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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Na Pele - O Mergulho de Elza e Pitty

Em meados de 2013, Pitty começava a se preparar pra retornar aos palcos e, assim, lançar seu mais recente álbum que nasceria em 2014 sob o título de "Setevidas".

O álbum contava com uma narrativa cíclica onde Pitty mostrava todo seu processo de vivência dos últimos anos, desde uma experiência de quase morte, ate as perdas profundas de várias formas e contextos. No álbum, era como se víssemos ela se reconectando com uma essência que estava aprendendo ou reaprendendo a enxergar. E pra isso, ela passa por estágios de busca e fusão com uma selvageria e sabedoria animal, ate a conceitos de elementos de alquimia e crenças à Ouroboros com direito a mantra de Shyva.

No entanto, uma música fora concebida nesse processo, mas não parecia que possuía ainda lugar no mundo. A música não parecia ornar com aquela narrativa de Setevidas.

3 anos depois, a música achou seu caminho pra nascer. Através da Voz do Milênio.
''Na Pele'', letra de Pitty dada de presente a Elza Soares, parece ter sido criada pra ser entoada pela voz única da Mulher do Fim do Mundo. Lançada na madrugada do dia 03 pro dia 04 de Agosto, a musica desde seu arranjo denso e sombrio, com uma aura de profundidade que expressa diversas interpretações e sentidos. Ate a sua letra, que não só remete diretamente de forma incrível a trajetória de Elza, como a de cada pessoa, principalmente de minorias sociais, oprimidas e que precisam lutar e resistir mil vezes mais pra sobreviver e nesse espaço de tempo, tentar achar modos de, de fato, viver.

Podemos enxergar a batalha de cada mulher no mundo, que carrega na pele, na raça, na resistência, marcas e rachaduras profundas - às vezes visíveis, às vezes ocultas - das pancadas e dificuldades da vida. Podemos enxergar de maneira maior, ate mesmo um paralelo pontual com a situação global e de situação política do país. Onde um povo saturado e por vezes cansado de caminhos esguios, continuamente se afogando e renascendo sobre e, sob as águas de lamúrias e guerrilhas. pra continuar existindo.

Na Pele recebe assim, características de Hino. Um hino atemporal, com ares de rock tanto por sua atmosfera, quanto pela presença dessas duas mulheres distintas e roqueiras, cada qual a sua maneira.

Em 2015, através do álbum, de inéditas ''A Mulher do Fim do Mundo'', Elza ressurgiu feito fênix, ornamentada em seu trono digna de uma orixá divina e sobre-humana, entoando cânticos e mantras de resiliência e força. De tristezas profundas, mas também de amor. De dores alem da imaginação e de uma mulher negra que insiste em permanecer seu caminho através de sua voz, presença e sabedoria.

O fim do mundo de Elza não tem fim. Ele é eterno e contínuo. Entre Ouroboros na terra e a Fênix no fogo. O Álbum, perpassa também uma essência de reconexão dessa mulher, com seu mais profundo instinto animal. Prazer, Luta, Empoderamento feminino, social e politico. Um Álbum Obra, na arte.


Na Pele, quase que completa o ciclo de elementos. Se Pitty explorara em seu "Sete", elementos como a terra, o ar, e o fogo - assim como Elza em seu "Fim do Mundo" -, em Na Pele, temos a água. Pela metáfora da água, que nos banha, nos afoga, da onde a vida se faz cria e recria, de onde é possível desbravar mundos jamais conhecidos pelo homem, em profundidade, escuridão e cores diversas. Pela água que chove e evapora, que congela e derrete. Entre veios - fissuras - vales, e leitos que não repousam. Tal qual a vida de Elza. Tal qual a percepção de cada mulher ainda no mundo. De cada travesti feito Benedita de Elza. Tal qual cada pessoa oprimida de pele preta e pobre também. Tal qual a vida. E há quem acredite que o quinto elemento - a alma - possa vir através dessa união.

A poesia da música transcende explicação, ainda que tenha compressão imediata a cada um.

Esse que escreve, por exemplo, se ouviu e sentiu pelo timbre cansado e vivo da DElza e pela suavidade já não tão rara hoje em dia, mas densa de Pitty, através da depressão que lhe consome e que se enxergou sendo traduzida em versos como: "se essas são marcas externas, imagine as de dentro''. 

Água que traduz lágrimas e saliva pra umedecer e não emudecer boca seca e muda.
Entre aventuras e fugas.

No clipe, lançado hoje, dia 07 de Agosto (não por acaso, quando pensamos em energias do universo, dia em que a Lei Maria da Penha completa 11 anos, e com a qual Elza já retomara o assunto continuo em sua carreira, através do outro hino "Maria da Vila Matilde"), dirigido por Daniel Ferro, ambas mulheres, do passado e do futuro, nos mostram entre recortes de arquivos que contam parte da trajetória de Elza pelo Tempo, a força presente em ambas pra cantar o que trazem consigo. Em suas jovens rugas de risos, ora rasos, pra rotos.

Fincadas em figurinos igualmente simbólicos, o clipe mescla imagens dessa trajetória de Elza, com as duas artistas em solo de terra seca, com galhos e arvores. Que remetem, tanto ao tempo, quanto a própria criação. Tanto pelo elemento da terra em contraponto com a água e o fogo, quanto a força de renovação da natureza inerente a todos nos enquanto animais vivos. Há passagens através de fotos e videos, de sua carreira pela musica, e cinema, da mãe de Elza, de seu filho que transcendeu o plano terreno ainda jovem, e de Garrincha com quem Elza fora casada.

Com um jogo de luz e sombras, a face próxima aos 40 de Pitty, se confundem com a face dos 80 de Elza. Quase como se essas duas mulheres fossem uma só. Pele branca de textura jovem e alma antiga, e pele negra, de textura vivida e vívida e alma sempre jovem. Concretizando esse encontro de gerações.

Elza disse numa entrevista: "Quando recebi 'Na Pele', foi na pele mesmo que senti. Me arrepiei. Identificação total, cara. Quando li o trecho 'o olhar tentado e atento. Se essas são marcas externas, imagine as de dentro'. Ali tomei coragem e escutei, enlouqueci. Pitty é doce e rocha ao mesmo tempo. É como se de algum modo eu me enxergasse no olhar dela, uma Elza lá de trás. Estranho é que quando ela me olha, sinto como se enxergasse uma Pitty lá da frente. A música selou essa conexão maluca", afirmou em comunicado à imprensa."

No icônico Trono de Elza Soares, Pitty se senta, para que em seu lugar, Elza se sustente de Pé. Formando assim, talvez, a sequência mais forte e significativa dessa experiência.

Quando se pensa em toda a história de vida de Elza, entre abusos, mortes, enfermidades, discriminações, racismos, machucados - literalmente - carregados em cicatrizes sob a pele, ossos, memória e coração, Na Pele surge enfim como uma Oração.

E ao final, o que nos resta é sentir a bênção dessas gotas e, deixa-las serem absorvidas pela pele, e amém.
É dar play e mergulhar.



Ficha Técnica do Clipe: 

Direção e edição: Daniel Ferro
Produção: Nathy Kiedis
Direção de Fotografia: Riccardo Melchiades
Finalização e cor: Daniel Ferro e Riccardo Melchiades
Assistente de direção: Pv Cappelli
Diretora de arte: Beatriz Moysés
Video Mapping: Ana Carolina Beraldo
Vídeo Mapper: Aninha Beraldo
Efeitos Visuais: Pedro Magalhães
Eletricistas: Jorge Pimentel, Igor Fabio, Damião Castro e Gleason Barbosa
Assistente de Produção: Rômulo Junqueira
Styling Elza Soares: Léo Belicha
Assistente Styling Elza Soares: Kaká Toy
Beauty Elza Soares: Wesley Pachu
Styling Pitty: Juliana Maia
Beauty Pitty: Omar Bergea



Letra:

Composição: Pitty
Interpretes: Elza Soares e Pitty
Músicos: Duda (bateria), Guilherme Kastrup (percussão), Marcelo Cabral (baixo e synth), Martin (guitarra) e Rodrigo Campos (guitarra).


Na Pele


Arte de Capa do single: Eva Uviedo

Olhe dentro dos meus olhos
Olhe bem pra minha cara
Você vê que eu vivi muito
Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva
Do meu riso raso e roto
Veja essa boca muda
Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo
Dessas minhas jovens rugas
Conquistadas a duras penas
Entre aventuras e fugas

Observe a face turva
O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio









sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tatuagem - Critica



“Aqui começamos a fazer a pintura rupestre de um novo tempo”.

Ambientado em 1978, Tatuagem, mostra em plena ditadura militar brasileira -  que já mostra sinais de esgotamento. -  a historia de Clécio (Irandhir Santos) , que faz parte de um coletivo teatral – Chão de Estrelas- ,  que ao se envolver com Fininha (Jesuíta Barbosa), apelido do soldado Arlindo Araújo de apenas 18 anos de idade, cunhado da estrela de sua trupe, Paulete (Rodrigo García); se entrelaça num emaranhado de intensos sentimentos enquanto ambos enfrentam as marcas da ditadura no país, ainda que implícitas em seus direitos a democracia e liberdade.

Em dado momento o filme questiona: O que é Democracia? Democracia é Liberdade? Liberdade é escolha ou é decisão a partir daquilo que nos dão para escolher (uma opção pré-determinada)?
Tal questionamento sintetiza uma parte o poder social critico e político que o filme dirigido e roteirizado por Hilton Lacerda assume ao longo de suas 1h e 50 minutos de duração.

Tatuagem discursa sobretudo a liberdade social e nela incorre sobre os anos de confinamento e opressão de um país desigual quanto sociedade. O filme questiona a moralidade e não por acaso a transparência pessoal e intima de cada um consigo mesmo.
Não por acaso cada personagem parece inferir no espectador um tapa na cara sobre seus próprios preconceitos e predestinações a julgamentos e reclusões quanto pessoas.
Num País que enfrenta em pleno século XXI, uma orla de pessoas calcadas ora pela religião em seu lado discriminatório e manipulativo, ora pela política cada vez mais doutrinal, patriarcal, rígida com Bolsonaros e Felicianos, ora por uma cidadania falha e contraria que preserva a destruição e a anulação ao invés de união e criação em prol das instituições familiares (deturpando qualquer sentido mas ainda assim gritando tal discurso), um roteiro como o de Tatuagem chega a doer e causa um incomodo enorme a quem o assiste, mesmo entre os risos pontuados e deliciosos que ele exibe; por constatarmos que ali, os personagens somos nós mesmos – em militância maior ou menor -  com mais de 40 anos de diferença. Pouca coisa mudou na busca.

O que difere Tatuagem de muitas obras nacionais e mundiais, esta contudo não em seu discurso com viés critico, mas sim em seu despudoramento de encarar e dissertar sob a arte multicolorida e multifacetada a qual se inseriu. O cinema Nordestino nos brinda a cada temporada com filmes que exalam criatividade e segurança em consolidar sua identidade visual. Mas Tatuagem tem a diferença que ainda que ambientado no nordeste, ao contrario de seus colegas audiovisuais, não clama seu amor apenas por sua terrinha, mas se funde em tela ao pais inteiro. Ainda que haja características de linguagem inclusive no texto do filme que nos situe irremediavelmente a Recife/Pernambuco, não há aquela exaltação em mostrar longas tomadas de suas ruas, casas rupestres de barroco forte, ou suas praias estonteantes. O filme se atem a sua trama que é universal a todo o pais.

Há momentos impagáveis e sensacionais que justificam o um minuto ou um pouco mais de aplausos com gritos fervorosos da sala lotada – em ultima sessão do único cinema – sessão e horário - que estava exibindo o filme na cidade de São Paulo onde o assisti – logo após o fim da sessão.
Destaco todos os números musicais do Coletivo Chão de Estrelas, em especial a cena belíssima do personagem Clécio performando  “Esse cara”, de Caetano Veloso, totalmente montado, onde a câmera executa uma panorâmica que intercala um jogo de luz, com foco em Clécio deixando-o em primeiro plano e que termina exatamente no final da música onde o plano abre  e clareia ligeiramente revelando o personagem  Fininha, de meio perfil, totalmente imerso na performance e em Clécio. Outra cena que ocorre pouco tempo depois e que já é meio que clássica imediata de tão delicada e terna que é, que é quando novamente Clécio e Fininha estão no quarto de Clécio e este coloca a canção ‘A noite do meu bem’ de Dolores Duran na vitrola, e chama Fininha para dançar. A cena é tão singela mas tão potente que é impossível não esboçar um sorriso diante daquele intimidade nascente entre duas almas entregues.

Vale destacar também o numero musical de “Ode ao Cu” que qualquer descrição não conseguira exemplificar de maneira justa. Impagável e imperdível – inclusive estou com a canção na cabeça ate agora -.
Alias, me utilizando da liberdade justamente que o filme defende, é importante salientar que a analogia que o texto faz entre Liberdade e o Cu, bem como a utilização que faz do corpo humano e da erotização para defender seus questionamentos é de uma inventividade e coragem impar na nossa cinematografia em muito tempo. A anos a historia do nosso cinema é marcado pelo teor sexual e erótico, mas sempre em tom de banalização ou recurso cômico. O brasileiro culturalmente tem essa relação com o ‘sexual’ com o corpo. Porem aqui, o corpo e o sexo, bem como a erotização de ambos não tem caráter de querer ser apelativo ou mesmo de banalizar nada. Esta ali como algo natural tal quais as cores que a fotografia muito bonita repleta de texturas e contrastes imprimem a projeção.

Ainda com atuações memoráveis em um elenco afiadíssimo – que ainda que o filme se justifique por si só, carregam nas costas sua bem sucedida projeção – destaque a atuação visceral e impressionante de Irandhir Santos,  como Clécio. É admirável perceber as nuances de seus olhares em cada particularidade de emoções que seu personagem carrega. De Jesuíta Barbosa, que consegue levar seu personagem difícil de maneira segura. Difícil uma vez que seu personagem dentre todos carrega o alicerce da trama em seus diferentes mundos intercalados, do quartel rígido e opressor, ao grupo teatral livre e permissivo. Mas quem fica na memória é Paulete de Rodrigo García. Sem nunca cair no caricatural demais, exala beleza e comicidade em cada cena que surge com suas falas certeiras carregadas de sarcasmo e deboche, mas que o ator consegue mais uma vez, no olhar, transmitir todo o peso que sua existência compete naquela fase de sua vida.

Com recursos ate mesmo timidamente metalinguístico, esse que pode se confundir como  “o Moulin Rouge do subúrbio, a Broadway dos pobres, o Studio 54 da favela”, não só transgride o limite ainda existente entre o Cinema nacional atual entre sua arte, seu discurso e execução, como de maneira quase anárquica nos deixa marcados com nossos questionamentos – ainda que saiamos dele de maneira branda e leve, em parte por sua trilha sonora saudosista -.

Como nota, gostei bastante da montagem e o desenho de som de Tatuagem, bem como a Direção de arte e a gráfica dele, mas guardo ressalvas quanto ao ritmo, em parte pelas as vezes desnecessárias longas tomadas de algumas apresentações do Cabaret, que deixam a sensação de que o filme é mais longo do que realmente.

Tatuagem é, sobretudo humano. Um retrato pertinente à nosso país e ao mundo, que de fato explode como um gigantesco e profundo desamarrado cu, e que tem cheiro doce.


Trailer:



Ficha Técnica:

Direção: Hilton Lacerda
Roteiro: Hilton Lacerda
Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta Barbosa, Rodrigo García, Sílvio Restiffe, Sylvia Prado
Produção: João Vieira Jr
Fotografia: Ivo Lopes Araújo
Montador: Mair Tavares
Figurino: Christiana Garrido
Trilha Sonora: DJ Dolores (Helder Aragão)
Duração: 108 min.
Ano: 2013
País: Brasil