Pages

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Crítica: Paraísos Artificias




Érika (Nathalia Dill), talentosa DJ, conhece Nando (Luca Bianchi) por meio de sua melhor amiga Lara (Lívia de Bueno) em um festival de música eletrônica, no qual os três vivem intensos momentos. Mas o destino os separa. Anos depois, Nando e Érika se reencontram em Amsterdã e se apaixonam, mas somente Érika sabe o que aconteceu naquela noite que marcou a vida dos três para sempre. O reencontro do jovem casal irá transformar novamente suas vidas.

Filmes retratando o mundo das drogas não é novidade no cinema. Filmes ícones de uma geração como Transpotting ou mesmo Réquiem, são exemplos eficientes desse tema.
Paraísos Artificiais do diretor Marcos Prado; como seu próprio nome sugere, retrata um universo de imersão as drogas de maneira elucidativa.

Amparado por uma cuidadosa fotografia orquestrada brilhantemente por Lula Carvalho, repleta de tons claros e vibrantes, paleta de cores intensas que explodem literalmente na tela, o filme carrega em toda a sua projeção a alusão de que estamos diante de um verdadeiro paraíso, a beleza plastica é notável. É interessante ver por exemplo como a fotografia impregna tons secos e mais escuros, voltados pro azul e branco quando estamos em Amsterdã, e como ele volta para o multifacetada paleta de cores de Pernambuco, com mais brilho e iluminação forte, e como volta da mesma maneira para o interlúdio de passagem de tempo no Rio de Janeiro, já com cores mais brandas, carregadas em tons alaranjados. A noite assume a cor azul, dando mais vazão a sensação de entorpecimento. 
Luzes neon, sons viscerais e catárticos, tudo confere a produção um esmero sensacional de tecnicalidade.
Planos e enquadramentos eficientes compõe boa parte da projeção, e que aqui assumem o papel de transpor ao espectador as sensações de fascínio e confusão proeminentes do uso das drogas. - vide cena em que se mostra uma grande Rave a céu aberto. Extremamente eficiente à montagem paralela usada e os planos abertos, com cenas contendo uma velocidade quase nauseante.

Com uma montagem eficiente que auxilia na não linearidade de seu roteiro, o longa ainda conta com atuações primorosas, e concepções de cena lindíssimas, como quando nos leva ao ambiente urbano e frio de Amsterdã, ou as praias paradisíacas de Pernambuco.
Ainda consegue acertar numa edição coesa e impecável que confere naturalidade as cenas exibidas. Tudo em cena, flui organicamente.

Mas o problema esta justamente, novamente, no que seu titulo denuncia. Os personagens são artificiais demais. o filme jamais mergulha de fato no submundo proposto.
E isso não é demérito dos atores não, que muito pelo contrario exercem seus papeis com maestria. O problema esta na construção de personalidade dos personagens, lá no roteiro.
Apesar de o enredo ser interessante, a narrativa não conter muitas falhas, talvez pecar demais nas elipses de tempo, que são desnecessárias em certo ponto, o filme carrega uma ode de superficialidade nas escolhas e motivações internas de seus personagens centrais.

Não há a abertura do mínimo de envolvimento de apego com Nando. Chega a ser dispensavel a subtrama do irmão de nando e mesmo seu envolvimento com os traficantes. Mesmo Érika que é a mais coerente ali, não consegue transmitir força de temperamento e ideologias, mesmo emocionais que justifiquem seus atos, e seus dramas. Uma mãe que tenta ganhar a vida como DJ e vê as drogas como porta e machado de sua vida. É tudo muito vazio, muito raso. Tudo soa – por falta de expressão melhor – teatral demais. Não convence. É como se os personagens não merecessem o filme a que estão inseridos.
O primor dos filmes com tal tema é justamente demonstrar a densidade que o mundo das drogas possui. E veja que aqui nem falo de julgamentos morais não. O que alias é um ponto alto para Paraísos Artificiais. Que se limita a simplesmente apresentar e mostrar tal mundo, tais escolhas sem nunca julgar, ou pender a narrativa descriminando ou fazendo apologia ao uso.

Ainda assim o filme se sustenta por conter mais acertos do que falhas. E é interessantíssimo constatar a evolução imagética do cinema nacional com Paraísos Artificiais. Muitos taxam essa mudança – evolução – como uma forma pejorativa de perda de identidade visual nacional. Besteira em minha opinião. Cada filme necessita de uma abordagem e um tratamento estético próprio, independente do país e cultura de origem.

Dito isso, Paraísos Artificiais é um grande filme, tecnicamente infalível, coeso, interessante, ousado e gostoso de assistir.
Mas poderia ir alem. Muito alem.






FICHA TÉCNICA:

Diretor: Marcos Prado
Elenco: Nathalia Dill, Luca Bianchi, Lívia de Bueno, Bernardo Melo Barreto, César Cardadeiro, Divana Brandão, Cadu Fávero, Erom Cordeiro, Roney Villela, Emilio Orciollo Netto, Mathias Gottfried, Yan Cassali.
Produção: José Padilha, Marcos Prado
Roteiro: Cristiano Gualda, Pablo Padilla, Marcos Prado
Fotografia: Lula Carvalho
Trilha Sonora: Rodrigo Coelho, Gustavo M M
Duração: 96 min.
Ano: 2012
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos










Crítica: Incêndios


“Jeanne, um mais um é igual a um?”


Incêndios começa no Canadá. E conta a historia dos irmãos gêmeos Jeanne (Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon (Marwan Maxim) que acabaram de perder a mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal). Após a morte da mãe, ambos são levados ate o tabelião da família que lhes informa do testamento deixado por ela aos filhos, que consiste em pedidos e vontades. No documento, Nawal pede que seja enterrada sem caixão, nua e de costas, sem que haja qualquer lápide em seu túmulo. Ela deixa também dois envelopes, um a ser entregue ao pai dos gêmeos e outro para o irmão deles; irmão esse que os gêmeos desconheciam a existência. E pai esse que jamais conheceram. Somente depois da missão de encontrar o irmão desaparecido e o pai ate então que eles julgavam estar morto, e entregar os respectivos envelopes a eles, é que os gêmeos poderão enfim enterrar sua mãe, com lapide e as honras pós-morte e receber uma ultima carta final. Para honrar a vida e memória da mãe sofrida eles tomam e respeitam a ultima vontade da mãe. É o início de uma jornada em busca do passado da mãe, que os leva até a Palestina. E a horrores de guerra e destino que os marcarão para sempre.

Com um fio condutor intenso, Incêndios, do diretor e também roteirista Denis Villeneuve; e baseado numa peça de sucesso de Wajdi Mouawad; é um filme que traça uma narrativa forte, poderosa e que tem tudo para entrar definitivamente para os anais dos seletos filmes clássicos e tecnicamente sem falhas do cinema.
Com atuações primorosas, o filme cai fundo nas relações humanas e familiares, alem de trazer um palco de melancolia e angustia extrema. Chega a ser palpável os sofrimentos ali vividos.
Numa verdadeira fabula de encontro com o passado e a verdade, Jeanne a filha mais velha, parte rumo ao país de origem de sua mãe; o Líbano; passando pela Palestina.

Aqui a estrutura narrativa dá um salto no tempo e nos transporta ate a década de 70, em plena guerra civil libanesa.
Em uma montagem parcialmente paralela, vemos os caminhos de mãe – no passado- e filha – no presente -, se intercalarem. FlashsBack nos conduzem aos passos traçados pela mãe. Isso nos dá informações sobre esse passado, e esse enigma que a filha deve desvendar para achar o irmão desconhecido e o pai, para fazer a ultima vontade da mãe. Com essa estrutura, o filme já começa a aterrorizar, ao sabermos sempre um pouco mais que a protagonista e vermos irresolutos sua descoberta, por algo que já temos ideia de quão horrível pode ser.  E é interessante como a escolha das atrizes foi pertinentemente semelhante. As duas se confundem esteticamente na tela, o que nos leva a crer que a filha entra no mundo da mãe como ninguém mais. E assim a escolha de montagem se apresenta não só eficiente a trama, mas também acertada.

Com planos em sua maioria abertos e sequências longas, a ação é o que predomina; os atos, nem tanto os diálogos. Ainda assim os que surgem são de extrema importância e inteligência.
Com uma fotografia que preza por uma paleta de cores amenas, bem cinza, e em raros momentos (geralmente quando mostra o passado) carregada de vermelho e preto, o filme tem ares de um filme de guerra, seja por sua direção de arte que cria um ambiente bucólico e alarmista, seja pelo enredo que utiliza mais de quatro atos de reviravoltas, e edição rápida em certas cenas ou com planos com câmera na mão, e travellings de afastamento que seguem seus personagens.

É espantoso como o filme consegue mostrar com o mesmo tom, massacres, estupros, abusos e mortes brutas, e lirismos, delicadezas e cenas poéticas  O filme trata em termos religiosos- apesar desse não ser o foco - com o mesmo peso a parte muçulmana e a parte cristã.
E mesmo os dramas mais "novelas mexicanas" possível, são apresentados com total realidade, sem soarem piegas ou forçadas. A trama nunca se deixa cair no dramalhão, melodramatico, sempre se mantem centrado e eloquente. 

Contando ainda com uma trilha sonora suave, em tons graduais, Incêndios carrega em seu desfecho o ápice dos filmes da ultima década.
Na cena em que o filho Simon, volta de sua parte da missão, carregando uma informação importante sobre a própria historia e o passado da mãe; ele e Jeanne estão num quarto de hotel, sentados numa cama.
com um enquadramento em plano médio e fixo, e ligeiramente em contra-plongée, observamos o dialogo e as expressões dos irmãos a compreender aquilo que lhes foi informado. e é belo a maneira que a cena é construída  em fotografia apaga, quase sem iluminação(o único foco de luz provem do corredor ao fundo, da porta do quarto entreaberta) e com a ausência de trilha sonora. o silencio absoluto cortado apenas pela voz e respiração dos dois personagens, é amedrontador e ao mesmo tempo tocante. Causa exatamente o baque que um clímax como um filme desses merece.

É complicado tratar de incêndios, falar sobre seu enredo sem entregar muito de seu desfecho, bem como qualquer informação mais detalhada, é o tipo de filme que não é possível contar muito sem tirar seu sentido narrativo de ser.

A unica ressalva que faço, fique talvez na escolha da parte em que escolheram finalizar a narrativa. Creio que para o enredo todo carregado ao qual veio se firmando, terminar talvez uns 5 minutos antes do que realmente terminou seria mais coeso. A sensação que fica é que os 5 minutos finais de projeção foram incluídos mais para tornar o filme "compreensível" para um grande publico, ao invés de manter o tom elucidativo a que vinha caminhando. Ao final ele entrega sem meios para interpretação pessoal, a verdade ali escondida, onde seria muito mais interessante, deixar a "missão" ao espectador compreender, cair  a ficha, assim como cai para s personagens sem a necessidade de dizer com palavras explicitas. Mas isso não tira em nada o mérito da projeção, é apenas questão pessoal aqui.

Basta dizer, por tanto, que incêndios, que já inicia com sua excelente metáfora em seu titulo, é um verdadeiro primor, umas das melhores surpresas da ultima década, numa projeção, densa, intensa, sombria, emocionante e extremamente coesa e perturbadora.

Uma experiência visceral do inicio ao fim.





FICHA TÉCNICA

Diretor: Denis Villeneuve
Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Rémy Girard, Allen Altman
Produção: Kim McCraw, Luc Déry
Roteiro: Denis Villeneuve
Fotografia: André Turpin
Trilha Sonora: Grégoire Hetzel
Duração: 130 min.
País: Canadá
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos









terça-feira, 2 de outubro de 2012

Crítica: Once (Apenas Um Vez)


"Eu não a conheço, Mas a quero ainda mais por isso"



Pelas ruas de Dublin, um jovem (Glen Hansard) toca suas composições próprias para arrecadar alguns trocados. Passando um dia por acaso, uma pianista imigrante tcheca (Markéta Inglová) se encanta pelas melodias e entra, sem querer, na vida do escocês. Quando menos percebem, os dois estão compondo canções sentimentais juntos, mas encontram algumas dificuldades para dar início a um romance. Ela é casada e ele vem de um relacionamento amoroso frustrado.

É fascinante como Once (Apenas Uma Vez) consegue imprimir verossimilhança e delicadeza em seu enredo, que parece simples, mas que esconde uma complexidade de relacionamentos intensa.
Desde o inicio, somos apresentados a um filme com ares de documentário, seja pela sua fotografia nada rebuscada, seja por seus planos oscilantes com câmeras sempre em mãos, imagens por vezes desfocadas, enquadramentos desconexos, planos ora muito abertos, e ora fechados demais, ou mesmo por sua montagem com seus cortes repetidamente secos e suas elipses de tempo e espaço bruscas. Tudo isso poderia caracterizar erros ao filme. Mas aqui é o maior acerto que o diretor John Carney poderia fazer. Auxiliado por um roteiro competente e bem amarrado do próprio Jonh, Once nos apresenta um romance/musical que nos convida a participar de seu enredo, como espectadores do nascimento de uma romance tímido, complicado, belo e extremamente natural.

As atuações de Glen e da aqui estreante Inglová são soberbas. Seja pelo modo que Glen caracteriza seu resignado e machucado musicista, que tem o sonho de se tornar cantor e musico que escreve suas letras para um amor do passado – uma ex-namorada que o traira -, que tem de lidar com a falta de dinheiro e a preocupação de seguir seu sonho e deixar o pai já de idade a mercê; seja por Inglová que imprime uma personagem humana, sofredora e guerreira, sem perder a delicadeza e introspecção. Mãe e filha dedicada, que cuida da família em  meio aos problemas financeiros, e que tem de lidar com a ausência do marido que jamais aceitou sua paixão pela musica, alem de viver sob o fantasma de ser uma cidadão imigrante.

Mas como um belo musical que também é, Once encontra seus melhores momentos em sua trilha sonora, com belas canções- aproximadamente 20 durante a projeção – que não são apenas pano de fundo na historia. As canções aqui executadas com maestria por Glen e Irglová, fazem parte da narrativa. Cada cena musical tem o tom de um verdadeiro vídeo clipe. E é gostoso observar como é inteligente a escolha eficaz de transpor a narrativa da trama, de acordo com o final, ou o enredo de cada musica. Cada musica executada tem o papel não só de nos inserir na situação emocional da cena, como nos da pista do que estar por vir em seguida.
Amparados por um extremo bom gosto na iluminação e composição de cenas, o filme ganha seu brilhantismo em 3 cenas distintas.

A primeira, quando os dois estão numa loja de venda de instrumentos musicais, e se colocam a cantar uma das composições de Glen, que ele fizera originalmente para a ex-namorada.
Irglová assume o piano pela primeira vez ate então.
A câmera passeia em meio a cena, meio afastadas num travelling fantástico de apresentação. Conforme a musica avança em seus lindos acordes e letra – que rendeu a eles o Oscar de Melhor Canção por 'Falling Slowly' – a câmera se aproxima, em um lindo contra-plongée que imerge suas trocas de olhares e verdadeira paixão pela musica. É o amor, como a musica fluindo e nascendo. Ao fim da musica, um plano fechado em ambos, quase faz com que o espectador esboce um sorriso como seus personagens de contentamento. É interessante observar como aqui fica ainda mais evidente um fato: apesar das musicas terem sido compostas originalmente para a ex- namorada dele, elas se encaixam tão mais completamente e de modo tão explicito a Irglová, que a alusão de que é ela a "mulher" correta, fica ainda mais bonito e de bom gosto.

A segunda se dá quando já amparados por um seleto grupo de músicos, ambos estão prestes a gravar seu primeiro CD. Irglová se encontra numa sala de estúdio vazia, imersa no escuro, com apenas um foco de luz, sobre um piano preto – que por alguma razão dá a sensação de estarmos vendo tudo a luz de velas, mas não de maneira romântica, mas de maneira melancólica - . Ela se coloca a cantar e tocar uma musica de autoria própria. É o momento mais tocante da projeção. A maneira que Irglová emprega sua voz de forma sufocante e ainda assim suave, onde cada silaba soa como uma suplica, versando sobre um amor dolorido, mas sincero, é de partir o coração.

E o terceiro momento se encontra em seu final, nada clichê, alias; surpreendente, onde nos despedimos de Once da melhor forma possível, através de uma parede de janelas pequenas e parede de tijolos expostos, como se a vida ali apresentadas, estivessem livres para serem o que quiserem, e nós novamente entendermos que não passamos de meros espectadores desses momentos, nos despedindo num belo travelling de afastamento. É Fascinante.

Once consegue emocionar, divertir, apaixonar e ao mesmo tempo entristecer.
Nos coloca em meio a reflexão de que nem sempre todo amor encontrado pelo caminho deve ser consumado, ou mesmo que para o amor verdadeiro, não é preciso nada alem de uma boa trilha sonora para acompanhar seus passos.
Um filme gostoso de assistir, que encanta, embala e faz seu som. Ótimo, sublime e impecável.

Uma extensa serenata de amor que oscila entre a beleza e a melancolia, num romance jamais consumado (?) e por isso mesmo inesquecível.




Ficha Técnica: 

Diretor: John Carney
Elenco: Alaistair Foley, Catherine Hansard, Glen Hansard, Kate Haugh, Senan Haugh, Darren Healy, Gerard Hendrick, Bill Hodnett, Markéta Irglová, Danuse Ktrestova, Pat McGrath, Sean Miller, Geoff Minogue, Leslie Murphy, Mal Whyte.
Produção: Martina Niland
Roteiro: John Carney
Fotografia: Tim Fleming
Duração: 85 min.
Ano: 2006
Gênero: Romance
Classificação: 12 anos







Critica: Feitiço da Lua


`Eu amo duas coisas na minha vida.`
`Eu amo você e eu amo ópera. Se eu puder ter as duas coisas que amo, juntas, durante uma noite, eu sairei de sua vida.`

E o Lobo Uiva para a Lua!


A família Castorini vive no Brooklyn com suas manias e superstições. 
O pai, Cosmo, é dono de uma empresa de encanamentos e tem uma amante. Vive com a esposa Rose, que está sendo cantada por um amigo – amigo este que é professor universitário e sai com suas alunas muito mais novas-; e a filha Loretta (Cher), uma jovem viúva de 37 anos que perdeu o marido num acidente de carro- ele fora atropelado.
Contrariando o mau-agouro da família, Loretta resolve se casar pela segunda vez, quando seu namorado Johny a propõe inesperadamente. Johny contudo esta de viagem marcada para Pallermo, para visitar sua mãe que esta prestes a morrer, e impõe essa condição ao casório –‘só se casarem dali um mês quando a mãe dele já teria morrido’ -. Antes de partir, Johny faz um pedido a Loretta. Pede a noiva que visite seu irmão mais novo, com quem não fala a anos e o convide para o casamento afim de fazerem as pazes.
Mas, quando conhece Ronny (Nicolas Cage), irmão de seu noivo Johny, Loretta se apaixona por ele. E johny – padeiro amargurado que foi rejeitado pela noiva após perder uma das mãos num incidente- também se encanta por ela.
Agora, ela precisa decidir qual dos irmãos realmente quer. E, para aumentar a confusão, a lua parece ter influência sobre a libido das personagens.

Dramático né? Pois é. E não é.

Dirigido por Norman Jewison – que recebeu o premio de Melhor Diretor no Festival de Berlim-, Feitiço da Lua é uma encantadora historia de amor, hilária, divertida, repleta de detalhes e sensibilidade, que o tornam uma verdadeira fabula fílmica.
Com uma atuação sempre acertada de Cher - Vencedora do Oscar de melhor atriz -, o filme nos conduz pela vida da família Castorini, entre seus anseios, duvidas dramas, segredos e passados. Através dos quadros na casa impecavelmente arrumada, através das falas sempre interessantes e importantes em cena. Seja por seus planos longos e sua cenografia contendo elementos diversos de referencias e alusões as sensações internas de seus personagens.

Feitiço da Lua consegue nos contar uma historia repleta de desencontros amorosos, traições e triângulos amorosos, sem cair em clichês, sem ser melodramático, sem ser frio e sem ser “doce” demais. Nós ficamos em duvida a todo instante se estamos diante de um drama, de uma comedia ou de um romance.
Com personagens marcantes, o filme ainda traz uma trilha sonora belíssima e deliciosa de se escutar, comandada pelo competente Dick Hyman, que intensifica ainda mais a sensação de aconchego que a historia confere.
É um prazer notar, por exemplo, na cena em que Loretta e Johny se encontram a saída de um espetáculo de opera, o como que a câmera passeia por entre eles e enfoca o teatro, repleto de brilho e luz, e ao fundo uma fonte jorrando água intensamente a medida que o envolvimento entre os dois cresce. Ou mesmo como o diretor mostra insistentemente planos contendo Loretta diante de superfícies reflexivas, denotando em seus diálogos e situações, o redescobrimento de uma mulher de meia idade consigo mesma, como se seus diálogos fossem entre ela mesma. 
Os espelhos mostram a verdade nela. – destaque para a cena entre o dialogo de Loretta e sua mãe (Olympia Dukakis, que venceu o Oscar de Melhor atriz Coadjuvante por seu papel) , quando ela lhe conta que irá se casar e sua mãe pergunta: 

‘você o ama?’
E ela responde: ‘não. ’
Sua mãe: ‘mas você gosta dele?’
Loretta: ‘sim. Ele é bom pra mim. ’

Isso é mostrado com um espelho ao fundo refletindo Loretta.

Alias, é importante ressaltar a atuação de Olympia Dukakis como a mãe de família aqui. É soberbo a maneira que ela carrega toda a dramaticidade de uma senhora de idade que sabe da traição do marido, das duvidas da filha e ainda assim se mantem coerente e comedida, tentando achar uma resposta a sua pergunta. É uma daquelas atuações em que é impossível não nota-la sempre que esta entra em cena.
Ainda contendo um esmero tremendo de narrativa o roteirista John Patrick Shanley, ainda nos brinda com uma fantástica teoria, vinda da pergunta de mãe de Loretta: “porque os homens perseguem as mulheres”? É genial. E lhe rendeu o Oscar de melhor Roteiro.

Amparados ainda pelo personagem tocante de Nicolas Cage que realmente deixa transbordar seu fascínio por aquela mulher encantadora e suas duvidas, e toda a sua amargura por um amor ferido e solitário; e o imensurável trabalho do avô da família que confere os momentos mais memoráveis da projeção, Feitiço da Lua, tal qual o astro, nos enfeitiça, ilumina e carrega de felicidade e bem estar em suas 1h30min. De beleza e delicadeza.

É um daqueles raros filmes que automaticamente vão para a lista de favoritos da vida.






*Não consegui achar um Trailer Legendado em Pt Br.


FICHA TÉCNICA

Diretor: Norman Jewison
Elenco: Cher, Nicolas Cage, Vincent Gardenia, Olympia Dukakis, Danny Aiello, Julie Bovasso, John Mahoney.
Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer, Lee Rich
Roteiro: John Patrick Shanley, Patrick Shanley
Fotografia: David Watkin
Trilha Sonora: Dick Hyman
Ano: 1987
Gênero: Comédia








segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Critica: Transamérica





'Transexualidade, Transexualismo, Síndrome de Harry Benjamin, Transtorno de Identidade de Gênero, Disforia de Gênero ou ainda Disforia Neurodiscordante de Gênero são expressões referentes à mesma coisa: a condição na qual a pessoa se identifica psicologicamente como sendo do gênero oposto ao seu sexo genético e sente impropriedade em relação ao próprio corpo.
Esta condição por via de regra gera um desconforto emocional e psicológico ao transexual, por isso existe a iniciativa de “transitar” (por meio de tratamento hormonal e cirurgias de redesignação sexual) de um gênero anatômico a outro. O termo clínico mais recomendado hoje em dia é Disforia de Gênero, bem como Transexualidade.

A última classificação americana dos transtornos mentais (DSM-IV-TR) retirou dos seus diagnósticos os termos transexualismo, travestismo e homossexualismo. Ao invés disso, adotou-se o termo Transtornos da Identidade de Gênero, que é visto como menos preconceituoso ou discriminatório.

A identidade de gênero refere-se à masculinidade e à feminilidade, ou melhor, à convicção que cada um tem sobre si de ser masculino ou feminino. Isso se forma muito precocemente, desde o estágio intra-uterino, e decorre: da soma de causas genéticas e hormonais (vão determinar os caracteres físicos do bebê, se vai nascer com características de menino ou menina); da atitude dos pais ao aceitar ou não o sexo do bebê, a forma como esse bebê vai ser manuseado e tratado (a menininha ou o garotão); da interpretação do bebê a respeito dessas atitudes paternas; da formação do ego corporal (o bebê vai formando uma idéia a respeito de si a partir de sensações que surgem com a manipulação de seu corpo)'.


Bree (Felicity Huffman) é uma transexual que, antes de mudar de sexo, fez um filho. O garoto, Toby (Kevin Zegers), é agora um adolescente que sonha encontrar o pai que nunca conheceu. Os dois se reencontram - sem que ele saiba sobre a identidade verdadeira de Bree - e partem, juntos, numa viagem de carro a Los Angeles.

É sob a seguinte premissa que o Road Movie ‘Transamérica’, filme do diretor e roteirista Duncan Tucker, nos é apresentado de forma leve e condescendente.
Com uma gostosa trilha sonora que encontra seus melhores momentos nas cenas de drama intenso e discussões, orquestrada pelo competente David Mansfield, que inclusive nos presenteia com a original e bela ‘Travelin' Thru’ (de Dolly Parton), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por melhor canção original em 2006, Transamérica é um filme carregado por um roteiro bom, mas é elevado pela atuação impar de Felicity Huffman.

O filme nos mergulha nos dramas e incertezas e no sofrimento incubado de uma transsexual que luta há anos para se tornar o que já é em pensamento – uma mulher.
Sem condições financeiras, ela se prende aos hormônios tomados religiosamente todas as manhãs e a noite; visita regularmente clinicas de psiquiatria e psicologia a fim de obter a permissão e o aval de seu seguro de saúde para fazer a tão almejada cirurgia de mudança de sexo.
O roteiro de Tucker revela superficialmente a extrema carga emocional e psicológica de homens e mulheres que apresentam tal transtorno de gênero. É pertinente o modo como ele deixa claro que não se trata de doença ou confusão e sim, uma condição genética onde o individuo possui desde o nascimento uma identidade que não corresponde a seu gênero sexual. Para Bree, ela não é um homem, é uma mulher, independente do que for, ela age, pensa como uma mulher. Não é uma travesti, há diferença. Não são somente as roupas que a caracterizam assim.

Tudo isso nos é apresentado através de diálogos e situações corriqueiras de seu dia a dia, como o olhar no espelho assim que acorda, o ato de se maquiar, a ida ao banheiro, as conversas com a psicóloga e etc.
A chegada do filho inexistente ate então é o artifício que o roteiro encontrou para causar o impedimento a seu sonho da operação. Apesar de ser interessante ao primeiro momento, por colocar em xeque a transformação, a decisão e a postura de gênero que ela assumiria - paternidade ou maternidade? – com esse fato, a narrativa peca em alguns pontos.
Ao criar um filho totalmente desconexo com sua realidade, Tucker demonstra querer mostrar um panorama que vai alem da transexualidade.
Ele (Toby) é um jovem de 17 anos, aparentemente frio ao bater de frente com suas emoções, que perdeu a mãe, que tem problemas com o padrasto, que se prostituiu para comprar drogas – cocaína -, bissexual resolvido e um tanto o quanto bipolar; que almeja ser um ator pornô.
Com uma carga dramática dessas, o ator Kevin Zegers e o próprio roteiro não conseguem, contudo conferir verossimilhança a narrativa, o enredo se perde também, por exemplo, quando Bree afirma que o caso que teve com a mãe de Toby só aconteceu durante a faculdade porque ele acreditava que ela fosse lésbica. Ele afirma que ela era lésbica e não bissexual. A informação nos leva crer que tudo não passou de uma noite de puro sexo entre dois amigos, experimentação própria da idade. Mas então surge Toby, com uma mãe suicida e que era casado com um homem. Onde sua sexualidade não é exposta nenhuma vez, nem mesmo os motivos de seu suicídio.

Mas mesmo essas falhas de andamento de narrativa são perdoadas quando vemos cenas de extremo bom gosto, carregados de clichês que são permitidos aqui, que nos conduzem naturalmente a sua conclusão, passando sua mensagem, nos sensibilizando e mais do que isso, nos informando sobre esse mundo.
Não é um filme sobre o transsexualismo e nem mesmo sobre opções sexuais, é um filme que versa sobre liberdade de ser quem é – ‘o importante é ser você, mesmo que seja estranho, bizarro, seja você’ -. Ele desmistifica preceitos ate mesmo religiosos acerca do tema, humaniza, simplifica e emociona.
Mas mais uma vez, é impossível falar de Transamérica sem exaltar a atuação fantástica de Felicity Huffman. Ela carrega o filme todo no salto alto e no batom. Consegue nos demonstrar na impostação de voz comedida, nos trejeitos na forma de andar, no olhar tudo que sua personagem exige. Sempre na dosagem certa.
Alias o filme inteiro, o espectador fica em duvida se esta diante de uma mulher ou de um homem. E isso demonstra um trabalho de caracterização fantástico! Se tal papel já seria difícil para um homem executar, para uma mulher, ter que atuar como se fosse um homem que se sente uma mulher é ainda mais difícil e admirável por ter conseguido com tamanha maestria. Tal trabalho lhe rendeu inclusive o Premio de Júri no Festival de Berlin, um Globo de Ouro como Melhor Atriz de Drama e uma indicação ao Oscar 2006 de Melhor Atriz do Ano que ficou com Reese Witherspoon (Johnny e June).

Sua melhor cena, esta quando ela esta no hospital com sua psicóloga. É de aplaudir de pé.
O maior trunfo do filme como um todo fica ao deixar claro, que o transsexualismo não é um fato de orientação sexual e sim de identidade de gênero. Que as escolhas são fundamentais e devem partir de nós mesmos. Que a liberdade em toda a sua concepção é essencial para se viver e que como um bom Road Movie, é na estrada da vida que encontramos os personagens chave para nos encontramos durante a viagem.

Um filme independente que poderia ter finalizado sendo sensacional – como sua cena final que denota a aceitação plena da condição daqueles dois personagens com eles mesmos, através de atos e de uma fala – mas que preferiu por escolha ou falha mesmo, se encerrar sendo apenas um bom filme.

Não é um filme de gênero, é um filme feito para todos.





FICHA TÉCNICA

Diretor: Duncan Tucker
Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Graham Greene, Burt Young, Elizabeth Peña
Produção: Rene Bastian, Sebastian Dungan, Linda Moran
Roteiro: Duncan Tucker
Fotografia: Stephen Kazmierski
Trilha Sonora: David Mansfield
Ano: 2005
País: EUA
Gênero: Comédia Dramática
Classificação: 14 anos











Artigo interessante que explica as diferentes a cerca de Homossexualismo, Transsexualidade e Travestismo >> abcsaude