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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Critica: Cloud Atlas ( A Viagem)


“As nossas vidas não nos pertencem. Desde o útero ate o tumulo, estamos ligados a outros. No passado e no presente. E por cada crime e por cada ato de bondade; fazemos renascer nosso futuro.”




Baseado no Best Seller de mesmo nome, do escritor David Mitchell; Cloud Atlas ( ‘A Viagem’ aqui no Brasil) novo filme dos irmãos Wachowski (Matrix) em parceria com o diretor Tom Tykwer, vem para nos brindar com uma experiência através dos tempos, da razão e da sensibilidade, versus a brutalidade, o humor negro e a critica humanística.
Na trama, somos impelidos a seis diferentes épocas, onde cerca de 10 personagens distintos se cruzam de diferentes formas.

1850. No século XIX, Adam Ewing (Jim Sturgees) é um advogado enviado pela família para negociar a comprar de novos escravos. Ao retornar para casa, ele salva um escravo, Autua (David Gyasi), que está fugindo de Henry Goose (Tom Hanks), um médico que o envenenou.

Em 1930, o jovem e talentoso compositor Robert Frobisher (Ben Whishaw) ajuda o também compositor, e já idoso, Vyvyan Ars (Jim Broadbent). Durante o trabalho, Robert encontra uma crônica escrita por Ewing em um jornal em meio aos livros de Ars. Robert, mantem um relacionamento proibido com Sixmith, um aristocrata famosa a sua epoca.

Em 1970, a jornalista Luisa Rey (Halle Berry) conhece Rufus Sixmith (James d'Arcy) quando o elevador em que ambos estão quebra. Tempos depois, ele a procura para revelar que estão encobrindo uma série de falhas no projeto de construção de um reator nuclear; que poderia mudar o destino do planeta definitivamente.

Nos dias atuais,(2012) Timothy Cavendish (Jim Broadbent) é dono de uma pequena editora, que lançou um livro que dificilmente dará retorno financeiro. Entretanto, a situação muda quando o autor do livro mata um de seus críticos, tornando-se uma celebridade instantânea. Porem, totalmente endividado, ele é obrigado e a se esconder com a ajuda de seu irmão mais velho e rico. Mas o esconderijo na realidade se mostra ser uma armadilha.

Coreia do Sul (agora chamada de Nova Seul), futuro. 2130 aproximadamente. Sonmi-451 (Donna Bae) é um clone que trabalha em um restaurante fast food. Ela foi programada para realizar todo dia as mesmas tarefas, sem manifestar qualquer reclamação, mas a situação muda quando outro clone acaba, sem querer, despertando-a sobre sua existência.

Futuro. Nova Seul foi tragada pelas águas há 100 anos, o que fez com que o local viva uma realidade pós-apocalíptica, onde canibais exterminam pessoas do Vale.Nesta época vive Zachry (Tom Hanks), o líder de uma tribo que venera Sonmi como se fosse uma deusa. Sua vida muda quando Meronym (Halle Berry), que integra um grupo evoluído chamado Prescients, lhe pede para viver com sua tribo.

Todas essas Seis historias se interligam em uma montagem frenética que o filme faz indo do passado, ao futuro, ao presente e de volta ao passado num ritmo muitas vezes descontrolados, formando um paralelo entre as tramas.
O que causa certa confusão ao expectador a principio.

É importante salientar que todos os personagens centrais das Seis historias são interpretados pelos mesmos atores ao longo das épocas. E aqui se revela o maior triunfo de Cloud Atlas: seu trabalho de caracterização fenomenal e impressionante.
A maneira com que a maquiagem consegue de forma natural e imperceptível alterar as feições de cada ator ao longo das tramas é impressionante. E os atores por sua vez também ao conseguirem mudar não só o trabalho corporal, mas também sonoro de suas vozes de acordo com os personagens que assumem.

Da segunda metade do filme em diante, o roteiro se mostra coerente em toda a sua montagem difusa, e finalmente o filme toma corpo e velocidade aceitável e extremamente instigante e envolvente. Contando com diálogos mornos, meio clichês, mas funcionais ao enredo, Cloud Atlas ainda possui uma fotografia soberba, repleta de tons claros e delineados, assertivo de acordo com a época a que se referem; e uma trilha sonora inspiradora ao longo de sua longa duração.

