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sábado, 6 de outubro de 2012

Critica: Picnic at Hanging Rock




Austrália. 1900.
Alunas do Internato Feminino são levadas para um Picnic no dia de São Valentin – conhecido aqui no Brasil como dia dos namorados -. O lugar escolhido é a Montanha de origem vulcânica, chamada Hanging Rock. Um lugar paradisíaco.
Mas ao final do dia, todas as garotas retornam ao internado em ligeiro choque: 3 delas e uma professora desapareceram misteriosamente.

Picnic at Hanging Rock (Picnic na Montanha Misteriosa,titulo  em português), um filme de 1975, do grande diretor Peter Weir que já nos brindou com obras como “Sociedade dos Poetas Mortos”, “Show de Truman” e “Mestre dos Mares”, conta uma história de aflição, psicodelia, quase surrealista, com toques de mistério e verdadeiro terror e fascínio.

Baseado no livro de mesmo nome da escritora Joan Lindsay, em 1967; o filme traça um panorama de angustia e ao mesmo tempo de fascínio. 
Weir consegue criar um universo repleto de lirismo, com belas paisagens, mulheres belíssimas, de ares inocentes, mas que no segundo seguinte nos puxa para um verdadeiro ode de terror, medo, angustia e expectativa.

Desde o inicio somos impelidos a conhecer o mundo em que vivem as meninas do internado. Belas, jovens e educadas, todas tem em comum a rigidez pela qual são conduzidas através de sua diretora. Uma mulher rude que administra o internado a rédias curtas.

Mas é Sara visivelmente a garota mais solitária e desfavorecida ali, que literalmente sofre nas mãos da diretora. Sara é uma garota tímida, que não aceita de bom grado todas as imposições que lhe são propostas, e que nutre um amor incondicional por Miranda - a garota mais querida de todo o internado-; que se torna sua única amiga e confidente. Que é constantemente comparada a um lindo Anjo de mistério e beleza.

Todas as garotas tem permissão de ir ao Picnic, com exceção de Sara. Que por algum motivo entende que jamais vera Miranda novamente.
Miranda é uma das garotas que desaparece.
A dualidade imposta pelo enredo é muito peculiar. Tudo, cada cena, cada fala, cada plano, cada personagem esconde uma intenção ou desejo aquém das aparências. A própria amizade de Sara e Miranda é constantemente tratada como se Sara estivesse apaixonada por Miranda.
Miranda exibe continuamente trejeitos e um sorriso que parecem esconder algo atrás da serenidade.  Ela de fato, meio que profetiza seu destino.

A sexualidade no filme é latente também, mas tratada sem uma cena se quer que elucide isso. Não há nudez, não atos sexuais, não há um único beijo. Tudo fica imposto pela subjetividade do contexto. É genial.
A imagem da Montanha adquire aos olhos do espectador uma presença orgânica, mesmo que pelas vias de fato ela seja inofensiva.

Contudo o que predomina aqui e interessa não é a investigação, o desaparecimento das garotas. O que importa em Picnic são as ações de quem permanece. A jornada. E isso se deve a construção narrativa do roteiro. Uma atmosfera que beira a loucura e a esquizofrenia psicótica. Não há a preocupação por explicações. Só a demonstração dos fatos ocorridos.

Contando com uma fotografia exemplar e instigante que, em tons pasteis - a paleta de cores é viva, quase que completamente puxada para o azul, branco, verde e amarelo - com exceção do internato onde predominam as cores escuras e densas, com contrastes entre luz e sombra, para passar a ideia de repressão – faz tudo parece ter saído de um quadro de Botticelli ou de Monet, onde há bastante referencia ao renascimento e ao impressionismo e elementos de natureza morta também. Tudo é elucidativo ao extremo. Fotografia essa que é ponto chave ao lado da trilha sonora, para criar esse ambiente denso. Tudo enevoado e sombrio. Planos ora fechados e ora abertos, que prezam aos detalhes da direção de arte conturbada e carregada, com quadros e esculturas vitorianas mas com certo cunho macabro - cabeças de corvos, escadas de madeira maciça e escura, candelabros com formas estranhas-.

As imagens se contrapõem, em cenas que beiram a perfeição fílmica.
É o som da flauta que parece um grito de dor, são os cavalos que relincham enraivecidos, os cães que uivam de noite, os pássaros que fogem em debandada. Os relógios que param ao meio-dia; as formigas que devoram o bolo da merenda.

A trilha sonora é um achado a parte, com belas canções orquestradas, aonde vamos da delicadeza de acordes longos e melódicos, a sinfonias altíssimas, descompassadas e alarmistas. Repleta de canções tradicionais romenas, e órgãos.

Curiosamente Weir optou por uma técnica que só fez aumentar o tom alarmante e intenso do filme; desde o inicio surge um aviso na tela, de que as ações mostradas, são uma representação dos fatos verdadeiros ocorridos. Weir trata a historia como baseada em fatos reais.
Mas não é. Ou ao menos acredita-se que não seja. O Livro vem com a premissa de que os eventos ali narrados "podem terem sido baseados em fatos verdadeiros". Inclusive a imprensa e a maior parte do povo australiana ainda hoje acredita ter se tratado de eventos reais. Mas por conterem muitos elementos que sugerem uma presença de acontecimentos sobrenaturais, acreditasse que tanto o livro ao qual foi baseado e o filme se tratam de uma ficção. Mas isso não é dito no filme.

Originalmente, o Livro de Joan Lindsay, continha um distinto capitulo 18, onde ela explica os mistérios acerca dos desaparecimentos. Sua editora a época, convenceu-a a não publicar esse capitulo, o que foi uma decisão definitiva para o sucesso tremendo do livro. 
Weir optou por não incluir essa parte no filme também. Felizmente! 
A resolução não importa aqui, mas sim a jornada. Qualquer explicação estragaria a obra - mesmo que tal explicação seja extremamente surrealista em si-.

Ainda é curioso observar a maneira que tanto diretor quanto autora usam a natureza, a força e a influencia da feminilidade como forma de simbolismo, à influencia britânica na Austrália e ao contraponto da imposição do catolicismo à época. E principalmente as funções de tempo e espaço.
O tempo é algo gradual e disperso durante toda a obra. Seja pelos relógios sempre parados ou que surgem difusos, seja pela própria montagem do filme que confere uma velocidade descompassada a narrativa. As forças das arvores, a imponência dos ventos, as roupas intimas e o tecido das roupas das meninas, sempre brancos, ou muito claros. Os animais retratados de forma plena e natural. A montanha que parece crescer cada vez mais diante de nossos olhos e seu planalto que parece nunca ser abandonado pelo sol e o tempo aberto.

Picnic consegue ser um filme grandioso, onírico, fascinante e ao mesmo tempo aterrorizante. Cada espectador inevitavelmente forma suas próprias teorias acerca do que aconteceu com as garotas e sua professora. Eu formei a minha. Formem as suas.

Como diz um dos diálogos: “Aquilo que vemos e aquilo que parecemos não é mais do que um sonho dentro de outro sonho". E nisso Picnic at Hanging Rock é um prato cheio! 

Clássico obrigatório.





FICHA TÉCNICA

Diretor: Peter Weir
Elenco: Rachel Roberts, Dominic Guard, Helen Morse, Margaret Nelson, Jacki Weaver.
Duração: 110 min.
Ano: 1975
País: Austrália
Gênero: Drama
















sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Critica: Ted




Pegue South Park, Os Simpsons, Family Guy varias pitadas de humor negro, sarcasmo e ironia e bata no Liquidificador do Borat. Eis Ted. E não é uma comparação irônica e ruim não. Muito pelo o contrario. 

Antes de tudo é preciso entender que Ted não é nem de longe um filme de humor ‘coxinha’. Seu humor é peculiar, esta nas referencias literárias e de atualidade e inclusive na trilha sonora. O próprio Ted em si - o urso de pelúcia- já é uma metáfora, que aos olhos conservadores beira a algo satânico, tal qual a conclusão feita no filme assim que ele “nasce”.

Filme do diretor Seth MacFarlane e criador da animação televisiva Family Guy, Ted conta a historia do jovem garoto John Bennett (Mark Wahlberg), uma criança que sofre um tipo de bullyng social desde cedo, solitário com desvio de idade, e uma família aparentemente certinha. No natal, sua família preocupada com sua solidão visível, lhe presenteia com um belo ursinho de pelúcia, a quem John se apega rapidamente. Então John certa noite faz um pedido aos céus: que seu urso criasse vida e se tornasse seu melhor amigo. E seu pedido é atendido.
Os dois crescem juntos e, já adulto, John que esta numa relação amorosa de longa data com Lori Collins (Mila Kunis) deve escolher entre ficar com sua namorada – que não aprova o relacionamento de dependência dele e do urso - ou manter sua amizade com o urso Ted (Seth MacFarlane).

Filme delicioso.

Ted possui um roteiro extremamente bem escrito, com uma decupagem fabulosa e que peca apenas ao carregar algumas características próprias da televisão que nem sempre funcionam no cinema. A narrativa assume um papel extremamente importante ao elucidar tantas referencias cinematográficas, políticas, sociais, do esporte e do cenário de atualidades pop global. Mas com foco americano claro.
Diálogos eficientes, ágeis e inteligentes somam-se a um humor acido, irônico e imensamente sarcástico e com fio condutor sempre na critica escrachada, escondida ou camuflada por humor que a primeira vista e fora de contexto pode soar, como humor barato ou apelativo, mas que na realidade é um ode de veia critica.

E eles atiram para todos os lados; a igreja católica - o seu lado conservador e intolerante; a igreja evangélica e seus estereótipos, a política e a mídia globalizada (referencias a cantores pop’s, e atores da mídia) são frequentes entre um dialogo e outro. Entre uma piada e outra ou ato cômico. Há sarcasmos e ai uma critica ate saudável se olhar o contexto inteiro, sobre miscigenação e preconceito de raças- étnicas e contra a xenofobia - orientais, muçulmanos etc.
É um deleite. É um riso que ate surge incomodo no começo, mas que dura do inicio ao fim.

Com uma construção narrativa e de personagens, principalmente a da figura do Ted, o filme explora toda uma carga dramática de medo a realidade, de busca por forças para enfrentar o mundo, a vida adulta, cria um quadro de controle para se assumir responsabilidades e de fato ser livre pelas escolhas que faz. Tudo tendo como pano de fundo, um relacionamento sincero mas que beira entre o limite do amor e da amizade constante.

 Não é o melhor papel do Mark Wahlberg, mas ele permanece correto na figura a que se propõe, de um adulto que se recusa a crescer. E pir; que quando tenta, não sabe como fazer isso. O mesmo podemos dizer da Milla Kunnis. Não que as atuações sejam ruins, mas não ha quimica entre o casal, e sempre que eles são deixados sozinhos em cena sem o Ted, o filme assume uma chatisse sem igual. Ted é a vida do longa.

O filme ainda conta com uma trilha sonora que para qualquer cinéfilo, parece um deleite. Há desde Guerra nas Estrelas, ate apertem os cintos que o piloto sumiu. Vamos de Nirvana a Pink Floyd, e destes a Norah Jones, belíssima como sempre, que atua também no filme, mais para o final da projeção.
A produção do filme assume uma técnica excelente de manipulação e movimentos que conferem ao boneco, que tem a voz do próprio diretor Seth, um tom de realidade absurda, desde os passos ate as expressões faciais, o olhar.

Com planos que nos ajudam a compreender a relação que personagem tem de si mesmo e entre eles, surge uma cena curiosa em que é utilizado o contra-plongée pela primeira vez de forma metafórica.
A cena em questão se dá numa discussão briga entre Ted e John na rua. Ate então sempre vemos os dois num mesmo nivelamento coerente de enquadramento em tela. O que representa a relação entre os dois que sempre foi de igual para igual. Ted nunca se viu como um urso de pelúcia tendo como dono o John, mas sim um amigo, o único amigo real dele.
Porem, após a briga vemos John se afastar pela Rua deserta, tendo de principio a visão de Ted, em um contra-plongée evidente que mostra pela primeira vez a diferença de altura entre os dois e coloca Ted como o que é pela primeira vez também de forma tão clara: um urso, um brinquedo. Ted se sente pequeno, derrotado diante da situação ali gerada, e essa escolha de plano ajuda a entender isso.

Com uma fotografia apenas correta, o filme ainda traz um deleite de humor ao trazer um antigo herói de John e Ted na infância para uma festa regada a ‘pegação’, bebidas, drogas e karaokês – há espaço ate para um embate aos moldes velho oeste com um pato-.

Talvez a melhor cena e que faz um referencia clara aos filmes clássicos de perseguição de carros, seja aquela em que rola um sequestro intenso.

Contudo, ao final da projeção percebemos que ele, mesmo beirando ao magnifico, poderia se sair melhor ainda, se Seth MacFarlane não sucumbisse as normas 'do limite do certinho' de Hollywood. Acredite, o potencial da narrativa poderia ser muito mais explicita - sincera - do que realmente acabou sendo. Uma pena. Mas é um detalhe que não tira o mérito do longa.

Tudo isso, faz com que Ted seja uma surpreendente surpresa e corajosa. Ted não só é um humor cabeça, politicamente incorreto, mas é também um drama repleto de lições morais encubadas que aos olhos mais atentos gera uma excelente reflexão aos dias atuais.

A pergunta que fica é: quantos dos espectadores desse filme serão como os Ted’s das prateleiras, e quantos serão Ted’s dos milagres de natal? 






FICHA TÉCNICA

Diretor: Seth MacFarlane
Elenco: Mila Kunis, Mark Wahlberg, Giovanni Ribisi, Jessica Stroup, Patrick Warburton, Seth MacFarlane, Joel McHale, Laura Vandervoort, Melissa Ordway, Aedin Mincks, Ralph Garman, Ginger Gonzaga, Alexandra East
Produção: Jason Clark, John Jacobs, Seth MacFarlane, Scott Stuber, Wellesley Wild
Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild
Fotografia: Michael Barrett
Trilha Sonora: Walter Murphy
Duração: 106 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Comédia
Classificação: 16 anos










Critica: Medo da Verdade




Um caso de uma criança desaparecida leva toda uma comunidade do subúrbio americano e a grande mídia a um estado de alerta. Os detetives particulares Patrick Kenzie (Casey Affleck) e Angela Gennaro (Michelle Monaghan), casados, são contratados pela tia da criança, para encontrarem a menina de quatro anos que foi sequestrada. Conforme as investigações avançam e aliados ao conhecimento territorial de Patrick, do gueto da cidade, tramas repletas de mistério são revelados, dando origem a uma caçada contra o tempo em busca do que realmente aconteceu com a menina e pela salvação da mesma.

Medo da Verdade, do ate então estreante nessa posição, Bem Affleck, nos apresenta uma visão clara e complexa do quadro de crianças desaparecidas.

Ben Affleck que nunca demonstrou ser um grande ator, apenas correto em cada papel que ganhava, mostra em sua estreia na direção, que domina a linguagem, e que tem uma visão clara de seus personagens, o que faz toda a diferença.
É a mãe viciada e problemática  são os tios que mais parecem avôs da criança que nutrem uma relação de amor e ódio pela mãe da criança, são os detetives que por sua idade jovem não são levados totalmente a serio e precisam se provar a todo instante enquanto carregam peso demais, são os policiais que surgem com a mesma dualidade de caráter dos bandidos, traficantes. E ele parece compreender totalmente o universo dessas personas, e isso é transmitido na narrativa e no enredo.

O roteiro conta com uma narrativa extremamente coesa e eficiente com diálogos sensacionais. Cada diálogo cumpre o papel de ser parte do enredo. São todos profundos, reflexivos e extremamente realistas. Aliados as atuações comedidas mais eficazes, com participação dos sempre ótimos Morgan Freeman e Ed Harris, o filme ainda carrega uma atmosfera densa, quase palpável  devido a sua excelente fotografia urbana saturada, em tons escuros, ligeiramente opacos. Intensificados por sua trilha sonora pesada.

Entre segredos e obscuridades, vemos uma desconstrução de imagens e conceitos, que colocam em xeque nossas questões éticas, morais e de bom senso. A todo instante o filme flerta pelo que é correto e o que é errado. Julgamentos de valores e de escolhas são constantes.
A direção de arte também é infalível ao conferir tamanha verossimilhança nos ambientes residenciais, sempre dando a impressão de aperto, de degradação, seja nas ruas escuras e úmidas a noite, ou durante o dia, em uma saturação gradual e gráfica amarelada.

O modo em que tratam a relação do dinheiro, drogas e crime com a policia também é plausível. Com uma montagem e edição repletas de sequências rápidas, ágeis e cortes ligeiramente secos, o filme ganha um ritmo catártico.
O segundo ato conta com um ponto de virada inesperado.

Mas é seu clímax que contem toda a razão do filme e que o eleva a graça completa.
Detendo finalmente uma valiosa informação no caso do sequestro da menina, Patrick segue rumo à preciosa verdade, e daí entendemos o nome do filme, uma verdade que amedronta.
Chegamos a ela, mas desde o inicio, conforme vamos compreendendo o que Patrick vai entendendo, junto a ele, que a verdade não será das melhores, ainda que esconda um elemento reconfortante.

Isso coloca um panorama extenso no filme, de discussões e lados opostos, em que o personagem e nós que assistimos ficamos em contradição a todo instante sobre a pergunta insistente: o que eu faria no lugar dele? Chega a ser angustiante isso. De tão real, de tão frágil que é nossa percepção do que é certo e errado em alguns casos.

Ainda nos últimos minutos de projeção, Affleck nos brinda com um surto criativo e inspirado e monta uma cena de simbologia delicada e que serve como um soco no estomago, ao elucidar um pequeno dialogo carregado de significado com outro personagem a respeito do nome de um ursinho de pelúcia.

Ao final, a moral que fica é que nem sempre o correto é o certo a se fazer. Será?

A busca através de personagens humanos e complexos, calcados em nossa realidade assustadoramente cotidiana, torna Medo Da Verdade, um excelente filme que excede as expectativas geradas com certeza. Imperdível. 

Ponto para Ben Affleck que promete!




Ficha Técnica:

Diretor: Ben Affleck
Elenco: Morgan Freeman, Casey Affleck, Michelle Monaghan, Ed Harris, Robert Wahlberg, Amy Madigan, Edi Gathegi, John Ashton, Amy Ryan.
Produção: Ben Affleck, Sean Bailey, Alan Ladd Jr., Danton Rissner
Roteiro: Ben Affleck, Aaron Stockard
Fotografia: John Toll
Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams
Duração: 116 min.
Ano: 2007
Gênero: Suspense

Veja um trecho do Inicio do Filme: Trecho do Início do Longa








Critica: Procurando Elly



Após passar anos na Alemanha, Ahmad (Shahab Hosseini) volta ao Irã e seus amigos organizam três dias de comemoração. Sem que o resto do grupo saiba, Sepideh (Golshifteh Farahani) convida para a festa a jovem Elly (Taraneh Alidoosti), professora de sua filha.  Elly é uma jovem tímida e esquiva. Ahmad, que acabou de se separar da esposa alemã e gostaria de começar uma nova vida com uma iraniana, vê em Elly a mulher perfeita. Os amigos ajudam a construção de um possível romance entre eles. A festa em questão consiste em passar esses três dias em uma casa alugada próximo a praia. Logo no primeiro dia, tudo ocorre perfeitamente bem, os amigos se divertem, fazem compram, arrumam a casa. As crianças começam a brincar próximo ao mar enquanto as mulheres terminam de arrumar e limpar a casa, e os homens descansam, num momento de descontração jogando vôlei.
O problema é que Elly precisa ir embora ao final da noite. Mas sua amiga Sepideh a enrola para não deixa-la ir.
Uma das mulheres pede que Elly supervisione as crianças nas brincadeiras.
No entanto, misteriosamente ela desaparece logo em seguida que uma das crianças quase se afoga no mar. Começa assim uma busca densa, e extremamente violenta  por respostas, para saber onde esta Elly.

Com essa premissa que dura quase trinta minutos em tela, Procurando Elly, do diretor e roteirista Asghar Farhadi se torna um filme intenso e denso, e extremamente sufocante.

Com um roteiro contendo algumas falhas de evolução narrativa, e informações que se perdem às explicações necessárias; mas que compensa em seu magnífico panorama das crenças sociais e ditos comportamentais dos iranianos, o filme constrói momentos que vão da descontração e leveza a uma mudança brusca de aflição e verdadeiro beco sem saída.

É muito interessante os momentos em que o grupo de amigos dividem suas tarefas rotineiras e se divertem. Não ha nenhum vestígio naquela cultura massificante entre mulheres e homens tão característica da cultura daquele país. E é aí talvez que resida a força do filme e ao mesmo tempo a falha (encontrada em sua cena final). Não há distinção clara entre os homens e mulheres ali, se não fossem os véus sobre as cabeças das moças, não lembraríamos que estamos diante de uma obra islâmica. Vide por exemplo, a cena de abertura onde estão todos no carro rumo a casa de praia, gritando e rindo com as cabeças para fora da janela, principalmente as mulheres. Chega a chocar, por não imaginarmos tal "liberdade" numa cultura predominantemente machista e intolerante.

Uma brincadeira de mimica, um jantar, uma dança boba. Tudo ajuda a construir a identidade e o caráter fílmico aqui. Mas é a cena lindíssima de Elly correndo de um lado para o outro na praia para tentar colocar uma pipa rosa no céu que vale o filme todo. A montagem e a trilha sonora na cena é plausível  ao mostrar toda a beleza daquela atriz distinta e ao mesmo tempo seus olhar de mistério e fascínio numa simples pipa.
O elenco infantil que não é destaque algum, merece credito apenas ao construir a base de influencia e circulo vicioso que aquele grupo adota durante o filme. Como a cena em que os pais de uma das crianças brigam, por se responsabilizarem pelo desaparecimento de Elly, e que a criança nota a briga, exibe um olhar triste e logo em seguida, provavelmente mente, para amenizar as discussões, colocando novas possibilidades a investigação. Uma vez que logo apos o incidente a menina não se lembrava de ter visto nada, e foi só ver os pais brigando que repentinamente consegue fornecer lembranças ate então inexistentes.

Muito disso é fruto das atuações brilhantes de seus atores, principalmente de Golshifteh Farahani  na pele de Sepideh, que demonstra a todo instante, ares de preocupação e de contenção de quem esconde informações. São notáveis as características físicas que ela adotou para a personagem, como as tosses constantes, com a impressão de que esta sufocada, passando mal os olhos ejetados conforme o peso das discussões e desentendimentos entre os amigos cresce.

Mas também da escolha dos planos nas cenas de mais ação. Como a cena do mar, em que eles procuram pela criança que esta se afogando. Com a câmera em mão, somos impelidos juntos a emergir na procura. Isso aumenta cada vez mais a tensão e o tom de urgência a tal ponto que mal conseguimos desviar a atenção da tela. Como se pudéssemos pressentir alguma tragédia surgir a qualquer instante.

O filme perde sua evolução natural, mais para o final, ao introduzirem valores de culpa e ações que poderiam muito bem ser simplificadas com uma montagem mais razoável  levando-se em conta que  filme todo se passa em apenas três dias.

Com um final previsível e de certo modo decepcionante devido a todo o cunho tenso que criou durante toda a narrativa, principalmente na escolha falha mas compreensível de um carro na cor vermelha atolado na areia próximo ao mar; o filme ainda assim consegue cumprir bem o seu papel e passar sua mensagem.

Procurando Elly prova que às vezes há varias verdades embutidas numa mesma mentira, e que muito mais do que buscar revelações no nosso dia a dia, o segredo de tudo esta mais no que não se é dito, do que no que é dito. Um Bom Filme.





FICHA TÉCNICA

Diretor: Asghar Farhadi
Elenco: Taraneh Alidoosti, Golshifteh Farahani, Mani Haghighi, Shahab Hosseini, Merila Zarei, Peyman Moadi, Rana Azadivar, Ahmad Mehranfar, Sabe Abar.
Produção: Mohammad Sadegh Azin
Roteiro: Asghar Farhadi
Duração: 119 min.
Ano: 2009
País: Irã
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos









quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Crítica: A Separação



A Separação, filme ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2012, Ganhador do César (espécie de Oscar Francês) de Melhor Filme Estrangeiro do mesmo ano, alem de Vencer na mesma categoria o Globo de Ouro e Urso de Ouro e Prata no Festival de Berlim, do diretor Asghar Farhadi, é uma densa historia de demonstração de valores morais e éticos.

O Roteiro de Farhadim cria um arco dramático repleto de densidade em seus diálogos sempre críticos e seu enredo problemático. É impressionante a construção de narrativa criada por ele, que culmina num roteiro sempre em progressão, coerente, coeso, extramente bem amarrado e decupado.

Irã. O casal Nader e Simin atravessam um denso conflito no casamento. Simin deseja sair do país atras de melhores oportunidades de bem estar de vida, mas Nader não concorda em viajar e deixar o pai com Alzheimer sozinho. Decidida a deixar o pais Simin pede o divorcio para poder viajar com a filha. Nader  a custo aceita, mas não concorda em abrir mão a guarda da filha. Isso gera uma disputa pela guarda da adolescente. 
Simin sai de casa e vai temporariamente morar com a mãe, deixando o marido sozinho com a filha - que decide permanecer em casa enquanto a justiça não se decide-  e o pai doente.
Nader, então, contrata a religiosa Razieh para cuidar de seu pai durante as tardes, enquanto trabalha e a filha está na escola. Razieh, uma mulher devotada religiosamente e com uma filha pequena, logo de cara acha errado, ela uma mulher casada,  trabalhar para um outro homem casado sem a presença da esposa. Com o marido desempregado e afundado em dívidas, ela contudo aceita o emprego, mas esconde a verdade do marido. 
Um acontecimento lamentável, no entanto, gera uma outra briga judicial, mas desta vez envolvendo Nader, Razieh e seu marido.

Logo de inicio o filme inicia-se num plano fixo, centralizado, mostrando marido e mulher diante de um juiz- raramente mostrado em tela- acertando os tramites para a separação. É preciso dizer que no Irã, uma mulher casada não pode viajar sem o marido.
Tudo isso nos é mostrado através de diálogos rápidos e que soam muito naturais, percebemos que há conflitos não só de interesses entre o casal.

O filme nos mostra todos os lados de um mesmo fato, sempre de forma linear. O julgamento do que realmente aconteceu e do certo e errado fica por conta do espectador. Em nenhum momento o filme nos induz a ficar do lado de um personagem ou outro. Sem se perder em frieza, alias muito pelo contrario, ele nos faz de Juízes diante daquela trama.
Isso já nos é mostrado desde o inicio naquele plano inicial em que eficientemente somos postos no lugar do juiz. Vemos toda aquela cena do ponto de vista dele.

Contando com uma bela fotografia urbana e uma direção de arte eficaz, o filme ainda nos leva a questionamentos acerca dos costumes daquele país, e propõe outra visão. Ali no filme é justamente a figura de Nader, o homem da casa, que se apresenta mais centrada, justa. É ele que assume a maior parte das responsabilidades de cuidado ao pai, é ele que parece ‘aparentemente’ mais devotado a filha, é ele que ensina e encoraja a filha valores de liberdade e individualismo. Ensinamentos que encorajam a filha a pensar por si mesma e fazer suas próprias escolhas.

Num país que quando consegue introduzir uma obra no ocidente, vem carregada de questionamentos políticos, A Separação se mostra eficaz ao deixar essas questões apenas como pano de fundo, soando assim mais orgânico e natural. Muitas vezes esquecemos durante a projeção de que estamos diante de um filme Iraniano e de uma ficção, de tão verossímil e instigante que a projeção assume. é interessante como o filme consegue nos distanciar do esteriótipo ocidental criado, de que povos islâmicos vivem dramas apenas políticos e religiosos. O filme nos mostra que eles assim como nós também possuem seus próprios dramas familiares, afetivos e sociais. Somos mais parecidos do que imaginamos.

Em dado momento, é criado um intenso e gravíssimo conflito entre a empregada e Nader, que perde a cabeça e empurra-a para fora de sua casa.
Esse empurrão não só serve como fio condutor pelo resto da projeção colocando seus personagens e suas vidas em um panorama de extrema densidade e tensão; como empurra ou no caso puxa o espectador para a projeção como nunca antes. Se antes assumíamos o papel de observador apenas, a partir desse ato nossa emersão é plana. O diretor nos leva num embate quase físico, emocional e sentimental nos dramas ali em tela. É angustiante e paralisante.

Amparados por um excelente grupo de atores e um magnífico trabalho de construção de personagens, A Separação chega a seu clímax, numa cena elucidativa belíssima, num corredor de justiça milimetricamente dividido. Beira a genialidade.
Alias devo destacar o brilhante e catártico trabalho de Peyman Moaadi e seu Nader, que assume totalmente o papel proposto, dando uma naturalidade e visceralidade tocante ao personagem.

O que posso dizer é que A Separação é um filme corajoso dado o país de origem, inteligente, denso, que consegue ser criticamente político sem trair a religiosidade e nem fazer apologia a mesma que o Irã tanto preza. Causa uma identificação e fisga o espectador, mas se distancia de impor sua visão ao espectador deixando a ele, a nós decidirmos sobre aquelas vidas e assim refletirmos sobre as nossas também. E esse é o maior triunfo de A Separação.

Um filme excelente que vale muito ser conferido!




FICHA TÉCNICA

Diretor: Asghar Farhadi
Elenco: Leila Hatami, Peyman Moadi, Shahab Hosseini, Sareh Bayat, Sarina Farhadi, Babak Karimi, Ali-Asghar Shahbazi, Shirin Yazdanbakhsh, Kimia Hosseini, Merila Zarei, Hayedeh Safiyari
Produção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi
Fotografia: Mahmoud Kalari
Duração: 123 min.
Ano: 2011
País: Irã
Gênero: Drama
Classificação: 12 anos








Clipe: Longe Daqui - China


A escuridão que dá lugar a luz, sobre as estradas, com destino ao nosso lugar.


O Cantor/compositor/apresentador China acaba de liberar seu novo single e clipe. A faixa escolhida foi a  musica "Longe Daqui", track bônus do seu ultimo álbum “Moto Continuo” lançado em 2011.
Com a atriz Uyara Torrente (uma das vocalistas da Banda Mais Bonita da Cidade), o clipe é simples: tela plana de projeção, a atriz imersa na escuridão, gradativamente sendo focada pela luz enquanto ao fundo na tela surgem imagens em travellings de uma estrada percorrida.
O clipe inicia num plano fixo que permanece ate o final, enquanto vemos Uyara emergir da escuridão total, num espécie de fade-in gradual.
Enquanto a letra - que versa justamente sobre uma persona que deseja se encontrar em algum lugar longe da atual realidade, letra essa  que  encontra sua representação bem feita aqui no clipe – Uyara vai surgindo belíssima, numa maquiagem bem delineada e com os cabelos presos.
O recurso estético de contrapor imagens, quase em uma fusão- apesar de não ser- e iluminação intensa e focada com a escuridão densa é belíssima. Confere ao clipe uma fotografia atraente.
Aliados a interpretação da atriz que permanece imóvel a todo instante, enquanto vemos em seu olhar a sua transformação emocional é de uma delicadeza tocante. É como se enquanto o clipe vai da escuridão a luz, a atriz, no entanto fosse justamente da serenidade ou esmaecimento, à escuridão e a suplica.
Em alguns momentos o clipe lembra um Teste de Cena realizado pelo Andy Warhol : Confira . 
No qual a modelo permanece estática, num enquadramento fixo, enquanto sua emoção flui na tela.
O som é elucidativo também, o que ajuda na imersão emocional proposta.
Com direção de Rosano Mauro JR. e Tainá Azeredo O clipe ‘Longe Daqui’ me agradou bastante (e a musica em si mais ainda) tanto que mereceu o post.
Confere aí “minha Joia” por que como diz o próprio China: esse som/clipe “é classe média alta”.






Ficha Técnica

Direção: Rosano Mauro Jr e Tainá Azeredo.
Ass. de Direção: Débora Vecchi
Dir. de Fotografia, Edição e Finalização: Rosano Mauro Jr
Atriz: Uyara Torrente
Artista: China
Álbum: Moto-Contínuo (2011) Nacional
Gravadora: Joinha Records