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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Critica: O Mestre (The Master)




A cientologia é um sistema de crenças (também designada seita), criado em 1955 pelo escritor de ficção científica L. Ron Hubbard. Atualmente ela reúne adeptos, principalmente nos Estados Unidos.

A Igreja da Cientologia mistura aspectos da psicoterapia com elementos religiosos do hinduísmo, budismo e cristianismo. Os seguidores da cientologia acreditam na imortalidade, sendo que os seres humanos vão evoluindo até chegar ao estado de iluminação. Esta evolução não ocorre em apenas uma vida, mas sim em várias vidas através do processo de reencarnação. O ser espiritual, que é imortal, é chamado de “thetan”.

Os adeptos desta igreja passam por um processo científico para atingir o autoconhecimento. Entrevistas, exames, e até testes com detectores de mentiras (polígrafo) são usados neste processo. Os resultados deste processo são guardados para que os adeptos possam, futuramente, verificar o progresso obtido.

A Explicação acima é pertinente aqui, uma vez que o longa O Mestre do diretor Paul Thomas Anderson, permeia a todo instante o nascimento dessa religião cientifica, sem o caráter documental, verídico, mas de forma abrangente.

O filme trata da fundação da Causa, uma organização religiosa criada por Lancaster Dodd (Hoffman) nos anos 50, depois dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Freddie Sutton (Joaquin Phoenix) é um alcoólatra, veterano da Marinha, que volta da guerra e regressa ao lar, aflito e inquieto quanto ao seu futuro. Ele se torna aprendiz de Lancaster Dodd, mas começa a questioná-lo quando o culto ganha proporções de fervor cego.

Ao contrario do que fizera por exemplo em Magnólia ou mesmo Sangue Negro, Thomas Anderson, entrega aqui um filme muito mais abrangente ao grande publico, porem não menos emblemático. Não temos as inúmeras interligações de tramas durante o enredo. Seguimos uma linha única na trama, que se dá através do relacionamento de Dodd e Freddie, e a relação de ambos com as ideologias trazidas através dos ensinamentos estudados – e aparentemente criados - pelo Dodd, denominado a fundação A Causa; que posteriormente se tornaria a religião conhecida atualmente como Cientologia.

A trama intercala momentos da vida conturbada de Freddie, suas atribulações pessoais, emocionais e sentimentais, a sua adaptação ao modo de vida de Dodd.

O filme inicia-se numa praia, com vários marinheiros recém-chegados da Guerra, se divertindo e relaxando. Entre eles esta Freddie, que parece alheio ao restante de seus colegas, se concentrando apenas a conseguir obter a água de um coco sem se cortar ou mesmo a explicar suas teorias mirabolantes de como se livrar de um caranguejo que se atraque com seu saco escrotal.

Em dado momento, os marinheiros fazem uma mulher de areia, e Freddie participando da descontração, surge para simular sexo com ela. No primeiro momento os marinheiros riem e se divertem com a cena, porem aos poucos- já com a trilha sonora quase inexistente em cena- os risos vão cessando e dando lugar a expressões preocupadas.  Após um corte seco, vemos Freddie de costas se masturbando loucamente, para em seguida deitar-se carinhosamente abraçando-se com a mulher de areia, que assume assim uma conotação entre mescla de uma situação pós-coito de satisfação e carinho, e a maternal, de um filho abraçando a mãe após um carinho qualquer.

Essa cena de abertura já diz muito sobre o que esperar de Thomas Anderson e seu O Mestre.
Logo o roteiro nos conduz sobre a mente problemática de Freddie que constantemente assume uma postura curvada, quase de desamparo, com as mãos nos quadris de tempos em tempos, como se buscasse ali um autocontrole, firmar-se para não cair. Isso já nos apresenta o trabalho de composição de personagem assombroso de Phoenix, que mantém suas feições paralisadas, um olhar entre a loucura e o sofrimento intenso, a fala enrolada e embarcada, um andar torto, e uma respiração falha. 

O Trabalho e atuação de Phoenix é algo descomunal e intenso, de tal modo que seria quase que impossível tirar todas as atenções dele. Seu personagem é extremamente emblematico e desafiador, não só pelas caracteristicas fisicas, mas pela carga emocional que ele carrega. Freddie é um homem visivelmente atormentado por seu passado. Numa cena fabulosa e que revela uma atuação intensa de Phoneix, de entrega, qm que ele se submete a uma especie de hipnose, respondendo uma serie de perguntas rapidas sem poder piscar. A tensao ali que ja é um deleite a parte, revela todos os medos do personagem e traça o porque de seu comportamento violento, sexual, de medo e desafio a autoridades- que encontra sua ironia justamente na figura do Mestre- e seu medo de se entregar a loucura, o que apesar de ela ser visivel, o mantem lucido na maior parte do tempo. 

Mas ocorre o impossível. Isso porque tanto as personas de Hoffmam e seu Dodd e de Amy Adams e sua Peggy (esposa de Dodd) são extremamente bem compostas da mesma maneira. Os niveis de atuação se equiparam assim como a força de seus respectivos personagens.

Hoffman convence no papel de Mestre. Sempre demonstrando analisar cada conversa, cada ato, cada situação, cada pessoa, sempre aparentando um cansaço na respiração, próprio de figuras de poder. Inclusive, tendo na maior parte do tempo uma serenidade latente mas que ao simples questionamento de suas ações, como ao ser questionado por suas crenças, se apresenta imediatamente tão violento e intolerante quando Freddie, o que devido a seu caracter aparentemente brando, acaba surgindo assustador sempre que explode de repente. 

Mas realmente é de Amy Adams e sua Peggy um dos personagens mais interessantes numa teia de personas instigantes.

Isso porque, Peggy assume muitas vezes com sutileza extrema, captada apenas através de detalhes, o papel de verdadeira comandante dentro da congregação e dentro da própria família  As decisões que não lhe agradam parecem tomar força e fracassarem, seus olhares e presença em tudo que o marido faz é latente também, é dela a voz final, é dela a força e motivação – e ordem- quando em certo momento ela quer que o marido e Freddie parem de beber.

Nisso entra a fantástica cena em que Dodd esta se preparando para dormir, fazendo a higiene pessoal em frente ao espelho no banheiro e sua esposa Peggy surge. Ela faz um discurso revelador de sua posição dentro da trama, enquanto de maneira quase que torturante o masturba enquanto exige e ordena que ele não beba mais e volte a ser o Mestre para seus seguidores. Toda a cena é mostrada com os atores de costas, de frente a um pequeno espelho, e não há nada de sensual ou sexual ali, apesar de ser sugerido. É extremamente tenso a maneira que se desenrola a cena justamente por vir a tona o real papel e força da personagem de Peggy na trama. Assim seu personagem ganha uma dualidade de valores mais intensa, não por acaso sua cena final no longa é extremamente desconcertante por sua fala, e igualmente o fato dela sempre surgir – na maioria das cenas- trajando vestes na tonalidade magenta, que nada mais é que a junção do azul e do vermelho. E Amy Adams transpõe essa força e intensidade  de seu personagem de maneira bem interessante, principalmente em seus olhares sempre numa mescla de raiva e desconfiança com medo e tristeza.

Essa relação de sua personagem com a trama se dá também numa cena peculiar- e extremamente bem conduzida- quando estão todos reunidos numa sala, enquanto Dodd canta e dança. Freddie visivelmente alcoolizado tal qual Dodd, esta sentado num canto extremo da sala apenas observando a cantoria. E nesse momento seus pensamentos lascivos voltam a domina-lo, fazendo-o enxergar todas as mulheres completamente nuas. Isso se dá por uma pequena panorâmica que gradualmente vai revelando- transformando- as vestes das mulheres, revelando seus corpos nus sem que elas se deem conta disso. Inclusive Peggy, que se encontra quase que invisível em cena sentada no outro extremo da sala. E mesmo que esta também acabe sendo desnudada, e mesmo que toda a cena seja reflexo da imaginação de Freddie, ainda assim Peggy lhe lança imediatamente olhares de desaprovação, como se esta conseguisse saber exatamente o que se passava pela mente de Freddie naquele instante.

Ainda com relação as atuações, os embates entre Freddie e Dodd se dão de maneira intensa. Mestre versus discípulo. pai versus filho – algo recorrente também na filmografia de Thomas Anderson, a relação pai e filho-. Com o auxilio de câmeras que captam as cenas recorrentemente de baixo pra cima, numa angulação que transpõe à tela a relação de que Dodd é superior a Freddie em todos os sentidos, - com exceção magistral do inicio do terceiro ato em diante que os planos começam a ter continuamente um nivelamento-  o filme ainda ganha ares de Thriller ao conseguir evocar o suspense de quando essa relação tempestuosa ira se desmanchar. Isso porque desde o inicio da relação Dodd-Freddie há uma latente lacuna entre os dois, que ao mesmo tempo em que os conecta, os coloca num limite de tensão – muitas vezes sexual inclusive, já que o interesse de Dodd por Freddie as vezes ultrapassa a conotação paternal e ditatorial e parte para olhares de lascividade homoafetiva- que sugere claramente que estão a ponto de descarrilhar.

