fatos, tal qual um documentário comum, porem não é assim. Há julgamentos sim, há a visão de Sofia sobre o assunto e seu mundo, mas de forma sutil.

O filme inicia-se com as imagens de uma câmera de segurança, mostrando os 5 jovens pulando os portões baixos de uma mansão e logo em seguida escapando da-li com uma grande carga de mercadorias, entre roupas, bolsas, sapatos, joias e quadros.
Logo em seguida, caímos num emaranhado de imagens pontuadas por  trechos de um interrogatório, ora por imagens de casas luxuosas e carros caros, tudo ao som de uma trilha sonora alta, potente e atual, numa espécie de eletro rock, com um ‘pé’ no hip pop. Essa é a base para transitarmos por câmeras estáticas, câmeras na mão, intercalações de câmeras de vários formatos, tudo numa fotografia clara, clean, com luz por diversas vezes estourada e monocromáticas- o branco, dourado e prateado dominam muitas vezes as casas dos quinteto protagonista.

Isso serve justamente para nos por a par da superficialidade e riqueza daquele mundo. Quando Marc (Israel Broussard) um garoto aparentemente tímido, sem amigos chega a escola alternativa destinada a jovens infratores, expulsos de suas antigas escolas, porem para jovens de famílias ricas ou ‘endinheiradas’, ele logo é abordado por  Rebecca (Katie Chang), garota de uma beleza que prende a atenção, bem vestida de salto alto que logo o convida para seu circulo de amigos. Assim, logo Marc conhece Chloe ( Claire Julien), Sam, (Taissa Farmiga) e Nicki (Emma Watson). Logo no primeiro dia, Marc confessa sua aparente homossexualidade a Rebecca e esta por sua vez, sem temer ou fazer cerimônia, o coloca dentro de um aparente hobby comum dela: Invadir casas e abrir carros para fazer pequenos roubos. Não, nenhum deles precisam do dinheiro. O ato é apenas por diversão, lazer, anti-tédio, por que é fácil.

Isso porque Los Angeles, a parte Hollywoodyana – não teme roubos ou assaltos. É um lugar onde só convivem a alta classe daquela sociedade.

Em seguida o roteiro assinado também por Sofia, nos conduz numa sucessão de furtos, roubos, arrombamentos – dessa vez na companhia dos já Cinco íntimos amigos, a casas de famosos. O esquema funcionava dessa forma: 

‘Olha, a paris Hilton estará num evento em Miami “// “Serio? E onde ela mora, pode verificar para mim no Google?”// “É perto daqui, vamos ate lá?”

Assim. Simples, rápido, fácil. Literalmente o crime a um clique de distancia.

Essa forma de conduzir a narrativa através da superficialidade inclusive da própria narrativa sem se importar ou se deter em se aprofundar em temas como o uso indevido de drogas, a maneira como as mansões e as ruas de Los Angeles não tem segurança, como as informações privativas estão a fácil acesso na internet, como tais jovens de famílias estabelecidas decidem se embrenhar num mundo tão perigoso e fútil; não importam para Sofia. Por que Bling Ring mostra a visão da ostentação. A visão de jovens e pessoas no geral que veem na fama o alicerce de suas vidas. Num mundo onde a independência, o acesso a informações, as possibilidades e o vazio comum do século dentro das pessoas é tão presente no nosso dia a dia. O roubo é apenas uma catarse para impulsionar a adrenalina do ato. O principal objetivo é ostentar. 

Roubar e postar as fotos junto as joias, e marcas famosas, no Facebook. Contar sem discriminação o que fizeram com a sensação de que estão arrasando. E arrasam! Em seus mundos, eles se tornam espelhos e não mais sombras de suas celebridades que tanto admiram. Nas mãos de qualquer outro diretor, tal trama não resistiria em traçar um caminho inverso, talvez semelhante aos “Os Bons Companheiros” ou “Trainspotting” ao se embrenhar fundo naquela sociedade e mundo decrépito que escolheram retratar. Teríamos um Bling Ring profundo, de cunho dramático. O que não seria ruim. Porem não pertinente com a proposta se Sofia. O que Sofia quis mostrar, como sempre demonstra em seus trabalhos, é o vazio dessa juventude, o vazio do mundo ao qual ela mesma faz parte, a banalização de conceitos éticos e morais, o descaso muitas vezes dos pais de tal juventude que alimenta com dinheiro e não com valores. Ela mostra o mundo que vemos diariamente e ao qual participamos,. Através das fotos que postamos em nossas contas virtuais, em como nos sentimos importantes ao sair com um tênis caro nas ruas, em como admiramos e imediatamente amamos ou odiamos o dono da Ferrari que passou na rua. Sofia mostra como aos poucos a sociedade começou a cultuar e criar seres de marfim e diamante, sem nada por dentro. Ou melhor, sem nada aparente por dentro. 

Porque quando analisamos Chloe, Nick, Mac, Rebecca e Sam, vemos transtornos de cinco jovens que querem ser mais do que são. Que nasceram sobre o ouro, mas que querem um sentido para aquele ouro ao qual possuem. Que querem ser vistos, mesmo que seja por seus Chanel, Gucci, Tiffany, Cartier e Marc Jacobs.

Aliada a uma trilha sonora certeira com destaque para a faixa de abertura "Crown on the Ground" do Sleigh Bells, e que vai de Azealia Banks e Kanye West a Rihanna, Frank Ocean e MIA; que sintetiza esse mundo tanto nos sons como em suas letras e artistas, o filme ainda tem o ponto positivo de trazer atuações comedidas, mas surpreendentes. 

Ainda que Emma Watson roube as cenas em que aparece, seja pelo seu talento natural em emprestar olhares e entonações coerentes para sua Nicki mesquinha e cínica, que alias é a personagem mais engraçada de um modo ruim, pois ela dentro os cinco é a mais superficial de todas, a típica patricinha tal mãe tal filha que só quer ser a Angelina Jolie- como sua mãe ensina-a a ser, baseada nos ensinamentos de 'O Segredo'- que se entope de antidepressivos e calmantes, dados pela própria mãe, e que tem uma das melhores cenas do longa que é o final, com sua entrevista onde ela olha diretamente para a câmera; é de Katie Chang e Israel Broussard, o destaque. A dupla é a protagonista do longa e seguram com um amadurecimento surpreendente as cenas que exigem ora que demonstrem a escassez de seus personagens ora a profundidade exalada pelo olhar de ambos e a tensão crescente na relação de amizade intensa que ambos adquirem no longa. Assim como Claire Julien e Taissa Farmiga que estão corretas em seus respectivos papeis.

A única falha de Bling Ring esta talvez na escolha ou falha de colocar ao publico, nós, o conhecimento de uma cena em que seguranças pessoais de uma das celebridades roubadas, veem um vídeo de uma das invasões onde Marc surge claro nas imagens, e logo depois o filme segue por mais meia hora sem nenhuma volta à cena. Ela não tem nenhum sentido dentro da narrativa.

Seja na demonstração certeira de mostrar o tom cínico e preocupante de Nicki quando numa montagem genial, é mostrado ela entediada pedindo para irem roubar, para logo em seguida mostrarem ela convincentemente mentindo e dizendo ser vitima dos amigos aos policiais, seja pelo longo plano em que é mostrado Chloe em casa com a família numa cozinha muito clara, em total frieza de relacionamento interpessoal, onde apenas com o som de sirenes de carros de policia aumentando ao fundo, vemos ela percebendo aos poucos que sua prisão esta eminente enquanto seu pai lê uma noticia no jornal, seja pela imprudência demonstrada por seus atos através do roubo de uma arma carregada, e levada por Sam ate a casa de seu namorado, onde a mesma dispara por acidente e ainda assim nenhum dos dois se preocupa ou se alarma com o ocorrido, ou seja pela fala de Marc a investigadora que cuida do caso após serem presos, quando ele cita que ele mesmo se impressiona em como ele ficou famoso, como as pessoas fizeram fã clubes para ele, dizendo que o amam, como ele recebeu num único dia mais de 800 solicitações de amizade no Facebook não por uma ação altruísta mas justamente por algo que aparentemente prejudica a sociedade, e ele ainda destaca o como a sociedade americana é fascinada pela vibe ‘Bonnie & Clyde’ de ser; Bling Ring é uma interessante e pertinente pré-tese acerca de uma realidade crescente em nossa sociedade e o declínio desenfreado na mesma frente a nós – o que dizer da sequência em que os jovens; Rebecca e Marc; entram pela primeira vez na mansão de Paris Hilton, repleto de fotografias dela mesma estampando cada centímetro quadrado do vasto local?-.

Ainda que este esteja para ‘Bonnie & Clyde’ como ‘Os Bons Companheiros’ esta para ‘Trainspotting’, Bling Ring é sim um filme para ser visto analisado – Alias, ate talvez seja o equivalente aos referidos filmes citados para nosso novo século - , principalmente a ser discutido e para ser usado como alerta de uma vazio desenfreado, que seduz e esta cada vez mais cheio. Por mais que pareça um filme direto, Sofia e seu filme são existencialistas afinal.

Se no inicio conseguimos desejar uma Rebecca em nossas vidas, conseguimos emoldura-la como uma ‘diva’, ao final, nos sentimos tão culpados, mesquinhos e decrépitos quanto os cinco jovens presos. 

Coppola nos faz refém e cúmplices daqueles crimes, daquelas declarações, daquelas desculpas e justificativas vãs. Ela nos coloca - seja você jovem ou não - frente a um espelho, e deixa em nossas mãos o martelo, para quebrarmos ele, ou para deixa-lo intacto e usar o martelo para quebrar apenas o Marfim que permeia os olhos daqueles que o assistem. Um bom filme.




Trailer:





 Ficha Técnica: 

Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Annie Fitzgerald, Carlos Miranda, Claire Julien, Emma Watson, G. Mac Brown, Gavin Rossdale, Georgia Rock, Israel Broussard, Janet Song, Katie Chang, Leslie Mann, Lorenzo Hunt, Marc Coppola, Stacy Edwards, Taissa Farmiga
Produção: Roman Coppola, Sofia Coppola, Youree Henley

Fotografia: Harris Savides


(Membros da Gangue Reais e seus respectivos Atores/personagens no Filme)
















domingo, 28 de julho de 2013

Crítica: Elena


“O vazio, mesmo quando cheio é pesado demais. O vácuo também preenche, também esgota.” 




Tudo começa com um sonho. Um sonho de Elena sobre Petra, onde Petra sonha que Elena e ela estão em cima de um muro. Não, onde Petra esta procurando Elena pelas ruas de Nova Yorque, longe de casa, enquanto Petra permanece em cima do muro, e cai. Elena morre. Não, Petra morre e Elena sai à procura de Petra. Não, Petra e Elena morrem e sua mãe sai à procura das duas e a encontram abaixo do muro. Não.

Entre sonhos, realidades, fatos e poesias, Petra Costa, estreia na direção com seu primeiro longa metragem intitulado Elena. Um híbrido entre ficção e documentário, onde ela e sua irmã mais velha Elena que dá nome ao longa se confundem em tela, transpassando gerações, dor, falta, procura e todo um lirismo psicológico, junguiana e atormentador na prova de que laços sanguíneos são de longe os fios que nos ligam ao mundo do outro.

Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar. Deixa Petra, a irmã de sete anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. Tem apenas pistas. Filmes caseiros, recortes de jornal, um diário. Cartas. A todo momento Petra espera encontrar Elena caminhando pelas ruas com uma blusa de seda. Pega o trem que Elena pegou, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos. E acaba descobrindo Elena em um lugar inesperado. Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem já não se sabe quem é uma quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.

Essa é a sinopse e nada poderia ser mais acertado para essa ARTE em todos os sentidos que a palavra e expressão comportam.

Em Elena acompanhamos Petra refazendo os passos da irmã mais velha, que saiu do Brasil rumo à Nova York atrás de seguir a carreira de atriz de cinema. Esse também era o desejo da mãe de ambas, nunca posto em prática. Ela e o marido enfrentaram a ditadura militar brasileira e teriam sido dois das centenas de militantes mortos na guerrilha do Araguaia se não fosse o fato de Elena estar na barriga da mãe- seis meses de gestação-, o que impediu seus pais de embarcarem para a morte da guerrilha. Quando Elena cresceu, após a separação de seus pais, quando Petra ainda tinha sete anos de idade, ela foi estudar e trabalhar em Nova York, buscando seu sonho de ser atriz de Hollywood, aonde chegou inclusive a conhecer Coppola.

O que se sabe é que Elena esta ausente da vida de Petra, e essa após cerca de 2 décadas desde que Elena partiu para NY, resolve recriar os passos de sua irmã Elena em busca de seu paradeiro, reencontrá-la ainda que a descoberta de onde Elena foi parar seja ao mesmo tempo acalentadora e devastadora.
O filme inicia-se com um recorte de imagens de Petra andando pelas ruas de NY, narrando um sonho que teve com sua irmã, onde neste, Elena esta em cima de um muro num emaranhado de fios elétricos. Quando ela olha de novo, ela nota que é ela mesma que esta no muro e não sua irmã. Ela se desespera e tenta se desvencilhar dos fios, cai e morre.

Essa narração em off ao som de Mamas & Papas - Dedicated To The One I Love criam uma rede de significados e de preparação para o longa que na sequencia usa uma sucessão de intercalações entre fatos documentais de lembranças resgatadas por textos narrados, por sons gravados em fita cassete antigo - uma espécie de diário em áudio de Elena, já que esta odiava a própria letra - e imagens de vídeos antigos e caseiros, com filmagens atuais de Petra caminhando a esmo por ruas e becos numa angulação sem simetria e com uma lente que nos faz emergir numa espécie de sonho sendo recordado, refazendo os passos da irmã.
Essa sequencia inicial, já nos coloca a par do que é Elena. Um filme poético, lúdico, de tal imersão visceral e condução emocional ao espectador típicos dos filmes de ficção.

Isso porque, apesar de se tratar de um documentário extremamente pessoal, Elena consegue criar uma conexão com o publico, dos mais variados tipos, e jeitos, idades e épocas. O filme é atemporal num nível artístico raro de se encontrar atualmente não só nos produtos documentais nacionais, mas no geral de realizadores que se embrenham por esse campo do cinema. Quando se opta por realizar uma obra pessoal, com vivencias pessoais, corre-se o risco obvio de limitar sua obra a um nicho de pessoas que conhecem previamente ou que viveram aquela experiência. Porem com Elena isso não acontece por mais que fique claro que a busca e compreensão e sentido de existir daquele filme seja totalmente relevante a diretora, o filme consegue dialogar com o mundo ao propor uma discussão mais ampla, do que a simples busca por compreensão a uma perda e uma saudade. Elena discursa sobre nosso próprio Eu. Sobre nossos próprios sentimentos, sobre nossa própria busca, sobre nossas dores pessoais. Isso é raro.

Aliado a uma trilha sonora marcante, com belas composições e pontuadas com montagens de imagens repletas de simbolismos, como câmeras difusas e na mão, planos abertos contemplativos e imagens desfocadas, ou mesmo retalhos de quadros e elementos da natureza como folhas intensamente vermelhas aludindo a lembranças passados, ou mesmo fluxos de rios e mares, sons de água como fluxo de vida compõe um cenário narrativo perfeito para as narrações em tom suave e extremamente feminino de Petra; que narra de forma pausada mas expressiva cada momento de sua busca pela historia da irmão.

Petra como personagem visual em tela mal aparece de frente, com exceção das imagens de arquivo antigo quando esta era uma criança. Porem quando ela surge, ela se confunde tanto com as imagens de Elena passadas que fica difícil diferenciar quem é quem. A mãe de ambas entra então na narrativa como mais um elemento do tempo para compor essa ideia de que as épocas, os sonhos e as dores daquela família se confundem na vertente feminina ali. Petra é sua mãe e sua mãe é Elena, como Elena também é Petra.

A edição entre os arquivos antigos e os especialmente filmados agora para o longa conseguem se fundir, dando uma linearidade inclusive na arte final, tanto em cor e textura quanto no designer e figurino geral, conseguindo uma fotografia em parcimônia com o todo. O ritmo também é excelente, a procura, a documentação e confusão citada na descrição do longa, adquirem tons de poesia fílmica mesmo ainda que exerçam o papel fundamental em atos distintos. E um texto rico, que em parte é fruto de Elena, de suas memórias; mas em sua maioria da sensibilidade de Petra e claro da terceira, a mãe das duas; que é sensacional do inicio ao fim em seus relatos. As metáforas visualmente falando caem como uma luva e uma dor a mais em tudo isso. Porem é uma dor com prazer; uma dor sofrida e bela que com certeza vale o ingresso, a paciência, as lagrimas e o nó da garganta.

Quando enfim ficamos sabendo qual o destino final de Elena, o baque é tão forte e t tamanho apelo emocional- sem ser forçado ou piegas- em tela para o espectador, que as lagrimas caem de forma branda, sofrida porem natural. O filme é uma experiência dolorosa aqueles que sentem o que Elena sentiu aqueles que sentem essa necessidade existência igual de Petra de seguir e começar a viver e de sua mãe de continuar.

O esquecimento e as lembranças, os sonhos com a realidade, o ficcional com o documental, o prazer e a dor se fundem em tela- após toda a confusão inicial- e criam uma obra coesa e definitivamente soberba.
O que é importante salientar é que Elena é uma viagem não só por dentro dos sentimentos e procura de Petra ao resgate a sua irmã Elena desaparecida dentro de si, mas uma viagem profunda aos maiores medos e angustias do espectador, seja o medo da morte, o medo da perda, o medo da falta e o pior deles, o medo de sentido para a vida.

Sem duvidas Petra criou uma obra de destaque. Um tributo lúdico e extremamente sensível sobre sua própria historia e sobre sua irmã, eternizando-o não só em suas memórias e sentimentos, mas nos de cada pessoa que se deixar apresentar por ela.

Um filme obrigatório aos corações que buscam acalento na busca da vida, nem que seja para se ver ‘doendo’ um pouco mais. Um filme corajoso não só pelo risco de trazer isso tudo em tela e errar, mas acertar em cheio e ainda remoer uma angustia que amedrontaria qualquer ser humano seja ele quem for.

Uma Obra prima, uma pintura audiovisual obrigatória, daquelas de dançar chorando ao som da lua, nas águas de Elena...


"Me vejo tanto em suas palavras que começo a me perder um pouco em você"
"Me afogo em você (...) em Ofélias..."
"Espelhos dentro d'água"


 Trailer:

 

 Vídeo de campanha para o longa feita por atores após assistirem o filme: Quem é Elena?


Ficha Técnica:


Gênero: Documentário
Direção: Petra Costa
Roteiro: Carolina Ziskind, Petra Costa
Produção: Daniela Santos, Julia Bock
Fotografia: Janice d'Avila, Miguel Vassy, Will Etchebehere
Duração: 82 min.
Ano: 2012
País: Brasil