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quarta-feira, 23 de março de 2016

Crítica: "Boa Noite, Mamãe" (GoodNight, Mommy)

"Isso dói?"



(Recomendação: Só leiam o texto, após assistir o filme. Contem spoilers e descrição explicativa de varias cenas, incluindo o final e seu significado)


Dirigido e roteirizado pela dupla Severin Fiala e Veronika Franz, esse filme austríaco - que tentou representar seu país no Oscar desse ano, e arrematou dezenas de prêmios mundo afora - "ICH SEH, ICH SEH" - do original "Eu vejo, Eu vejo" e traduzido pro inglês e pro português como "Boa noite, Mamãe (GoodNight, Mommy)" - é um deleite para os olhos atentos de cinéfilos de qualquer geração.

Isso porque sua força reside nos detalhes e na busca de refletir o cinema suspense com toques de terror lá em seu ápice em anos passados, - mais especificadamente, com referencias a obras dos anos 70 - onde tivemos um considerável requinte de linguagem pro gênero.

É preciso dizer que o filme tem seu plot real apenas nos dez minutos finais de projeção. Talvez nos cinco últimos se considerarmos os elementos que os compõem. Por tanto, a revelação do "implícito" envolvendo os dois irmãos não é o que o filme quer segurar até o final. O roteiro não visa tornar misterioso a condição que une os dois irmãos no filme; muito pelo contrário. Ele espalha pistas escancaradas ao longo da projeção sem nenhum pudor. Ainda assim é belo constatar sua comunicação visual na sutileza nessas indicações.

Primeiro de tudo devemos lembrar que Hollywood nos acostumou mal. Nos criou a base de obviedade onde sutileza não existe e onde diálogo e edição frenética são sinônimos de Bons filmes (pra eles). Aqui, temos cinema base de suspense, onde se tem comunicação por imagens e não por ação ou fala.

Assim, o que se deve prestar atenção nesse filme é a construção narrativa de sua Mise-en-scène, o cenário que compõe o quadro em cena. Atribuir significado à água, aos reflexos, ao solo mole, às sombras, as cores, as árvores, aos quadros, fotos, a maneira que a câmera se posiciona, a maneira que a câmera se movimenta.

O ambiente é o verdadeiro protagonista do filme. É quem está narrando tudo.

Assim é brilhante notar como o filme nos conta através de um gato, através de um isqueiro, através de um quadro feito por silhuetas de sombras, através de reflexos, da ausência de calendários e relógios, bem como através de um cripta e seus ossos, sua real intenção de existir.

O tempo aqui não é fluido, e é importante salientar isso para que se entenda o seu desfecho final. Que sim é aberto a interpretações, mas é um fato planejado também. Os insetos e seu significado quase mitológico e psicológico, também tem papel importante na construção narrativa do filme. E não o bastante, ainda temos o silêncio que é a melhor fala de todo o roteiro.

Falando de aspectos técnicos, é preciso dar louros ao diretor de fotografia Martin Gschlacht, que compreende o universo que esta trabalhando, inserindo uma palheta de cores vibrantes sempre que estamos em lugar comum aos gêmeos, em contraste a palheta de cores mais escuras e opacas de quando nos encontramos diante da mãe deles - que obviamente oferece uma especie de perigo e apreensão às duas crianças. E isso ocorre, por que acompanhamos o filme pela perspectiva dos meninos, ate o inicio do terceiro ato. A partir dali, de maneira bem assertiva pelos diretores, passamos a ser meros espectadores das cenas. Um manejo do cinema de terror eficaz e esquecido atualmente.



A partir daqui escancararei sem a mesma sutileza do filme, o seu entendimento para ajudar aqueles que não compreenderam. Pois é impossível eu falar sobre alguns elementos sem dar spoilers.

Estejam avisados e só leiam depois de ver o filme. Pois, qualquer informação, como disse no inicio do texto, pode 'estragar' a experiencia visual e narrativa do filme. Só leiam, apos terem assistido.




Temos dois irmãos gêmeos, Lukas e Elias. Elias, que surge primeiro em tela com a regata clara, e Lukas com a regata escura.

Após uma brincadeira com o irmão, Lukas morre afogado no lago em frente à casa. Essa cena é mostrada no inicio do filme, entre varias outras brincadeiras dos gêmeos. Logo, após esse acidente, ha um incêndio na casa deles, e seus pais acabam se separando. (A indícios durante o filme, nas ações de submissão e dominação entre os gêmeos, de que o incêndio tenha sido efetuado pelo Lukas, antes deste morrer afogado).
A mãe fica gravemente ferida no incêndio e precisa fazer algumas plásticas no rosto pra reconstruir a face.
Após a morte do irmão, Elias passa a vê-lo, achando que ele continua vivo. Ele passa a negar a morte do irmão.

Eles se mudam da casa queimada, para uma nova casa, mais moderna. A mãe ao retornar pra nova casa comprada após o incêndio, se recusa a fingir que o filho morto está ainda entre eles. E passa a tratar o filho Elias, mais rispidamente. Por dois motivos. Primeiro, pelo trauma da perda do outro filho, ja que ambos são gêmeos e claramente o vivo faz ela lembrar do outro morto, e pelo acidente em si, onde surge o sentimento de culpa versus a separação do marido. Tudo isso culmina num distanciamento da relação dela com o filho.

Por causa das cirurgias, e desse novo comportamento da mãe, Elias e Lukas (morto) passam a achar que aquela mulher, não é sua verdadeira mãe. E após tortura-la, para querer saber onde esta a mãe verdadeira, colocam fogo nela e na nova casa ( somente o Elias no caso).

Assim ao final o que vemos é um vislumbre da primeira casa pegando fogo, seguida da segunda em flashes.

Como eu disse o tempo não é fluido. A montagem do filme de maneira assertiva pelo montador Michael Palm, não é linear, afinal estamos tratando de um mundo entre o real e o mundo dos mortos. Após o segundo incêndio, mãe e filho (Elias) morrem queimados e se juntam a Lukas o filho morto afogado, enfim juntos na floresta.

Assim além de ter uma comunicação visual genial, o filme brilha principalmente por conta de sua montagem, que escolheu essa direção de fragmentar o quebra cabeça. Quando vemos a os gêmeos olhando a nova casa a venda na verdade estamos vislumbrando momentos após o primeiro incêndio. E é notável que eles fazem a distinção de temporalidade, aos olhos atentos, pelas roupas dos meninos. As roupas indicam qual tempo narrativo estamos vendo.

As simbologias do fogo, da água, dos insetos, tudo remete a esse caráter de morte que ronda o filme. Inclusive a analogia da floresta e das mascaras. As cenas da floresta, indicam o submundo psicológico e sentimental de mãe e filhos. Quando vemos a mãe despida na floresta com o rosto em transe, na verdade, é uma representação dos ecos de angustia desta diante daquela nova realidade. Da perda do filho, do corpo mutilado por um do filhos, da inadequação a ela mesma diante do espelho e do papel de mãe, da nova vida distante de tudo. A floresta representa em filmes de suspense e terror, a quebra do palpável e a chegada do mistico. Pode representar tanto a perdição horrenda, quanto a purificação sagrada. O humano dentro dela, o humano urbano, tende a se quebrar de facetas diante de uma floresta. O filme explora bem isso também. Assim como as mascaras tribais. A mascara da cirurgia contrastando com a mascara dos garotos e ambas escondendo a realidade daqueles três personagens. Um morto, um pirotécnico, uma mãe morta-viva - e interessante ainda a a referencia a múmia nesse sentido, inclusive nos planos que mostram seus primeiros passos em tela, e aquele em que ela surge nas sombras do quarto com as persianas fechadas.

Há ainda outro detalhe bacana, que é quando os gêmeos acham a foto da amiga da mãe, que surge parecido, e que causa toda a comoção neles de que estão diante de uma impostora.

A tortura, como é claro ali, serve não só pro terror psicológico crescente de agonia, como também para simbolizar aquela relação que temos de sagrada entre mãe e filhos se quebrando. E o filme extrapola isso sem pudor algum, quando escolhe os ferimentos em ordem materna e progenitora perfeita, ao fazer os gêmeos primeiro ferirem a boca da mãe - a boca que simboliza fala, educação e alimentação -, depois o útero - quando saem insetos de la, denotando a morte das crias - e em seguida, o arrancar de dentes e da mãe tendo urinado. O filme inteira jogo com a relação materna de maneira inversa. A proteção e criação que se transforma em destruição e perigo. Isso em si perturba.

Ainda há cenas de caráter psicológico, claro, em que mostra os gêmeos constantemente disputando, correndo, e se batendo, com destaque a cena em que eles batem no rosto um do outro e perguntam se aquilo dói.



É um filme denso, perturbador e que carrega um terror psicológico a altura de seus prêmios e reconhecimento.

Não tem nada de ''o mistérios das duas irmãs'' ali. Aqui temos o mistérios dos dois irmãos, e sua querida mamãe.


Imperdível!



Ficha Técnica:

Gênero: Suspense
Direção: Severin Fiala, Veronika Franz
Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
Elenco: Christian Schatz, Elfriede Schatz, Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest
Produção: Ulrich Seidl
Fotografia: Martin Gschlacht
Montador: Michael Palm
Trilha Sonora: Ekkehart Baumung


Trailer:

 









terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Critica/Resenha - Pan (Peter Pan)

"Segunda a esquerda, e reto até o amanhecer"




Dirigido por Joe Wright ( "Desejo e Reparação" e "Orgulho e Preconceito") e roteirizado (original) por Jason Fuchs, "Pan" resgata mais uma vez o universo criado por J.M. Barrie, e traz à tela por incrível que pareça, uma história inventiva e criativa sobre a origem do garoto que podia voar e conversava com fadas.

Com direito a uma inesperada versão à capella de “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana, o filme narra feito fábula mesmo, a origem de Peter, até sua já conhecida jornada como Peter Pan na terra do Nunca, contra as dicotomias do Capitão Gancho.

Peter (Levi Miller) é um garoto de 12 anos que vive em um orfanato em Londres, no período da Segunda Guerra Mundial, apos ser deixado ainda recém nascido por sua mãe às portas do local. 
Um dia, ele e várias crianças são sequestradas por piratas em um navio voador, que logo é perseguido por caças do exército britânico. O navio escapa e logo ruma para a Terra do Nunca, um lugar mágico e distante onde o capitão Barba Negra (Hugh Jackman) escraviza crianças e adultos para que encontrem pixum, uma pedra preciosa que concentra pó de fada (Pó de pirlimpimpim). Em pleno garimpo, Peter conhece James Hook (Gancho) (Garreth Hedlund), um garimpeiro refém, que tem planos para fugir do local.
Após uma confusão nas minas, Peter é sentenciado a morte num precipício, mas ao ser empurrado para o abismo, ele descobre que pode voar e que assim pode ser o garoto escolhido para cumprir uma antiga profecia.

O roteiro é inventivo ao respeitar o universo já conhecido da fabula, e basear ele para criar uma origem que nem mesmo nós achávamos necessária ou existente. Quem já se.perguntou quem é a mãe de Peter ou porque dele poder voar, ou porque ele e o Gancho se odiavam e etc...
Tudo aqui é desenrolado de maneira natural sem aparentar ser didática ou um filme de curiosidade forçadas. Pelo o contrário.

As ligações inclusive metafóricas, de alegorias e analogias, bem como todo o viés psicológico que acarretam o imaginário da Terra do Nunca ficam claros e bem estabelecidos. A estrutura do roteiro respeita o seu publico alvo - infantil - mas, não subestima a inteligencia das mesmas ao manter uma coesão nada forçada na narrativa - considerando que estamos na Terra do Nunca, claro-.

A fotografia e os efeitos visuais são outro espetáculo a parte. O mundo estrutural da Terra do Nunca é sensacional. bonito de se ver e verossímil com as leis daquele universo.
Muitos reclamaram do ritmo do filme, como as passagens das sereias,- todas com o rosto da Cara Delevingne - mas eu particularmente achei bem encaixada na narrativa. Principalmente ao usarem elementos da natureza para remeter ao passado. Uma arvore que conta a historia que se passou, e as águas que guardam memorias em suas profundezas - e afinal a água simboliza justamente isso, sentimentos, emoções e sensações de evocação.

Já o elenco é bem interessante e cumprem bem seu papel: Garrett Hedlund como o futuro Capitão Gancho, mesmo em sua mazela a lá Indiana Jones, trás uma ambiguidade lasciva e divertida pro personagem. Se observarmos bem, o Gancho nunca foi de fato o vilão da trama, mas sim um anti-heroi. Um arqui-inimigo de Peter. Levi Miller como Peter Pan, é vigoroso e bem expressivo mesmo nas cenas de mais dramaticidade. Ele convence como o Peter que conhecemos das fabulas. Inclusive demonstrando a transformação do Órfão inteligente e maduro, para o garoto despreocupado e brincalhão que conhecemos. E Rooney Mara como a 'selvagem'  Tigresa, introduz uma humanidade que serve de ponto de choque entre a maturidade da vida adulta e a infantilidade da Terra do Nunca. é interessante que seu papel e sua caracterização funcionam muito bem para a vermos tanto como uma adolescente quanto como uma adulta. E essa analogia entre as duas fases da vida, bem como os dois mundos existente, servem de apoio para as transformações e motivações dos personagens centrais.
Mas é mesmo Hugh Jackman como o famigerado e exagerado Barba Negra - o grande vilão da trama - que desempenha o melhor papel. Excêntrico, o ator parece se divertir no papel, e alias, seu figurino é o que mais merece atenção. Dotado de cores pretas e vermelhas, a direção de arte já denuncia e alude para o vilão que ele é, desde os primeiros momentos. 

Um filme leve e divertido, mas principalmente respeitoso que evoca não só a nostalgia de uma fabula clássica a todos nós, mas que atualiza uma ideologia que como a fabula já denunciava, estamos a cada dia perdendo mais.

Recomendo.

Trailer:



Ficha Técnica:

Gênero: Aventura
Direção: Joe Wright
Roteiro: Jason Fuchs
Elenco: Levi Miller, Hugh Jackman, Rooney Mara, Amanda Seyfried, Cara Delevingne, Kathy Burke, Garrett Hedlund, 

Fotos:











sábado, 28 de novembro de 2015

Crítica: O Pequeno Príncipe


''O essencial é invisível aos olhos.''



''Só se vê bem com o coração.''
''Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.''

Tais frases icônicas, permanecem desde 1943 no imaginário de milhares de pessoas ao redor do mundo. Sejam crianças ou adultos, O Pequeno Príncipe escrito pelo escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry, é considerado um dos livros mais famosos da historia da literatura. Considerado também infantil; ele é uma das raras exceções em que seu publico alvo se subverte para se tornar universal, devido a riqueza de parábolas e metáforas com a vida adulta que o livro trás.
Em 1974, o cinema se arriscou a produzir uma adaptação do livro. Dirigido por
Stanley Donen; o filme que apostou numa especie de comedia musical, trazia Gene Wilder no elenco.
Veja o trailer abaixo:



Dessa vez, o diretor Mark Osborne, apoiado pelo roteiro de Irena Brignull, arriscaram em trazer o "Pequeno" novamente às telas grandes, mas desta vez em forma de animação.

Nessa nova animação, uma garota acaba de se mudar com a mãe, uma controladora obsessiva que deseja definir antecipadamente todos os passos da filha para que ela seja aprovada em uma escola conceituada. Entretanto, um acidente provocado por seu vizinho faz com que a hélice de um avião abra um enorme buraco em sua casa. Curiosa em saber como o objeto parou ali, ela decide investigar. Logo conhece e se torna amiga de seu novo vizinho, um senhor que lhe conta a história de um pequeno príncipe que vive em um asteroide com sua rosa e, um dia, se encontrou com ele - um aviador perdido no deserto do Saara -  em plena Terra.

O primeiro que tem que se dizer sobre essa animação, é que ao contrario do que possa parecer aos saudosista e aos novos admiradores do principezinho, o filme não é uma adaptação do livro. Na realidade não é nem mesmo uma versão. Pois, a historia do Príncipe é apenas base para empurrar e estruturar a narrativa que é sobre a historia da pequena garota. Assim, essa animação, na realidade, é baseada no livro.
Isso é importante para que não se crie a expectativa lúdica de que a experiencia em tela sera a mesma do livro.

Dito isso, é muito interessante e valida a maneira que a roteirista escolheu de calcar a jornada da garota rumo a descoberta do que é ser adulto, através da historia do pequeno príncipe.

O que o roteiro quis, foi fazer uma reflexão paralela das ideologias de Antoine, com a vida real. Quase adotando um sentido religioso e de fé ao Príncipe nesse sentido. Pois o velho aviador parece crer que a existência do pequeno é o que o sustenta para aguentar a vida cotidiana tão pesada e as vezes cruel. Nesse ponto é interessante o fato de que o aviador velho da animação, seja o mesmo aviador narrador do livro e que por excelência seja o próprio Antoine num universo paralelo onde ele envelheceu ate esta tenra idade e tenha conhecida uma pequena garota simpática e curiosa.
Isso porque o velho aviador da historia, não apresenta o pequeno príncipe para a garota, como se fosse uma historia que ele ouviu e esta repassando. Mas, como uma historia que ele viveu, ele escreveu e desenhou. a construção logica do roteiro peca em alguns diálogos, como por exemplo o uso de uma fala da garota, que é extremamente inteligente e racional, e problematiza o fato de não ser possível que o aviador tenha encontrado um garoto no deserto. Por que crianças não poderiam sobreviver tanto tempo naquele ambiente inóspito e porque pelo seu conhecimento da escola, não havia evidencias de vida em planetas pequenos. Ela então diz que a unica possibilidade era se ele viesse de uma estrela. Ora, estrelas são corpos quentes, onde ali sim, não poderia haver vida. Esse detalhe pequeno e irrelevante, mas que mostra um desleixo na construção da logica da personagem, cuja a logica é justamente sua principal característica.

A animação ainda traz um visual incrível.

A vida real da garota é representada em computação gráfica. A cidade, os adultos, os carros, tudo em linhas de simetria extrema, retas, sem ''imaginação alguma''. Cores cinzas e opacas, numa unilinearidade sóbria e sem vida. Tudo em constante movimento mas, sem sentimento. Sem riso ou alegria.

A exceção é justamente a casa do velho aviador. Disforme, repleta de cores vivas, que contrasta absurdamente com o cinza da urbanidade. É interessante esse cuidado com a direção de arte. Representar a metáfora da vida adulta tão "chata" aos olhos na ideologia do Livro com a construção da arte aqui.
Já o velho que não se esqueceu como é ser criança mantém a cor em seu dia a dia, e por isso é visto como louco biruta pela sociedade geral. Que não o entende e nem o aceita. Eles tem medo do velho.

Mas, o real encanto fica por conta da animação em stop motion, que representa a história paralela do príncipe. O aviador narra a história para a garota e vemos o desenrolar em um stop motion rico em detalhes e fluidez de movimento. É fascinante.

E aqui, inclusive o entendimento artístico do universo da obra pra realidade é satisfatório. Uma vez que a computação, justamente seria a tecnologia humana, do adulto humano artificializando o natural. E o que seria a fantasia fantástica do mundo do pequeno príncipe, com o stop motion tão clássico e originário do cinema em seus primórdios. Esse detalhe é bonito de se constatar.

No entanto, o maior problema do filme está no não entendimento aparente ou na ambição furada de não compreender a mensagem simplista que o livro trás. Sim, suas mazelas são complexas. Tanto que conquistam adultos até hoje. Mas sua mensagem base é simples. É imaginativa. É utópica.
E o filme aqui tenta racionalizar essa mensagem a partir do segundo ato.
A sensação que fica é a de que ironicamente, o melhor do filme é justamente sua técnica regrada e ''adulta'', e não seu roteiro, seu sentimento.

É um projeto ambicioso e muito interessante, mas que peca ao tentar recriar uma obra que não precisa e nem deve ser recriada, somente revista. É diferente essas duas mazelas.
O terceiro ato, apesar de valido, principalmente para aqueles que não conhecem a historia original, representa uma especie de 'traição' ao original para aqueles que conhecem as aventuras do Pequeno.
O essencial ficou visível aos olhos e não se mostrou muito bem.

Assim, o Pequeno Príncipe é uma experiencia valida pela sua beleza, pela historia base que carrega, mas que frusta por demonstrar que afinal de contas, não importa quão lindo visualmente ele possa ser, ele ainda assim, é uma animação feita para crianças, mas criada por adultos.

É, adultos são tão chatos... Eles nunca entendem...

Ps: A raposa - em todas as suas faces - é a coisa mais querida do mundo, como não poderia deixar de ser.


Trailer:



Ficha Técnica:

Gênero: Animação
Direção: Mark Osborne
Roteiro: Irena Brignull
Elenco: (vozes) Albert Brooks, Benicio Del Toro, Bud Cort, Jacquie Barnbrook, James Franco, Jeff Bridges, Jeffy Branion, Mackenzie Foy, Marcel Bridges, Marion Cotillard, Paul Giamatti, Paul Rudd, Rachel McAdams, Ricky Gervais, Riley Osborne
Produção: Alexis Vonarb, Aton Soumache, Dimitri Rassam
Fotografia: Kris Kapp











segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Resenha (breve): Beira Mar





'Eu sei quem eu sou 
Eu sei, eu sei,
eu sei, eu sei
Eu sei quem eu sou
Eu sei quem eu sou
Eu sei onde estou 
Eu sei quem eu sou"


Esse trecho faz parte de uma musica chamada ''NoPorn'' do grupo Xingu, e faz parte da trilha sonora do filme ''Beira Mar'', dirigido com competência pelos cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.
O filme foi selecionado para o 65º festival de Berlim.
Coloquei esse trecho, por que Beira Mar fala sobre a adolescência, e esta, como todos nós sabemos - ou saberão - se trata justamente da magia e do terror de tentar entender quem se é no mundo.
Pois bem, Beira Mar possui a competência de tratar do assunto de maneira despretensiosa, de maneira natural, e pra isso ocorrer, grande parte do mérito esta nos diálogos por vezes ate banais dos personagens e principalmente pela dupla de protagonistas - Mateus Almada e Mauricio José Barcellos -, que claramente são inexperientes em termos de segurança na atuação, mas que justamente por isso, se encaixam perfeitamente para a trama.

O filme é lindo esteticamente, uma fotografia que investe bastante em profundidades de campo, imagens turvas, movimentos dispersos de câmera, cores frias, que passam tanto o clima de monotonia quanto de apreensão própria dessa parte da vida. A adolescência não é fácil, não é colorida. Ela é profunda, é embaçada, é fria, ainda que tenha seus momentos de prazeres intensos e alegrias que permanecem pelo resto da vida. O som é algo que me incomodou bastante.
O problema de Beira Mar, é que ele demora dois atos inteiros para parecer se encontrar. Como se o filme usasse de metalinguagem extrema, parece ser um adolescência que inicia ditando seu ritmo, batendo no peito que sabe quem é, que se conhece, mas que ao longo da narrativa se confunde. Fala, fala, fala; mostra, mostra, mostra, mas não chega a lugar nenhum.

A sensação que fica é que não ha historia. Não ha trama. Parece que estamos vendo apenas momentos de dois adolescentes numa viagem. Só.

Isso se deve pelo fato, dos diretores terem escolhido o caminho inverso da máxima narrativa que se aprende no cinema, de que o filme precisa se justificar, se fazer entender ate o final de seu primeiro ato (por volta de 20/30 minutos de historia). Nada é explicado de inicio. Não sabemos qual o conflito que impulsiona aqueles dois garotos naquela viagem, naquele peso aparente que ambos carregam nos olhares que se desviam, nos silêncios que presenciam e protagonizam, no riso bobo, que logo vira melancolia e osmose. É visível que ambos possuem alguma carga emocional de conflito interno, que encontra um escape na amizade e intimidade que parecem ter um com outro. Mas, o que é? como é? onde é? quando é esse conflito?

Não nos deixam saber.

Se por um lado poderia ser um exercício interessante ainda mais pela temática proposta, no filme não funciona. E o mistério deixa de ser mistério que prende, para se tornar algo 'broxante' que enjoa e cansa. O filme possui 1 hora e 23 minutos de duração, mas a sensação que fica é que tem mais de duas horas.

O filme tem sido vendido como um filme ''adolescente com características gays.'' Titulo que faz com que haja uma especie de antecipação no espectador para que pelo menos se espere algo relacionado a isso. 

Percebe? 

O filme perde a oportunidade de desenvolver a complexidade que criou.
Mas, o terceiro ato, os momentos finais o filme dá show. Tudo que se esperava acontece, ele se justifica e brilha.

Mas, precisava de 1 hora de enrolação?
Enfim, um bom filme sobre descobertas da vida, que poderia ser mais, mas talvez ainda não seja maduro o suficiente.
BAH, recomendo!

Ps: O sotaque do sul é simplesmente fascinante 


Trailer:



FICHA TÉCNICA:

PAÍS DE ORIGEM: Brasil
ANO: 2015
DIREÇÃO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
ROTEIRO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
FOTOGRAFIA: João Gabriel de Queiroz
MÚSICA: Felipe Puperi
DIREÇÃO DE ARTE: Manuela Falcão
PRODUÇÃO: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon, Tainá Rocha








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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Crítica: "Que Horas Ela Volta?"







"Senzala e casa grande pós-moderna" - André Gatti



Dirigido e roteirizado com maestria por Anna Muylaert, O Filme "Que Horas Ela Volta?" é um retrato novo da escravidão velada existente no País à menos de 15 anos atrás, e que ainda encontra suas características na atualidade, entre ''normas pré estabelecidas'' na sociedade. É uma cronica fílmica de diferença de classes, de dominação e dominados, onde ''gentilezas embranquecidas'', são disfarces de chibatadas endurecidas à calos nas mãos.
Protagonizado por Regina Casé numa atuação envolvente - e ate de certa forma - pueril, o filme traça entre sutilezas e sensibilidade - no sentido de se ater a detalhes de gestos, olhares e palavras/tom de voz - um cotidiano de realidade que nos atinge dia após dia, desde que nos entendemos por gente.
"A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica."
Regina Casé é Val, uma empregada domestica que passa seus dias entre lavar roupas, arrumar a mesa, servir janta, café da tarde, almoço, lavar pratos, varrer a casa, limpar a casa, arrumar camas, quartos, servir água, colocar prato, tirar prato, estender roupa, ser baba, garçonete... Uma "segunda mãe" para o filho dos patrões, e assim ser considerada 'quase da família'. O problema esta nesse ''quase''. O ''quase'' implícita limites. Limites esses estabelecido por sua classe social. E é aqui que o filme se torna obra. O que o filme retrata é a desumanização que ha em nossa sociedade, ao estabelecer condutas de acordo com nosso status social. De acordo com nossa etnia, nossa "origem". 


Jessica surge como uma mulher empoderada sim, mas que ao primeiro momento diante da hipocrisia condicionada de todos nós, aparenta ser uma mulher cínica e ambiciosa que não sabe seus limites. Quando no entanto a existência dela sob aquela casa burguesa do Morumbi em São Paulo é a unica célula coerente de quebra de paradigmas. O "Não saber seu lugar" de Jessica é justamente a metáfora do que ocorre no nosso cenário politico atual. Jessica é o tapa na cara, do patrão, do cis branco, do machista, do xenofóbico pró meritocracia que tem que aguentar o pobre, o negro, a trans, o nordestino, a mulher; sendo arquiteta na FAU e pegando o mesmo avião que eles. Avião, e não mais carroça ou somente ônibus.

É doloroso notar a ingenuidade resignada de Val a cada ordem que recebe. Por que para Val e tantos outros Brasileiros; classe A não se mistura com classe C. Por que se entende que existe ''sorvete de patrão'' e ''sorvete de empregada''. Porque se entende que quem limpa a piscina não pode usar ela. Nesse sentido, Jessica - vivida com surpreendente atuação por Camila Márdila - é a quebra de reflexão na narrativa, ao escancarar esses tais limites e formas de conduta ao não se submeter a eles em nenhum momento. É o tapa na cara, do gueto indo pra faculdade e não sendo apenas matéria de curso onde antes ele - eu, nós - não entravamos.
Se não bastasse o texto minuciosamente trabalhado, Muylaert ainda nos brinda com um cenário de ataque machista, na figura do aparente chefe de família - vivido por um apático Lourenco Mutarelli - que nunca precisou trabalhar na vida, e que vê na menina filha da empregada seu direito de macho de te-la como posse.
Tecnicamente o filme é um esmero a parte, Desde os planos cuidadosamente pensados para simbolizar as relações de poder e vulnerabilidade - Val constantemente aparece ao fundo da tela ou ao lado esquerdo, ou mesmo em cores mais apagadas que os demais - , o som - que sempre foi um problema em nosso cinema por questões de verba mesmo - aqui é limpo, funcional e sem nenhuma falha ou dificuldade de compreensão.
O mesmo se aplica a seu filho Fabinho - o jovem ator de "O Ano Que Meus Pais Saíram de Férias", Michel Joelsas - que por mais 'fofo' que aparente ser, revela traços desse machismo e domínio burgues que lhe é dado, em pequenos gestos, em pequenas frases, não menos nocivas. É interessante notar também que a relação de mãe e filha no filme - onde o filme internacionalmente esta recebendo o titulo de "A Segunda Mãe" por isso - se estabelece de forma dura mas profundamente bela, quando se nota, que o afeto de Val por Fabinho, não é exatamente afeto a ele, mas um reflexo de seu amor e cuidado de mãe que gostaria de ser destinado a filha que morava longe. Val vê em Fabinho o seio que não pôde dar a filha por anos. O filme ainda nos brinda com uma das cenas mais emblemáticas e belas que assisti esse ano, a cena final da piscina. Como bem diria Cazuza: "a piscina esta cheia de ratos" sim! E que bom. A sociedade terá que se acostumar com suas Val's e Jessica's. As Barbaras terão que aceitar sim, que os pires e as xícaras, já não são mais uniformes. Agora é preto no branco.
Constelação de estrelas!

Um tapa na cara fílmico de extrema delicadeza, dor e revolta real que já chegou se tornando uma obra prima de Orgulho pro cinema nacional, mas de vergonha para nossa sociedade diante do mundo.





"Tipo campos de concentração, prantos em vão

Quis vida digna, estigma, indignação
O trabalho liberta, ou não
Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu? extinção
(...)
Médico salva? Não! Por que? Cor de ladrão
Desacato invenção, maldosa intenção
Cabulosa inversão, jornal distorção
(...)
Cura baixa escolaridade com auto de resistência
Pois na era cyber, ceis vai ler
Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer, e vai ver
Que eu faço igual burkina faso
Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço
É tipo moisés e os hebreus, pés no breu
Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu
(cê é loco meu)" - Trecho da música "Boa Esperança" - Emicida


** Como nota, Gostaria de salientar o contentamento que me dá notar uma obra tão bela e pertinente, com toda essa aclamação sendo cria de varias mulheres profissionais. Desde o protagonismo ate a equipe de produção geral.**


Trailer:


Ficha técnica



Elenco: Regina Casé, Karine Teles, Lourenco Mutarelli, Michel Joelsas, Helena Albergaria, apresentando Camila Márdila, com as participações especiais de Luís Miranda, Theo Werneck e Antônio Abujamra
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Produção: Fabiano Gullane, Caio Gullane, Debora Ivanov e Anna Muylaert
Produção Executiva: Caio Gullane e Claudia Büschel
Direção de Fotografia: Bárbara Alvarez
Direção de Arte: Marcos Pedroso e Thales Junqueira
Figurino: Claudia Kopke e Andre Simonetti
Maquiagem: Marcos Freire e Andre Anastácio
Som Direto: Gabi Cunha
Montagem: Karen Harley
Produção: Gullane
Produção Associada: Africa Filmes
Coprodução: Globo Filmes
Distribuição: Pandora Filmes