O único problema em Cloud Atlas esta na forma que escolheu contar tal saga. Cada historia paralela funciona muito bem como unidade única de projeção. Mas quando colocadas juntas para formarem uma célula única, o que se obtém é um filme que lembra demais uma minissérie. Não há objetividade no desenvolvimento por incontáveis vezes. O filme nos leva de uma historia vazia, mas hilária de uma tentativa de fuga de alguns velhinhos de uma casa de repouso fascista. Ate uma mega produção sci-fi repleta de ação e drama brutal, com critica social latente, sem um pingo de humor. A ideia é interessante, mas o desenvolvimento ainda não foi a melhor pedida.

Cloud Atlas parece ser o tipo de historia que mereceu ser contada sim, por toda sua grandiosidade e relevância, mas que merecia ser uma serie- ou minisseria- e não um longa, mesmo em suas quase 3 horas de duração.

A filosofia vendida, por vezes batida do tipo: buscaremos a verdadeira- verdade, pintando alguns personagens, como a Sonmi, por exemplo, como uma verdadeira messias, inclusive, abusando de recursos visuais fazendo relação ao calvário na cruz e ao sacrifício do mesmo pela humanidade- se mostra um tanto um quanto monótono por vezes. Mas quando se analisa como um todo é uma boa reflexão acerca da fé, da esperança e da luta por mudanças. Aqui, a ideia da reencarnação é vista de diferentes formas e de maneira sensível, sem ser auto-imposta. Alias a religião é algo latente na obra, mas não totalmente perceptível ou catequista. A ideia do Karma. E isso é um ponto e tanto.

Uma ressalva importante: como filme, as únicas historias que realmente se apresentaram instigantes e que mereciam uma abordagem independente foram o núcleo todo de Sonmi; e a historia conturbada de  Frobisher e Sixmith.

Ao final, Cloud Atlas se torna um grande filme, relevante sim, com erros dispersos por conta do formato, mas que merece ser visto, revisto analisado, discutido e principalmente contemplado sim, mesmo em sua não sutileza de instigar a frase: “e o que é um oceano afinal, senão inúmeras gotinhas juntas?”. Pelo simples fato de propor uma discussão valida a cerca dessa nossa grande viagem rumo ao lugar que ninguém ainda conhece.

Trailer:  




FICHA TÉCNICA

Diretor: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Susan Sarandon, Hugh Grant, Ben Whishaw, Keith David, Jim Broadbent, James D'Arcy, Götz Otto, Zhu Zhu, Doona Bae, Xun Zhou, David Gyasi, Alistair Petrie, Daniele Rizzo, Brody Nicholas Lee, Mya-Lecia Naylor, Louis Dempsey, Robin Morrissey, Raevan Lee Hanan, Valerie Lillibeth, Laura Vietzen, Lyly Schoettle, Charly Yoon, Korbyn Hawk Hanan, Liz Strange, Barry Van Lee, Alexander Yassin
Produção: Stefan Arndt, Grant Hill, Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Roteiro: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Fotografia: Frank Griebe, John Toll
Trilha Sonora: Reinhold Heil, Johnny Klimek, Tom Tykwer
Duração: 172 min.
Ano: 2012
País: EUA, Alemanha, Hong Kong, Cingapura
Gênero: Drama





















quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Critica: Holy Motors


O filme que foi aplaudido de pé durante longos 15 minutos no Festival de Cannes de 2012. E merecidamente.

AÇÃO!

Holy Motors, novo filme – depois de um hiato de mais de quatro anos – do diretor Leos Carax é um deleite incomodo a cinéfilos do mundo todo.


O filme inicia-se com trechos de um filme em preto e branco, mudo, antigo, de um homem forte, de costas e nu, fazendo movimentos corporais. Em seguida somos levados a uma sala de cinema. Onde os espectadores nos olham. A montagem eficaz nos leva então para um quarto onde um senhor (o diretor Carax) acorda em seu quarto de papeis de parede repletos de arvores, como a simular uma floresta em preto e branco, após escutar sons de porto. De barcos chegando ou desembarcando do cais.
Ele investiga a origem do som e através de uma chave de metal que é um de seus dedos da mão direita, ele abre um portal através da parede de floresta branca e recai sobre a sala de cinema do inicio. Onde todos os expectadores dormem, enquanto vemos que a origem dos sons vem do filme passando na tela grande.
No corredor da sala vemos uma criança fugindo de 2 enormes cães, para em seguida vislumbrarmos uma menina dando tchau a seu pai através da janela de seu quarto numa casa que parece um grande iate.
O Homem, que já não é mais Carax e sim Lavant, entra numa limousine branca dirigida por uma senhora de cabelos brancos belíssima. E assim inicia-se Holy Motors.

Essa sequência já nos coloca a par do surrealismo proposto em tela. Mas mais do que isso, essa sequência metafórica nos mostra a intenção clara do diretor ao realizar tal obra: falar e transpassar o Cinema.
Holy Motors nada mais é do que um Ode a sétima arte, a arte e a indústria. Uma critica pessoal que remonta todas as características históricas dos filmes desde seus primórdios e o publico que o acompanha ao longo dos anos. Quando Carax acorda e abre o portal para o cinema, nada mais esta fazendo do que nos apresentando seu mundo. Seu mundo cinematográfico, nos convidando a embarcar(daí o cais e o porto) nessa experiência que nem sempre será clara, nem sempre será bela (os caos perseguindo e provavelmente atacando a criança), mas que será cinema em toda sua brutalidade, verdade e mentira bela.
A critica esta no publico que dorme diante da arte, esta nas lapides que só servem como banner para vender produtos, na beleza contrastando com a feiura, ser cinema pela fama e não pela identificação e essência, esta na própria limusine e no dialogo de Oscar com seu suposto chefe:

“Porque você ainda faz isso Oscar?”// “Pelo mesmo motivo que comecei. Pela beleza do ato”// “mas e quando não houver mais ninguém para ver?” 

e a cena se dissolve como se nunca houvesse existido. Deixada sem resposta. O dialogo fala do cinema. Do porque vemos e fazemos cinema. 'Pela beleza do ato'. Mas será que ainda há alguém vendo?

Cada vez mais o publico aplaude de pé e exalta super produções artificiais e sintéticas, com efeitos especiais milionários, ou romances vazios sem conteúdo algum; e dormem literalmente diante de obras que caem fundo na comunicação social e na arte sensorial clássica.
O Artista já não é mais visto como vagabundo ou genial. É visto como galã e diva. Cinema da beleza para estampar editoriais de moda.

É a visão de Carax sobre uma indústria e uma arte que vai perdendo espaço para as câmeras de mão, dos celulares. “Não mais motores”.

Não Por acaso o nome do personagem de Lavant é OSCAR.


Com uma narrativa densa e repleta de reviravoltas e pontos de viradas quase episódicos, o filme traz referencias cinematográficas em cada detalhe. Seja nos personagens vividos por Oscar, seja pelas sequências que trazem clara alusão a filmes clássicos do cinema. Vemos desde Pietá (na cena com Eva Mendes e Denis Lavant nu e excitado) ate mesmo Casablanca (na cena com Kylie Minogue).

A fotografia soberba em alguns pontos nos conduz aos primórdios cinematográficos, onde a tecnologia virtual não fazia parte da arte. Tons nada saturados e uma filmagem quase que completamente limpa, para em seguida sutilmente surgir carregada, escura e texturizada.

Há nudez, há simulação de sexo virtual e bizarro, há referencias ate mesmo ao teatro, e as artes circenses, no ato de interpretar e se mover tão caricatural de Lavant, e mesmo na maneira com que ele se caracteriza e se desdobra em incontáveis personas peculiares.

Mas independente do roteiro bem decupado e do enredo por vezes confuso, o grande trunfo do filme esta no trabalho de maquiagem e na atuação de Lavant. Nome recorrente a qualquer menção ao filme. O trabalho vocal, corporal e de expressão facial do ator é deslumbrante. Ele consegue imprimir clareza – única talvez durante toda a experiência que a película nos brinda- nos mais improváveis personagens numa naturalidade e facilidade extrema. Consegue emocionar e chocar na mesma medida.

Ao fim. Holy Motors nos contempla de maneira cruel com todos os clichês possíveis propositais e uma critica absurda não só ao cinema, mas ao ser humano no geral. Tudo sem cair na falha ambiciosa de soar intelectual demais ou forçado demais. Tudo é cru, direto, sujo.

Que vai alem da película e transforma essa experiencia numa visão do ser humano e da sociedade a cada dia mais robotizada raro de se ver atualmente de uma maneira eficaz - vista que Cosmópolis ( Cronemberg 2012) por exemplo tentou e não conseguiu plenamente-. Não sagazmente ao final vemos um Homem, retornando ao lar, para sua família de macacos afetuosos. Nosso primitivo exalando mais humanidade, do que a evolução tem permitido e demonstrado. Maquinas que tal qual desde a época do "Exterminador do Futuro" predizem conseguirem ser mais humanos que gente de carne, osso e coração. Ou mesmo ainda remontando as tragedias gregas, as atuações dos 'bizarros' entre suas mascaras sociais exalando papeis cotidianos em cada persona de Oscar.

Buñel e Lynch com certeza devem estar ainda pulando numa perna só e brindando de pé a essa obra.
Não é fácil, não é compreensível. Mas é instigante, densa e interessante. Uma obra obrigatória para a atualidade.

E como o próprio filme diz:  “a beleza esta nos olhos de quem vê”.

E assim o filme se coloca a mercê de ser mais um elemento de seu próprio feito ou se mostrar um messias diante de sua própria categoria.

Faça suas próprias interpretações. Porque muito mais do que tentar entender, Holy Motors existe para buscar compreensão pessoal em cada um que o assiste. Mil interpretações e sentidos para cada mil pessoas a vê-lo. Assim como o cinema.

E no final, é de Carax o ultimo quadro no projetor. 

CORTA!

Trailer:



FICHA TÉCNICA

Diretor: Leos Carax
Elenco: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Elise Lhomeau, Jeanne Disson, Michel Piccoli, Leos Carax, Nastya Golubeva Carax, Reda Oumouzoune, Zlata,
Produção: Martine Marignax, Albert Prévost, Maurice Tinchant
Roteiro: Leos Carax
Fotografia: Yves Cape, Caroline Champetier
Duração: 115 min.
Ano: 2012
País: França, Alemanha
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos











domingo, 30 de dezembro de 2012

Critica: Historias Que Só Existem Quando Lembradas


“- Eu não posso continuar fingindo que faço parte desse lugar.
- mas afinal, a que lugar você pertence?”



Jotuomba é um pequeno vilarejo em que ninguém morre há muito tempo e o cemitério está trancado com cadeado. Cada morador cumpre sua função e assim seguem os dias. Madalena (Sonia Guedes) faz pão para o armazém do Antônio (Luiz Serra). Como todos os dias, ela atravessa o trilho, onde o trem já não passa há anos, limpa o portão do cemitério trancado, ouve o sermão do padre e almoça com os outros velhos habitantes da cidade. Vivendo da memória do marido morto, Madalena é acordada por Rita (Lisa E. Fávero), uma jovem fotógrafa que chega na cidade fantasma de Jotuomba, onde o tempo parece ter parado.

Sinopse acertada de uma premissa instigante, bela e extremante sensível e perturbadora.
Com um dos títulos mais belos do ano, “Historias Que Só Existem Quando Lembradas” cria uma fabula atemporal e anacrônica sobre um vilarejo estático no tempo e espaço, onde as memórias são a chave para sua sobrevivência arquetípica.

O filme que conta quase sempre com enquadramentos estáticos, no meio da tela, nos mostra um pequeno vilarejo esquecido no tempo. Rachaduras nas paredes, sem animais visíveis, relógios quebrados, poeiras no soalho e nas estantes. Onde o cotidiano se repete continuamente sem cessar. Madalena (numa fabulosa interpretação de Sonia Guedes) segue sua vida numa repetição quase cronometrada: acorda ainda de madrugada, faz o pão e o assa. Leva-os logo de manhã ate o armazém de Antonio ( numa atuação sóbrio e repleta de tons cômicos de Luiz Serra), onde ela se encarrega de enfileirar e arruma-los na estante, a contra gosto de Antonio que ao fazer o café – que Madalena julga ser ruim – reclama do modo em que ela dispõe os pães. Então ambos sentam-se do lado de fora do armazém para tomarem seu café da manhã, enquanto conversam amenidades ou ficam em permanente silencio. A tarde, se encontram com os outros – aproximadamente- dez habitantes do vilarejo, todos velhos, onde se sentam a uma mesa de madeira ao ar livre, rezam e almoçam juntos. Em seguida parte para a única igrejinha existente e ouvem o sermão do Padre. À noite, Madalena volta para sua casa, onde escreve cartas pequenas a seu finado marido Guilherme. Cartas que ela endereça a ele numa rebuscada letra e guarda numa caixa de papelão antiga.
No dia seguinte, tudo se repete outra vez. As mesmas falas, os mesmos gestos.

Ate que a chegada de Rita, uma jovem andarilha fotografa, que pede hospedagem na casa de madalena, muda sutilmente a rotina de todos no vilarejo, apenas por sua presença.
É tocante notar as diferentes sutis que o roteiro imprime a narrativa com a chegada da nova personagem. E principalmente o contraste desta com o todo do filme. Rita é jovem, dinâmica, independente, questionadora e observadora, cabelos tingidos e curtos, que usa roupas atuais e porta diversas câmeras e um Ipod.
Tudo em Rita se contrasta diretamente com os moradores e o próprio vilarejo sem nome.
Ao redor, o tempo parece ter se extinguido. Como Antonio diz em certo momento do filme “Aqui nós nos esquecemos de morrer”.

Seus moradores parecem se fundir aos poucos, as pedras e as paredes rachadas. Como se fossem um único organismo remanescente de uma Era antiga. Quase uma cidade fantasma. 

Contando com uma narrativa densa e misteriosa, com ares de terror e suspense latente, em parte pela escolha de montagem eficaz e correta de acostumar o expectador àquela rotina dos moradores, fazendo com que uma minima mudança, um minimo utensilio a mais ou a menos chame nossa atenção imediatamente; o filme traz uma esplêndida fotografia repleta de texturas saturadas, com imagens deslumbrantes e bucólicas e planos inspiradores e enquadramentos belos e funcionais, para mostrar a emprestar o tom de contemplação, feito obras de natureza morta que o enredo exige. Sem muitos diálogos, o filme ainda tem o bônus de não possuir trilha sonora, provindo no silencio ou nos sons ambientes, como a respiração de seus personagens; seu maior trunfo.

Numa direção segura de Murrat, 'Historias Que Só Existem Quando Lembradas', cai fundo em reflexões humanas, de vida, morte e caminhos a se seguir. Coloco em xeque nossas lembranças e sonhos e nossa visão de mundo vivo diante do fatídico fim que é o descanso eterno. Esteja nas metáforas contidas nas fotografias em preto e branco com superexposição, onde seus personagens surgem quase apagados, como espíritos intrusos de um mundo vivo; seja nos cadeados em volta do único cemitério da cidade, onde a entrada é proibida e tem a fachada repleta de flores cultivadas com afinco por Madalena. Seja na rotina estática e repetitiva, ou mesmo no olhar de seus moradores sempre vazios e desconfiados.

Numa sequência de tirar o fôlego, em que Madalena aceita por fim tirar uma fotografia de si, o filme ainda recai sobre uma alusão ao eterno que as fotos captam. Mágico.

Ao final, o filme nos brinda com uma tocante, bizarra e enregelante reviravolta, permeada por um fio cômico peculiar, provando que se tornou não só um filme a ser lembrado, como também jamais esquecido.

Trailer



FICHA TÉCNICA

Diretor: Júlia Murat
Elenco: Sonia Guedes, Lisa E. Fávero, Luiz Serra, Ricardo Merkin, Antonio dos Santos, Nelson Justiniano, Maria Aparecida Campos, Manoelina dos Santos, Evanilde Souza, Julião Rosa, Elias dos Santos, Pedro Igreja
Produção: Lucia Murat, Julia Murat, Christian Boudier, Julia Solomonoff, Felicitas Raffo, Juliette Lepoutre, Marie-Pierre Macia
Roteiro: Julia Murat, Maria Clara Escobar, Felipe Sholl
Fotografia: Lucio Bonelli
Duração: 98 min.
Ano: 2011
País: Brasil, Argentina, França
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Classificação: 12 anos









sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Critica: Argo



A Crise de Reféns do Irã  foi uma crise diplomática entre o Irã e os Estados Unidos, onde 52 norte-americanos foram mantidos reféns por 444 dias (de 4 de novembro de 1979 a 20 de janeiro de 1981), após um grupo de estudantes e militantes islâmicos tomar a embaixada americana em Teerã, em apoio à Revolução Iraniana.
O episódio chegou ao auge quando, após tentativas fracassadas de negociar uma libertação, os militares dos Estados Unidos tentarem uma operação de resgate, a Operação Eagle Claw, em 24 de abril de 1980, que resultou em uma missão fracassada, a destruição de duas aeronaves e a morte de oito soldados americanos e um civil iraniano. Ela terminou com a assinatura dos Acordos de Argel, na Argélia em 19 de janeiro de 1981. Os reféns foram formalmente libertados sob custódia dos Estados Unidos no dia seguinte, poucos minutos após o novo presidente americano Ronald Reagan ser empossado.

Em meio a isso, um projeto de resgate promovido pela Cia em total cunho secreto, era arquitetado.

Após a invasão da embaixada dos Estados Unidos, seis funcionários fogem e procuram abrigo na casa do cônsul canadense. Depois de tomar ciência da situação, a CIA chama Tony Mendez (Affleck), um especialista em resgates, para desenvolver um plano de fuga.

Sem melhores alternativas devido ao governo ditatorial que vigora no país, ele resolve criar um falso filme, uma cópia descarada de Star Wars, que se chamaria Argo. Com a desculpa de procurar locações, ele entra no Irã para ajudar os americanos.

Essa é a premissa de Argo, terceiro filme de Ben Affleck na direção, que desta vez também o protagoniza. Apesar do cunho fantástico e fértil do enredo, não se engane. Tudo realmente aconteceu. Argo é baseado em fatos reais. Difícil de acreditar? Sim. E é aí que a magia acontece.

Com direção segura e mais uma vez demonstrando total domínio da linguagem, bem como o conhecimento de sua historia, Affleck nos conduz diante de um drama/ação denso repleto de tomadas inventivas e sequencias de tirar o folego.

Contando ainda com um roteiro bem amarrado com poucas falhas de estrutura; Argo mostra diálogos inteligentes e mais que isso, um respeito absoluto a seu publico e a historia que se propõe a contar.

Como feito em "Medo da Verdade" Aflleck utiliza o artificial do 'livre-arbítrio" ao induzir no espectador o martelo e a sentença. Não ha julgamento explicito de valor e culpa. ambos os lados da moeda, são relevantes e tem sua parcela de vitimização e culposidade. Cabe ao espectador decidir de que lado ficara, e qual 'mocinho" escolhera.
Mas ao contrario o mencionado, "Argo" não é totalmente serio. ele se utiliza de artifícios cômicos e de ironias planejadas especialmente para quebrar a tensão dramática. Não é um filme difícil de se assistir, é leve, repleto de vícios de linguagem.

Claro que há o patriotismo, caso contrario não seria um filme com as bençãos de Hollywood, mas a simples escolha de nos introduzir a tal historia contando apenas fatos sem enfeites, logo no prologo muito bem montado e conduzido, já é um feito e tanto para um diretor em crescente ascensão.

Utilizando planos rápidos, e montagens rápidas, uma edição calma e correta e contando com atuações medianas, e controladas Argo ainda se beneficia por sua malemolência de introduzir uma metaforização peculiar a Star Wars. O roteiro de Argo - (foda-se*) o fictício dentro do filme - remonta a uma versão Trash de Star Wars. Mas o curioso é notar a ideia de alusão ao clássico e ao próprio EUA. A bandeira americana sempre presente quando é citado Star Wars. Guerra nas Estrelas. A bandeira repleta de estrelas. E isso é de uma genialidade poucas vezes vistas no cinema atual. ao menos em Hollywood. 
Coincidência?

Ben Affleck ainda empresta a seu personagem uma atuação morna, como sempre, mas ironicamente correta. Na realidade o papel dele é tão secular que poderia não existir.
Alias este é um raro filme em que as atuações pouco importam. O que importa é o enredo. Os personagens e seus nomes são esquecidos no minuto em que sobem os créditos.

Contando com um das melhores sequencias do ano, em seu climax, Argo ainda nos brinda com a demonstração de um trabalho intenso de pesquisa ao final, ao mostrar a dedicação em mostrar os fatos tal qual foram.

Argo é cotado a conseguir as principais indicações ao Oscar de 2013. E não seria nenhuma surpresa se os leva-se.

Ótimo filme.


* comentário remetendo a uma citação dentro do filme.

Curiosidade:


O personagem de Goodman: John Chambers, realmente foi informante do governo, além de ser o vencedor do Oscar de Melhor Maquiagem em 1969, por seu trabalho em Planeta dos Macacos.

** Critica de "Medo da Verdade" >>Criticofilia - Critica: Medo Da Verdade

 Trailer:





Ficha técnica:
  
Diretor: Ben Affleck
Elenco: Bryan Cranston, Ben Affleck, John Goodman, Taylor Schilling, Kyle Chandler, Alan Arkin, Tate Donovan, Clea DuVall, Adrienne Barbeau, Rory Cochrane, Kerry Bishé, Richard Kind, Titus Welliver, Michael Parks, Zeljko Ivanek, Chris Messina, Michael Cassidy.
Produção: George Clooney, Grant Heslov, David Klawans
Roteiro: Chris Terrio
Fotografia: Rodrigo Prieto
Duração: 120 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos







quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Critica- A Saga Crepúsculo - Amanhecer: Parte 2


Com direção de Bill Condon, A Saga Crepúsculo – Amanhecer – Parte 2, chega ao fim, num filme hibrido divertido e quase que redentor de sua própria limitação.

Não é novidade que a Crepúsculo trouxe a tona um ode de questionamento acerca dos filmes de entretenimento e blockbuster no mundo todo. Detentores de bilhões em bilheteria e cultuados por jovens e adultos, a saga vampiresca, demonstrou que não é preciso habilidade ou talento para se conseguir uma posição relevante na indústria. Aliados a um marketing forte e um clã de seguidores e fãs da obra literária que originou a saga, os filmes dessa franquia demonstrou uma quase nula habilidade técnica, mas uma exemplar de divulgação.

O filme inicia-se do ponto em que parou na Parte 1. Bella finalmente acorda, transformada em vampira depois de quase morrer ao dar a luz a sua filha hibrida Renesmme. Mas o que parecia ser o conto de fadas – não pude evitar o comentário – perfeito; se torna um verdadeiro pesadelo, quando Irina, uma antiga inimiga dos Cullen e de Bella, avista Renesmee de longe, e tomada pelo desejo de vingança, acusa a existência da menina aos Volturi – clã de vampiros governantes -. Por considerarem Renesmee uma ameaça, uma vez que julgam se tratar de uma criança imortal, transformada em vampira pelos Cullen, os Volturi partem rumo a Forks, cidade em que vivem os Cullen, prontos para darem o devido castigo a família e a criança; a sentença? – A Morte definitiva.
Mas o que os Volturi não sabem é que Renesmme é meio vampira e meio humana, já que foi concebida de forma “natural”. Agora, Bella, Edward, Jacob e os Cullem, partem numa corrida contra o tempo, para conseguir testemunhas suficientes entre os Vampiros, para provar aos Volturi que Renesmee não é uma ameaça, e assim garantirem a proteção de sua Família Imortal.

Com essa premissa, o filme parte numa narrativa mais eficaz do que os outros títulos anteriores. A estrutura do roteiro ganha pela primeira vez, um enredo funcional, com 3 atos bem definidos e ate mesmo diálogos interessantes. A principal mudança acontece justamente, pelo fato de que pela primeira vez o filme se assume tal qual é: entretenimento.

Isso é notado na escolha de imprimir doses cômicas e despretensiosas às cenas.
Como em  passagens cômicas como a adaptação de Bella a sua nova força de recém criada, ou como sua ira ao descobrir sobre o Imprinting  de Jacob com sua filha. Ou mesmo os Vampiros distantes e seus poderes e humor ácidos.

Toda a falta de técnica e as atuações lastimáveis do elenco central- com exceção mínima de Taylor e seu Jacob – são eclipsados, pela forma que o diretor escolheu enxergar seu produto final. Se antes o maior problema era a pretensão de cada titulo ser um filme relevante, grande, “épico”, quando na realidade não passavam de decupagens mal feitas, planos desinteressantes, atuações medianas, e um roteiro falho, repleto de oscilações e incoerências. Aqui em Amanhecer parte 2, tudo se releva justamente pela compreensão de elenco e direção de saberem o que são e tem, e qual o objetivo final na obra. Dar o que o publico espera. E conseguem.

Contando com uma fotografia mais saturada e delimitada, e uma paleta de cores condizente com a nova realidade de Bella, ao vermos planos mais amplos, ou pequenos detalhes, em cores vivas e sequências mais ágeis; o filme reforça sua maior força: sua trilha sonora. Canções belas de ídolos pop atuais embalam os momentos certos em cada cena.

Se o trabalho de maquiagem impressionou na parte 1 ao tornar Bella numa escultura cadavérica, definhando de dentro para fora, aqui na parte dois, as falhas são visíveis.
Bella é uma morta-viva. Uma mutante sem circulação sanguínea. Sem sangue quente. Mas ainda assim, é possível notar sua face rosada a todo instante. Um deslize.

Deslize que se torna uma falha terrível ao incluírem uma mescla de maquiagem e efeitos visuais falhos ao conceber uma bizarra projeção do rosto de Renesmee quando mais nova. Uma computação gráfica mal feita, mesclando as feições de Bella e Edward. 
Não soa natural.

É importante destacar a atuação da Kristen aqui e de Pattison. Kristen continua demonstrando um acanhamento para interpretar frustrante, mas pela primeira vez, parece que ela aceitou também seu personagem. Ela demonstra uma atuação leve. Como se estivesse se divertindo no papel, e isso é bom. O mesmo se pode dizer de Pattison, que seja proposital ou não, deixa de lado as expressões controladas e fechadas de antes e assume um tom mais natural, tornando seu personagem ao menos coerente, uma vez que a desculpa para suas feições sem trejeitos serem devido a seu auto controle ao estar perto do "cheiro" de Bella. Uma vez que ela agora é vampira o controle some.

Mas se há algo que se deve aplaudir em Amanhecer Parte 2; é primeiro o seu salto narrativo que conceberam exclusivamente ao filme, ao incluírem uma batalha bem executada, sangrenta, visceral e catártica, próximo ao clímax da projeção. Uma inspiração interessante que quase concede ao filme uma esperança de que finalmente aprenderam algo. Mas a esperança fica no quase, ao errarem novamente e voltarem a historia original, destruindo completamente a beleza, inclusive técnica de tal momento. 
Uma pena.

E segundo e não menos importante é a atuação de Michael Sheen e seu Vilão Líder dos Volturi, Aro. Doando ao personagem uma personalidade cômica, próxima à loucura psicopata, Aro se transforma num vilão simpaticamente assustador e assim o personagem mais interessante de todos os cinco filmes lançados ate então. Suas expressões, seus trejeitos, sua fala controlada e sibilada; uma atuação realmente boa.

Ao fim, Amanhecer Parte 2 volta às mesmas limitações de seu inicio, remontando um romance vazio, sem sentido e totalmente anacrônico a realidade ou mesmo a ficção.

Mas se há um trunfo nisso tudo é o nome acertado de seus títulos, se tal qual a alusão ao nosso satélite natural em suas repletas fases, a Saga Vampiresca, nos mostrou uma fase aluada em tela, anacrônica a suas próprias inspirações. Tornando-se um absoluto Crepúsculo do inicio de nosso século cinematográfico.

No mais, Amanhecer Parte 2 é bom. Divertido, com momentos interessantes e ate certo brilho ao sol que contempla seu amanhecer.

Mas não, não “para sempre”. E isso é excelente.



Trailer:



 Ficha Técnica:

Diretor: Bill Condon
Elenco: Kristen Stewart, Robert Pattinson, Dakota Fanning, Anna Kendrick, Taylor Lautner, Ashley Greene, Michael Sheen, Maggie Grace, Kellan Lutz, Nikki Reed, Jackson Rathbone, Peter Facinelli, Jamie Campbell Bower, Mackenzie Foy, Billy Burke, Elizabeth Reaser, Christopher Heyerdahl, Lee Pace, MyAnna Buring, Joe Anderson, Cameron Bright, Booboo Stewart, Angela Sarafyan, Noel Fisher, Ty Olsson, Alex Meraz, Rami Malek, Christian Camargo, Julia Jones, Mía Maestro, Charlie Bewley, Daniel Cudmore, Lateef Crowder, Tinsel Korey, JD Pardo, Chaske Spencer, Kiowa Gordon, Judith Shekoni, Casey LaBow, Bronson Pelletier, Omar Metwally, Andrea Gabriel, Toni Trucks, Tracey Heggins, Lisa Howard, Guri Weinberg, Marisa Quinn, Marlane Barnes, Valorie Curry, Erik Odom, Janelle Froehlich, Patrick Brennan, Bill Tangradi, Tony Bentley, Amadou Ly, Tammi Arender, Masami Kosaka, John Edward Lee, Salomon Passariello, Vivian Fleming-Alvarez, Christine Craft Regusa
Produção: Wyck Godfrey, Stephenie Meyer, Karen Rosenfelt
Roteiro: Melissa Rosenberg
Fotografia: Guillermo Navarro
Trilha Sonora: Carter Burwell
Duração: 117 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos