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sábado, 23 de março de 2019

Noite Inteira - Pitty e o som da Bandeira Que Ainda Pulsa




Matriz.

Tudo aquilo que é considerado base, alicerce. Pode significar algo diverso em vários nichos e área. É o órgão das fêmeas dos mamíferos, na cavidade pélvica, onde o embrião e posteriormente o feto se desenvolvem. O útero.
É lugar onde algo é gerado e/ou criado.
No sentido figurado, é aquilo que é fonte ou origem.
"aquele gesto foi a matriz da revolta".
Até na agricultura, é a planta da qual se retiram mudas para reprodução.
E mesmo na indústria fonográfica, é a chapa metálica que serve de base pra feitura e prensagem de discos.

Em Noite Inteira, Pitty parece ter pegado todos esses conceitos que servem de forma alegórica para explicar o nome de seu novo álbum - Matriz - previsto pra ser lançado em meados de Abril, para estruturar todo o cerne da canção. Ao contrário da apresentação ao vivo da música ocorrida em um show no Rio de Janeiro, ano passado, a versão oficial de estúdio, perde a visceralidade de combate, dada pela catarse coletiva humana que carrega, e ganha ares quase oníricos. Não, não perde. Talvez, condense-a

Como se estivéssemos presenciando um mundo distópico e psicodélico, com sons e zumbidos dispersos, mas que mantém a mente em alerta. Há uma espécie de "pio" na harmonização vocal que costura cada ponte da música, que por falta de referência melhor pensada, me recordou a canção "Eu" da banda Pato Fu. Isso pq, há alguns toques de música eletrônica nessa harmonização, que me lembrou o uso do teremim (ainda que esteja não esteja contido de fato aqui), um instrumento musical eletromagnético cujos sons são obtidos com movimentos da mão. Quando a mão se aproxima do teremim, o som fica agudo. Quando se afasta, fica grave.
Além de produzir os barulhos "marcianos" dos filmes trash de terror, o peculiar instrumento inventado por um russo capturado pela KGB, é considerado uma espécie de precursor do sintetizador, ou seja, da própria música eletrônica. Não sei até que ponto essa foi a intenção dessa harmonização - remeter a isso - mas orna completamente com a proposta anunciada pela Artista, sobre sua Matriz.

A bateria ganha ares de bumbo (soa como tal), abafado, que faz toda a canção se assemelhar a uma faixa antiga (ainda que contenha nuances metalizadas). Saída de algum disco de vinil empoeirado, achado nos destroços de alguma ocupação recém abandonada. É como se ouvissemos Noite Inteira ser entoada através de um gramofone. E isso não é ruim. Pelo contrário. Essa "sujeira" e "ruídos", conceitua com toda a estética e tema que a música parece pedir.

Mas, essa impressão - antiga -  não se estende a letra. Aqui sim, a visceralidade está presente e intacta como já se viu ao vivo. Já na primeira parte do refrão, Noite Inteira ganha status de hino, de manifesto. Ao refletir e explicitar todo o sentido de luta e resistência atual do nosso país. A lembrança de que "estar na rua é pra vida inteira". Ocupar espaço, atingir a liberdade e cada direito através da luta. Da voz. Do manifesto. Da revolução.
E aqui, ela usa a Revolução, pra conceder a canção, numa virada sensacional, uma nota de tango argentino, ou de uma salsa quase burlesca, talvez resquícios de bolero tímido, não sei, amparados pela voz potente e dessa vez um ainda mais imponente de Lazzo Matumbi, a lenda baiana, que entoa "Respeite a existência ou, espere Resistência".

E isso vindo de um homem negro da Bahia, que construiu o próprio nome e trabalho em resistência e combate através de sua arte, ganha uma representatividade e símbologia tremenda. Ainda arraigada à sua Matriz, Nancy Viegas, surge como o som de um sopro, permeando toda a faixa. Um senhor negro e uma mulher, ambos de combate e resistência em cenários dispersos e semelhantes, numa música que fala sobre resistir e lutar. Sobre o direito de estar. Sem cansar. Sem planejamento de fim.

"Pra pertencer e ser, em toda esquina", Pitty nos lembra que é preciso entrar em Guerra. Não guerra com quartel. Nem com armas de fogo. Não guerra de mortes e violência. Mas, guerra de levantar-se, ocupar, falar, bradar, resistir e reexistir. Uma guerra de força. Força humana. Energia humana. De sociedade. De coletivo. Olhar pra quem se estende e lhe estende a mão nessa guerra. Nesse embate. Entender por fim, que o caminho rumo a direitos e liberdade, de ser quem se é, te ter o que se tem direito de ter, é uma longa estrada. Uma ladeira. Que ao tentar subir, se encontram derradeiros e insistentes "nãos" por parte de quem possui poder. Enquanto que, pra descer por ela, são "sim, atrás de sim", lhe empurrando pro precipício. E estar nessa ladeira, mesmo em queda, se recusando a deixar de subir, é o grande segredo. É a grande peleja. É o caminho pra mansidão!

Noite Inteira, como a bandeira, ao pulsar se mostra sangrenta. Vermelha, Negra e com suspiros de luz na escuridão. É uma música madrugal, soturna, que embala até mesmo, a mais íngreme ladeira. Gente viva! Unindo aspirações do passado, em diante, de um difícil, mas já com o som devido, futuro.

Afinal, se compreende que como já dizia Elza Soares certa vez: o futuro é agora!

~Sobre o Clipe:


Hoje às 19h15 pontualmente, rolou a estreia do clipe da música, junto a uma live no Instagram da roqueira. O clipe que tem direção de Carlos Pedreañez e ilustrações de Paulo Pires, é todo em animação 3D com ilustrações texturizadas e de rotoscopia (técnica de animação onde um modelo humano é filmado ou fotografado em sequência e o desenho é feito com base nessa "captura". Através do uso do aparato chamado rodoscopio. Essa técnica é super antiga e tem exemplos diversos em animações como Branca de Neve e os Sete Anões, Alice no País das Maravilhas, e até mesmo jogos de vídeo game e mesmo filmes em live Action como Star Wars, clipes como o clássico do A-ha.  Pode ser usado para animar seguindo uma referência filmada tbm. Ele pode ser considerado um precursor da moderna captura de movimento digital).


Que segundo a própria Pitty na live, foi feita em parte através de fotografias e captura de imagens durante a estrada.

O clipe funciona quase que como uma apresentação, ou abertura de série, no melhor estilo telão de show, para o álbum (ainda nem lançado). Parece uma abertura visual. Tem esse cunho. Mostra Pitty como figura central, tendo sua mente e pensamentos e aflições expostas. A respeito do tempo, e da sociedade em que vive. Sobretudo através do olhar que tem do próprio espelho. Pitty olhando pra si. Pra dentro de si e externando o que o mundo passa. Nesse sentido exato o clipe parece ser quase um teaser dessa Matriz. Uma viagem por dentro da mente de Pitty. De seus olhos, constantemente em evidência das imagens animadas. Ao fundo, cenas de protestos, de embates de rua. De uma cidade sitiada. Por uma energia animal. De engravatados e rugidos.

Há uma referência a Pachamama através de cartas que lembram as de tarot (curiosamente sob as águas de uma torneira).


Pachamama é considerada em diversas culturas como A Deusa Maior, A Mãe Terra é a principalmente nos Andes, Bolivia e Peru, relacionada também à terra, fertilidade, mãe e principalmente Aquela que representa uma grandiosa divindade feminina.

Pacha Mama ou Pachamama é a Deusa da fertilidade ou a maior Divindade feminina cultuada em diversas culturas – principalmente a Inca -, onde ela teve suas origens na mitologia do mesmo local. Seu nome deriva-se de Quéchua, uma antiga língua utilizada pelos povos andinos, anteriores aos Incas. Pachamama, tem o significado de “Mãe Terra” ou o verdadeiro significado como ” Mãe de todos”, lembrando que Mama é “Mãe”, e o Pacha como “terra”, “mundo”,”cosmos”, assim chamada também de “Mãe Cósmica”.


Mesmo com a invasão dos espanhóis nas terras Incas – e depois de terem destruído quase tudo -, as representações escupidas ou desenhadas da Pachamama ainda seguem vivas e foram preservadas, continuando permear seus mistérios por toda cultura andina até nos dias de hoje.

Segundo a história, as mulheres não tinham poder dentro da civilização Inca, mas foram figuras cruciais para montarem o sistema de crenças de toda a sociedade, isto é, se transformaram no motivo pelo qual tudo existe e passaram a ser partes essenciais das instituições religiosas. Por isso que dentro de todo esse encadeamento de cultura, Pachamama é a figura central e Aquela Mãe geradora de vida, que doa sentido e alma para todos, tanto para os seres humanos quanto para a terra.


É possível também enxergar outras cartas simbolizando outras mitologias e crenças, até mesma a esfinge. Assim, o clipe adota uma enxurrada de simbolismos e significados que voltam a nos trazer a ideia de Matriz, de Base, de essência, mas com visão de futuro. Como um museu ou um livro de história. Olhar pro passado e resgatar a energia necessária pra combater o presente, pra modificar e salvar o futuro.

O clipe nada mais é do que um "gosto" do que o álbum promete oferecer a respeito da visão de mundo e de si mesmo, de Pitty atualmente.

Link para o clipe: https://youtu.be/DbIRvTW2PFA

Ou através do player abaixo:



*. "Noite INTEIRA" está disponível pra venda e audição em todas as plataformas de música. 







sábado, 7 de outubro de 2017

Pajubá - O Terrorismo Marginal, Preto e Revolucionário de Linn da Quebrada (Resenha)



"Pajubá é o nome da linguagem popular constituída da inserção em língua portuguesa de numerosas palavras e expressões provenientes de línguas africanas ocidentais, muito usado pelo chamado povo do santo, praticantes de religiões afro-brasileiras como candomblé e umbanda, e também por mulheres transexuais e pela comunidade LGBT como um todo.

A linguagem é baseada em várias línguas africanas umbundo, kimbundo, kikongo, nagô, egbá, ewe, fon e iorubá, usadas inicialmente em terreiros de candomblé. Criado originalmente de forma espontânea em regiões de mais forte presença africana no Brasil, como terreiros de umbanda e candomblé, o dialeto resultante da assimilação de africanismos de uso corrente, por resultar incompreensível para quem não aprendesse previamente seus significados, passou a ser usada também como código entre travestis e posteriormente adotado por todas as comunidades LGBT+"

E foi esse o nome escolhido por Linn da Quebrada para ser título de seu novo álbum de financiamento coletivo,  que por si só, complementa a ordem de militância lgbt+ de seu conteúdo.

Com letras que recorrem a expressões diretas sobre sexualidade e gênero, Linn da Quebrada surge com um Álbum que lembra a importância carregada de simbologias e discursos de liberdade que a era da Valesca do funk trouxe pro feminismo de liberdade sexual feminina. Linn assume esse papel mas, de maneira terrorista como a própria declara, demonstrando um alento de liberdade e controle sobre o próprio corpo de preta, travesti, periférica, afeminada e bicha.

Todas as canções que compõem o álbum trazem em seu cerne repetições como afirmações, de termos como cu, piroca, pica, rabo, macho, bixa, afeminada. Como uma maneira de ditar que os corpos marginalizados das travestia e bixas afeminadas lhes possui. São delas, para serem vivenciadas como bem quiserem. É quase como um ritual de percepção e de desbravamento por ocupação de seus espaços de direito negados pela sociedade e pela heteronormatividade cis branca e patriarcal. O corpo da travesti por si só é uma subversão dos padrões estabelecidos pela sociedade que molda e determina como devem ser feitos, vistos e usados. Por ser preta, Linn ainda se utiliza de sua negritude para trazer mais peso nas batidas e acordes das músicas remetendo a cânticos e rituais tribais. A sonoridade que mescla funk com distorções e sintetismos quase que de maneira psicodélica quando se escuta com fones de ouvido - tanto nos instrumentos como na voz, que possui camadas que flertam justamente com o feminino e o masculino, o erótico e o bruto - ganham ares de palavra de ordem contra conservadorismos e a marginalização.

Linn canta que não é feita pra se esconder. Não é feita para ser usada quando não queira, que não é ela ou ele. Que Linn é Linn.  Assim como as travestis são travestis. Ela canta sobre opressões e discriminações através de estereótipos de gênero e conduta. Canta sobre sexualidade vasta sem regras e de independência pelo próprio prazer. Canta sobre a carne negra que resiste e grita, pra de dor e ora de terror. Canta sobre como as vielas dos becos das favelas e pontes são semelhantes as vias das veias, do sangue e das rachaduras que o povo lgbt+ carrega por existir. Pajubá, ironicamente utiliza desse "dicionário" da cultura lgbt+ para fazer-se entender de forma reta. Sem entrelinhas.

De forma suja, nojenta, baixa, vulgar, sombria e verdadeira. Um trabalho que ganha contornos de obra artística quando percebido através dos áudio videos em seu canal do YouTube para todas as 14 faixas. Com participações de Mulher Pepita, Liniker, Gloria Groove dentre outres, Linn da Quebrada parece ter deixado claramente escuro, que chegou a hora do mercado fonográfico abrir espaço não só pra cis gays ou cis lésbicas e bis, ou para drags. Mas, chegou a hora de transvestir-se para ser ocupado pelas travestys.

Nem que esse espaço tenha que ser aberto a força, como um Ocâni odara didê num edí.

Necessário e (re) existência.
Minhas preferidas: "Submissa do 7° dia", "Bixa Travesty", "Transudo", "Necomancia", "Enviadescer", "Pirigoza" e "Serei A".


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Na Pele - O Mergulho de Elza e Pitty

Em meados de 2013, Pitty começava a se preparar pra retornar aos palcos e, assim, lançar seu mais recente álbum que nasceria em 2014 sob o título de "Setevidas".

O álbum contava com uma narrativa cíclica onde Pitty mostrava todo seu processo de vivência dos últimos anos, desde uma experiência de quase morte, ate as perdas profundas de várias formas e contextos. No álbum, era como se víssemos ela se reconectando com uma essência que estava aprendendo ou reaprendendo a enxergar. E pra isso, ela passa por estágios de busca e fusão com uma selvageria e sabedoria animal, ate a conceitos de elementos de alquimia e crenças à Ouroboros com direito a mantra de Shyva.

No entanto, uma música fora concebida nesse processo, mas não parecia que possuía ainda lugar no mundo. A música não parecia ornar com aquela narrativa de Setevidas.

3 anos depois, a música achou seu caminho pra nascer. Através da Voz do Milênio.
''Na Pele'', letra de Pitty dada de presente a Elza Soares, parece ter sido criada pra ser entoada pela voz única da Mulher do Fim do Mundo. Lançada na madrugada do dia 03 pro dia 04 de Agosto, a musica desde seu arranjo denso e sombrio, com uma aura de profundidade que expressa diversas interpretações e sentidos. Ate a sua letra, que não só remete diretamente de forma incrível a trajetória de Elza, como a de cada pessoa, principalmente de minorias sociais, oprimidas e que precisam lutar e resistir mil vezes mais pra sobreviver e nesse espaço de tempo, tentar achar modos de, de fato, viver.

Podemos enxergar a batalha de cada mulher no mundo, que carrega na pele, na raça, na resistência, marcas e rachaduras profundas - às vezes visíveis, às vezes ocultas - das pancadas e dificuldades da vida. Podemos enxergar de maneira maior, ate mesmo um paralelo pontual com a situação global e de situação política do país. Onde um povo saturado e por vezes cansado de caminhos esguios, continuamente se afogando e renascendo sobre e, sob as águas de lamúrias e guerrilhas. pra continuar existindo.

Na Pele recebe assim, características de Hino. Um hino atemporal, com ares de rock tanto por sua atmosfera, quanto pela presença dessas duas mulheres distintas e roqueiras, cada qual a sua maneira.

Em 2015, através do álbum, de inéditas ''A Mulher do Fim do Mundo'', Elza ressurgiu feito fênix, ornamentada em seu trono digna de uma orixá divina e sobre-humana, entoando cânticos e mantras de resiliência e força. De tristezas profundas, mas também de amor. De dores alem da imaginação e de uma mulher negra que insiste em permanecer seu caminho através de sua voz, presença e sabedoria.

O fim do mundo de Elza não tem fim. Ele é eterno e contínuo. Entre Ouroboros na terra e a Fênix no fogo. O Álbum, perpassa também uma essência de reconexão dessa mulher, com seu mais profundo instinto animal. Prazer, Luta, Empoderamento feminino, social e politico. Um Álbum Obra, na arte.


Na Pele, quase que completa o ciclo de elementos. Se Pitty explorara em seu "Sete", elementos como a terra, o ar, e o fogo - assim como Elza em seu "Fim do Mundo" -, em Na Pele, temos a água. Pela metáfora da água, que nos banha, nos afoga, da onde a vida se faz cria e recria, de onde é possível desbravar mundos jamais conhecidos pelo homem, em profundidade, escuridão e cores diversas. Pela água que chove e evapora, que congela e derrete. Entre veios - fissuras - vales, e leitos que não repousam. Tal qual a vida de Elza. Tal qual a percepção de cada mulher ainda no mundo. De cada travesti feito Benedita de Elza. Tal qual cada pessoa oprimida de pele preta e pobre também. Tal qual a vida. E há quem acredite que o quinto elemento - a alma - possa vir através dessa união.

A poesia da música transcende explicação, ainda que tenha compressão imediata a cada um.

Esse que escreve, por exemplo, se ouviu e sentiu pelo timbre cansado e vivo da DElza e pela suavidade já não tão rara hoje em dia, mas densa de Pitty, através da depressão que lhe consome e que se enxergou sendo traduzida em versos como: "se essas são marcas externas, imagine as de dentro''. 

Água que traduz lágrimas e saliva pra umedecer e não emudecer boca seca e muda.
Entre aventuras e fugas.

No clipe, lançado hoje, dia 07 de Agosto (não por acaso, quando pensamos em energias do universo, dia em que a Lei Maria da Penha completa 11 anos, e com a qual Elza já retomara o assunto continuo em sua carreira, através do outro hino "Maria da Vila Matilde"), dirigido por Daniel Ferro, ambas mulheres, do passado e do futuro, nos mostram entre recortes de arquivos que contam parte da trajetória de Elza pelo Tempo, a força presente em ambas pra cantar o que trazem consigo. Em suas jovens rugas de risos, ora rasos, pra rotos.

Fincadas em figurinos igualmente simbólicos, o clipe mescla imagens dessa trajetória de Elza, com as duas artistas em solo de terra seca, com galhos e arvores. Que remetem, tanto ao tempo, quanto a própria criação. Tanto pelo elemento da terra em contraponto com a água e o fogo, quanto a força de renovação da natureza inerente a todos nos enquanto animais vivos. Há passagens através de fotos e videos, de sua carreira pela musica, e cinema, da mãe de Elza, de seu filho que transcendeu o plano terreno ainda jovem, e de Garrincha com quem Elza fora casada.

Com um jogo de luz e sombras, a face próxima aos 40 de Pitty, se confundem com a face dos 80 de Elza. Quase como se essas duas mulheres fossem uma só. Pele branca de textura jovem e alma antiga, e pele negra, de textura vivida e vívida e alma sempre jovem. Concretizando esse encontro de gerações.

Elza disse numa entrevista: "Quando recebi 'Na Pele', foi na pele mesmo que senti. Me arrepiei. Identificação total, cara. Quando li o trecho 'o olhar tentado e atento. Se essas são marcas externas, imagine as de dentro'. Ali tomei coragem e escutei, enlouqueci. Pitty é doce e rocha ao mesmo tempo. É como se de algum modo eu me enxergasse no olhar dela, uma Elza lá de trás. Estranho é que quando ela me olha, sinto como se enxergasse uma Pitty lá da frente. A música selou essa conexão maluca", afirmou em comunicado à imprensa."

No icônico Trono de Elza Soares, Pitty se senta, para que em seu lugar, Elza se sustente de Pé. Formando assim, talvez, a sequência mais forte e significativa dessa experiência.

Quando se pensa em toda a história de vida de Elza, entre abusos, mortes, enfermidades, discriminações, racismos, machucados - literalmente - carregados em cicatrizes sob a pele, ossos, memória e coração, Na Pele surge enfim como uma Oração.

E ao final, o que nos resta é sentir a bênção dessas gotas e, deixa-las serem absorvidas pela pele, e amém.
É dar play e mergulhar.



Ficha Técnica do Clipe: 

Direção e edição: Daniel Ferro
Produção: Nathy Kiedis
Direção de Fotografia: Riccardo Melchiades
Finalização e cor: Daniel Ferro e Riccardo Melchiades
Assistente de direção: Pv Cappelli
Diretora de arte: Beatriz Moysés
Video Mapping: Ana Carolina Beraldo
Vídeo Mapper: Aninha Beraldo
Efeitos Visuais: Pedro Magalhães
Eletricistas: Jorge Pimentel, Igor Fabio, Damião Castro e Gleason Barbosa
Assistente de Produção: Rômulo Junqueira
Styling Elza Soares: Léo Belicha
Assistente Styling Elza Soares: Kaká Toy
Beauty Elza Soares: Wesley Pachu
Styling Pitty: Juliana Maia
Beauty Pitty: Omar Bergea



Letra:

Composição: Pitty
Interpretes: Elza Soares e Pitty
Músicos: Duda (bateria), Guilherme Kastrup (percussão), Marcelo Cabral (baixo e synth), Martin (guitarra) e Rodrigo Campos (guitarra).


Na Pele


Arte de Capa do single: Eva Uviedo

Olhe dentro dos meus olhos
Olhe bem pra minha cara
Você vê que eu vivi muito
Você pensa que eu nem vi nada

Olhe bem pra essa curva
Do meu riso raso e roto
Veja essa boca muda
Disfarçando o desgosto

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio

Contemple o desenho fundo
Dessas minhas jovens rugas
Conquistadas a duras penas
Entre aventuras e fugas

Observe a face turva
O olhar tentado e atento

Se essas são marcas externas
Imagine as de dentro

A vida tem sido água
Fazendo caminhos esguios
Se abrindo em veios e vales
Na pele leito de rio









quarta-feira, 23 de março de 2016

Crítica: "Boa Noite, Mamãe" (GoodNight, Mommy)

"Isso dói?"



(Recomendação: Só leiam o texto, após assistir o filme. Contem spoilers e descrição explicativa de varias cenas, incluindo o final e seu significado)


Dirigido e roteirizado pela dupla Severin Fiala e Veronika Franz, esse filme austríaco - que tentou representar seu país no Oscar desse ano, e arrematou dezenas de prêmios mundo afora - "ICH SEH, ICH SEH" - do original "Eu vejo, Eu vejo" e traduzido pro inglês e pro português como "Boa noite, Mamãe (GoodNight, Mommy)" - é um deleite para os olhos atentos de cinéfilos de qualquer geração.

Isso porque sua força reside nos detalhes e na busca de refletir o cinema suspense com toques de terror lá em seu ápice em anos passados, - mais especificadamente, com referencias a obras dos anos 70 - onde tivemos um considerável requinte de linguagem pro gênero.

É preciso dizer que o filme tem seu plot real apenas nos dez minutos finais de projeção. Talvez nos cinco últimos se considerarmos os elementos que os compõem. Por tanto, a revelação do "implícito" envolvendo os dois irmãos não é o que o filme quer segurar até o final. O roteiro não visa tornar misterioso a condição que une os dois irmãos no filme; muito pelo contrário. Ele espalha pistas escancaradas ao longo da projeção sem nenhum pudor. Ainda assim é belo constatar sua comunicação visual na sutileza nessas indicações.

Primeiro de tudo devemos lembrar que Hollywood nos acostumou mal. Nos criou a base de obviedade onde sutileza não existe e onde diálogo e edição frenética são sinônimos de Bons filmes (pra eles). Aqui, temos cinema base de suspense, onde se tem comunicação por imagens e não por ação ou fala.

Assim, o que se deve prestar atenção nesse filme é a construção narrativa de sua Mise-en-scène, o cenário que compõe o quadro em cena. Atribuir significado à água, aos reflexos, ao solo mole, às sombras, as cores, as árvores, aos quadros, fotos, a maneira que a câmera se posiciona, a maneira que a câmera se movimenta.

O ambiente é o verdadeiro protagonista do filme. É quem está narrando tudo.

Assim é brilhante notar como o filme nos conta através de um gato, através de um isqueiro, através de um quadro feito por silhuetas de sombras, através de reflexos, da ausência de calendários e relógios, bem como através de um cripta e seus ossos, sua real intenção de existir.

O tempo aqui não é fluido, e é importante salientar isso para que se entenda o seu desfecho final. Que sim é aberto a interpretações, mas é um fato planejado também. Os insetos e seu significado quase mitológico e psicológico, também tem papel importante na construção narrativa do filme. E não o bastante, ainda temos o silêncio que é a melhor fala de todo o roteiro.

Falando de aspectos técnicos, é preciso dar louros ao diretor de fotografia Martin Gschlacht, que compreende o universo que esta trabalhando, inserindo uma palheta de cores vibrantes sempre que estamos em lugar comum aos gêmeos, em contraste a palheta de cores mais escuras e opacas de quando nos encontramos diante da mãe deles - que obviamente oferece uma especie de perigo e apreensão às duas crianças. E isso ocorre, por que acompanhamos o filme pela perspectiva dos meninos, ate o inicio do terceiro ato. A partir dali, de maneira bem assertiva pelos diretores, passamos a ser meros espectadores das cenas. Um manejo do cinema de terror eficaz e esquecido atualmente.



A partir daqui escancararei sem a mesma sutileza do filme, o seu entendimento para ajudar aqueles que não compreenderam. Pois é impossível eu falar sobre alguns elementos sem dar spoilers.

Estejam avisados e só leiam depois de ver o filme. Pois, qualquer informação, como disse no inicio do texto, pode 'estragar' a experiencia visual e narrativa do filme. Só leiam, apos terem assistido.




Temos dois irmãos gêmeos, Lukas e Elias. Elias, que surge primeiro em tela com a regata clara, e Lukas com a regata escura.

Após uma brincadeira com o irmão, Lukas morre afogado no lago em frente à casa. Essa cena é mostrada no inicio do filme, entre varias outras brincadeiras dos gêmeos. Logo, após esse acidente, ha um incêndio na casa deles, e seus pais acabam se separando. (A indícios durante o filme, nas ações de submissão e dominação entre os gêmeos, de que o incêndio tenha sido efetuado pelo Lukas, antes deste morrer afogado).
A mãe fica gravemente ferida no incêndio e precisa fazer algumas plásticas no rosto pra reconstruir a face.
Após a morte do irmão, Elias passa a vê-lo, achando que ele continua vivo. Ele passa a negar a morte do irmão.

Eles se mudam da casa queimada, para uma nova casa, mais moderna. A mãe ao retornar pra nova casa comprada após o incêndio, se recusa a fingir que o filho morto está ainda entre eles. E passa a tratar o filho Elias, mais rispidamente. Por dois motivos. Primeiro, pelo trauma da perda do outro filho, ja que ambos são gêmeos e claramente o vivo faz ela lembrar do outro morto, e pelo acidente em si, onde surge o sentimento de culpa versus a separação do marido. Tudo isso culmina num distanciamento da relação dela com o filho.

Por causa das cirurgias, e desse novo comportamento da mãe, Elias e Lukas (morto) passam a achar que aquela mulher, não é sua verdadeira mãe. E após tortura-la, para querer saber onde esta a mãe verdadeira, colocam fogo nela e na nova casa ( somente o Elias no caso).

Assim ao final o que vemos é um vislumbre da primeira casa pegando fogo, seguida da segunda em flashes.

Como eu disse o tempo não é fluido. A montagem do filme de maneira assertiva pelo montador Michael Palm, não é linear, afinal estamos tratando de um mundo entre o real e o mundo dos mortos. Após o segundo incêndio, mãe e filho (Elias) morrem queimados e se juntam a Lukas o filho morto afogado, enfim juntos na floresta.

Assim além de ter uma comunicação visual genial, o filme brilha principalmente por conta de sua montagem, que escolheu essa direção de fragmentar o quebra cabeça. Quando vemos a os gêmeos olhando a nova casa a venda na verdade estamos vislumbrando momentos após o primeiro incêndio. E é notável que eles fazem a distinção de temporalidade, aos olhos atentos, pelas roupas dos meninos. As roupas indicam qual tempo narrativo estamos vendo.

As simbologias do fogo, da água, dos insetos, tudo remete a esse caráter de morte que ronda o filme. Inclusive a analogia da floresta e das mascaras. As cenas da floresta, indicam o submundo psicológico e sentimental de mãe e filhos. Quando vemos a mãe despida na floresta com o rosto em transe, na verdade, é uma representação dos ecos de angustia desta diante daquela nova realidade. Da perda do filho, do corpo mutilado por um do filhos, da inadequação a ela mesma diante do espelho e do papel de mãe, da nova vida distante de tudo. A floresta representa em filmes de suspense e terror, a quebra do palpável e a chegada do mistico. Pode representar tanto a perdição horrenda, quanto a purificação sagrada. O humano dentro dela, o humano urbano, tende a se quebrar de facetas diante de uma floresta. O filme explora bem isso também. Assim como as mascaras tribais. A mascara da cirurgia contrastando com a mascara dos garotos e ambas escondendo a realidade daqueles três personagens. Um morto, um pirotécnico, uma mãe morta-viva - e interessante ainda a a referencia a múmia nesse sentido, inclusive nos planos que mostram seus primeiros passos em tela, e aquele em que ela surge nas sombras do quarto com as persianas fechadas.

Há ainda outro detalhe bacana, que é quando os gêmeos acham a foto da amiga da mãe, que surge parecido, e que causa toda a comoção neles de que estão diante de uma impostora.

A tortura, como é claro ali, serve não só pro terror psicológico crescente de agonia, como também para simbolizar aquela relação que temos de sagrada entre mãe e filhos se quebrando. E o filme extrapola isso sem pudor algum, quando escolhe os ferimentos em ordem materna e progenitora perfeita, ao fazer os gêmeos primeiro ferirem a boca da mãe - a boca que simboliza fala, educação e alimentação -, depois o útero - quando saem insetos de la, denotando a morte das crias - e em seguida, o arrancar de dentes e da mãe tendo urinado. O filme inteira jogo com a relação materna de maneira inversa. A proteção e criação que se transforma em destruição e perigo. Isso em si perturba.

Ainda há cenas de caráter psicológico, claro, em que mostra os gêmeos constantemente disputando, correndo, e se batendo, com destaque a cena em que eles batem no rosto um do outro e perguntam se aquilo dói.



É um filme denso, perturbador e que carrega um terror psicológico a altura de seus prêmios e reconhecimento.

Não tem nada de ''o mistérios das duas irmãs'' ali. Aqui temos o mistérios dos dois irmãos, e sua querida mamãe.


Imperdível!



Ficha Técnica:

Gênero: Suspense
Direção: Severin Fiala, Veronika Franz
Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
Elenco: Christian Schatz, Elfriede Schatz, Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest
Produção: Ulrich Seidl
Fotografia: Martin Gschlacht
Montador: Michael Palm
Trilha Sonora: Ekkehart Baumung


Trailer:

 









segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Resenha (breve): Beira Mar





'Eu sei quem eu sou 
Eu sei, eu sei,
eu sei, eu sei
Eu sei quem eu sou
Eu sei quem eu sou
Eu sei onde estou 
Eu sei quem eu sou"


Esse trecho faz parte de uma musica chamada ''NoPorn'' do grupo Xingu, e faz parte da trilha sonora do filme ''Beira Mar'', dirigido com competência pelos cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.
O filme foi selecionado para o 65º festival de Berlim.
Coloquei esse trecho, por que Beira Mar fala sobre a adolescência, e esta, como todos nós sabemos - ou saberão - se trata justamente da magia e do terror de tentar entender quem se é no mundo.
Pois bem, Beira Mar possui a competência de tratar do assunto de maneira despretensiosa, de maneira natural, e pra isso ocorrer, grande parte do mérito esta nos diálogos por vezes ate banais dos personagens e principalmente pela dupla de protagonistas - Mateus Almada e Mauricio José Barcellos -, que claramente são inexperientes em termos de segurança na atuação, mas que justamente por isso, se encaixam perfeitamente para a trama.

O filme é lindo esteticamente, uma fotografia que investe bastante em profundidades de campo, imagens turvas, movimentos dispersos de câmera, cores frias, que passam tanto o clima de monotonia quanto de apreensão própria dessa parte da vida. A adolescência não é fácil, não é colorida. Ela é profunda, é embaçada, é fria, ainda que tenha seus momentos de prazeres intensos e alegrias que permanecem pelo resto da vida. O som é algo que me incomodou bastante.
O problema de Beira Mar, é que ele demora dois atos inteiros para parecer se encontrar. Como se o filme usasse de metalinguagem extrema, parece ser um adolescência que inicia ditando seu ritmo, batendo no peito que sabe quem é, que se conhece, mas que ao longo da narrativa se confunde. Fala, fala, fala; mostra, mostra, mostra, mas não chega a lugar nenhum.

A sensação que fica é que não ha historia. Não ha trama. Parece que estamos vendo apenas momentos de dois adolescentes numa viagem. Só.

Isso se deve pelo fato, dos diretores terem escolhido o caminho inverso da máxima narrativa que se aprende no cinema, de que o filme precisa se justificar, se fazer entender ate o final de seu primeiro ato (por volta de 20/30 minutos de historia). Nada é explicado de inicio. Não sabemos qual o conflito que impulsiona aqueles dois garotos naquela viagem, naquele peso aparente que ambos carregam nos olhares que se desviam, nos silêncios que presenciam e protagonizam, no riso bobo, que logo vira melancolia e osmose. É visível que ambos possuem alguma carga emocional de conflito interno, que encontra um escape na amizade e intimidade que parecem ter um com outro. Mas, o que é? como é? onde é? quando é esse conflito?

Não nos deixam saber.

Se por um lado poderia ser um exercício interessante ainda mais pela temática proposta, no filme não funciona. E o mistério deixa de ser mistério que prende, para se tornar algo 'broxante' que enjoa e cansa. O filme possui 1 hora e 23 minutos de duração, mas a sensação que fica é que tem mais de duas horas.

O filme tem sido vendido como um filme ''adolescente com características gays.'' Titulo que faz com que haja uma especie de antecipação no espectador para que pelo menos se espere algo relacionado a isso. 

Percebe? 

O filme perde a oportunidade de desenvolver a complexidade que criou.
Mas, o terceiro ato, os momentos finais o filme dá show. Tudo que se esperava acontece, ele se justifica e brilha.

Mas, precisava de 1 hora de enrolação?
Enfim, um bom filme sobre descobertas da vida, que poderia ser mais, mas talvez ainda não seja maduro o suficiente.
BAH, recomendo!

Ps: O sotaque do sul é simplesmente fascinante 


Trailer:



FICHA TÉCNICA:

PAÍS DE ORIGEM: Brasil
ANO: 2015
DIREÇÃO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
ROTEIRO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
FOTOGRAFIA: João Gabriel de Queiroz
MÚSICA: Felipe Puperi
DIREÇÃO DE ARTE: Manuela Falcão
PRODUÇÃO: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon, Tainá Rocha








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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Resenha: Jogos Vorazes - A Esperança: parte 1


"É a pior tortura do mundo. 

Esperar enquanto se sabe que não ha nada que se possa fazer..."

"Aquilo que nós mais amamos, é o que acaba por nos destruir"
"Se nós queimarmos, você queimará conosco!"


A série foi inspirada no mito grego de Teseu e o minotauro e nos gladiadores romanos. Valores como lealdade, guerra, pobreza, verdade e amor são abordados durante a trama. A série em si é carregado de DRAMA e possui críticas sobre a sociedade vivida por nós e pelos habitantes da Capital.

Pequena introdução aos meus queridos amigos e principalmente colegas, para entenderem do que se trata e perderem o possível preconceito midiático com o filme.

A maior sacada de Jogos Vorazes, é que ele ao contrario do que ele mesmo se vende, não fala sobre os jogos em si. Os Jogos são alegoria e metáfora para algo mais complexo e maior. Jogos Vorazes é em suma, um filme politico e de estrutura social.

A arena dos Jogos - por mais que remeta ao clássico Livro/Mangá/Filme "Battle Royale" -, é apenas um detalhe para amarrar o embate dos personagens. Alias, como nota, a intenção de ambos é diferente; em ''Royale'', a intenção dos Jogos, é de adversidade e opressão, para mostrar os preceitos humanos, tanto psicológicos, quanto comportamentais. Em Jogos Vorazes, o Jogo, na arena, é alegoria. Ali, o que importa não são os preceitos comportamentais humanos - apesar da base ser a mesma -, mas sim o como que cada personagem representa uma ala social dentro da estrutura politica global. Cada personagem e ação dos mesmos, representa um nicho. O real tema aqui, não é amor adolescente e nem só a ação (alias, demorei para compreender, mas o filme não pode ser classificado como ação ou aventura somente, e sim como drama). Ele mostra a complexa estrutura social e politica da humanidade, especialmente o processo de revitalização e reimplementação do fascismo diante de um povo; com o apoio ou opressão da mídia nisso.

Vejam: O sistema politico aqui, é composto por Distritos que suprem a Capital, que domina todos os distritos. Detém de acordo com o poder econômico, todos os suplementos naturais e sintéticos DOS DISTRITOS e seus moradores, e em troca, fornece uma suposta paz, baseado em uma especie de ditadura militar  e entretenimento.
Em suma, A capital domina os pobres - independente de cor, raça e religião - os massacra e escraviza, os mantem vivos, apenas com o suficiente para sobreviver e com o apoio da mídia - televisiva por exemplo - os manipula, entretendo-os como gado ou uma briga de galos.

Ai entra os Jogos Vorazes em questão. Nada mais é, do que obrigar um povo oprimido a matarem-se, para pura diversão dos mais abastados e em troca eles fazem esses próprios oprimidos entenderem, que isso é o preço a se pagar em troca de "ruas mais seguras", mas que não ha mais direitos civis de liberdade ou democracia... Não ha liberdade de expressão. Para se ter ideia do cenário apocalíptico e tão atual com o nosso, o cinema em si, seria uma ameaça, ainda mais os de critica social.

O que acontece aqui nessa terceira parte é a desconstrução pouco a pouco desse sistema, onde distritos vão caindo e guerreando, mas entendendo que precisam se unir num discurso de esquerda, para reerguer uma nova estrutura social e politica baseada mais na democracia. Para isso a maior arma dos revolucionários e do governo (Capital) é justamente a mídia. Já que a população foi tão condicionada a acreditar em tudo que lhes é imposto na tela como verdade absoluta (vide, Jornal Nacional e a crença de que tudo que a Globo, Record, Veja; dizem é absoluta verdade incontestável), ocorre uma guerra midiática (já estamos em Uma alias galera, aqui no Brasil mesmo, só pegar o exemplo das atuais eleições à presidência), onde a protagonista antes manipulada pela direita  - exemplificando  de forma leiga para a realidade nacional, ou Conservadora para a realidade EUA - (opressora aqui no caso), vira simbolo da revolta da esquerda -  exemplificando de forma leiga para a realidade nacional, ou Progressista  para a realidade dos EUA (distritos no caso).

Porem a questão é mais complexa como toda politica, uma vez que ela estando nesse sistema, independente do lado, ela estará sendo manipulada. Mas a questão é; ate que ponto uma manipulação sera melhor que a outra, já que um muro tem apenas dois lados e não três?

Dirigido por Francis Lawrence e roteirizado por Peter Craig e Danny Strong, Jogos Vorazes - A esperança parte 1, conta com a seguinte sinopse: Quaternário pela resistência ao governo tirânico do presidente Snow (Donald Sutherland), Katniss Everdeen (Jennifer LAWRENCE) está abalada. Temerosa e sem confiança, ela agora vive no Distrito 13 ao lado da mãe (Paula Malcomson) e da irmã, Prim (Willow Shields). A presidente Alma COIN (Julianne Moore) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) querem que Katniss assuma o papel do tordo, o símbolo que a resistência precisa para mobilizar a população. Após uma certa relutância, Katniss aceita a proposta desde que a resistência se comprometa a resgatar Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e os demais Vitoriosos, mantidos prisioneiros pela Capital.

E é nesse clima que o filme assume paletas de cores mais frias e sóbrias, puxadas para o cinza e tons pasteis, abandonando a fantasia e tom fantástico dos dois longas anteriores e assumindo características mais reais. É notável o modo como Francis demonstra uma direção segura e firme ao introduzir um clima de guerra ao filme, com a utilização de movimentos de câmera, planos e montagem paralela - alias, que montagem eficaz! - que não só dão o tom de urgência e perigo às cenas, como formam um ritmo narrativo que prende.

Ia evitar falar sobre as atuações, mas é impossível não notar o plausível estudo de personagens que o roteiro exibe aqui nesta "A Esperança", ao mostrar os desdobramentos psicológicos diante dos efeitos que a guerra e os Jogos (sempre em letra maiúscula) trouxeram àquela realidade.
A protagonista Katniss assume o papel de heroína, não pelas ações que executa, mas pela situação que se encontra e pela imagem que se constrói. Alias, esse é um mérito do filme/serie no geral. Ele não elege heroínas e heróis apenas por excelência da situação, mas pelos desdobramentos que constroem eles como heróis. Heroísmo é imagem (só se tornam heróis, àqueles que anunciam essa imagem como tal, caso contrario, sem a imagem trabalhada, somos apenas bem feitores, e isso não vende).

O poder que isso traz para a critica midiática que o filme faz é enorme. E infelizmente tão real e contemporâneo; que Jogos Vorazes poderia facilmente assumir o papel de filme de terror.
Outro ponto positivo e a dualidade e dubilidade que os personagens assumem aqui. Onde cada ação traz uma reação adversa, igualmente e potencialmente destruidora.

Não por acaso, a cena em que há a destruição de uma represa, representa semioticamente bem a situação de Panen. a Capital é a represa, contida e controlada, mas limitada àquelas que estão do lado interno do concreto que prende aquelas águas. Quando a rebelião começa explodindo aquela represa, a água se dissipa, afogando e arrastando a tudo e a todos - seja pela falta da água do lado interno, quanto pela inundação do lado externo. E aí que é a questão: quando a rebelião começa, é água feroz - voraz - para todos os lados. Como conter? E ate que ponto essa contenção não se tornara uma nova represa fechada?

Alias, os signos nessa serie/filme são interessantes e complexos ao demonstrar a coesão com que a autora dos livros- já que mesmo não lendo a eles, sei que são a base para o roteiro - constrói, indo alem da simples aventura adolescente.
Não por acaso, a protagonista que tem como simbolo de luta, o arco e flecha, durante toda a projeção, deve lançar de uma a duas flechas no total. Porque aqui, nesta guerra, as armas são o de menos. A guerra vai alem de corpos mutilados e assassinatos. A guerra é estrutural e não somente física, ainda que ela atinja o corpo.

E quando um blockbuster consegue se ater a ter a preocupação em educar, refletir e questionar seu espectador, sem deixar de lado a ação/explosões mas sem se limitar a apenas isso, é de se aplaudir.
Ponto para a trilha sonora atual e pop que o filme adotou, bem como a sonoplastia que deve lhe render algumas premiações ou indicações.

Se for para apontar um defeito, talvez seja algumas questões técnicas pontuais, nada graves, nada que comprometa a narrativa e o andamento do filme, e talvez a escolha da divisão em duas partes. Sem ter lido os livros é difícil afirmar que não era necessária a divisão, pois não sei quanto conteúdo ainda falta - narrativamente - para sua conclusão. Mas o terceira ato do filme, fica comprometido em sua resolução, uma vez que o ritmo catártico é interrompido em seu climax. Ainda que para aquela estrutura, todos os conflitos ali concentrados tenham sido resolvidos, a trama como um todo sofre.

Assim, eu gostaria muito de ter visto um filme só, ainda que fosse durar 5 horas - coisa que ele poderia se beneficiar, já que novamente aponto que sua métrica rítmica foi precisa -.
No mais, ao final da projeção, é quase impossível não assoviar com a canção do tordo, e não sucumbir a vontade de levantar a mão esquerda, e estender os três dedos da mão e beija-la em tributo ao distrito 12...

Ótimo!


"Are you, are you
Coming to the tree?
Where they strung up a man they say murdered three."


Ficha Técnica:

Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson
Elizabeth Banks, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Peter Craig, Danny Strong
Fotografia: Jo Willems
Ano: 2014

Trailer:





Música d'O Tordo:










quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Entre a Coexistência o XX da Questão



O trio londrino The XX surgiu em meados de 2009 com seu álbum de estreia intitulado “XX”. Formado por Romy Madley Croft (vocais e guitarra), Oliver Sim (vocais e baixo) e Jamie Smith (beats e produção) – e ate novembro do mesmo ano Baria Qureshi (teclado) que saiu, não sendo substituída ate hoje.
Em pouco tempo, critica e publico se entregaram de forma satisfatória e entusiasmada ao álbum que logo se tornaria um dos mais bem cotatos da ultima década.
O que justifica tal exaltação, fora a forma fora dos padrões do Rock alternativo que eles trouxeram. Alias classificar The XX como rock alternativo entre uma faixa e outra de “XX” já se apresenta como um erro, ou no mínimo um equivoco.
O álbum repleto de inventividade e vida trazia entre letras pesados, de dor e tristeza, sons densos e viscerais ao mesmo tempo, com distorções e sobreposições de vozes, entre canais diversos de áudio.
Soava quase como algo entre o Indie e o Pop minimalista.
XX” é repleto de singles-hits. Por conterem refrões que grudam e são rapidamente absorvidos – a voz sempre sussurrada de Romy ajudam na sensação de leveza-.

Um álbum de estreia desses, claro que tem seus pontos bons e seus pontos ruins, no que diz respeito ao futuro. Se antes Romy , Jamie e Oliver eram apenas 3 pessoas tímidas e talentosas fazendo seu som; hoje, eles são um  dos grupos mais bem vistos do mundo da musica.
E claro que todos esperavam demais de um próximo álbum, afinal: será que eles seriam artistas de um álbum só?

Depois de tanta espera e ansiedade, acaba de vazar o mais novo trabalho do trio que tem previsão de lançamento oficial apenas em Outubro de 2012.
O novo trabalho vazou a poucas semanas e recebeu o nome de “Coexist”.
Bem, ouvi o álbum – que estava esperando há muito tempo confesso – e após algumas audições, resolvi deixar aqui minhas impressões de um dos álbuns mais bem fechados do ano ate agora, e emblemático também.

A primeira musica a ser liberada e trabalhada pelo trio, foi Angels, que abre “Coexist”.
Se o normal é que a musica de abertura soe como uma amostra do que o álbum tem a oferecer, ‘Angels’ é totalmente avessa a esse padrão.
Angels’ é de longe a melhor faixa do álbum. Ela parece ter sido algo que escapou das garras de “XX”. Chega a ser gritante o quanto ela parece não se encaixar em “Coexist” apesar de estar La,compondo-o sem muitos alardes.
A faixa é simples, em sua estrutura, mas possui tantas nuances e texturas ao longo de seus quase 3 minutos de leveza, que é impossível escuta-la sem se emocionar ou permanecer tocado pelos sussurros melódicos de Romy. A letra versa sobre alguém que tem amor dentro de si, e vê tal sentimento como um anjo de asas sedutoras e belas, ao qual ela canta em seu silencio, como se assim tornasse ele real, e pudesse se certificar que tudo não passa de algo passageiro (uma vez que a faixa deixa claro que tal amor só poderia ser tão forte e real se fosse perfeito como as asas de um anjo).

Chained”- possível forte single -, traz Romy e Olivie dividindo os vocais num duo deliciosamente harmônico. Novamente o tom sussurrado e leve, num ritmo de progressão baixa, mas mesmo assim progressiva. Apartir dessa faixa, tudo o que você ouviu em “XX” deve ser deixado de lado. Não são os mesmo, é um novo The XX. Não do ponto de visto inovação, mas do ponto de vista densidade.
Coexist cai numa onda de introspecção e lirismo absurdo. Uma calma onde o silencio se faz presente. Em forma de musica. Sobreposições inspiradas de canais de voz dão base para a historia que o trio quer nos contar – ao pé do ouvido.
Fica claro que ‘Coexist’ tal qual seu nome pretende coexistir entre a visceralidade de 'XX' e a melancolia desse novo trabalho. ‘Coexist’ é uma imersão. Esqueça as baladinhas pop meio Indies e Rockers de outrora, o que se ouve aqui, são os sentimentos de alguém que esta se voltando para dentro. É como se eles tivessem saído da toca em 2009 e resolvessem voltar para o casco agora. Evoluir voltando para dentro e não para o mundo.
O álbum segue com “Try” e “Tides” mais a frente. Esta primeira que talvez, ao lado de ‘Angels’ e “Missing” logo adiante, são as únicas com potencial para virarem Hit’s.
Novamente em “Try” Olivie e Romy dividem os vocais.

Em “Reunion”, que pode soar a primeira vista chata e um tanto o quanto repetitiva, traz um trabalho excepcional de Jamie, que se segue ate “Sunset”.
Como já dito, “Missing” tem um potencial enorme de virar segundo Single. Sua letra que versa sobre a duvida de um amor. Se ele ainda existe ou não.
Mas é “Tides” que contem o surto criativo visto em “XX”. Uma faixa deliciosa, com uma combinação deliciosa das vozes de Oliver e Romy, em batidas ressonantes impossíveis de se ouvir parado. Alias única faixa “baladinha” talvez e por isso mesmo candidata a possível single.
Então surge “Unfold” que é um prelúdio lúdico e psicodélico, repleto de texturas e sensibilidade um tanto o quanto sombria que mostra que Coexist tem força onde menos se espera: na calmaria.

Em suma, ‘Coexist’ pode ser descrito como um ode a melancolia e ao resguardo dos sentimentos. É introspecção. O visceral só ocorre de dentro para fora, não deles, mas de quem escuta. Coexist é a “droga” que nos conecta com o mundo de catarse intima e pessoal.

Nem melhor e nem pior do que “XX”, o novo The XX surge consciente do que são, firmam sua identidade musical, e demonstram amadurecimento e domínio de uma linguagem há tempos esquecidas na atualidade gritada: o menos é mais. E no que o XX da questão aqui é Gigante!
Nota 8.