Ate porque Freddie e Peggy são os únicos dentro da congregação que parecem possuir um controle, uma espécie de influencia em Dodd, e assim uma relutância em seguir seus passos cegamente. Por mais que Freddie surja como um filho rebelde que ainda assim segue as doutrinas de Dodd, ele também encontra lugar para desafia-lo e se questionar, mesmo que não proferindo-as sobre o sentido de tais atos e ideologias e crenças.

Tudo isso ajuda a compor de maneira profunda as relações e por sua vez as personas dos personagens dentro da trama. Mesmo que a cientologia esteja ligando tudo, é nas relações intrínsecas de seus personagens que o longa ganha força e discorre, numa quase psicanálise.

Não por acaso ha analogias diversas a figuras de testes de psicologia a todo instante, seja nos quadros nas paredes ou nas imagens que compõe a arte dos ambientes.

Aliados a uma fotografia delineada, repleta de tonificações, é das cores o grande feito dela. Em especial a presença das cores Azul – que representam continuamente a relação de Freddie com o mar, onde este desponta como divisor de seus ideais  Uma vez que foi durante a Guerra pelo mar que Freddie adquiriu seus medos, receios e limitações. Suas neuras e tormentos. Onde continuamente surge um plano das águas do mar divididas por um rastro deixado por uma embarcação, em um tom mais claro de azul, que tanto nos remete as soluções alcoólicas de Freddie, como a própria divisão de suas crenças e escolhas-; e o Vermelho – que surge como antecessor dos interesses de Freddie. Geralmente associados as suas necessidades sexuais em suas mulheres. O vermelho é característico em varias passagens em que notamos quando Freddie ficara abalado ou demonstrara interesse afetivo/sexual por algo. E nisso é interessante constatar a escolha de introduzir o personagem Dodd na historia, trajando apenas um Robe de banho na cor vermelho, assim que conhece Freddie.-.

Algo que deve ser salientado antes de tudo, é que esse filme foi capturado em Película em 65 mm,- que era comum e não é usado deste a década de 20 aproximadamente- o que confere ao filme não só um visual extremamente grandioso e envolvente com uma profundidade de campo fotográfico belíssimo, como também nos dá a sensação real de que estamos vendo um filme da década de 50, ainda que a qualidade da imagem seja extremamente qualitativa. 

Ainda temos a presença de travellings sensacionais durante toda a projeção e belos planos abertos revelando um cuidado e competência de direção de arte.

O filme comete talvez um único equivoco, ao surgir quase que arrastado do inicio ao fim. Mesmo que possua uma trilha sonora divertida, com ares da década de 50, e uma edição coerente com a trama; o filme que possui pouco mais de duas horas e meia, parece se arrastar ate encontrar seu final. Isso porque o filme exige esse desenvolvimento mais lento justamente para que cada detalhe se apresente da maneira devida. 
Para que o tempo faça moradia ali. Mas uma vez que estamos falando de um filme que sucumbi a ordem de Obra e passa a ser um produto, esse “ritmo” acaba afastando o telespectador que não esta acostumado com a filmografia de Anderson ou mesmo com essa cautela em transpor as ações. Mas isso é irrelevante diante do resultado, que para quem se dispor a emergir não se arrependera.

Como todo filme de Thomas Anderson, há mais perguntas do que respostas no meio do caminho, mesmo que sua cena final surja de maneira quase decepcionante, revelando uma compreensão quase que explicita de todos os fatos ali mostrados, ainda assim, não há como afirmar que qualquer interpretação feita seja a correta, e é aí que o filme brilha e desponta.

O Mestre assim, se torna extremamente relevante em sua proposta, nos entregando uma obra bem conduzida, bela de se ver e instigante ate seus créditos finais.

Seja na crença ou não, é de Paul Thomas Anderson, Amy Adams, Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix e talvez Tom Cruise o gole final.


Trailer



FICHA TÉCNICA

Diretor: Paul Thomas Anderson
Elenco: Amy Adams, Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix, Laura Dern, Jesse Plemons, Rami Malek, Jillian Bell,
Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi, JoAnne Sellar
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Trilha Sonora: Jonny Greenwood
Duração: 138 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos











sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Critica: As Sessões




O novo filme do diretor Ben Lewin, As Sessões, propõe uma reflexão acerca das limitações do corpo, sem cair em pieguices e conferindo um tom extremamente humano e sensível a uma historia real.

É importante salientar que o filme é baseado num livro chamado 'As Sessões, Minha Vida como Terapeuta do Sexo' da escritora e terapeuta Cheryl T. Cohen. O Livro relata, o trabalho dela com seus pacientes/clientes nos mais de 4 anos de profissão que exerceu. E Mark O'Brien é o primeiro desses pacientes relatados no livro e o qual o filme segue pela trama.

O filme relata A história de Mark O'Brien (John Hawkes), um bem sucedido escritor e poeta, que aos 7 anos de idade, contraiu poliomielite, paralisando-o do pescoço para baixo. Apesar de ainda possuir sensibilidade por todo o corpo, ele não é capaz de move-lo. Nem mesmo de respirar sozinho durante o sono. Para isso ele conta coma  ajuda de um tubo/cama que recebe o nome de Pulmão de Ferro, que continuamente fica ligado lhe fornecendo ar durante a noite, quando ele esta dormindo . Mark esta em meio a uma pesquisa sobre sexualidade entre deficientes físicos, para compor seu novo livro – ele escreve com a ajuda de uma maquina de escrever, utilizando a boca e um pedaço de madeira-. 

Com aproximadamente 38 anos de idade, Mark de repente se vê na necessidade de ter um amor de uma mulher e de experimentar o sexo pela primeira vez. Mark é virgem. E também perspicaz e inteligente como é, sabe que sua condição não se arrastará por muito mais tempo. Extremamente católico, Mark com a ajuda de seus terapeutas e de seu - amigo- Padre Brendan (William H. Macy), ele embarca numa onda de experiências, que surgem a si como misteriosos, conflitivas e extremamente interessantes.

O roteiro de Lewin, confere um drama leve, sem criar sensacionalismo ou abusar do tema, para sensibilizar ou chocar o espectador. Muito pelo contrario. 
O filme tem um tom leve e muito gracioso, ao mostrar as situações descobertas e experimentadas por Mark de maneira natural. Sem se preocupar em sexualizar nada e nem mesmo esconder nada. Os fatos são mostrados como são. Mas não de maneira cruel ou mesmo com tom de piedade e tristeza, mas com sensibilidade de ver um problema, uma limitação de corrente de uma doença, ao qual seu portador aceitou a tempos e que as pessoas que o amam, ao seu redor não tem ressalvas. É natural. É algo que faz parte de sua vida.

Nessa procura pela primeira relação sexual, Mark acaba se deparando com a terapeuta sexual Cheryl T. Cohen (Helen Hunt).

“Qual a diferença entre você e uma prostituta”? 

é a pergunta que recorrentemente Cheryl, mãe de família  casada e extremamente metódica e profissional, precisa lidar no seu dia a dia, inclusive com o espectador, que antes de sua chegada, espera por uma prostituta. Porem, ela não exerce essa profissão. Uma terapeuta sexual, ou terapeuta do sexo, é exatamente o oposto de uma prostituta. Ela lida com o sexo em sua plenitude, com a sexualidade, a desinibição, a descoberta dos prazeres, mentais e físicos de seu cliente/paciente. O ato sexual é apenas um detalhe diante da real terapia- sempre documentada por ela em diversos diários e um gravador de voz- que ela faz.

Aqui o trabalho de Hunt ajuda muito em dar verossimilhança a trama, uma vez que a atriz - que não conta com uma de suas melhores atuações, ate por que o papel não exige em momento algum isso dela -; encarna uma persona natural, cotidiana, que passa credibilidade e realidade. Acreditamos que se trata de uma mãe dedicada, de uma profissional dedicada, de uma mulher de meia idade dedicada, de uma esposa dedicada.
Ela se coloca nua, diversas vezes em tela, mas sem um pingo de sexualidade.

Mas o destaque fica por conta da atuação de John Hawkes. O ator por não poder se movimentar, entrega uma atuação com o olhar. Toda emoção, tristeza, alegria, excitação, medo, nervosismo que seu personagem lida, é transmitido pelo ator através do olhar de maneira realmente exemplar.

Contando ainda com alguns planos interessantes como o da cena em que Cheryl e Mark estão prestes a ter sua primeira relação sexual, onde a câmera passeia de forma contemplativa pelo aposento, registrando pedaços do corpo de cada personagem, e enfim fechando o plano nas expressões deles. Delicado e inventivo.

Por fim, As Sessões consegue ser um filme humano, sensível e coeso ao transpor a tela uma situação com outros olhos, sem recair no melodrama que se esperaria, ou no humor latente- que poderíamos esperar também-. 

O filme é correto, bonito e consegue emocionar e divertir na medida certa. 

 Trailer




FICHA TÉCNICA

Diretor: Ben Lewin
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown, Blake Lindsley, Adam Arkin, Ming Lo, Jennifer Kumiyama, 
Produção: Judi Levine, Ben Lewin, Stephen Nemeth
Roteiro: Ben Lewin
Fotografia: Geoffrey Simpson
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama







quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Critica: Milyang (Secret Sunshine)




Sin-ae é uma jovem mãe que se muda com o filho pequeno Jun para Milyang, uma cidadezinha onde o falecido marido nasceu. Tão logo ela começa a se organizar para dar início a uma nova vida, um outro acontecimento trágico muda o curso de seu destino.

O filme do sul coreano Chang-dong Lee, Secret Sunshine (ou O Sol Secreto em tradução livre para o português// e Milyang no original) traça uma extensa analise de dor, desespero, sofrimento, busca pela fé e a perda dela, numa obra densa, pesada e extremamente bem executada.

Se em Poesia (Poetry) Chang-dong Lee havia nos presenteado com um filme denso mas delicado ao tratar dos tormentos da vida versus suas belezas, aqui em Secret Sunshine ele se mostra cru, muitas vezes cruel ao transpor a tela os conflitos mais ínfimos e profundos do sofrimento humano, caracterizados pelo luto interno e externo de uma mãe viúva.

Sin-ae após o falecimento de seu marido, resolve abandonar tudo e se mudar com seu filho pequeno Jun para a cidade natal de seu falecido esposo. A Cidade é Milyang. Logo no inicio, Sin-ae surge perdida na estrada com o carro quebrado, pedindo ajuda ao celular.

A cena que mostra em plena estrada as duas vias- a qual ela surgiu e a que ela esta rumando- com o carro quebrado a esmo, parado no meio da estrada quase que completamente deserta, já caracteriza o que vira pela frente.

As feições jovens de Sin-ae são de extrema tristeza a todo momento. Uma tristeza que vai se revelando aos poucos. Uma expressão que demonstra logo de cara seu sofrimento pela perda do marido. Tristeza essa que se alonga ate a figura do filho pequeno, que dialoga pouco, mas demonstra nos atos e na cabeça sempre baixa sua igual tristeza pela morte do pai.

Aliado ao silencio, o diretor vai nos conduzindo por uma sucessão de cenas espaçadas e muitas vezes de edição lenta, que vão compondo a nova vida que se apresenta a Sin-ae. Uma vida de possibilidades para recomeçar.

Ela é professora de piano, e monta uma pequena escola. Com a ajuda de um simpático homem, ela começa a adquirir alunos e aos poucos a se situar na nova realidade.

Porem, não demora muito, para o roteiro nos mostrar que realidade é essa. Sin-ae chora e sofre pela morte de um marido que a traia. Ela se mudou para uma cidade que ao contrario do que ela queria – o anonimato para recomeçar- , a conhece extremamente bem e apesar dos sorrisos e pêsames carinhosos que a recebem, a veem como um louca viajante.

Sin-ae é ateia. E descobre cedo que Milyang é uma cidade que tem uma fé latente. Uma fé católica.
Nesse ponto, o roteiro introduz uma estrutura extremamente interessante em quebrar as expectativas previas do espectador acerca daquela cultura que estamos sendo inseridos. Ao transpor o catolicismo na cultura oriental. A fé é vista de maneira plena, sem ser didática ou mesmo imposta em nenhuma momento. Os únicos momentos em que somos impelidos a lidar com ela, é justamente quando surgem personagens – como a dona da farmácia a frente da casa de Sin-ae, que continuamente tenta evangeliza-la e traze-la para o conforto de Deus.

Ao que Sin-ae se mostra cética e relutante. Como no excelente e revelador dialogo em que esta vendedora diz:

“Vê? Deus esta em tudo, ao nosso redor. Não precisamos vê-lo para senti-lo. Ou melhor, podemos senti-lo e vê-lo sim. Vê esse raio de sol? Deus esta nele também.”

E Sin-ae responde, indo ate o feixe de luz e contemplando-o:

“Sim vejo. Esse raio de sol é apenas um raio de sol. Você não vê?”.

Então, numa reviravolta visceral e inesperada, a narrativa recai numa constante de desespero e agilidade.

Algo extremamente brutal surge na vida de Sin-ae que não só a leva a um verdadeiro inferno, como lhe deixa a mercê da crença. Ao qual logo se mostra mais um desespero em sua vida.

Esse quadro melancólico em parte é conseguido pelo magistral e impressionante trabalho da atriz Do-yeon Jeon que vive Sin-ae. A maneira que ela se entrega em tela impressiona e assusta. Sua dor espiritual, vai além, atinge o corpo. E é arrebatador ver como a atriz consegue imprimir essa dor tão intensamente e ainda assim sem parecer exagerada ou caricata. Pois a dor que a personagem experimenta é latente, quase palpável. O sofrimento se torna quase que um personagem em tela. É falta de ar, um grito esganado, sufoco, insônia, desamparo.

O que se vê em tela não é bonito. Mesmo com o cuidado da direção de arte e da fotografia sempre bem delineada e ironicamente clara do filme; o que vemos é o abismo em que uma mulher pode chegar inclusive indo aos limites do descontrole mental.
E o silencio quase que a todo instante, inclusive nos diálogos que são poucos, ajudam a expressar esse quadro.

Assim, Secret Sunshine não é um filme fácil. Ele nos coloca diante da dor de maneira contemplativa, mas de tal forma que conseguimos sentir alem de nos sensibilizar com o que é visto em tela, mas justamente por apenas podermos contemplar, causa uma sensação de impotência, ao constatarmos que estamos ali apenas visualizando o fundo do poço sendo transpassado por mais camadas abaixo.

Mas o que mais impressiona talvez e choca nisso tudo é que o longa propõe a reflexão de que a dor é a própria prova de que estamos vivos.

Um filme pesado, mas que merece ser visto e sentido profundamente tal qual sua proposta sugere. Um olhar além dos raios do sol, revelando as sombras secretas que se escondem diante da luz que vemos todos os dias. 

Uma obra em todos os sentidos.

 Trailer


Ficha Técnica

Diretor: Chang-dong Lee
Roteirista: Chang-dong Lee, Chong-jun Yi
Elenco: Do-yeon Jeon , Kang-ho Song , Yeong-jin Jo, Mi-kyung Kim, Yeong-jae Kim, Seo-hie Ko, Myeong-shin Park
Fotografia: Yong-kyou Cho
País: Coréia do Sul
Ano: 2007
Gênero: Drama
Duração: 142 min.














Critica: Poesia (Poetry/Shi)


Mija (Jeong-hee Yoon) é uma simpática sexagenária que vive com seu neto adolescente num pequeno apartamento no interior da Coreia do Sul. Como sua aposentadoria não é suficiente, ela complementa a renda mensal como empregada doméstica de um senhor com dificuldades de locomoção. E ainda assim encontra tempo e energia para fazer um curso de Poesia. Elegante, Mija sempre ostenta um invejável sorriso, até o dia em que o suicídio de uma colega de seu neto vai desencadear uma série de acontecimentos que abalarão o até então sossegado cotidiano de Mija.

Poesia (Shi , nome original) filme do sul coreano Chang-Dong Lee, remonta as melodramas antigos do cinema, e cria uma fabula densa, extremamente bela e como seu titulo, poética e de extrema tristeza.

Logo no inicio da projeção, nos deparamos com uma cena de um grande rio, com águas turvas, ligeiramente calmas.  Aos poucos o cenário aparentemente tranquilo revela um corpo sem vida boiando no rio e em seguida há um corte para uma gramado a beira do rio com algumas crianças brincando.

Essa imagem já sintetiza o que o espectador deve se preparar para ver. Apesar do nome Poesia sugerir algo delicado e lírico, o que vemos em tela é uma sucessão de acontecimentos brutais, mas que surgem de maneira tão esmerados que se tornam belas. É o dito ”há beleza na feiura”.

O filme se engrandece ao olhar do espectador ao ser conduzido através dos olhos da Bondosa e elegante Mija, uma senhora no alto de seus sessenta anos de idade, que cria sozinha seu neto. Neto este que não lhe dá valor algum, é desleixado, fechado para com a avó, enquanto ela por sua vez se dedica amorosamente a ele a todo o momento. Vemos a rotina de Mija, que sempre se produz cuidadosamente. Mesmo que beire a pobreza, Mija sustenta sua vaidade de maneira natural.

Aos poucos somos impelidos a conhecer seus problemas financeiros, seu árduo trabalho para sua idade de cuidar de um senhor que sofreu um derrame, ao qual ela recebe para lhe dar banho, alimentar e vestir. Mas toda e qualquer dificuldade de Mija não transparece em seu rosto expressivo. Ela sempre demonstra ter um sorriso no rosto e um sentido de observação latente. Ela se interessa pelos mínimos barulhos e movimentos.
Nada mais é, do que uma mulher redescobrindo o mundo.

Redescoberta essa que ela resolve resgatar se inscrevendo num curso de poesia. Onde visa aprender a escrever uma poesia.

O roteiro de Lee Chang-dong apesar de extremamente coeso e bem desenvolvido em sua narrativa, nos conduzindo através dos detalhes pela trama que vai se desenvolvendo naturalmente, comete apenas um equivoco, ao introduzir o Alzheimer no enredo e esquece-lo ironicamente na maior parte do tempo. Logo no inicio, Mija é diagnosticada com Alzheimer  Isso já é evidente através de alguns diálogos da personagem que continuamente esquece algumas palavras no meio de uma conversa. Porem assim que ela recebe o diagnostico esse detalhe do esquecimento nela, desaparece por completo, como se ela não tivesse a doença. Ao qual só retorna no começo do terceiro ato, próximo ao clímax final.

Dizer qualquer coisa sobre a trama, além disso é estragar a experiência de assistir Poesia.

Isso porque como na poesia, o filme vai se revelando e se formando de maneira gradativa, repleto de surpresas, carregadas de beleza e melancolia.

O longa vai desmembrando a vida de Mija, numa atuação sensacional da atriz veterana Yun Jeong Hee - que tem em seu invejável currículo nada menos do que mais de 200 filmes -, num Ode ao caos. Seja pelas dividas que surgem, seja pelo segredo que o neto esconde, seja pela doença descoberta, seja por uma proposta do senhor a quem cuida, seja pela dificuldade que ela encontra em escrever uma poesia.

De forma quase metalinguística o filme vai entrando numa crescente de metáforas e simbolismos que culminam numa Obra peculiar que se engrandece aos olhos e sentidos.

O mundo ao seu redor se mostra gananciosa, ardiloso e cruel, repleto de hipocrisia e injustiças, onde ainda assim, aos olhos de Mija, ela tenta ver beleza e realmente enxerga-lo da maneira correta.

Com um final arrebatador, Poesia é de fato uma poesia fílmica em cada detalhe, desde sua trilha sonora delicada, ate sua fotografia com cores marcantes e planos contemplativos.

Como na cena extremamente bem conduzida de Mija agachada em prantos diante de um solo com pedras reflexivas que lembram a superfície de um rio.

Um deleite.

Trailer




FICHA TÉCNICA

Diretor: Chang-dong Lee
Elenco: Yun Jeong Hee , Jung-hee Yoon, Hira Kim, Da-wit Lee
Produção: Lee Chang-dong
Roteiro: Lee Chang-dong
Fotografia: Hyun Seok Kim
Duração: 139 min.
Ano: 2010
País: Coréia do Sul
Gênero: Drama











sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Critica: O Voo



Whip Whitaker (Denzel Washington) é um experiente piloto de avião, que demonstrando uma técnica de voo surpreendente consegue aterrissa sua aeronave depois de uma catástrofe em pleno ar, salvando quase todos os passageiros a bordo. Depois do acidente, Whip é considerado um herói, porém, na medida em que mais fatos se tornam conhecidos, mais perguntas do que respostas surgem sobre quem ou o quê realmente estava errado e o que, na verdade, aconteceu naquele avião.

Novo filme de Robert Zemeckis depois de um longo hiato, O Voo conta com um promissor roteiro, um ator acima do próprio filme, mas que se perde em mensagens didáticas em demasia.

Logo no inicio da projeção o longa nos apresenta a vida desregrada de Whip. Divorciado, pai de um filho adolescente a quem quase não vê, alcoólatra e viciado em cocaína e mulheres bonitas. Pelo quarto vestígios de uma noitada banhada a cervejas, Whisky  conhaque e muitos cigarros e cocaína. Ate que é revelado que naquele mesmo dia Whip deveria estar num voo inter estadual.

Aqui o roteiro assinado por Jonh Gatins já revela uma intenção clara de salientar as escolhas e a personalidade do personagem central. Whip apesar de carismático não demonstra muito profissionalismo ético.

