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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Critica: As Aventuras de Pi



O filme é baseado no livro homônimo do canadense Yann Martel.

O filme narra a historia de um homem chamado Pi(vivido pelos atores Gautam Belur, Ayush Tandon, Suraj Sharma e Irrfan Khan em diferentes fases da vida), que recebe a visita de um escritor (Rafe Spall), em busca de inspiração para um novo livro na promessa de que Pi lhe conte uma historia fantástica que lhe dê motivos para acreditar em Deus. A partir daí conhecemos através de Flashes Back a historia de sua vida e sua fantástica aventura por sobrevivência, num naufrágio, onde ele sobreviveu sozinho na companhia de uma hiena, uma zebra, um orangotango e um tigre de bengala, em pleno Oceano Pacifico por mais de 200 dias à deriva.

O premiado diretor Ang Lee nos trás com As Aventuras de Pi, uma aventura dramática fantástica e impressionante sobre a fé, a vida e principalmente sobre as escolhas do Homem rumo a compreensão durante nossa permanecia neste mundo.

Uma das características que mais chamam a atenção neste longa, são suas montagens. A forma como ele utilizava as sobreposições de imagens, as fusões, as passagens de tempo em elipses inteligentes; não só para compor melhor as imagens, mas como um auxilio a mais na construção da narrativa. Que alias justifica-se pelo enredo todo, ate seu final surpreendente e instigante.

O roteiro é funcional, muito bem escrito que desde o inicio constrói o caráter de seu protagonista Pi. Nos remontando desde sua infância, pela adolescente, medos, receios, aprendizados, amores, escolhas  e anseios. O que é eficiente quando o filme entra em seu segundo ato, ajudando ao espectador a entender todas as situações ali enfrentadas e a maneira que ele lida com elas.


Um filme que soa orgânico, mesmo com alguns problemas narrativos que ele enfrenta ao longo da projeção, como por exemplo a narração continua do protagonista. Por ser um historia com muitos elementos que não são perceptíveis apenas através dos atos, o único recurso encontrado pela direção foi colocar a narração quase intrusiva do protagonista em todo o momento, isso aliado a alguns planos em dado momento que surgem com uma aproximação de câmera rápida demais, o que causa um desfoque excessivo nas imagens, como na sequencia inteira do naufrágio, prejudica a narrativa do enredo – neste ponto isolado- principalmente no caso dos planos desfocados e achatados, quando se projeta ele em 3 D que é justamente o uso da profundidade de campo. Um anula o outro.
Ainda assim o 3D é eficaz, tirando esse breve deslize.

Mas tirando isso, o filme – que alias funciona extremamente bem sem ser em 3D, salvo uma ou duas cenas, como a do fundo do mar, e o do salto de uma enorme baleia, onde ele se faz quase que indispensável -, é impecável. Principalmente do ponto de vista estético.

A fotografia é carregada de cores vibrantes e granuladas, há uma textura que chama a atenção em todo o primeiro ato do longa, quando estamos no zoológico. As próprias cenas são belas, repletas de signos e símbolos, em figuras bonitas de se visualizar em tela. O designer e os efeitos visuais também são fantásticos, todas as cenas em alto mar demonstram um cuidado excessivo com as imagens de forma que impressiona. Mas não tanto quanto o excepcional e quase assombrosa construção do Tigre de bengala, um dos protagonistas do longa que atende pelo nome de Richard Park. O efeito usado na construção desse tigre virtual - e no de todos os demais animais que surgem, inclusive algumas moscas de furtas - é de tamanha realidade que não há como distinguir os takes em que se usou um animal real e o que se usou um efeito especial. Isso provem de um trabalho intenso de pesquisa e de uso da tecnologia que usou mais de 15 pessoas apenas para delimitar os mais de 10 milhões de pelos do corpo do animal. Realmente impressiona.


E é nesta relação alias, entre Tigre e Garoto, que surgem as metáforas e mensagens mais bonitas e instigantes do filme. Alias signos de representação não faltam ao longa que consegue imprimir suas metáforas ate mesmo numa ilha paradisíaca mas enganosa que se transforma do dia para anoite e que a distancia se assemelha ao corpo de uma mulher repousando no oceano.


Por fim, As Aventuras de Pi se engrandece e prova que não é apenas mais um filme, ao conseguir propor uma discussão de forma plena e justa: A da fé.

A fé que permeia todo o enredo é mostrada de uma forma libertaria, diversificada. Tudo isso na Figura da busca de Pi por compreensão do mundo através da religião sem contudo se ater a instituições. O que lhe interessa sabiamente é a fé. E desmembrar os mistérios e conhecimento por trás de cada religião que passa por seu caminho. Assim o filme versa justamente pela busca humana em compreender do que é formado os fatos da vida.

Quando um filme consegue conversar diretamente com o espectador, sem que este se sinta deslocado ou atacado por pregações; é ótimo.

Esta – a crença-  que esta no sentimento de cada um em obter respostas e "curas" para seus males internos, redenção pessoal, para aquilo que a ciência não pode resolver- e mesmo essa, a ciência, tem espaço no filme e de forma discutível através por exemplo, da crença do pai de Pi nela, ou na constatação da mãe de Pi que diz que em certo momento que "a ciência é importante para o lado exterior do Homem, mas é na religião que se encontra a solução para o lado Interno, aquele que não se vê e só se sente sem poder explicar" - é um filme cuja moral esta naquilo que nós escolhemos acreditar.

Na força da natureza e seus mistérios com relação ao Homem e principalmente no universo todo que reside dentro de nós.

O ato final revela essa proposta de discussão ao deixar para o espectador a escolha de como digerir o filme, da maneira que seu coração ou razão melhor escolherem. Em ambas as escolhas o resultado os levara pro mesmo final, porem a ida ate ele é que é a chave, tal qual a experiência da vida.

As Aventuras de Pi é um mergulho em nossas próprias aventuras, seja como ali, na companhia de um tigre de bengala ou de um amigo de polegares opositores como nós.

Seja no mar ou na terra.

Um belo filme, sensível e em toda sua mistificação; humano.


Trailer





Ficha Técnica

Diretor: Ang Lee
Elenco:  Irrfan Khan, Rafe Spall, Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon
Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark
Roteiro: David Magee, baseado na novela Yann Martel
Fotografia: Claudio Miranda
Trilha Sonora: Mychael Danna
Duração: 129 min.
Ano: 2012
País: EUA










quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Crítica: A Separação



A Separação, filme ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2012, Ganhador do César (espécie de Oscar Francês) de Melhor Filme Estrangeiro do mesmo ano, alem de Vencer na mesma categoria o Globo de Ouro e Urso de Ouro e Prata no Festival de Berlim, do diretor Asghar Farhadi, é uma densa historia de demonstração de valores morais e éticos.

O Roteiro de Farhadim cria um arco dramático repleto de densidade em seus diálogos sempre críticos e seu enredo problemático. É impressionante a construção de narrativa criada por ele, que culmina num roteiro sempre em progressão, coerente, coeso, extramente bem amarrado e decupado.

Irã. O casal Nader e Simin atravessam um denso conflito no casamento. Simin deseja sair do país atras de melhores oportunidades de bem estar de vida, mas Nader não concorda em viajar e deixar o pai com Alzheimer sozinho. Decidida a deixar o pais Simin pede o divorcio para poder viajar com a filha. Nader  a custo aceita, mas não concorda em abrir mão a guarda da filha. Isso gera uma disputa pela guarda da adolescente. 
Simin sai de casa e vai temporariamente morar com a mãe, deixando o marido sozinho com a filha - que decide permanecer em casa enquanto a justiça não se decide-  e o pai doente.
Nader, então, contrata a religiosa Razieh para cuidar de seu pai durante as tardes, enquanto trabalha e a filha está na escola. Razieh, uma mulher devotada religiosamente e com uma filha pequena, logo de cara acha errado, ela uma mulher casada,  trabalhar para um outro homem casado sem a presença da esposa. Com o marido desempregado e afundado em dívidas, ela contudo aceita o emprego, mas esconde a verdade do marido. 
Um acontecimento lamentável, no entanto, gera uma outra briga judicial, mas desta vez envolvendo Nader, Razieh e seu marido.

Logo de inicio o filme inicia-se num plano fixo, centralizado, mostrando marido e mulher diante de um juiz- raramente mostrado em tela- acertando os tramites para a separação. É preciso dizer que no Irã, uma mulher casada não pode viajar sem o marido.
Tudo isso nos é mostrado através de diálogos rápidos e que soam muito naturais, percebemos que há conflitos não só de interesses entre o casal.

O filme nos mostra todos os lados de um mesmo fato, sempre de forma linear. O julgamento do que realmente aconteceu e do certo e errado fica por conta do espectador. Em nenhum momento o filme nos induz a ficar do lado de um personagem ou outro. Sem se perder em frieza, alias muito pelo contrario, ele nos faz de Juízes diante daquela trama.
Isso já nos é mostrado desde o inicio naquele plano inicial em que eficientemente somos postos no lugar do juiz. Vemos toda aquela cena do ponto de vista dele.

Contando com uma bela fotografia urbana e uma direção de arte eficaz, o filme ainda nos leva a questionamentos acerca dos costumes daquele país, e propõe outra visão. Ali no filme é justamente a figura de Nader, o homem da casa, que se apresenta mais centrada, justa. É ele que assume a maior parte das responsabilidades de cuidado ao pai, é ele que parece ‘aparentemente’ mais devotado a filha, é ele que ensina e encoraja a filha valores de liberdade e individualismo. Ensinamentos que encorajam a filha a pensar por si mesma e fazer suas próprias escolhas.

Num país que quando consegue introduzir uma obra no ocidente, vem carregada de questionamentos políticos, A Separação se mostra eficaz ao deixar essas questões apenas como pano de fundo, soando assim mais orgânico e natural. Muitas vezes esquecemos durante a projeção de que estamos diante de um filme Iraniano e de uma ficção, de tão verossímil e instigante que a projeção assume. é interessante como o filme consegue nos distanciar do esteriótipo ocidental criado, de que povos islâmicos vivem dramas apenas políticos e religiosos. O filme nos mostra que eles assim como nós também possuem seus próprios dramas familiares, afetivos e sociais. Somos mais parecidos do que imaginamos.

Em dado momento, é criado um intenso e gravíssimo conflito entre a empregada e Nader, que perde a cabeça e empurra-a para fora de sua casa.
Esse empurrão não só serve como fio condutor pelo resto da projeção colocando seus personagens e suas vidas em um panorama de extrema densidade e tensão; como empurra ou no caso puxa o espectador para a projeção como nunca antes. Se antes assumíamos o papel de observador apenas, a partir desse ato nossa emersão é plana. O diretor nos leva num embate quase físico, emocional e sentimental nos dramas ali em tela. É angustiante e paralisante.

Amparados por um excelente grupo de atores e um magnífico trabalho de construção de personagens, A Separação chega a seu clímax, numa cena elucidativa belíssima, num corredor de justiça milimetricamente dividido. Beira a genialidade.
Alias devo destacar o brilhante e catártico trabalho de Peyman Moaadi e seu Nader, que assume totalmente o papel proposto, dando uma naturalidade e visceralidade tocante ao personagem.

O que posso dizer é que A Separação é um filme corajoso dado o país de origem, inteligente, denso, que consegue ser criticamente político sem trair a religiosidade e nem fazer apologia a mesma que o Irã tanto preza. Causa uma identificação e fisga o espectador, mas se distancia de impor sua visão ao espectador deixando a ele, a nós decidirmos sobre aquelas vidas e assim refletirmos sobre as nossas também. E esse é o maior triunfo de A Separação.

Um filme excelente que vale muito ser conferido!




FICHA TÉCNICA

Diretor: Asghar Farhadi
Elenco: Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Babak Karimi, Ali-Asghar Shahbazi, Shirin Yazdanbakhsh, Kimia Hosseini, Merila Zarei, Hayedeh Safiyari
Produção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Fotografia: Mahmoud Kalari
Duração: 123 min.
Ano: 2011
País: Irã
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos








Critica: Intocáveis


"Um Filme Tocante!"


Dois Homens, um negro e um branco de certa idade, num carro em alta velocidade pelas ruas da França a noite. Um travelling extenso aéreo acompanha-os furtivamente pela noite, como se fossem dois criminosos em fuga, ou como se estivessem transgredindo os limites de velocidade apenas por diversão perigosa.
Logo, um dialogo amigável, nos informa que eles não são tão perigosos assim...




Philippe, um refinado multimilionário tetraplégico francês, precisa de um auxiliar de enfermagem para auxiliá-lo nas suas atividades rotineiras.  Dentre tantos candidatos, ele escolhe Driss, um senegalês que vive nos subúrbios de paris e que acaba de cumprir uma pena de 6 meses de prisão, sem formação alguma para o cargo e dono de um temperamento forte e explosivo.
Amparado por essa premissa, Intocáveis dos diretores Olivier Nakache e Eric Toledano, nos imerge em uma historia sarcástica e extremamente belíssima. Baseada no livro "O Segundo Suspiro" (Le second souffle) que conta a historia real do verdadeiro Philippe Pozzo Di Borgo. 

O sarcasmo esta contido apenas em seu titulo. Apesar de o longa ter recebido o nome de Intocáveis, é impressionante o quanto ele contem elementos extremamente tocantes. Ele atinge, toca, flerta com o espectador de maneira plena.  
Com um trabalho de fotografia de muito bom gosto assumido por Mathieu Vadepied, Intocáveis cria uma paleta de cores que vai dos tons escuros e sombrios dos subúrbios, ate aos tons iluminados e carregados de tons pasteis do centro. Mais especificamente da mansão de Philippe.
É muito interessante observar a escolha do diretor em introduzir a arte, a pintura e a musica clássica, como metáforas as condições de relacionamento entre Philippe e Driss. Tudo isso inseridos na cenografia que preza pelos detalhes impecáveis de construção de cena, como fotos dispersas em portas retratos que nos informam discretamente sobre o passado e vida de cada personagem. Auxiliados pelo figurino que compõe seus personagens e suas personalidades de maneira bem eficaz, como a presença sempre insistente do capuz em Driss, ou a jaqueta de couro e ternos claros de Philippe. Cada vestuário caracteriza o mundo em que casa um é inserido. Mesmo que compartilhem de um mesmo ambiente, cada um possui realidades, gostos, e personalidades diferentes.

A vida de Driss é um suplicio com sua família a beira da falência e desunida, com varias crianças para cuidar, uma mãe que cansou de esperar por um futuro e atitudes responsáveis do filho, um irmão envolvido com o mundo das drogas e ele tentando mudar sem saber como e sem ter oportunidades. Num ambiente cruel de desvalorização e abandono que mostra as condições dos imigrantes africanos  sem oportunidades de emprego na frança, e que a alguns anos durante o governo Sarkozy, rendeu ao pais diversas manifestações violentas pela falta de oportunidades, apoio e perspectiva.
E a vida de Philippe também é extremamente difícil. Milionário, mas tetraplégico, devido a um acidente a anos atrás, totalmente dependente de tudo e de todos, que só consegue mover o corpo do pescoço para cima, desmotivado, solitário, pai de uma filha de 15 anos com quem não tem quase relação, que troca cartas frias com uma mulher que nem conhece pessoalmente, e viúvo.

Ainda assim, o que poderia se tornar apenas mais um filme extremamente dramático e carregado, é, contudo um filme leve e divertido. O peso já esta no enredo.  E é justamente o roteiro e seus diálogos que fazem seu serviço como ninguém.
Com diálogos memoráveis, o roteiro assinado por Olivier Nakache e Eric Toledano, apresenta não só uma narrativa progressiva e detalhista, como contem elementos de critica ao sistema econômico e social da frança. É notável constatar em simples diálogos aparentemente dispersos, como Driss nos apresenta o panorama de desemprego e divisão de classes da frança – candidatos a um emprego, totalmente avesso as suas formações acadêmicas, apenas pelo dinheiro.  Ou como Philippe nos apresenta o mundo econômico como um grupo calcado na lei das aparências – o quadro pintado pelo negro do subúrbio que não entende nada de arte, ser vendido a 11 mil apenas por ser ofertado como um original de um artista europeu que passou pela principal galeria de arte de Berlim -.

