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terça-feira, 12 de julho de 2016

Critica: COHERENCE



Com um orçamento de pouco mais de 50 mil dólares, e filmado em apenas 9 dias, esse longa tem sido conhecido desde sua estreia tímida em 2013 como um dos melhores thrillers sci-fi dos últimos 10 anos (outros se arriscam a dizer, que seja talvez desse novo seculo). O bem da verdade, é que ''Coherence'' é um deleite visual - por percebermos como que uma ideia suplanta a falta de orçamento -, de roteiro - onde o argumento vale por qualquer outra super produção hollywoodyana -, e que instiga justamente pela habilidade do diretor em criar uma tensão verossímil, mesmo diante da inverossimilhança possível - ou não - diante dos menos criveis as teorias quânticas, cientificas e etc etc.

A sinopse é simples: 8 amigos decidem se encontrar para uma reunião/jantar de confraternização para relembrar os velhos tempos. Durante o jantar, há um cometa chamado Miller que esta passando pela orbita da Terra. Entre as conversas os amigos relembram as noticias - a maioria infundada - de que pessoas acreditam que esse cometa e outros alteram certas coisas no planeta, como celulares que param de funcionar ou pessoas que alteram seu comportamento. 
Eis que ocorre um apagão em toda a vizinhança, e ao olharem pela janela para saber o que ocorreu, os amigos notam que ha apenas uma unica casa, a dois quarteirões de lá com luz. Apenas essa casa num amontoado de escuridão. Dois deles resolvem sair para pedir para usar o telefone dos moradores dessa residencia (pois um deles precisa falar urgentemente com o irmão). Ao voltarem, coisas estranhas começam a surgir.

Ele mescla dois conceitos básicos da ciência: A teoria do Multiverso e a teoria do Gato de Schrödinger, uma das mais famosas teorias acerca da incoerência e decoerência quântica.

O Multiverso versa sobre a teoria das cordas, estudos sobre a enigmática matéria escura e os resultados obtidos sobre a expansão crescente e sem retorno do nosso universo parecem exigir uma resposta que rompe com um paradigma fundamental - o universo é infinito e nele tudo está contido. A teoria do multiverso traz o sentido no nome: existiriam infindáveis universos numa espécie de queijo de energia quântica, onde bolhas se formam e somem sem parar. O nosso universo seria um deles. Resumindo: É a teoria de que existem milhares de universos. (o filme inclusive brinca com essa parte quando em certo momento um dos diálogos cita um pedaço de queijo e ketamina como aperitivo antes do jantar rsrs).

Já a base mais evidente do argumento do filme esta na teoria do Gato de Schrödinger ( Schrödinger foi um físico austríaco ganhador do Prêmio Nobel de Física e tido como um dos cientistas mais celebres do seculo XX), que consiste numa experiencia onde se coloca um gato imaginário dentro de uma caixa com um pote de veneno e fecha-o la dentro. A caixa onde seria feita a hipotética experiência de Schrödinger contém um recipiente com material radioativo e um contador Geiger, aparelho detector de radiação. Se esse material soltar partículas radioativas, o contador percebe sua presença e aciona um martelo, que, por sua vez, quebra um frasco de veneno. De acordo com as leis da física quântica, a radioatividade pode se manifestar em forma de particulas ou ondas - e uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. As ondas representam as probabilidades de ocorrência dessa dupla realidade, quando, na mesma fração de segundo, o frasco de veneno quebra e não quebra. Assim, teríamos duas possibilidades possíveis: 


a) O gato aparece vivo, porque, nessa versão da realidade, nada foi detectado pelo contador Geiger, e portanto ele não quebrou o frasco de veneno que mataria o gato.


b) O gato surge morto, pois nessa outra versão do mesmo instante de tempo o contador Geiger detectou uma partícula e acionou o martelo. O veneno do frasco partido matou o animal.


Seguindo o raciocínio de Schrödinger, as duas realidades aconteceriam simultaneamente e o gato estaria vivo e morto ao mesmo tempo até que a caixa fosse aberta. A presença de um observador acabaria com dualidade e ele só poderia ver ou um gato vivo ou um gato morto.
Simplificando, a teoria cujo o filme implica, é aquela famosa ideia de que existem vários universos e realidades coexistentes ao mesmo tempo/espaço e que nossas escolhas constantes alteram cada linha de realidade.
Dirigido por James Ward Byrkit (sua estreia na direção. Ele foi co-roteirista da animação ''Rango"), o filme brilha justamente por trazer esses conceitos de forma orgânica ao unir a ciência teórica, numa especie de experimento 'possível' através da desculpa de gancho de roteiro do cometa (que seria aqui a força inexplicável capaz de interferir nessas leis quânticas e físicas), mas usando isso para debater e refletir sobre as relações humanas e existenciais. Não importa muito a certo momento do filme como pode ser possível X ou Y situações, por que o que importa de fato são os pensamentos e atitudes daqueles 8 amigos diante daquelas milhares de possibilidades e situações apresentadas.
Todos os amigos ali, se reúnem depois de vários anos, cada um tendo uma escolha na vida que os levaram a vários caminhos diferentes. nem todos surgem satisfeitos com suas escolhas - como todos nós diariamente -. Quando esse lapso ocorre ali, cada ação altera uma realidade daquela dinâmica em diferentes espaços e tempos, mas altera também a dinâmica deles, com eles mesmos. Em certo momento uma das personagens diz que aquela experiencia poderia ser aquilo que todos nós humanos sempre no intimo queremos ao longo da vida: poder encontrar-se consigo mesmo em diferentes realidades de escolhas que não fez. Como eu estaria hoje se eu tivesse pegado o ônibus detrás e não aquele que veio antes? Como eu estaria se eu preferisse vir a pé ou de taxi? Como seria minha vida hoje se eu tivesse escolhido aquele outro curso, aquela outra roupa, ou simplesmente, acordado cinco minutos mais cedo? Ocorreria algo na minha vida, no meu caminho ate aqui diferente por causa dessa minima escolha que fiz? E se cada uma dessas possibilidades, desses 'eus' pudessem se encontrar num mesmo lugar e tempo e se confrontarem? Eu descobriria quem eu realmente sou em toda a vasta complexidade de facetas que somos?

Em vários momentos o filme me passou o clima da lendária serie Twilight Zone, de meados dos anos 50/60. Uma mescla de terror e suspense, com aplicações filosóficas, de desfecho surpreendente e instigante.

Apesar de parecer muito complexo, a dinâmica em si é simples, apos acompanhar o filme. basta prestar atenção nos detalhes que ele fornece - cada frase é essencial para o entendimento, por mais que na hora pareçam jogadas a esmo. Não são.

Eu pessoalmente só me enrolei de fato - e certeza que essa foi a intenção do diretor - com os 3 minutos finais do filme. Onde o conceito básico do experimento se choca com uma 'incoerência' do próprio sentido cientifico dele. Mas, que abraço outros conceitos possíveis, e por isso são teorias.

Contando ainda com uma trilha sonora pontual e certeira em cumprir o papel de ir preparando o clima para as ações - o que faz com que o filme as vezes tenha ares de Terror ou Suspense; uma ótima surpresa ainda é a fotografia que ainda que não tenha nada de muito rebuscada, possui uma logica narrativa eficiente, ainda mais quando se percebe os artifícios usados para burlar o baixo orçamento - como a utilização de velas, e luz ambiente. A câmera na mão aqui também é funcional e não apenas um recurso de linguagem. Parte pela produção modesta e parte para passar a sensação de proximidade com os espectador.

Um filme gigante como o tema que aborda, uma surpresa grata de estreia de um diretor que pretendo acompanhar e principalmente um alivio diante de tanta produção bilionária rasa por ai, que prova que uma ideia inteligente vale mais do que qualquer super câmera ou grande elenco famoso.

Recomendável (mas pode causar enxaquecas)





Trailer:





Ficha Técnica:

Direção: James Ward Byrkit
Roteiro: James Ward Byrkit, Alex Manugian (co-roteirista)
Elenco: Emily Baldoni, Maury Sterling, Nicholas Brendon, Elizabeth Gracen, Alex Manugian, Lauren Maher, Hugo Armstrong, Lorene Scafaria
Trilha Sonora: Kristin Øhrn Dyrud
Fotografía: Nic Sadler, Arlene Muller
Duração: 89 min.
País: EUA
Ano: 2013

Prêmios: Festival de Sitges como Melhor Roteiro (2013) e Gotham como Melhor Novo Diretor (2014)








sábado, 2 de julho de 2016

Team Jess - Gilmore Girls




Team Jess, Team Dean, Team Logan - e ha ainda os Team Marty e Team Tristan (sim, há).

Do que estou falando? Gilmore Girls claro, e os times de rivalidades entre os fãs que torcem pelo parceiro perfeito para Rory Gilmore.
O bem da verdade é que Rory Gilmore não estaria bem com nenhum deles. Ela terminou a sétima temporada em relacionamento serio com sua vida profissional e seu sonho em se tornar Christiane Amanpour, viajando o mundo, conhecendo e noticiando fatos.

No entanto, no imaginário de tantos fãs que cresceram na geração 'disney' e comedias românticas com Sandra Bullock, o fato de uma garota no meio da primeira década dos anos 2000 era inaceitável, e ficamos tentando imaginar com quem Rory teria finalmente ficado, já que os três parceiros oficiais dela ao longo da serie seriam potenciais possibilidades, já que ambos tiveram resoluções em aberto.

Eu, desde que conheci Jess Mariano - naquele seu estilo rebelde sem causa, James Dean a lá Kurt Cobain feat Bad Boy - soube de imediato que ele seria o meu escolhido como par perfeito para Rory.
Isso vinha muito mais do apego ao personagem - inadequado- do que por achar ele ideal para ela.
O tempo passou, cresci, fui me empoderando em questões sociais, de gênero e etc e etc, e cheguei a conclusão obvia, que o relacionamento de Rory e Jess nunca foi saudável.
Mas, ainda assim, dentre os três oficiais, cheguei a conclusão também, que nenhum foi saudável para ela. Os tr~es rapazes de diferentes formas foram nocivos para ela. Nenhum deles compartilhavam do mesmo momento e maturidade de Rory. nenhum deles eram passiveis de seus machismos e abusos de homem contra ela mulher.

Ainda assim, resolvi fazer a linha Annalise Keating e explicar aqui por que apesar de toda essa constatação, ainda assim sou um Team Jess fervoroso por mais de 13 anos.

Como nota é importante salientar que sou homem, e de forma alguma pretendo adentrar questões de feminismo que não me cabem quanto homem relativar. Aqui o que postarei sera apenas uma analise técnica baseada na construção do roteiro da serie e de minha visão totalmente tendenciosa de fã da serie,


Dean


Dean sempre foi e ainda é o simbolo do primeiro namorado perfeito. Aquela construção de namorado feito príncipe encantado, sonho d consumo. Alto, cabelos sedosos, cavalheiro, gentil, que move fundos e mundos pela sua princesa. Trabalhador, de classe media baixa. Dean foi o namorado perfeito para Rory. garota ingenua, sonhadora, delicada, extremamente independente e inteligente, que sonhava com o amor romântico desajeitado e próprio do inicio da adolescência. Daquele de mandar cartas e depoimentos no orkut.

No entanto, Dean tinha um enorme problema: possessividade, Em vários momentos o ciumes dele demonstrava um dom peculiar para cometer o que chamamos de gaslighting. Em todas as brigas dele com Rory de alguma forma sempre ela se sentia a culpada da situação e ele coitado, bondoso, gentil, garoto modelo surgia arrependido mas com clara noção ali entre os dois, de que ela exagerou, ela fez a situação rolar e ele tinha total aval para ter se irritado. Alias, a irritação é outro ponto que ao longo das temporadas foi surgindo de forma natural da personalidade dele, e que mostrava que ele apesar de todas as qualidades, é um cara de temperamento explosivo (lembra o Luke nisso).
Mas, o veridito final para eu avaliar que ele não é o par perfeito para a Rory, ocorreu com a primeira vez dela (na vida) e dele juntos. Dean era casado. Traiu a esposa com a Rory e ainda manteve a relação, mantendo ela como a amante. Ele com isso fez o papel de relacionamento abusivo para Rory e para a esposa. E se não bastasse, apos a separação (que veio apenas pela descoberta da esposa, se não provavelmente as coisas continuariam), ele se mostra totalmente inadequado para Rory. No que ela se tornou.



Logan



Bem, esse nem precisa muito de explicação. Mimado, rico, inconsequente. Ele une características de Dean e Jess num corpo só - numa versão loira de blazer e limousine -. Por mais que ao longo das temporadas ele se transforme e consiga demonstrar certas mudanças por causa da convivência com a Rory, Logan ainda assim tem a tipica postura do marido machista usual: tanto nas falas, na condução do relacionamento, quanto nas brigas e decisões que toma. Ha traição aqui, onde ele trai a Rory, comete mancadas e repetidas vezes se desculpa, onde ele inexplicavelmente surge, como coitado. É uma situação macro do Dean, só que com o plus - a seu favor - do amadurecimento. Aqui [é uma relação adulta.
Ao final, ele deixa um ultimato a Rory, e ela faz a sua escolha.


Jess


Jess foi a relação mais conturbada dela sem duvidas. Ainda que na relação com o Dean tenha tido traição, ainda que na relação com o Logan tenha tido ate prisão, foi com o Jess que Rory teve a relação mais ambígua e analiticamente mais complexa ate hoje. Jess tem um 'quê de Luke, tem uma inegável ligação de alma gêmea com a Rory nos gostos e pensamentos, na dinâmica - é a unica relação onde ela não precisou ensinar ele a ser algo (como foi com o Dean q teve que aprender a lidar com o jeito Gilmore de ser), e onde ela não precisou aprender a se doar/mudar por algo (como ocorreu com o Logan onde ele foi mudando por ela, e ela foi se transformando por ele). Com Jess Rory era ela, desde o começo ate o fim. Ela não precisava fingir, mudar, transformar. Ela era ela. E ele era ele. Com ela. Isso numa fase do final da adolescência. Onde Rory estava se descobrindo mulher, com desejos e medos, e ele numa incompreensão de sociedade extrema. Não deu certo. Ele de todos era o que transparecia maior relacionamento abusivo. Seja pela melhor amiga (Lane) não gostar dele, seja pela mãe (Lorelai) também não gostar dele, seja pelos avós não gostarem dele. Seja pela maneira 'despreocupada' que ele levava a relação. Explico: enquanto Dean e Logan sempre demonstraram continuamente fomentar e procurar a Rory, se explicar, e fazer mil coisas para ela, Jess jamais demonstrou ser adepto desse tipo de 'apego' de relacionamento. Muito pelo contrario. Feito um tipico Bad Boy ele sempre demonstrou sim gostar dela, mas sem se preocupar com convenções sociais de relação. Nunca quis agradar a família dela, nem era de ligar varias vezes ao dia, nem de procurar continuamente.

Ao final, com algumas mentiras por parte dele aos questionamentos dela, ele a abandona. Simplesmente some sem dizer adeus, após quase forçar uma situação sexual entre eles, dando a impressão momentânea a Rory de que ela mais uma vez era a culpada pela situação (notem ambos sempre arrumaram jeito de faze-la se sentir culpada por algo). Obviamente tudo ocorria por um problema pessoal dele, na vida pessoal dele, onde tudo estava dando errado e ele preferiu fugir da vida dela.


Anos mais tarde, Jess reaparece e ele é a peça chave para fazer Rory voltar a ser quem ela realmente é. Basta dois dias com Jess para ela lembrar quem ela é. Mais uma vez o roteiro nos mostra que Jess é o elemento tal qual sua mãe, que mantem Rory em seu próprio mundo. Jess tem um quê de Lorelai tbm (assim como tem uma quê de Logan, importante dizer. Ela só nunca foi parecida ironicamente com o Dean, de qual ela mais gostou).

Por essa leitura, sou Team Jess, por entender que a construção do personagem a liga a Rory. E não de maneira amigável, e sim amorosa. É o único com quem ela não tem relações sexuais, mas é o primeiro que ela demonstra querer a principio (com Dean e Logan foram eles que a procuraram para que ocorresse). Quando Jess reaparece ele é um artista, muito mais 'sociável'. A fase adulta esta ali, e condiz com a fase de Rory. Mas, esta na época se sente apaixonada por Logan - mas isso não a impede de beijar Jess.

Dos três, há evidencias ao longo da serie de que Jess é a unica pessoa que consegue rivalizar a atenção de Rory diante de sua mãe. Rory jamais deixaria nada intervir entre ela e a mãe. Com exceção de Jess, que sempre surgia como uma ruptura, não de distanciamento, mas de demonstração de que era a pessoa com quem Rory possuía uma ligação tão forte, em que ela, Rory, é capaz ate de perder a formatura da mãe e perder um dia de aula.

(Bacana também lembrar que Rory trai Logan e Dean com Jess e nunca traiu Jess com ninguém, assim como Jess foi o único que nunca traiu ela com ninguém)

Por isso, meu veredito é: Que Rory esteja sozinha ou na companhia de outra pessoa - homem ou mulher - que realmente esteja na mesma sintonia que ela e que seja compatível com o que ela se tornou. Caso não seja possível e ela precise terminar com um dos três, que seja Jess (o artista escritor).

*Como nota, revendo a sexta temporada, percebi que meu apego pessoal com o Jess se justifica por ele ver nos livros um escape do mundo. Próprio dos artistas, ele prefere viver e viajar nas paginas dos milhares de livros que lê - tal qual Rory - para fugir da sua realidade que a ele pesa. Eu como artista e escritor entendo e me vejo nisso.


quarta-feira, 23 de março de 2016

Crítica: "Boa Noite, Mamãe" (GoodNight, Mommy)

"Isso dói?"



(Recomendação: Só leiam o texto, após assistir o filme. Contem spoilers e descrição explicativa de varias cenas, incluindo o final e seu significado)


Dirigido e roteirizado pela dupla Severin Fiala e Veronika Franz, esse filme austríaco - que tentou representar seu país no Oscar desse ano, e arrematou dezenas de prêmios mundo afora - "ICH SEH, ICH SEH" - do original "Eu vejo, Eu vejo" e traduzido pro inglês e pro português como "Boa noite, Mamãe (GoodNight, Mommy)" - é um deleite para os olhos atentos de cinéfilos de qualquer geração.

Isso porque sua força reside nos detalhes e na busca de refletir o cinema suspense com toques de terror lá em seu ápice em anos passados, - mais especificadamente, com referencias a obras dos anos 70 - onde tivemos um considerável requinte de linguagem pro gênero.

É preciso dizer que o filme tem seu plot real apenas nos dez minutos finais de projeção. Talvez nos cinco últimos se considerarmos os elementos que os compõem. Por tanto, a revelação do "implícito" envolvendo os dois irmãos não é o que o filme quer segurar até o final. O roteiro não visa tornar misterioso a condição que une os dois irmãos no filme; muito pelo contrário. Ele espalha pistas escancaradas ao longo da projeção sem nenhum pudor. Ainda assim é belo constatar sua comunicação visual na sutileza nessas indicações.

Primeiro de tudo devemos lembrar que Hollywood nos acostumou mal. Nos criou a base de obviedade onde sutileza não existe e onde diálogo e edição frenética são sinônimos de Bons filmes (pra eles). Aqui, temos cinema base de suspense, onde se tem comunicação por imagens e não por ação ou fala.

Assim, o que se deve prestar atenção nesse filme é a construção narrativa de sua Mise-en-scène, o cenário que compõe o quadro em cena. Atribuir significado à água, aos reflexos, ao solo mole, às sombras, as cores, as árvores, aos quadros, fotos, a maneira que a câmera se posiciona, a maneira que a câmera se movimenta.

O ambiente é o verdadeiro protagonista do filme. É quem está narrando tudo.

Assim é brilhante notar como o filme nos conta através de um gato, através de um isqueiro, através de um quadro feito por silhuetas de sombras, através de reflexos, da ausência de calendários e relógios, bem como através de um cripta e seus ossos, sua real intenção de existir.

O tempo aqui não é fluido, e é importante salientar isso para que se entenda o seu desfecho final. Que sim é aberto a interpretações, mas é um fato planejado também. Os insetos e seu significado quase mitológico e psicológico, também tem papel importante na construção narrativa do filme. E não o bastante, ainda temos o silêncio que é a melhor fala de todo o roteiro.

Falando de aspectos técnicos, é preciso dar louros ao diretor de fotografia Martin Gschlacht, que compreende o universo que esta trabalhando, inserindo uma palheta de cores vibrantes sempre que estamos em lugar comum aos gêmeos, em contraste a palheta de cores mais escuras e opacas de quando nos encontramos diante da mãe deles - que obviamente oferece uma especie de perigo e apreensão às duas crianças. E isso ocorre, por que acompanhamos o filme pela perspectiva dos meninos, ate o inicio do terceiro ato. A partir dali, de maneira bem assertiva pelos diretores, passamos a ser meros espectadores das cenas. Um manejo do cinema de terror eficaz e esquecido atualmente.



A partir daqui escancararei sem a mesma sutileza do filme, o seu entendimento para ajudar aqueles que não compreenderam. Pois é impossível eu falar sobre alguns elementos sem dar spoilers.

Estejam avisados e só leiam depois de ver o filme. Pois, qualquer informação, como disse no inicio do texto, pode 'estragar' a experiencia visual e narrativa do filme. Só leiam, apos terem assistido.