O filme tem uma sequencia inicial eletrizante. Desde a cena que o Piloto surge no quarto de hotel acordando ainda bêbado e cheirando uma carreira de cocaína, com um nu frontal de uma das aeromoças. Ate toda a sequencia do voo em questão.

A sequencia é conduzida numa edição eletrizante, repleta de cortes e takes intercalados- não exatamente efeitos especiais e nem visuais. Que convence e cumpre bem seu papel ao apresentar a proposta do longa e fisgar a atenção do espectador.
Nisso o roteiro é eficaz, ao delimitar a trama toda em poucos minutos e já adicionar o arco dramático que perdurara durante todo o longa.

Mas ainda assim o filme possui furos terríveis do próprio roteiro, ao não conseguir conduzir e desenvolver corretamente os personagens que introduz na trama. Todos os personagens carregam uma promissora veia de desenvolvimento, mas o roteiro não os aproveita, fazendo-os inclusive sumirem de uma hora para outra sem quaisquer explicações. E pior isso faz com que não haja o mínimo sentido deles estarem ali.
Somente no final do segundo ato da projeção é que a trama parece conseguir coexistir entre seus personagens e o ritmo do filme, pouco depois de entendermos de fato qual a relação do protagonista com o ato do voo e sua relação com a bebida. 
Ele diz em certo momento:

“Eu vou morrer e vou me preparar pra isso, merda! 
Eu escolhi beber e não me culpo por isso. 
E sou feliz também. Porque eu escolhi beber. 
Eu estou na merda e sabe porque? Porque eu escolhi beber. 
Foi minha escolha!”

Isso demonstra pleno desenvolvimento da persona do protagonista e de seus atos.

Mas ao final, o longa opta por um clímax piegas e extremamente desnecessário ao introduzir a religião num quadro que ali não servia. (mas ate é compreensível dado a clara intenção do filme em ser quase didático, uma cartilha em vídeo pro AA, a todo instante. essa é a impressão que se tem).
Alias a fé em Deus permeia todos os discursos de forma branda; mas sempre presente na projeção. Porem no contexto geral do filme a saída soa artificial demais. não convence.

Mas nada disso consegue ser tão relevante quando vemos o brilhante Denzel Washington em cena. Mesmo que o filme possua ótimas atuações como o caso da viciada em drogas e ex-prostituta e atriz pornô interpretada por Kelly Reilly que tem uma atuação consistente, é mesmo em Denzel e seu Whip que esta o grande feito desse filme. Denzel que parece demonstrar que voltou aos Holofotes, estes que nasceram para estarem sobre ele- surge arrebatador. 
O ator imprimi total entrega e controle ao seu personagem. Consegue empregar ate mesmo certos trejeitos e vícios de gestos característicos de seus alcoolismo. Como um tique que ele possui nas mãos e na boca a todo instante. Ate mesmo seu rosto surge diversas vezes meio inchado, com olheiras nos olhos e uma incapacidade de manter a visão focada a todo instante. 

O personagem assim ganha uma conotação contraria a que se espera e contraria ao que a trama desenvolve a ele. Se ele lá na trama é visto como herói, aqui para o espectador sua moral e ética são duvidosas a todo instante. Mas Denzel é cativante também, e mesmo que suas ações sejam antagônicas em boa parte do tempo, é difícil não torcer para seu personagem. E isso é interessante e eficaz em tela. Esses diálogos de sentimentos contrários com o espectador.
Um trabalho sensacional. Visceral.

Por fim, amparado ainda com uma boa trilha sonora que não se destaca mas é funcional às cenas, o filme termina com mais saldos positivos do que negativos. Mas a sensação que fica é que O Voo só é relevante pelo talento de seu protagonista que leva a projeção inteira e todos os outros personagens- que possuem seus respectivos atores muito corretos é importante salientar- nas costas.

Não é um grande filme, como a premissa dava abertura para ser, caso a direção conseguisse ser mais ousada e o roteiro melhor trabalhado. Mas é um bom filme, que abre discussões pertinentes sobre o alcoolismo e principalmente sobre éticas de trabalho e as diferentes visões que um mesmo acontecimento pode possuir visto sob a perspectiva de vários olhares.

Um Voo manso, repleto de turbulências mas que não chega a cair.

 Trailer


Ficha Técnica

Diretor: Robert Zemeckis
Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velazquez,
Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis
Roteiro: John Gatins
Fotografia: Don Burgess
Trilha Sonora: Alan Silvestri
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama