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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Critica: Transamérica





'Transexualidade, Transexualismo, Síndrome de Harry Benjamin, Transtorno de Identidade de Gênero, Disforia de Gênero ou ainda Disforia Neurodiscordante de Gênero são expressões referentes à mesma coisa: a condição na qual a pessoa se identifica psicologicamente como sendo do gênero oposto ao seu sexo genético e sente impropriedade em relação ao próprio corpo.
Esta condição por via de regra gera um desconforto emocional e psicológico ao transexual, por isso existe a iniciativa de “transitar” (por meio de tratamento hormonal e cirurgias de redesignação sexual) de um gênero anatômico a outro. O termo clínico mais recomendado hoje em dia é Disforia de Gênero, bem como Transexualidade.

A última classificação americana dos transtornos mentais (DSM-IV-TR) retirou dos seus diagnósticos os termos transexualismo, travestismo e homossexualismo. Ao invés disso, adotou-se o termo Transtornos da Identidade de Gênero, que é visto como menos preconceituoso ou discriminatório.

A identidade de gênero refere-se à masculinidade e à feminilidade, ou melhor, à convicção que cada um tem sobre si de ser masculino ou feminino. Isso se forma muito precocemente, desde o estágio intra-uterino, e decorre: da soma de causas genéticas e hormonais (vão determinar os caracteres físicos do bebê, se vai nascer com características de menino ou menina); da atitude dos pais ao aceitar ou não o sexo do bebê, a forma como esse bebê vai ser manuseado e tratado (a menininha ou o garotão); da interpretação do bebê a respeito dessas atitudes paternas; da formação do ego corporal (o bebê vai formando uma idéia a respeito de si a partir de sensações que surgem com a manipulação de seu corpo)'.


Bree (Felicity Huffman) é uma transexual que, antes de mudar de sexo, fez um filho. O garoto, Toby (Kevin Zegers), é agora um adolescente que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Os dois se reencontram - sem que ele saiba sobre a identidade verdadeira de Bree - e partem, juntos, numa viagem de carro a Los Angeles.

É sob a seguinte premissa que o Road Movie ‘Transamérica’, filme do diretor e roteirista Duncan Tucker, nos é apresentado de forma leve e condescendente.
Com uma gostosa trilha sonora que encontra seus melhores momentos nas cenas de drama intenso e discussões, orquestrada pelo competente David Mansfield, que inclusive nos presenteia com a original e bela ‘Travelin' Thru’ (de Dolly Parton), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por melhor canção original em 2006, Transamérica é um filme carregado por um roteiro bom, mas é elevado pela atuação impar de Felicity Huffman.

O filme nos mergulha nos dramas e incertezas e no sofrimento incubado de uma transsexual que luta há anos para se tornar o que já é em pensamento – uma mulher.
Sem condições financeiras, ela se prende aos hormônios tomados religiosamente todas as manhãs e a noite; visita regularmente clinicas de psiquiatria e psicologia a fim de obter a permissão e o aval de seu seguro de saúde para fazer a tão almejada cirurgia de mudança de sexo.
O roteiro de Tucker revela superficialmente a extrema carga emocional e psicológica de homens e mulheres que apresentam tal transtorno de gênero. É pertinente o modo como ele deixa claro que não se trata de doença ou confusão e sim, uma condição genética onde o individuo possui desde o nascimento uma identidade que não corresponde a seu gênero sexual. Para Bree, ela não é um homem, é uma mulher, independente do que for, ela age, pensa como uma mulher. Não é uma travesti, há diferença. Não são somente as roupas que a caracterizam assim.

Tudo isso nos é apresentado através de diálogos e situações corriqueiras de seu dia a dia, como o olhar no espelho assim que acorda, o ato de se maquiar, a ida ao banheiro, as conversas com a psicóloga e etc.
A chegada do filho inexistente ate então é o artifício que o roteiro encontrou para causar o impedimento a seu sonho da operação. Apesar de ser interessante ao primeiro momento, por colocar em xeque a transformação, a decisão e a postura de gênero que ela assumiria - paternidade ou maternidade? – com esse fato, a narrativa peca em alguns pontos.
Ao criar um filho totalmente desconexo com sua realidade, Tucker demonstra querer mostrar um panorama que vai alem da transexualidade.
Ele (Toby) é um jovem de 17 anos, aparentemente frio ao bater de frente com suas emoções, que perdeu a mãe, que tem problemas com o padrasto, que se prostituiu para comprar drogas – cocaína -, bissexual resolvido e um tanto o quanto bipolar; que almeja ser um ator pornô.
Com uma carga dramática dessas, o ator Kevin Zegers e o próprio roteiro não conseguem, contudo conferir verossimilhança a narrativa, o enredo se perde também, por exemplo, quando Bree afirma que o caso que teve com a mãe de Toby só aconteceu durante a faculdade porque ele acreditava que ela fosse lésbica. Ele afirma que ela era lésbica e não bissexual. A informação nos leva crer que tudo não passou de uma noite de puro sexo entre dois amigos, experimentação própria da idade. Mas então surge Toby, com uma mãe suicida e que era casado com um homem. Onde sua sexualidade não é exposta nenhuma vez, nem mesmo os motivos de seu suicídio.

Mas mesmo essas falhas de andamento de narrativa são perdoadas quando vemos cenas de extremo bom gosto, carregados de clichês que são permitidos aqui, que nos conduzem naturalmente a sua conclusão, passando sua mensagem, nos sensibilizando e mais do que isso, nos informando sobre esse mundo.
Não é um filme sobre o transsexualismo e nem mesmo sobre opções sexuais, é um filme que versa sobre liberdade de ser quem é – ‘o importante é ser você, mesmo que seja estranho, bizarro, seja você’ -. Ele desmistifica preceitos ate mesmo religiosos acerca do tema, humaniza, simplifica e emociona.
Mas mais uma vez, é impossível falar de Transamérica sem exaltar a atuação fantástica de Felicity Huffman. Ela carrega o filme todo no salto alto e no batom. Consegue nos demonstrar na impostação de voz comedida, nos trejeitos na forma de andar, no olhar tudo que sua personagem exige. Sempre na dosagem certa.
Alias o filme inteiro, o espectador fica em duvida se esta diante de uma mulher ou de um homem. E isso demonstra um trabalho de caracterização fantástico! Se tal papel já seria difícil para um homem executar, para uma mulher, ter que atuar como se fosse um homem que se sente uma mulher é ainda mais difícil e admirável por ter conseguido com tamanha maestria. Tal trabalho lhe rendeu inclusive o Premio de Júri no Festival de Berlin, um Globo de Ouro como Melhor Atriz de Drama e uma indicação ao Oscar 2006 de Melhor Atriz do Ano que ficou com Reese Witherspoon (Johnny e June).

Sua melhor cena, esta quando ela esta no hospital com sua psicóloga. É de aplaudir de pé.
O maior trunfo do filme como um todo fica ao deixar claro, que o transsexualismo não é um fato de orientação sexual e sim de identidade de gênero. Que as escolhas são fundamentais e devem partir de nós mesmos. Que a liberdade em toda a sua concepção é essencial para se viver e que como um bom Road Movie, é na estrada da vida que encontramos os personagens chave para nos encontramos durante a viagem.

Um filme independente que poderia ter finalizado sendo sensacional – como sua cena final que denota a aceitação plena da condição daqueles dois personagens com eles mesmos, através de atos e de uma fala – mas que preferiu por escolha ou falha mesmo, se encerrar sendo apenas um bom filme.

Não é um filme de gênero, é um filme feito para todos.





FICHA TÉCNICA

Diretor: Duncan Tucker
Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Graham Greene, Burt Young, Elizabeth Peña
Produção: Rene Bastian, Sebastian Dungan, Linda Moran
Roteiro: Duncan Tucker
Fotografia: Stephen Kazmierski
Trilha Sonora: David Mansfield
Ano: 2005
País: EUA
Gênero: Comédia Dramática
Classificação: 14 anos











Artigo interessante que explica as diferentes a cerca de Homossexualismo, Transsexualidade e Travestismo >> abcsaude 

domingo, 30 de setembro de 2012

Critica: Cosmópolis - Mais Um Rato Na Roda




“Um rato tornou-se moeda monetária.” - Zbigniew Herbert

O socialismo tem como base a socialização dos meios de produção, o bem comum a todos e a extinção da sociedade dividida em classes. O capitalismo tem como objetivo principal a acumulação de capital através do lucro. 
Tempo versus futuro e dinheiro. isso é Cosmópolis.

A cidade de Nova Iorque está em tumulto e a era do capitalismo está chegando ao fim. Uma visita do presidente dos Estados Unidos paralisa Manhattan e Eric Packer (Robert Pattinson), o menino de ouro do mundo financeiro, tenta chegar ao outro lado da cidade para cortar o cabelo. Durante o dia, ele observa o caos e percebe impotente, o colapso do seu império. Packer vive às 24 horas mais importantes da sua vida e está certo de que alguém está prestes a assassiná-lo.

Cosmópolis, neologismo. À etimologia então: “cosmos” do grego kosmos, que significa ordem, organização; “polis” é transcrito diretamente do grego, e era o nome dado às cidades da Grécia antiga. Se as metrópoles (metró vindo do grego “meter” que significa mãe” são as cidades que agrupam sob suas arredores outras, filhas, a Cosmopolis é a cidade da organização rígida, de estrutura lógica. É a cidade de Eric Packer, é a mente de Eric Packer.

Baseado no livro homônimo de Don DeLillo, Cosmópolis é um roteiro que mostra um retrato assustador da nova Era.
São pessoas impelidas a esmo a viver o futuro, onde o presente não existe mais, se perdeu. Nessa cosmópole, Tempo e dinheiro se confundem nas medidas e ações. Muita informação, onde o novo de hoje, é o velho daqui um nano de segundos. O dinheiro e o capital que giram e definem o mundo. Onde nada mais é orgânico, tudo é programado. Uma sociedade de Caos e terror, de angustia e medo. Com estruturas físicas tão fortes, mas que escondem bases frágeis e terminais.

“- Gosto de andar de taxi. Não entendo muito de geografia, e consigo aprender muito sobre os lugares e a cidade perguntando aos taxistas de onde eles vieram.
-  Eles vem do horror e do caos.
- Exatamente!”.

Falas como essa são executadas numa monotonia extrema. A frieza caracteriza o palco em que o filme calca. Jovens, adultos sem inspiração, sem emoção, sem trejeitos, com ares mecânicos e objetivos. Sem instinto, sem se darem o luxo da falha ou da duvida. Pergunta atrás de pergunta numa mascara de tecnologia, soberba e vida inteligente. Sem paixão, sem vida, somente sobrevidas sobrevivendo pelo capital, não mais pelo ar.
O objetivo de Eric é claro: atravessar a cidade para cortar os cabelos e ponto final. Não interessa a ameaça de morte, não interessa os protestos que ele encontra pelo caminho. São eles justamente, juntamente ao sexo igualmente mecânico sem libido, que conferem um pouco de emoção a vida de um jovem gênio milionário e atormentado pelo meio em que vive.

O traço de humanidade orgânica do passado esta presente em momentos dispersos, como crianças tendo que assumir uma maturidade que não lhes cabe; ouvindo musica alta, em baladas, com luzes que distorcem sua realidade espacial, tomando pílulas e cegando as retinas nas telas iluminadas do computador. Sem ao menos poderem comprar uma cerveja legalmente – são crianças.
O próprio computador esta morrendo, o nome computador é velho, pertence a um passado que a sociedade atual tenta revisitar sem sucesso.
Cronenberg não abandona o terror, sua marca registrada. Com esse quadro ele traça um panorama que à medida que a narrativa avança, vai se tornando mais claustrofóbica, angustiante, assustadora e por isso mesmo maçante. Nossa vida se ressume há horas. Em um dia tudo muda. Nunca essa ideologia foi tão real e palpável como agora.
No meio do conturbado caminho a seu tão almejado corte de cabelo, nos deparamos com diversas paradas pelo caminho que salientam a máxima do filme: somos ratos. O dinheiro é um rato que nos persegue, mesmo mortos, nos traz doenças, uma infecção generalizada de esgoto, de defeitos. Ratos em rodas correndo sem cessar.
A própria limusine branca de Eric nos mostra esse mundo, onde sua poltrona assume o posto de trono. Um poderoso chefão pelo próprio bem.
Mas ele vai alem em seus questionamentos. Não é só no bolso e em volta que o tempo se apresenta ditatorial. A monarquia foi abandonada. Os bens da humanidade pertencem a quem pode pagar mais. – O tempo é cruel e absoluto organicamente, mesmo onde ele já fez questão de deixar tudo sintético.
Esse novo quadro, gerou seres humanos a um passo da loucura. A morte não assusta mais, a fome, a sede. A preocupação com o bem estar físico e emocional já não é prioridade, num mundo que só preza a procura e a oferta. Somos dados, números, não mais presença ou metafísica.

São jovens sem perspectivas, que só pensam em lucros sem saber como, tendo de enfrentar décadas de vivencia e responsabilidades e informações em semanas, são velhos que criam uma redoma de confusão entre o mundo que conheceram, entre as batalhas e revoluções que fizeram e deram errado, mesclando lembranças e desejos no mesmo patamar, numa conversa sobre taxis e mijadas numa barbearia que parece abandonada.

Os personagens aqui assumem o papel físico do capitalismo e seu povo. Cada personagem é uma peça num grande tabuleiro. O que vemos nada mais é do que os balanços da bolsa em carne e osso. Eric é o capitalismo, o novo capitalismo, protegido pelo meio, com nome em ascensão e com a estrutura em declínio.
“minha próstata assimétrica” – em dado momento da projeção, essa fala ressume bem toda a ideia do filme., uma vez que se parta da ideia de que a razão esta no corpo. Uma próstata assimétrica denomina normalidade, coesão, linearidade. Ao assumir sua próstata assimétrica, Eric busca o conceito de perfeição. Assim como o capital, o dinheiro, a humanidade. Sua maior força na realidade é sua maior fraqueza. Afinal não é pela busca da perfeição que se mantem o equilíbrio, e sim no imperfeito.

Contudo, apesar de toda a intenção e a premissa excelente num roteiro bem construído e denso, que lembra em seus melhores momentos a estética fotográfica e de designer de Vanilla Sky, com diálogos inteligentes e ágeis, e um cuidado excessivo de direção de arte e arte conceitual, figurinos e trilha sonora alarmista; Cosmópolis não é feito só de acertos.
A construção de personagens tão densos, onde o que importa são os olhares e atitudes e não tanto as emoções – já que essas na teoria proposta não se encontram mais- é falha, pela escolha de atores que não conseguem passar tal densidade. E não falo so de Pattinson.
Apesar do ator estar correto em sua postura  a La homens de preto, ou em seus melhores momentos um Alex DeLarger do novo século, falta algo natural, não só dele como de todo o elenco de apoio, para caracterizar nós humanos como a bomba relógio que somos. Inconstantes nesse novo quadro de realidade.
Grandes ratos primatas movidos a chips e moedas.
Falta verossimilhança no quadro, mesmo nas metáforas mais sarcásticas de Cronenberg (como o tiro com a arma pré-programada, como a morte de um rapper famoso ou mesmo no casamento fisicamente virtual.)
O filme peca na coesão fílmica de seus personagens. Se ele construísse um universo alheio, ficcional, tudo assumiria outro patamar. Mas não, ele se propõe a desmembrar nosso tempo, nosso dia a dia. Como se estivéssemos virados do avesso. Mostrar o que se esconde por trás de cada pagamento e troco.
Não convence.

Cosmópolis por fim chega a seu ápice em toda a sequencia memorável da cena do embate final entre Eric e sua possível ameaça. Os diálogos ali, as ações, a cenografia, os detalhes, a trilha e a fotografia e mesmo as atuações são soberbas e contem cada traço das melhores características que fazem o nome David Cronenberg. A contraposição entre a Elite e o proletariado da sociedade.

Com planos desconexos e enquadramentos com profundidade exasperada que conferem toda a tensão e descontrole mental de seu universo, Cosmópolis tenta ser um salto em queda livre, sem conseguir completamente.
É como se o filme tal qual o enredo que conta, se perdesse entre ser e estar ali na tela, sem saber muito a que veio e qual o sentido de estar ali.
Cronenberg se propôs corajosamente a colocar Cosmópolis como o novo Rato Branco de sua geração. Mas permanece sendo apenas um rato. Só um rato.

E ninguém foi salvo.

“O dinheiro tomou o poder.
Agora toda a riqueza é riqueza para o seu próprio bem.
Não há outro tipo de realidade. Como as pinturas o dinheiro também perdeu sua qualidade narrativa.
O dinheiro esta falando por si mesmo. É fantástico.
Ideia de tempo vivendo no futuro. Dinheiro faz o tempo. O relógio acelerou o crescimento do capitalismo. As pessoas pararam de pensar em eternidade e só se concentram nas horas.
Horas meditadas, homens hora, usando o trabalho de forma mais eficiente.
Foi a capital cibernética que criou o futuro.
Qual o tempo de um nanossegundo?
10 vezes menos 9 libras.
Agora o tempo é um bem corporativo. Pertence ao sistema livre de mercado.
O presente é difícil de se encontrar.
Esta sendo sugado para fora para dar lugar ao futuro incontrolável do mercado e dos investimentos.
O futuro tornou-se insistente.”






FICHA TÉCNICA

Diretor: David Cronenberg
Elenco: Robert Pattinson, Samantha Morton, Jay Baruchel, Paul Giamatti, Kevin Durand, Juliette Binoche, Sarah Gadon, Mathieu Amalric, Emily Hampshire
Produção: Paulo Branco, Martin Katz
Roteiro: David Cronenberg
Fotografia: Peter Suschitzky
Trilha Sonora: Howard Shore
Ano: 2012
País: França/ Itália/ Canadá/ Portugal
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos

#Duas analises interessantes sobre o filme e as citações apresentadas durante o longa ( sobre Zbigniew Herbert): Cosmópolis e o Poeta Traido e Cosmópolis ou o filme de nosso tempo






sábado, 29 de setembro de 2012

Critica: Polisse



Muitas coisas são capazes de nos chocar no dia a dia e durante nossas vidas. Talvez o ato de violência e a injustiça sejam dentre eles os que mais nos chamam atenção e nos incomoda.
Quando a violência é cometida contra uma criança – expoente maximo de nossos instintos de proteção, simbolismo de nossa ternura, e pureza- o choque é ainda maior, causa revolta e choque; e muitas vezes gera a mesma violência contra seus causadores e responsáveis.
Polisse, causa a mesma sensação.

O filme mostra a rotina da Brigada de Proteção ao Menor, em Paris, na investigação de aliciadores de menores, trombadinhas, pais abusivos e pedofilia. Ao mesmo tempo, o imprevisível Fred (Joey Starr) deverá aprender a cooperar com a impassível Melissa (Maïwenn), fotógrafa enviada pelo Ministério do Interior para realizar um livro sobre o trabalho da corporação.
Com direção e roteiro de Maïwenn, que também atua no longa, Polisse - Vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes de 2011 - é um retrato muito verossímil do cotidiano dos policiais que dedicam suas vidas no combate a violência e garantia de bem estar de menores de idade.

Com um ar documental, que lembra um pouco o filme “Entre os muros da escola”, o filme traça um panorama amplo de todas as repartições da Brigada de Proteção ao Menor, bem como revela a vida pessoal, e a relação Profissional versus Pessoal de seus policiais.
O filme mostra apenas situações baseadas em fatos reais, que foram observados pela diretora, pelo tempo em que acompanhou a rotina da Divisão de Crimes contra Menores da policia francesa.

O filme constrói uma narrativa elucidativa que critica desde as leis mornas dos países  ate a convenções políticas e a “cara” que a policia assume aos cidadãos. Sempre em tom de tensão, e repleto de cortes secos e planos longos, o filme só quebra a narrativa de urgência e dramaticidade quando nos leva a conhecer um pouco dos momentos de descontração do grupo da Brigada. Seu lado humano. Seus problemas pessoais.
Desde o inicio a trilha sonora que não é recorrente, é aliada a cenas de crianças que foram estupradas pelos próprios pais, a crianças que são obrigadas a vender o corpo em troca de proteção a suas mães. Tudo com um trabalho espetacular de atuações mirins que conferem um ar de realidade chocante. Em pouco mais de 30 minutos de projeção o espectador se vê completamente imerso naquela realidade a ponto de se esquecer de que cada fala, cada rosto ali é ensaiado.

A quebra do tom documental é feita pela fotografia em tons mornos, com paleta de cores em tons de cinza quase a todo o momento, que adquiri um tom mais pesado e alaranjado quando se trata da vida pessoal, residencial de seus personagens para conferir o tom de amargura e melancolia.
De todos os personagens de tão naturais que soam, os que mais nos chamam atenção de imediato é Fred e Iris.
Fred protagoniza um dos momentos mais tocantes da projeção, ao se agarrar fortemente a uma criança que é obrigada a se separar da mãe. Mas é Iris que esconde toda a narrativa. Não se enganem ela é a protagonista da historia, como fica claro próximo ao final do filme.
Maïwenn que assume a persona da fotografa, surge apenas como uma observadora da trama, mesmo que protagonize o momento romântico de quebra da narrativa do longa. E isso é espetacular.
Ao se introduzir na trama, Maïwenn se coloca na posição de maestro e musico e musica de sua obra. E talvez seja exatamente esse o grande trunfo da estrutura fílmica de Polisse. Talvez, seja por esse motivo que ele, que tinha tudo para se tornar um filme sintético e mecânico demais, adotar um tom tão orgânico e real.

A começar pelo seu titulo, Polisse (que faz alusão à palavra Poliss, que é o modo com que as crianças conseguem pronunciar o nome da policia) o filme traz em sua direção de arte elementos elucidativos de presenças infantis em seus detalhes (vide cartaz do filme). Repleto de takes com olhares e trejeitos.
É a festa por terem salvado um bebe, é a piada ao presenciarem um depoimento de uma menina que fez sexo oral nos colegas para recuperar seu celular, é a tensão de um treino de tiro ao alvo.
Polisse, assume reflexões e discussões há tanto tempo corriqueiras em nossos debates e pensamentos, que ferem, chocam e assustam. Traçam um universo global, onde o futuro do mundo, que esta sobre os olhos e mãos de crianças que aparecem apagadas, frias e perigosas, onde um deslize pode separar o erro da fatalidade.

Polisse é como um choro de um bebe: forte, potente, angustiante e ainda assim belo em sua perfeição. Um ótimo filme.





Ficha Técnica: 

Elenco: Karin Viard, Marina Foïs, Joey Starr, Nicolas Duvauchelle, Maïwenn, Karole Rocher, Emmanuelle Bercot, Frédéric Pierrot, Arnaud Henriet, Naidra Ayadi, Jérémie Elkaïm
Direção: Maïwenn
Produção: Alain Attal
Roteiro: Maïwenn, Emmanuelle Bercot
Fotografia: Pierre Aïm
Trilha Sonora: Stephen Warbeck
País: França
Classificação: 14 anos








sábado, 22 de setembro de 2012

Crítica: Heleno – O Príncipe Maldito

O Desbrilho de Uma Estrela e o Filme Fora de Campo 
Heleno – O Príncipe Maldito 





“Haverá um tempo não muito distante em que eu serei compreendido.
Quando eu for rei.
E vocês, insensíveis idiotas, vão ser os primeiros a reconhecer que eu fui um rei.
Dizem que eu vou morrer de arrogância e empáfia; mas eu vivi disso.
Serei lembrado e vocês não!
Gentalha, inútil, humilde e insatisfeita...
Eu já disse que não preciso que vocês me entendam, que eu não preciso do carinho de vocês.
Eu brilho!”.



A década de cinquenta, ficou marcada como a década dos grandes avanços científicos, tecnológicos e mudanças culturais e comportamentais em todo o mundo. Foi a década em que começaram as transmissões de televisão, provocando uma grande mudança nos meios de comunicação. No campo da política internacional, os conflitos entre os blocos capitalista e socialista (Guerra Fria) ganhavam cada vez mais força. A década de 1950 é conhecida ate hoje como o período dos "anos dourados". 
Aqui no Brasil não era diferente. 
No futebol, por exemplo, o Brasil se preparava para receber a Copa Do Mundo em seu recém-inaugurado Maracanã, onde nosso maior futebolista da época se consagraria campeão do mundo. Não foi isso que aconteceu. 
O Brasil perdeu para o Uruguai pelo placar de 2 a 1, e Heleno de Freitas jamais pisou em campo.

Com direção de José Henrique Fonseca, e baseado no livro “Nunca houve um homem como Heleno”, do jornalista Marcos Eduardo Neves, o filme “Heleno – O príncipe Maldito”, conta a historia de um dos maiores jogadores de futebol sul-americano da historia. 
O jogador de futebol Heleno de Freitas (Rodrigo Santoro) era considerado o príncipe do Rio de Janeiro dos anos 40, numa época em que a cidade era um cenário de sonhos e promessas. Sendo ao mesmo tempo um gênio explosivo e apaixonado nos campos de futebol, além de galã charmoso nos salões da sociedade carioca, tinha certeza de que seria o maior jogador brasileiro de todos os tempos. Mas seu comportamento arredio, sua indisciplina e a doença (sífilis) foram minando o que poderia ser uma grande jornada de glória, transformando-a numa trágica história. 
Essa é a premissa. Essa é a historia, essa é a proposta, mas não foi bem assim que a banda; ou melhor; que a partida rolou.

Com uma narrativa confusa, um roteiro com ótimos diálogos, mas com profundos erros de estrutura e coesão de intertextualidade, o filme peca demais em tentar mostrar um personagem atormentado e sem traços de empatia, e ainda assim emocionar o publico.
Para que haja um arco dramático valido é preciso que se crie uma narrativa no qual cada ato do personagem central forneça algum tipo de redenção no final, seja ela qual for.
O enredo, a vida de Heleno tem todo um arco narrativo precioso para se contar uma boa historia, principalmente pelo período em que Heleno viveu. 
O mundo vivenciara duas terríveis guerras mundiais (Heleno nasceu na década de 20), num período fértil para os avanços tecnológicos, políticos e sociais do planeta. Aliados a um temperamento explosivo, a paixão pelo futebol e todo o drama pessoal, como a doença que detinha e consequentemente os problemas mentais que adquirira ao longo do caminho, o diretor José Henrique Fonseca tinha um alicerce extenso de possibilidades para fazer de Heleno – o filme- uma obra prima ou no mínimo uma película interessante. E isso não acontece.

O que vemos durante as quase 2horas de projeção, é um personagem inconstante, sem traços de empatia por ninguém, alem da família- que alias mal aparece, e é raramente citada- briguento, confuso; literalmente um 'borra-botas', mulherengo, beberão e viciado em cigarros. Não há toque humano nele, não há motivos aparentes para toda essa birra, todo esse sofrimento existencial que o personagem parece ter, não existe causa motivo ou razão, origem para tal panorama criado. O longa parece partir do pressuposto de que todos que assistem ao filme, já estão inseridos no mundo de Heleno, no período histórico ao qual ele se passa, e principalmente ao livro ao qual ele é baseado. Não há explicação alguma sobre nada.
O filme só deixa claro que Heleno era problema e ponto. Ele jogava futebol e ponto. Ele era devoto ao botafogo e ponto. Ele gostava de mulher e ponto. E ele queria ser rei e ponto.
Nada mais.
O filme é amparado por uma magnífica direção de arte, que teve o cuidado de induzir detalhes pequenos para transpor a sensação de que realmente estamos nos anos 40/50. O figurino, a utilização de tecidos lisos, a ambientação desde as ruas, objetos de cena e mesmo a caracterizações de figurantes. Tudo molda um cenário fabuloso e impressionantemente verossímil do Brasil, mais especificamente o Rio de Janeiro dos anos 50. 
Aliado a uma trilha sonora repleta de bolero e musica clássica, e uma edição de som razoável; o ponto alto do filme, contudo fica para a sua fabulosa fotografia em Preto e Branco luminosa, chefiada por Walter Carvalho. 
Contrastes de preto e branco que tenta- sem sucesso – se assemelhar aos filmes noir da década de 30, com texturas granuladas e desfoque, as imagens reproduzidas impressionam pela ousadia e pelo esmero.
Os enquadramentos e planos também são muito bem produzidos e filmados, que dão o tom acertado em mostrar o desequilíbrio mental de Heleno. 
Isso é visto quando o enquadramento aparece em transversal, as sombras desaparelhadas, as formas e figuras que assumem desnivelamento. As cenas em que a câmera surge tremida ou acompanhando o movimento do personagem. Em especial uma bela cana em que Heleno (Santoro) aparece em meio a uma crise de nervos olhando diretamente para a tela. A utilização de espelhos e alguns momentos esfumaçados. É Lindo de se ver, ainda mais se considerarmos ser uma produção brasileira que não tem o costume de apostar em tais recursos estéticos.
Alias, a escolha da produção em Preto e Branco foi um acerto.  
Isso nos passa a nítida sensação de que estamos no mundo de Heleno, em sua mente, e não apenas vendo sua historias.
Nesse ponto, podemos pressupor que foi essa a intenção dos roteiristas. O filme parece querer nos mostrar apenas a confusão de Heleno, suas paranoias, seus medos, sua inconstância.  Sem se preocupar em dar dados históricos ou mesmo sobre o próprio personagem. O que parece importar ali é apenas a mente confusa de Heleno.  A Montagem do filme é feita assim, com flashes, sem linearidade na edição, as elipses de tempo passeiam em segundos pelo tempo e espaço sem explicação e sem nos dar chance de nos situarmos, não há o mínimo indicio dessa mudança alias, nem através da imagem - os tons nunca mudam - e nem pela trilha sonora. Só se percebe que estamos diante de outra época, pela caracterização de Heleno, pela maquiagem apresentada – que é exemplar, ao nos mostrar os efeitos que uma doença como a sífilis, aliado a uma vida desregrada de vícios podem causar-.
Se foi essa a intenção, ok! Mas duvido...

Saímos da projeção, com a nítida sensação de que não conhecemos o tal aclamado Heleno de Freitas. saímos da projeção com a sensação de engano. Um filme de futebol que não é sobre futebol. é sobre um jogador de futebol. Mas nem isso fica claro. Ele poderia ser um sapateiro, que não faria diferença nessa construção de narrativa.

Mas nem mesmo esses erros, que deixam o filme a desejar, e que entristece por causa do excelente trabalho técnico, são suficientes para descartar completamente o filme. A projeção se firma e se segura única e exclusivamente pela atuação impar e monstruosa de Rodrigo Santoro.
Varios quilos mais magro, com trejeitos surpreendentes e um trabalho de voz e corpo intenso, Rodrigo encarnou o personagem de maneira sublime. É ele que dá o tom exato de cada cena, de cada drama. 
É o tipo de atuação instintiva. Há uma cena em particular, onde Heleno já no sanatório esta participando de uma confraternização com seus colegas de hospital - onde suspeito que ao menos alguns dos figurantes ali realmente possuíam algum tipo de transtorno psicológico-; em que a câmera permanece gravando enquanto eles conversam amenidades e Rodrigo Santoro interage com um deles, oferecendo-lhe um cigarro, ao que o outro recusa veementemente. 
Essa cena não acrescenta em nada na projeção como um todo, mas é indispensável para mostrar a relação e o trabalho do ator ao se somar tão intensamente ao papel  ofertado. 
É o tipo de atuação que é impossível não ficar admirado e aplaudir de pé cada movimento do ator em cena. Memorável.

O filme ainda conta com a atuação de Aline Moraes como Silvia, a espoça de Heleno (que na realidade se chamava Elma); Angie Cepeda como a cantora de cabaré e amante do jogador (numa tentativa obvia de caracteriza-la como a referida Rita Hayworth ), e Othon Bastos.

Vale deixar registrado que o filme cria uma alusão ao clássico filme Gilda (Gilda, 1946), de Charles Vido, com a famosa atriz estadunidense Rita Hayworth; tanto pela comparação que os torcedores do botafogo faziam com Heleno à época devido a seu temperamento bruto, semelhante a da personagem, quanto na escolha pelo Preto e Branco, pela tentativa Noir de ser, e pela trilha sonora.

A sensação que fica é que sim, Heleno - o Filme vale a pena, tem seus méritos, principalmente pela ousadia de seu projeto e pelo bom gosto e pela atuação memorável de Rodrigo Santoro, que este sim conseguiu se firmar Rei aqui.
Mas se como o dialogo inicial, no monologo de Heleno, logo no inicio da projeção dizia, que “haverá uma época em que o mundo compreendera e saberá quem foi Heleno de Freitas”, infelizmente o tempo gasto com a projeção é perdida. 
Teremos que continuar a esperar essa época chegar. 
O jogador pode ate ter brilhado, mas o filme permaneceu piscando, num amistoso sem nenhum gol de placa.

“...Olho no lance...!”



Trailer Oficial: 



FICHA TÉCNICA:

Diretor: José Henrique Fonseca
Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Othon Bastos, Herson Capri, Angie Cepeda, Erom Cordeiro, Orã Figueiredo, Henrique Juliano, Duda Ribeiro
Produção: José Henrique Fonseca, Eduardo Pop, Rodrigo Teixeira, Rodrigo Santoro
Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança, Fernando Castets
Fotografia: Walter Carvalho
Duração: 116 min.
Ano: 2010
País: Brasil
Gênero: Drama
Cor: Preto e Branco
Distribuidora: Downtown Filmes
Classificação: 14 anos









quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Entre a Coexistência o XX da Questão



O trio londrino The XX surgiu em meados de 2009 com seu álbum de estreia intitulado “XX”. Formado por Romy Madley Croft (vocais e guitarra), Oliver Sim (vocais e baixo) e Jamie Smith (beats e produção) – e ate novembro do mesmo ano Baria Qureshi (teclado) que saiu, não sendo substituída ate hoje.
Em pouco tempo, critica e publico se entregaram de forma satisfatória e entusiasmada ao álbum que logo se tornaria um dos mais bem cotatos da ultima década.
O que justifica tal exaltação, fora a forma fora dos padrões do Rock alternativo que eles trouxeram. Alias classificar The XX como rock alternativo entre uma faixa e outra de “XX” já se apresenta como um erro, ou no mínimo um equivoco.
O álbum repleto de inventividade e vida trazia entre letras pesados, de dor e tristeza, sons densos e viscerais ao mesmo tempo, com distorções e sobreposições de vozes, entre canais diversos de áudio.
Soava quase como algo entre o Indie e o Pop minimalista.
XX” é repleto de singles-hits. Por conterem refrões que grudam e são rapidamente absorvidos – a voz sempre sussurrada de Romy ajudam na sensação de leveza-.

Um álbum de estreia desses, claro que tem seus pontos bons e seus pontos ruins, no que diz respeito ao futuro. Se antes Romy , Jamie e Oliver eram apenas 3 pessoas tímidas e talentosas fazendo seu som; hoje, eles são um  dos grupos mais bem vistos do mundo da musica.
E claro que todos esperavam demais de um próximo álbum, afinal: será que eles seriam artistas de um álbum só?

Depois de tanta espera e ansiedade, acaba de vazar o mais novo trabalho do trio que tem previsão de lançamento oficial apenas em Outubro de 2012.
O novo trabalho vazou a poucas semanas e recebeu o nome de “Coexist”.
Bem, ouvi o álbum – que estava esperando há muito tempo confesso – e após algumas audições, resolvi deixar aqui minhas impressões de um dos álbuns mais bem fechados do ano ate agora, e emblemático também.

A primeira musica a ser liberada e trabalhada pelo trio, foi Angels, que abre “Coexist”.
Se o normal é que a musica de abertura soe como uma amostra do que o álbum tem a oferecer, ‘Angels’ é totalmente avessa a esse padrão.
Angels’ é de longe a melhor faixa do álbum. Ela parece ter sido algo que escapou das garras de “XX”. Chega a ser gritante o quanto ela parece não se encaixar em “Coexist” apesar de estar La,compondo-o sem muitos alardes.
A faixa é simples, em sua estrutura, mas possui tantas nuances e texturas ao longo de seus quase 3 minutos de leveza, que é impossível escuta-la sem se emocionar ou permanecer tocado pelos sussurros melódicos de Romy. A letra versa sobre alguém que tem amor dentro de si, e vê tal sentimento como um anjo de asas sedutoras e belas, ao qual ela canta em seu silencio, como se assim tornasse ele real, e pudesse se certificar que tudo não passa de algo passageiro (uma vez que a faixa deixa claro que tal amor só poderia ser tão forte e real se fosse perfeito como as asas de um anjo).

Chained”- possível forte single -, traz Romy e Olivie dividindo os vocais num duo deliciosamente harmônico. Novamente o tom sussurrado e leve, num ritmo de progressão baixa, mas mesmo assim progressiva. Apartir dessa faixa, tudo o que você ouviu em “XX” deve ser deixado de lado. Não são os mesmo, é um novo The XX. Não do ponto de visto inovação, mas do ponto de vista densidade.
Coexist cai numa onda de introspecção e lirismo absurdo. Uma calma onde o silencio se faz presente. Em forma de musica. Sobreposições inspiradas de canais de voz dão base para a historia que o trio quer nos contar – ao pé do ouvido.
Fica claro que ‘Coexist’ tal qual seu nome pretende coexistir entre a visceralidade de 'XX' e a melancolia desse novo trabalho. ‘Coexist’ é uma imersão. Esqueça as baladinhas pop meio Indies e Rockers de outrora, o que se ouve aqui, são os sentimentos de alguém que esta se voltando para dentro. É como se eles tivessem saído da toca em 2009 e resolvessem voltar para o casco agora. Evoluir voltando para dentro e não para o mundo.
O álbum segue com “Try” e “Tides” mais a frente. Esta primeira que talvez, ao lado de ‘Angels’ e “Missing” logo adiante, são as únicas com potencial para virarem Hit’s.
Novamente em “Try” Olivie e Romy dividem os vocais.

Em “Reunion”, que pode soar a primeira vista chata e um tanto o quanto repetitiva, traz um trabalho excepcional de Jamie, que se segue ate “Sunset”.
Como já dito, “Missing” tem um potencial enorme de virar segundo Single. Sua letra que versa sobre a duvida de um amor. Se ele ainda existe ou não.
Mas é “Tides” que contem o surto criativo visto em “XX”. Uma faixa deliciosa, com uma combinação deliciosa das vozes de Oliver e Romy, em batidas ressonantes impossíveis de se ouvir parado. Alias única faixa “baladinha” talvez e por isso mesmo candidata a possível single.
Então surge “Unfold” que é um prelúdio lúdico e psicodélico, repleto de texturas e sensibilidade um tanto o quanto sombria que mostra que Coexist tem força onde menos se espera: na calmaria.

Em suma, ‘Coexist’ pode ser descrito como um ode a melancolia e ao resguardo dos sentimentos. É introspecção. O visceral só ocorre de dentro para fora, não deles, mas de quem escuta. Coexist é a “droga” que nos conecta com o mundo de catarse intima e pessoal.

Nem melhor e nem pior do que “XX”, o novo The XX surge consciente do que são, firmam sua identidade musical, e demonstram amadurecimento e domínio de uma linguagem há tempos esquecidas na atualidade gritada: o menos é mais. E no que o XX da questão aqui é Gigante!
Nota 8.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Avenida da Inventividade



“Me vê uma cachaça. Serve aí.
O que é que foi, nunca viu uma mulher bebendo?
Preciso muito de um trago pra lamber o chão. Fui muito idiota mesmo.
A vida é um lixo.
Não existe justiça, não existe lealdade, amor... Amor?
Balela.
Invenção de livro, de filme, novela...
Sabe pra que? Pra fazer ó (dinheiro)...
O ser humano é uma coisa que deu errado.
Deus? Deus fez errado. Errou!
Essa mania, foi querer criar o mundo em seis dias...
Coisa de homem mesmo, lambão! Lambão!
Tinha que dar errado.
Que droga de vida é essa?
Pra que a gente vive? Pra esperar a hora de morrer?
O que é que vale a vida? Nada! Nada!
Ei, você, me recolhe aqui. Eu sou igual a isso aí que vocês estão recolhendo.
Um bando de porcaria estragada. Estou assim bem vestida mas vim do lixo.
E fui jogada no lixo de novo.
Estou de volta no lixo. Meu lugar é o lixo.
Toca pro inferno, motorista. "


Poderia ser apenas mais um texto brilhante e pesado de alguma literatura qualquer, que nos toca pela identificação e consciência instigada a cada frase e cada parágrafo. Se não fosse o fato, desse texto na realidade ser um monologo de uma personagem – vilã- da teledramaturgia. No caso, brasileira, e se tratando de uma novela.
Tal monologo foi declamado e apresentado ao publico, em horário nobre, na ultima quarta feira dia 8 de agosto.
A novela? Avenida Brasil.

Com 11 anos de idade, a menina Rita sofre um duro golpe, que deixará marcas para o resto de sua vida.

Órfã de mãe, ela foi criada por seu pai Genésio (Tony Ramos) e pela megera madrasta, Carminha (Adriana Esteves), que consegue, após a morte de Genésio, roubar a casa, a família e os sonhos da enteada. Porém, mesmo com a vida sofrida, Rita não fraqueja e mantém viva a sede por um acerto de contas.
Em busca de justiça, a garota deixa seu triste passado para trás e se transforma em Nina (Débora Falabella), uma mulher firme e preparada para as surpresas da vida.

Avenida Brasil é uma novela de João Emanuel Carneiro, com direção de núcleo de Ricardo Waddington. (fonte: "Na Telinha")*

Avenida Brasil, tem estado entre todos os tópicos e discussões de mesas de bar e mesas de jantar familiares, como qualquer outra novela global, semestre após semestre. Mas o que vem chamando a atenção não é sua trama repleta de vingança e dualidade, nem mesmo sua trilha sonora duvidosa ou seu elenco comum – que aproxima o telespectador à trama. Não. O que chama a atenção em Avenida Brasil é justamente sua produção.
A novela tem ares cinematográficos que colocam em check tudo o que já foi feito e mostrado pela própria emissora, inclusive em termos de series e minisséries. Há um cuidado “anormal” em figurino, figuração, iluminação, fotografia, enquadramentos e principalmente em construção de personagens e roteiro.
Não que seja perfeito, alias muito pelo contrario. Conforme os capítulos avançam nos deparamos com a incapacidade obvia e compreensível dos autores de sustentarem a trama a um enredo verossímil aceitável, uma vez que abusaram na velocidade sempre em tom de urgência -  a La capítulos finais -  no inicio de tudo. Isso faz com que se esgotem os chamados “encher linguiça”. Assim o que se foca é em tramas do núcleo de apoio que só faz divertir e se torna muito pouco interessante diante de todo o drama – exclusivo – causado pela trama central Nina versus Carminha e suas vinganças.
A verossimilhança tão bem executada no inicio da novela esta se perdendo, ao passo que o folhetim ganha status de ficção Tarantinesca.
O que impressiona mesmo é a capacidade que os autores tiveram em construir duas personagens centrais tão ambíguas e tão carregadas de traços psicológicos e emocionais instáveis. Nina e Carminha se confundem em seus papeis.
Não há como definir quem é a vilã e quem é a mocinha da trama. Cada qual teve e tem sua parcela de vilania e sua parcela de vitima na historia. Uma historia que se cruza e escurece com segredos e loucuras, que colocam a razão do embate entre as duas em check.
Ambas se assemelham muito, nos gostos, trejeitos e ate na forma de falar e agir. Os físicos das duas também se emparelham, bem como suas ações. Contudo – e aqui é analise pessoal – é interessante constatar como o ódio entre as duas parece dar vazão a um amor, ou apego avesso.

Não é raro, por exemplo, as duas trocarem toques que beiram a sexualidade. Ou mesmo as maldades de ambas que chegam ao limite da loucura e da perversão, enfraquecerem diante da possibilidade de real ferimento físico. Uma cena em questão – que foi ao ar ontem também – em que Max (amante de ambas) empurra Carminha e esta se fere contra a porta aberta. Ao ver que Carminha sangra a câmera nos mostra muito rapidamente o olhar e expressão de Nina, que se antes demonstrava satisfação pelo descontrole da rival, se mostra agora um pouco preocupada com o ferimento.
De fato, a construção psicológica e emocional de ambas é algo extremo e muito bem delimitado, o que instiga o publico.

Mas o ponto alto se deu mesmo na cena final do capitulo de ontem.
Carminha após sofrer um acidente de carro, anda a esmo pela cidade, devastada e com a face ensanguentada, a beira do abismo, totalmente desequilibrada e arrasada. Para num bar de rua, e pede uma cachaça. E é então que se põe a declamar o texto que iniciou esse texto.
Ela sai de seu carro destruído, e caminha em uma rua, emparelhada com um “muro” de arames farpados (a psicanálise pira).
Então algo acontece. Um surto de inspiração da produção da novela, e que nos traz um clássico contemporâneo da teledramaturgia brasileira, numa cena histórica e memorável em varias escalas:
Atuação impar de Adriana Esteves, repleta de dramaticidade, de peso, de entrega no olhar, na impostação de voz, nas alterações faciais. Numa mescla entre atriz e persona sem igual ate então na trama, imortalizando-a com certeza apenas por essa cena, como Carminha.
A câmera a todo o momento tremida, focando e desfocando alias, sempre em plano semi fechado no rosto da personagem, nos fazendo participar da cena. Como se estivéssemos ali, tomando um porre – pago por ela- e olhando em seus olhos sua decadência e raiva pela vida falha.
A trilha abandona o tom de ação e passa por notas melancólicas, cada vez mais intensas, mas sutis.
E o texto se complementa as metáforas da cena, desde a rica no bar de rua e a cachaça barata, ate suas roupas e visual impecável, mas com sangue seco na face.

Ate o gozo final que inspira tal texto, com toda sua historia e trama,a referencia do texto ao lixo, e o carro de lixo a levando diretamente para seu inferno, seu lar, o lixão – os restos humanos descartáveis, sem possibilidade de mudanças, sujos, fétidos, tais quais sua vida falha, cansada e acabada-. É um deleite para amantes assim como eu de tais textos.

Não sou noveleiro, alias como disse vejo falhas intermináveis na novela, mas de fato, não há como negar, Rede Globo pode ser um câncer de mídia ao publico, mas que essa novela esta fazendo um belo Oi Oi Oi na historia da nossa televisão, isso ela esta. De fato é de aplaudir de pé e degustar a obra entregue. 
No mais, melhor somente assistirmos, pois provavelmente Freud deve estar se revirando em sua imortalidade querendo bater um papinho com alguns residentes de Avenida Brasil. E com isso nem eu e nem Nina podemos competir.

Assista o monologo final em questão(e se puder confira o episodio completo) : Clique Aqui



Ficha Técnica

Criação: Marcos Pedrosa; Andre Regnier; Eduardo de Castro
Direção de Criação: MP
Direção: Marcelo Presotto
Produtora: 111
Prod Som: Jamute

Elenco:

Débora Falabella – Nina 
Murilo Benício - Tufão
Adriana Esteves – Carminha 

Cauã Reymond – Jorginho 
Heloisa Perissé - Monalisa 
Isis Valverde – Suéllen   

Marcelo Novaes – Max  
Vera Holtz – Lucinda


Saiba Mais sobre o enredo na novela>> Vai lá*