Temos dois irmãos gêmeos, Lukas e Elias. Elias, que surge primeiro em tela com a regata clara, e Lukas com a regata escura.

Após uma brincadeira com o irmão, Lukas morre afogado no lago em frente à casa. Essa cena é mostrada no inicio do filme, entre varias outras brincadeiras dos gêmeos. Logo, após esse acidente, ha um incêndio na casa deles, e seus pais acabam se separando. (A indícios durante o filme, nas ações de submissão e dominação entre os gêmeos, de que o incêndio tenha sido efetuado pelo Lukas, antes deste morrer afogado).
A mãe fica gravemente ferida no incêndio e precisa fazer algumas plásticas no rosto pra reconstruir a face.
Após a morte do irmão, Elias passa a vê-lo, achando que ele continua vivo. Ele passa a negar a morte do irmão.

Eles se mudam da casa queimada, para uma nova casa, mais moderna. A mãe ao retornar pra nova casa comprada após o incêndio, se recusa a fingir que o filho morto está ainda entre eles. E passa a tratar o filho Elias, mais rispidamente. Por dois motivos. Primeiro, pelo trauma da perda do outro filho, ja que ambos são gêmeos e claramente o vivo faz ela lembrar do outro morto, e pelo acidente em si, onde surge o sentimento de culpa versus a separação do marido. Tudo isso culmina num distanciamento da relação dela com o filho.

Por causa das cirurgias, e desse novo comportamento da mãe, Elias e Lukas (morto) passam a achar que aquela mulher, não é sua verdadeira mãe. E após tortura-la, para querer saber onde esta a mãe verdadeira, colocam fogo nela e na nova casa ( somente o Elias no caso).

Assim ao final o que vemos é um vislumbre da primeira casa pegando fogo, seguida da segunda em flashes.

Como eu disse o tempo não é fluido. A montagem do filme de maneira assertiva pelo montador Michael Palm, não é linear, afinal estamos tratando de um mundo entre o real e o mundo dos mortos. Após o segundo incêndio, mãe e filho (Elias) morrem queimados e se juntam a Lukas o filho morto afogado, enfim juntos na floresta.

Assim além de ter uma comunicação visual genial, o filme brilha principalmente por conta de sua montagem, que escolheu essa direção de fragmentar o quebra cabeça. Quando vemos a os gêmeos olhando a nova casa a venda na verdade estamos vislumbrando momentos após o primeiro incêndio. E é notável que eles fazem a distinção de temporalidade, aos olhos atentos, pelas roupas dos meninos. As roupas indicam qual tempo narrativo estamos vendo.

As simbologias do fogo, da água, dos insetos, tudo remete a esse caráter de morte que ronda o filme. Inclusive a analogia da floresta e das mascaras. As cenas da floresta, indicam o submundo psicológico e sentimental de mãe e filhos. Quando vemos a mãe despida na floresta com o rosto em transe, na verdade, é uma representação dos ecos de angustia desta diante daquela nova realidade. Da perda do filho, do corpo mutilado por um do filhos, da inadequação a ela mesma diante do espelho e do papel de mãe, da nova vida distante de tudo. A floresta representa em filmes de suspense e terror, a quebra do palpável e a chegada do mistico. Pode representar tanto a perdição horrenda, quanto a purificação sagrada. O humano dentro dela, o humano urbano, tende a se quebrar de facetas diante de uma floresta. O filme explora bem isso também. Assim como as mascaras tribais. A mascara da cirurgia contrastando com a mascara dos garotos e ambas escondendo a realidade daqueles três personagens. Um morto, um pirotécnico, uma mãe morta-viva - e interessante ainda a a referencia a múmia nesse sentido, inclusive nos planos que mostram seus primeiros passos em tela, e aquele em que ela surge nas sombras do quarto com as persianas fechadas.

Há ainda outro detalhe bacana, que é quando os gêmeos acham a foto da amiga da mãe, que surge parecido, e que causa toda a comoção neles de que estão diante de uma impostora.

A tortura, como é claro ali, serve não só pro terror psicológico crescente de agonia, como também para simbolizar aquela relação que temos de sagrada entre mãe e filhos se quebrando. E o filme extrapola isso sem pudor algum, quando escolhe os ferimentos em ordem materna e progenitora perfeita, ao fazer os gêmeos primeiro ferirem a boca da mãe - a boca que simboliza fala, educação e alimentação -, depois o útero - quando saem insetos de la, denotando a morte das crias - e em seguida, o arrancar de dentes e da mãe tendo urinado. O filme inteira jogo com a relação materna de maneira inversa. A proteção e criação que se transforma em destruição e perigo. Isso em si perturba.

Ainda há cenas de caráter psicológico, claro, em que mostra os gêmeos constantemente disputando, correndo, e se batendo, com destaque a cena em que eles batem no rosto um do outro e perguntam se aquilo dói.



É um filme denso, perturbador e que carrega um terror psicológico a altura de seus prêmios e reconhecimento.

Não tem nada de ''o mistérios das duas irmãs'' ali. Aqui temos o mistérios dos dois irmãos, e sua querida mamãe.


Imperdível!



Ficha Técnica:

Gênero: Suspense
Direção: Severin Fiala, Veronika Franz
Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz
Elenco: Christian Schatz, Elfriede Schatz, Elias Schwarz, Lukas Schwarz, Susanne Wuest
Produção: Ulrich Seidl
Fotografia: Martin Gschlacht
Montador: Michael Palm
Trilha Sonora: Ekkehart Baumung


Trailer:

 









terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Critica/Resenha - Pan (Peter Pan)

"Segunda a esquerda, e reto até o amanhecer"




Dirigido por Joe Wright ( "Desejo e Reparação" e "Orgulho e Preconceito") e roteirizado (original) por Jason Fuchs, "Pan" resgata mais uma vez o universo criado por J.M. Barrie, e traz à tela por incrível que pareça, uma história inventiva e criativa sobre a origem do garoto que podia voar e conversava com fadas.

Com direito a uma inesperada versão à capella de “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana, o filme narra feito fábula mesmo, a origem de Peter, até sua já conhecida jornada como Peter Pan na terra do Nunca, contra as dicotomias do Capitão Gancho.

Peter (Levi Miller) é um garoto de 12 anos que vive em um orfanato em Londres, no período da Segunda Guerra Mundial, apos ser deixado ainda recém nascido por sua mãe às portas do local. 
Um dia, ele e várias crianças são sequestradas por piratas em um navio voador, que logo é perseguido por caças do exército britânico. O navio escapa e logo ruma para a Terra do Nunca, um lugar mágico e distante onde o capitão Barba Negra (Hugh Jackman) escraviza crianças e adultos para que encontrem pixum, uma pedra preciosa que concentra pó de fada (Pó de pirlimpimpim). Em pleno garimpo, Peter conhece James Hook (Gancho) (Garreth Hedlund), um garimpeiro refém, que tem planos para fugir do local.
Após uma confusão nas minas, Peter é sentenciado a morte num precipício, mas ao ser empurrado para o abismo, ele descobre que pode voar e que assim pode ser o garoto escolhido para cumprir uma antiga profecia.

O roteiro é inventivo ao respeitar o universo já conhecido da fabula, e basear ele para criar uma origem que nem mesmo nós achávamos necessária ou existente. Quem já se.perguntou quem é a mãe de Peter ou porque dele poder voar, ou porque ele e o Gancho se odiavam e etc...
Tudo aqui é desenrolado de maneira natural sem aparentar ser didática ou um filme de curiosidade forçadas. Pelo o contrário.

As ligações inclusive metafóricas, de alegorias e analogias, bem como todo o viés psicológico que acarretam o imaginário da Terra do Nunca ficam claros e bem estabelecidos. A estrutura do roteiro respeita o seu publico alvo - infantil - mas, não subestima a inteligencia das mesmas ao manter uma coesão nada forçada na narrativa - considerando que estamos na Terra do Nunca, claro-.

A fotografia e os efeitos visuais são outro espetáculo a parte. O mundo estrutural da Terra do Nunca é sensacional. bonito de se ver e verossímil com as leis daquele universo.
Muitos reclamaram do ritmo do filme, como as passagens das sereias,- todas com o rosto da Cara Delevingne - mas eu particularmente achei bem encaixada na narrativa. Principalmente ao usarem elementos da natureza para remeter ao passado. Uma arvore que conta a historia que se passou, e as águas que guardam memorias em suas profundezas - e afinal a água simboliza justamente isso, sentimentos, emoções e sensações de evocação.

Já o elenco é bem interessante e cumprem bem seu papel: Garrett Hedlund como o futuro Capitão Gancho, mesmo em sua mazela a lá Indiana Jones, trás uma ambiguidade lasciva e divertida pro personagem. Se observarmos bem, o Gancho nunca foi de fato o vilão da trama, mas sim um anti-heroi. Um arqui-inimigo de Peter. Levi Miller como Peter Pan, é vigoroso e bem expressivo mesmo nas cenas de mais dramaticidade. Ele convence como o Peter que conhecemos das fabulas. Inclusive demonstrando a transformação do Órfão inteligente e maduro, para o garoto despreocupado e brincalhão que conhecemos. E Rooney Mara como a 'selvagem'  Tigresa, introduz uma humanidade que serve de ponto de choque entre a maturidade da vida adulta e a infantilidade da Terra do Nunca. é interessante que seu papel e sua caracterização funcionam muito bem para a vermos tanto como uma adolescente quanto como uma adulta. E essa analogia entre as duas fases da vida, bem como os dois mundos existente, servem de apoio para as transformações e motivações dos personagens centrais.
Mas é mesmo Hugh Jackman como o famigerado e exagerado Barba Negra - o grande vilão da trama - que desempenha o melhor papel. Excêntrico, o ator parece se divertir no papel, e alias, seu figurino é o que mais merece atenção. Dotado de cores pretas e vermelhas, a direção de arte já denuncia e alude para o vilão que ele é, desde os primeiros momentos. 

Um filme leve e divertido, mas principalmente respeitoso que evoca não só a nostalgia de uma fabula clássica a todos nós, mas que atualiza uma ideologia que como a fabula já denunciava, estamos a cada dia perdendo mais.

Recomendo.

Trailer:



Ficha Técnica:

Gênero: Aventura
Direção: Joe Wright
Roteiro: Jason Fuchs
Elenco: Levi Miller, Hugh Jackman, Rooney Mara, Amanda Seyfried, Cara Delevingne, Kathy Burke, Garrett Hedlund, 

Fotos:











sábado, 28 de novembro de 2015

Crítica: O Pequeno Príncipe


''O essencial é invisível aos olhos.''



''Só se vê bem com o coração.''
''Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.''

Tais frases icônicas, permanecem desde 1943 no imaginário de milhares de pessoas ao redor do mundo. Sejam crianças ou adultos, O Pequeno Príncipe escrito pelo escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry, é considerado um dos livros mais famosos da historia da literatura. Considerado também infantil; ele é uma das raras exceções em que seu publico alvo se subverte para se tornar universal, devido a riqueza de parábolas e metáforas com a vida adulta que o livro trás.
Em 1974, o cinema se arriscou a produzir uma adaptação do livro. Dirigido por
Stanley Donen; o filme que apostou numa especie de comedia musical, trazia Gene Wilder no elenco.
Veja o trailer abaixo:



Dessa vez, o diretor Mark Osborne, apoiado pelo roteiro de Irena Brignull, arriscaram em trazer o "Pequeno" novamente às telas grandes, mas desta vez em forma de animação.

Nessa nova animação, uma garota acaba de se mudar com a mãe, uma controladora obsessiva que deseja definir antecipadamente todos os passos da filha para que ela seja aprovada em uma escola conceituada. Entretanto, um acidente provocado por seu vizinho faz com que a hélice de um avião abra um enorme buraco em sua casa. Curiosa em saber como o objeto parou ali, ela decide investigar. Logo conhece e se torna amiga de seu novo vizinho, um senhor que lhe conta a história de um pequeno príncipe que vive em um asteroide com sua rosa e, um dia, se encontrou com ele - um aviador perdido no deserto do Saara -  em plena Terra.

O primeiro que tem que se dizer sobre essa animação, é que ao contrario do que possa parecer aos saudosista e aos novos admiradores do principezinho, o filme não é uma adaptação do livro. Na realidade não é nem mesmo uma versão. Pois, a historia do Príncipe é apenas base para empurrar e estruturar a narrativa que é sobre a historia da pequena garota. Assim, essa animação, na realidade, é baseada no livro.
Isso é importante para que não se crie a expectativa lúdica de que a experiencia em tela sera a mesma do livro.

Dito isso, é muito interessante e valida a maneira que a roteirista escolheu de calcar a jornada da garota rumo a descoberta do que é ser adulto, através da historia do pequeno príncipe.

O que o roteiro quis, foi fazer uma reflexão paralela das ideologias de Antoine, com a vida real. Quase adotando um sentido religioso e de fé ao Príncipe nesse sentido. Pois o velho aviador parece crer que a existência do pequeno é o que o sustenta para aguentar a vida cotidiana tão pesada e as vezes cruel. Nesse ponto é interessante o fato de que o aviador velho da animação, seja o mesmo aviador narrador do livro e que por excelência seja o próprio Antoine num universo paralelo onde ele envelheceu ate esta tenra idade e tenha conhecida uma pequena garota simpática e curiosa.
Isso porque o velho aviador da historia, não apresenta o pequeno príncipe para a garota, como se fosse uma historia que ele ouviu e esta repassando. Mas, como uma historia que ele viveu, ele escreveu e desenhou. a construção logica do roteiro peca em alguns diálogos, como por exemplo o uso de uma fala da garota, que é extremamente inteligente e racional, e problematiza o fato de não ser possível que o aviador tenha encontrado um garoto no deserto. Por que crianças não poderiam sobreviver tanto tempo naquele ambiente inóspito e porque pelo seu conhecimento da escola, não havia evidencias de vida em planetas pequenos. Ela então diz que a unica possibilidade era se ele viesse de uma estrela. Ora, estrelas são corpos quentes, onde ali sim, não poderia haver vida. Esse detalhe pequeno e irrelevante, mas que mostra um desleixo na construção da logica da personagem, cuja a logica é justamente sua principal característica.

A animação ainda traz um visual incrível.

A vida real da garota é representada em computação gráfica. A cidade, os adultos, os carros, tudo em linhas de simetria extrema, retas, sem ''imaginação alguma''. Cores cinzas e opacas, numa unilinearidade sóbria e sem vida. Tudo em constante movimento mas, sem sentimento. Sem riso ou alegria.

A exceção é justamente a casa do velho aviador. Disforme, repleta de cores vivas, que contrasta absurdamente com o cinza da urbanidade. É interessante esse cuidado com a direção de arte. Representar a metáfora da vida adulta tão "chata" aos olhos na ideologia do Livro com a construção da arte aqui.
Já o velho que não se esqueceu como é ser criança mantém a cor em seu dia a dia, e por isso é visto como louco biruta pela sociedade geral. Que não o entende e nem o aceita. Eles tem medo do velho.

Mas, o real encanto fica por conta da animação em stop motion, que representa a história paralela do príncipe. O aviador narra a história para a garota e vemos o desenrolar em um stop motion rico em detalhes e fluidez de movimento. É fascinante.

E aqui, inclusive o entendimento artístico do universo da obra pra realidade é satisfatório. Uma vez que a computação, justamente seria a tecnologia humana, do adulto humano artificializando o natural. E o que seria a fantasia fantástica do mundo do pequeno príncipe, com o stop motion tão clássico e originário do cinema em seus primórdios. Esse detalhe é bonito de se constatar.

No entanto, o maior problema do filme está no não entendimento aparente ou na ambição furada de não compreender a mensagem simplista que o livro trás. Sim, suas mazelas são complexas. Tanto que conquistam adultos até hoje. Mas sua mensagem base é simples. É imaginativa. É utópica.
E o filme aqui tenta racionalizar essa mensagem a partir do segundo ato.
A sensação que fica é a de que ironicamente, o melhor do filme é justamente sua técnica regrada e ''adulta'', e não seu roteiro, seu sentimento.

É um projeto ambicioso e muito interessante, mas que peca ao tentar recriar uma obra que não precisa e nem deve ser recriada, somente revista. É diferente essas duas mazelas.
O terceiro ato, apesar de valido, principalmente para aqueles que não conhecem a historia original, representa uma especie de 'traição' ao original para aqueles que conhecem as aventuras do Pequeno.
O essencial ficou visível aos olhos e não se mostrou muito bem.

Assim, o Pequeno Príncipe é uma experiencia valida pela sua beleza, pela historia base que carrega, mas que frusta por demonstrar que afinal de contas, não importa quão lindo visualmente ele possa ser, ele ainda assim, é uma animação feita para crianças, mas criada por adultos.

É, adultos são tão chatos... Eles nunca entendem...

Ps: A raposa - em todas as suas faces - é a coisa mais querida do mundo, como não poderia deixar de ser.


Trailer:



Ficha Técnica:

Gênero: Animação
Direção: Mark Osborne
Roteiro: Irena Brignull
Elenco: (vozes) Albert Brooks, Benicio Del Toro, Bud Cort, Jacquie Barnbrook, James Franco, Jeff Bridges, Jeffy Branion, Mackenzie Foy, Marcel Bridges, Marion Cotillard, Paul Giamatti, Paul Rudd, Rachel McAdams, Ricky Gervais, Riley Osborne
Produção: Alexis Vonarb, Aton Soumache, Dimitri Rassam
Fotografia: Kris Kapp











segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Resenha (breve): Beira Mar





'Eu sei quem eu sou 
Eu sei, eu sei,
eu sei, eu sei
Eu sei quem eu sou
Eu sei quem eu sou
Eu sei onde estou 
Eu sei quem eu sou"


Esse trecho faz parte de uma musica chamada ''NoPorn'' do grupo Xingu, e faz parte da trilha sonora do filme ''Beira Mar'', dirigido com competência pelos cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.
O filme foi selecionado para o 65º festival de Berlim.
Coloquei esse trecho, por que Beira Mar fala sobre a adolescência, e esta, como todos nós sabemos - ou saberão - se trata justamente da magia e do terror de tentar entender quem se é no mundo.
Pois bem, Beira Mar possui a competência de tratar do assunto de maneira despretensiosa, de maneira natural, e pra isso ocorrer, grande parte do mérito esta nos diálogos por vezes ate banais dos personagens e principalmente pela dupla de protagonistas - Mateus Almada e Mauricio José Barcellos -, que claramente são inexperientes em termos de segurança na atuação, mas que justamente por isso, se encaixam perfeitamente para a trama.

O filme é lindo esteticamente, uma fotografia que investe bastante em profundidades de campo, imagens turvas, movimentos dispersos de câmera, cores frias, que passam tanto o clima de monotonia quanto de apreensão própria dessa parte da vida. A adolescência não é fácil, não é colorida. Ela é profunda, é embaçada, é fria, ainda que tenha seus momentos de prazeres intensos e alegrias que permanecem pelo resto da vida. O som é algo que me incomodou bastante.
O problema de Beira Mar, é que ele demora dois atos inteiros para parecer se encontrar. Como se o filme usasse de metalinguagem extrema, parece ser um adolescência que inicia ditando seu ritmo, batendo no peito que sabe quem é, que se conhece, mas que ao longo da narrativa se confunde. Fala, fala, fala; mostra, mostra, mostra, mas não chega a lugar nenhum.

A sensação que fica é que não ha historia. Não ha trama. Parece que estamos vendo apenas momentos de dois adolescentes numa viagem. Só.

Isso se deve pelo fato, dos diretores terem escolhido o caminho inverso da máxima narrativa que se aprende no cinema, de que o filme precisa se justificar, se fazer entender ate o final de seu primeiro ato (por volta de 20/30 minutos de historia). Nada é explicado de inicio. Não sabemos qual o conflito que impulsiona aqueles dois garotos naquela viagem, naquele peso aparente que ambos carregam nos olhares que se desviam, nos silêncios que presenciam e protagonizam, no riso bobo, que logo vira melancolia e osmose. É visível que ambos possuem alguma carga emocional de conflito interno, que encontra um escape na amizade e intimidade que parecem ter um com outro. Mas, o que é? como é? onde é? quando é esse conflito?

Não nos deixam saber.

Se por um lado poderia ser um exercício interessante ainda mais pela temática proposta, no filme não funciona. E o mistério deixa de ser mistério que prende, para se tornar algo 'broxante' que enjoa e cansa. O filme possui 1 hora e 23 minutos de duração, mas a sensação que fica é que tem mais de duas horas.

O filme tem sido vendido como um filme ''adolescente com características gays.'' Titulo que faz com que haja uma especie de antecipação no espectador para que pelo menos se espere algo relacionado a isso. 

Percebe? 

O filme perde a oportunidade de desenvolver a complexidade que criou.
Mas, o terceiro ato, os momentos finais o filme dá show. Tudo que se esperava acontece, ele se justifica e brilha.

Mas, precisava de 1 hora de enrolação?
Enfim, um bom filme sobre descobertas da vida, que poderia ser mais, mas talvez ainda não seja maduro o suficiente.
BAH, recomendo!

Ps: O sotaque do sul é simplesmente fascinante 


Trailer:



FICHA TÉCNICA:

PAÍS DE ORIGEM: Brasil
ANO: 2015
DIREÇÃO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
ROTEIRO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
FOTOGRAFIA: João Gabriel de Queiroz
MÚSICA: Felipe Puperi
DIREÇÃO DE ARTE: Manuela Falcão
PRODUÇÃO: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon, Tainá Rocha








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