Mas o maior feito de Intocáveis esta em sua narrativa. Com um enredo que poderia render vários momentos de introspecção carregados de melodrama e clichês fáceis, ele calca o caminho inverso, e aposta no humor, na leveza para nos apresentar uma historia que por si só já é intensa e dramática.
Mas não é um humor negro, o que poderia se pensar; o humor critico; não. É um humor natural, verossímil. Um humor pelo qual todos nós levamos a vida, ainda mais em seus momentos mais tensos e carregados. A velha historia de “rir para não chorar”, ou mesmo “é a vida, fazer o que”. E isso é admirável.
O filme toma ares de uma comedia ao tratar do tetraplégico, não como um coitado, mas como a pessoa que é: um homem normal. Não há distinção fixa em nenhum momento. Alias é raro os momentos em que nos damos conta de que estamos vendo um personagem tetraplégico. Suas limitações não são o foco ali, é uma realidade, uma característica, que conduz o fio dramático, mas que não é enfocada a toca hora, justamente para se distanciar do tom melancólico e do melodrama.

Com atuações brilhantes e interessantíssimas de François Cluzet – que esta impecável no papel de Philippe-, e Omar Sy – cuja atuação lhe rendeu um César (espécie de Oscar Francês) tornando-se assim o primeiro negro da historia do país a ganhar tal premio,-; e de seus principais personagens, todos no tom certo, na dramaticidade certa, é, contudo Omar Sy e seu Driss que se destaca em tela. 
Todos os melhores momentos provem dele, sejam suas cantadas, sejam seus comentários carregadas de humor e atrevimento, sejam suas expressões de ternura, sofrimento e peso pelas responsabilidades e dramas que carrega. Sem falar que seu sorriso cativa a qualquer um e seu timbre extremamente grave é uma delicia de se escutar.

Conta ainda com uma trilha sonora arrebatadora, que vai de Nina Simone e Hal Mooney á George Benson e Earth, Wind & Fire, ate Bach, Vivaldi, Ludovico Einaudi, Chopin e Mozart.

Repleto de delicadeza, o filme encontra seu melhor momento próximo ao final, quando Driss leva Philippe para ver o mar. É tocante – a palavra é inevitável – a alusão que se faz nessa cena, num plano fixo e aberto, de Philippe e Driss vendo as ondas do mar aberto, num dia excessivamente claro, onde a fotografia assume tons brancos e cinza, ligeiramente esfumaçados. A sensação trazida é de paz. E é lindo notar como as ondas do mar representam no olhar de Philippe naquele momento exatamente a sua condição: o mar que não sai do lugar, permanece pra sempre no mesmo lugar, mas não parado, suas ondas o movem. O mar que é belo e fascinante e ao mesmo tempo tão simplório e misterioso.
E o filme se resume bem a isso. E como essa cena que nos faz lembrar que não somos nós que tocamos o mar e sim o mar que nos toca, a água que nos toca e não ao contrario. Intocáveis nos toca. 
É como se apesar de nós termos dado o play, termos caminhado ate a sala de cinema e estarmos ali de espectadores, na realidade fossemos os verdadeiros objetos assistidos. O filme nos enxerga e por isso mesmo nos arrebata dessa forma plena e gostosa. (arrebatamento, alias que ja conferiu ao longa a melhor bilheteria francesa da historia no mundo todo, que antes pertencia ao filme "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" de 2001 )

A sensação que fica ao final de Intocáveis é a de que estivemos diante de um filme inesquecível  que prova mais uma vez o talento dos franceses em criar historias densas e ainda assim cativantes, e a de querer rever o filme varias e varias vezes.

Confesso: 'ainda estou com uma ligeira vermelhidão nos lóbulos da orelha...'





FICHA TÉCNICA

Diretor: Olivier Nakache, Eric Toledano
Elenco: François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet, Alba Gaïa Kraghede Bellugi, Cyrril Mendy, Christian Ameri
Produção: Nicolas Duval-Adassovsky, Laurent Zeitoun, Yann Zenou
Roteiro: Olivier Nakache, Eric Toledano
Fotografia: Mathieu Vadepied
Trilha Sonora: Ludovico Einaudi
Duração: 112 min.
Ano: 2011
País: França
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos