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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Indicados ao Oscar de Melhor Curta de Animação



A 85° edição do Oscar irá ocorrer no próximo dia 24 de Fevereiro de 2013.
Este talvez seja a edição mais imprevisível e aguardada dos últimos anos.
Seja pelo alto nível dos concorrentes e as mudanças constantes de favoritismos entre os indicados, ou seja pela promessa de uma premiação mais dinâmica e interessante do que vem sendo feita nos últimos dez ou oito anos.
Esta edição, contara ainda com o diferencial de que na maior parte do planeta, a maioria do publico pode e poderá conferir grande parcela dos indicados em todas as categorias antes da premiação. O que com certeza reaproximara a audiência.
Entre as categorias, a de melhor Curta de Animação, sempre foi uma das mais difíceis de se conseguir obter divulgação e mais ainda em conseguir ser vistas, antes e mesmo depois da premiação. Mas este ano, todas as 5 indicados podem ser vistos de graça através da internet.
Abaixo, os 5 curtas que concorrem nessa categoria, com pequenos comentários acerca deles.



Paperman

Com Direção de John Kahrs, esse curta da Disney segue a história de um jovem solitário na cidade de Nova Iorque do meio do século, cujo destino toma um rumo inesperado após um encontro casual com uma mulher bonita na ida ao trabalho pela manhã. Convencido de que a garota dos seus sonhos foi embora para sempre, ele ganha uma segunda chance quando a vê em uma janela de um arranha-céu na avenida de seu escritório. Com apenas o seu coração, imaginação e uma pilha de papéis para obter a sua atenção, seus esforços não são páreo para o que o destino tem reservado para ele.
O grande diferencial desse trabalho esta na concepção da técnica de animação. Que consiste numa técnica que mistura animação convencional, desenho a mão, com animação digital. Essa técnica é chamada de "final line advection". É a primeira vez que essa técnica é apresentada, a qual promete revolucionar as animações daqui para frente. Basicamente é a junção do 2D com o 3D. Isso confere um resultado ainda mais belo e com efeito impressionante de imersão aos traços. No vídeo abaixo é possível observar alguns dos efeitos criados pela técnica:



O filme é narrado de forma nostálgica, impulsionado pela belíssima trilha sonora orquestral que se encaixam perfeitamente nas cenas mostradas. Com uma fotografia totalmente em preto e branco- com exceção da marca de um beijo em vermelho - o filme ainda consegue o feito de trazer uma edição de som surpreendente  principalmente em seus momentos finais.

Assista ao Curta:



Maggie Simpson: The Longest Daycare

Com direção de David Silverman, este curta narra as aventuras exclusivamente de Maggie Simpson numa creche.

O Curta apesar de não apresentar nada de surpreendente ao que ja estamos acostumados do humor e técnica tipicas dos Simpsons, se destaca aqui, unica e exclusivamente pela técnica 3D nos seus Gráficos  em 2D não ha percepção alguma disso, mas mesmo em 3D não é nada demais - e por suas referencias as grandes narrativas de suspense do cinema. Aliados ao fato de não possuir nenhum dialogo, nem mesmo do de Marge Simpson- sua mãe- nos poucos segundos em que surge em tela.
Com um final bonitinho, repleto de ensinamentos morais, o curta é o tipico representante do "o que um nome de peso pode fazer". Bom, nada mais que isso.

Assista ao curta:



Head over Heels

Diretamente do Reino Unido e com direção de Timothy Reckart esta animação, narra a historia de um casal de meia idade que vivem em mundos paralelos. ou melhor, em gravidades inversas.
A casa onde moram viaja através do espaço/céu girando copiosamente, enquanto eles vivem uma vida normal no interior da casa, sem serem influenciados pelos movimentos da casa. Porem o normal aqui para eles, consiste no marido viver do lado de baixo da casa e a mulher do lado de cima. Um de ponta cabeça para o outro. onde a gravidade de ambos estão paralelamente inversas com o do outro. Com um casamento desgastado, eles vão perceber que a distancia e as diferenças no relacionamento deles podem ser maiores do que a gravidade existente entre eles.

O filme é captado pela técnica Stop Motion, e tem uma direção de arte carregada nos detalhes. Principalmente no interior da casa de madeira. As metáforas existentes ali para caracterizar o relacionamento e o distanciamento de ambos é fantástico, de forma inteligente e também sem diálogos  o filme vai traçando uma analise metódica dessa relação amorosa de maneira sutil e extremamente sensível  causando empatia imediata no espectador. Um conto fantástico que emociona e é muito bem realizado. Destaque para as cenas externas.

Assista ao curta:


Fresh Guacamole

Com direção inventiva do artista, argumentista e diretor PES, esse curta mostra o processo de preparação de Um Guacamole - especiaria- com objetos relacionados a jogos.

O diretor já havia feito algo semelhante com o curta chamado "Western Spaghetti", que como o nome sugere, consistia na preparação de Um spaghetti utilizando os objetos que houvessem pela frente, para se assemelharem aos produtos utilizados num spaghetti de verdade.
Veja:




O interessante da técnica em Stop Motion, é que ela se trata de um Stop Motion Live, com objetos reais. A sonoplastia também é muito bem conduzida e o tratamento dado as imagens impressionam pela qualidade.
Além é claro da inventividade de relacionar os produtos, alimentos com os objetos e peças de jogos, como cartas, dados, cubos mágicos e peças de xadrez. Um curta em todos os sentidos da palavra - pouco mais de 1 minuto de duração- e que serve ao seu proposito de modo objetivo.

Assista ao Curta:




Adam and Dog

Contando com um time de nomes relevantes no mundo artístico e encabeçado pelo Diretor Minkyu Lee, este talvez seja o curta mais ousado dentre os indicados em termos narrativos.

o curta mostra as descobertas e o inicio da relação de um cão ao encontrar um homem.

O filme em 2D, feito a mão, faz lembrar muito os antigos desenhos animados feitos pela Disney, antes da era digital. Os cenários milimetricamente compostos e estáticos, como pinturas de quadros, enquanto somente os objetos que terão interação com os personagens se movem ou  adquirem alguma profundidade de campo.

A animação possui um visual belíssimo  com grandes planos abertos mostrando o Paraíso  Isso porque a força e o interessante neste curta é a relação bíblica que ele tem. O curta faz alusão ao primeiro cão criado e ao primeiro Homem (Adão, daí o nome Adam ali). Porem o curta não se utiliza de mensagem doutrinais ou de catequismos, muito pelo contrario, o final extremamente emocionante, revela uma abertura para uma discussão pertinente acerca do amor do bicho pelo homem através nos seculos. Tudo é mostrado sob a perspectiva do cão.

Sem diálogos  - a menos que se considere os latidos do cão - o Curta ainda conta com uma trilha sonora delicada em tons baixos e uma mixagem de som, repleta de sons da natureza.

Comovente, triste, reflexivo e muito bem feito. O mais longo dentre os 5 indicados, com pouco mais de 15 minutos de duração - que valem a pena-.

Assista ao curta:



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Critica: O Primeiro Que Disse ( Mine Vaganti)



Ferzan Ozpetek é um diretor Turco, radicado na Itália. É gay assumido a tempos e sua carreira desponta com uma característica peculiar em seus filmes: filmes extremamente dramáticos com veia critica a sociedade moderna, que não desvinca as raízes dos preconceitos antigos.

Essa informação é relevante, por que diz muito sobre o porque seu mais recente filme conseguiu pegar uma premissa sem muito peso, se tornar um melodrama cômico de ótima qualidade.

Assim O Primeiro Que Disse (no original Mine Vaganti uma expressão antiga que faz alusão aquelas Minas- bombas- que flutuavam a deriva, típicas da segunda guerra mundial. E que atualmente tem tradução livre para a expressão “Bala perdida”), mais recente filme de Ferzan, já pela sua sinopse já carrega uma previa surpresa, por aparentar se tratar de uma comedia 'pastelona' e leve. Fazer tal leitura é um erro, dos mais terríveis. Isso porque O Primeiro Que Disse não só consegue ser um filme denso e extremamente dramático, como também promove uma ousada critica humorada a uma sociedade retrograda e ainda extremamente machista e preconceituosa.

Logo de inicio, num travelling longo, vemos uma noiva, correndo por um vasto campo abandonado, com ruínas por todos os lados, porem num ambiente belíssimo e de cunho poético  Ela corre desesperada, parecendo querer ao mesmo tempo chegar a algum lugar desesperadamente, e ao mesmo tempo estar fugindo de algo. Sua expressão a principio é indecifrável, mas ela parece chorar.

Essa beleza em contra partida a tristeza permeia todo o longa. Porem devemos lembrar que se trata de uma comedia. E o roteiro assinado por Ivan Cotroneo e o próprio Ferzan Ozpetek, não nos deixa esquecer isso. Isso por que, o filme logo no primeiro ato nos introduz numa trama divertida e com um cunho cômico extremo, ainda que por diversas vezes se apresente clichê e escrachada.

Tommaso (Riccardo Scamarcio) pertence a tradicional família Cantone, proprietária de uma fábrica de massas no sul de Itália. Ele veio de Roma, onde almeja uma carreira de escritor, para uma reunião com todos. Sua família acredita que ele foi estudar e se formar em Administração. Seu irmão mais velho será anunciado como eleito para tocar os negócios da empresa e ele pretende aproveitar a ocasião para contar a todos sobre sua homossexualidade. Só que ele não contava que seu irmão mais velho Antônio (Alessando Preziosi) tomaria a dianteira comunicando aos familiares que também é gay, obrigando Tommaso a esconder sua revelação e ainda assumir a fábrica, tendo em vista que todos ficaram chocados e seu pai Vincenzo (Ennio Fantastichini) mais ainda, tendo um infarto e expulsando Antônio de casa. Tommaso está sem saída. Como escapar de uma obrigação que não quer? Como contar a verdade sobre si, se isso pode custar a saúde de seu pai? E para piorar a situação, seu namorado em Roma, resolve lhe fazer uma visita surpresa, trazendo seus amigos. E nesse meio tempo, Tommaso ainda tem de lidar com um interesse que começa a nascer entre ele e uma das sócias da fabrica a jovem e bela Alba Brunetti (Nicole Grimaudo).

O filme utiliza o humor, como forma de criticar e trazer a tona toda a hipocrisia e pre-ceitos de uma sociedade que continua as margens da aceitação. Se os temas LBGT’s atualmente são exaustivamente tratados, pelo cinema americano, na Europa, especificamente na Itália, este tema ainda é um tabu.
Junta-se a isso o fato, de escolher uma seleção de atores conceituados no país, incluindo o mais recente galã que o pais possui, interpretando justamente o protagonista gay Tommaso, o que se obtém é um filme corajoso, ousado e por si só interessante.

Em dado momento, a mãe de Tommaso, Stefania (Lunetta Savino) pergunta ao namorado de Tommaso ( sem saber que este é namorado de seu filho, claro), que também é formado em medicina; se o a homossexualidade se Antonio tem cura. Tal detalhe no enredo, pode a um primeiro momento parecer jocoso, mas para a realidade daquele país e de uma família tão tradicional, não. Isso revela uma compreensão pelo enredo muito coeso.

Apesar das atuações do núcleo central, incluindo os amigos estereotipados e espalhafatosos de Tommaso em dado momento do filme – que é usado como artifício para quebrar o arco dramático com humor, que segue uma linha intensa ate então-, é da veterana, outrora uma grande atriz de teatro, Ilaria Occhini o grande destaque da projeção.

Isso porque, é de sua personagem – a avo e matriarca da família-  todas as grandes reflexões e ganchos do longa. É dela a narração da historia, é dela a redenção final, é dela as falas mais instigantes e inclusive é a personagem dela que transforma os personagens e o próprio filme em determinado momento.
Sua própria historia esta intrínseca no enredo, de maneira que o filme constantemente nos remete ao seu passado.

Contando com uma edição rápida e com uma boa fotografia, clara em tons escuros quando estamos no interior da casa da família e na fabrica, o que representa o tom claustrofóbico que Tommaso sente em tais lugares, o filme ainda possui uma ótima e divertida trilha sonora- um tanto repetitiva em seu tema central- mas que encaixa e funciona extremamente bem.

Mas é na relação entre Tommaso, Alba e o namorado de Tommaso, Marco (Carmine Recano), que a narrativa consegue surpreender. Isso porque, o roteiro cria uma intensa e complexa relação entre os sentimentos entre os três, criando uma discussão acerca de do amor muito interessante, no qual a máxima mais marcante se dá através da seguinte frase: "Somente os amores impossíveis são eternos." 
Ao qual serve de gancho para a sequencia extremamente bela e emocionante, e bem conduzida do final da projeção.

Entre lindas paisagens e planos abertos, e panoramas que mostram lugares distintos de Toscana, o longa ainda como qualquer outro filme italiano, transito milimetricamente entre o limite do drama e do humor.

A critica a uma sociedade hipócrita, que se esconde atrás de um conservadorismo falso permeia boa parte da projeção. Seja pela subtrama da tia que mantém um caso não oficial com um homem que entra por sua janela todas as noites, ao que ela grita “Ladrão!Ladrão!” todas as madrugadas assim que ele vai embora, para disfarçar. Seja a avo que entre suas historias esconde uma vontade latente de se libertar, mas tendo que manter as aparências, seja o pai, que mantém casos extraconjugais, seja a mãe que sabe de tais casos mas finge não saber, seja o próprio Tommaso que sonha em ser escritor, que sonha em oficializar seu namoro mas não o faz por medo de contar a família.

O filme traça um extenso e interesse panorâmica de nossa sociedade inclusive, que se esconde atrás de fachadas e ainda assim julga.

Um dos pontos mais emblemáticos se dá quando numa cena, Tommaso declara através de um bilhete, que não consegue dialogar, não consegue unir forças na voz para dizer o que pensa, e que encontra nas palavras a única maneira de dizer ao mundo quem verdadeiramente é. Ou mesmo na fala da Tia Luciana ( interpretada pela aqui irreconhecível e linda Elena Sofia Ricci), que fala bem baixo o que realmente pensa sobre certa situação e logo em seguida se cala envergonhada e com medo, assim que os olhares surpresos recaem sobre ela.

Um filme que pode aparentar ser apenas mais uma comedia italiana, repleta de seus clichês “quando a família se junta, sempre dá confusão”, mas não é. Ele cumpre esse papel e vai alem. Consegue ser um filme interessante amplamente, com todas as características que fazem do cinema europeu um dos melhores em termos de comedia, com diálogos peculiares, e ainda assim um filme extremamente critico e coeso, com um melodrama corajoso e no mínimo instigante e delicioso de ver.

Um filme que merece ser visto, revisto, apreciado e descoberto.

*É interessante as sequencias que compõem os créditos após o termino do filme também.

Trailer



FICHA TÉCNICA

Diretor: Ferzan Ozpetek
Elenco: Riccardo Scamarcio, Nicole Grimaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Lunetta Savino, Ilaria Occhini, Bianca Nappi, Carmine Recano, Massimiliano Gallo
Produção: Domenico Procacci
Roteiro: Ivan Cotroneo, Ferzan Ozpetek
Fotografia: Maurizio Calvesi
Trilha Sonora: Pasquale Catalano
Duração: 110 min.
Ano: 2010
País: Itália
Gênero: Comédia Dramática
Classificação: 14 anos















segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Critica: O Mestre (The Master)




A cientologia é um sistema de crenças (também designada seita), criado em 1955 pelo escritor de ficção científica L. Ron Hubbard. Atualmente ela reúne adeptos, principalmente nos Estados Unidos.

A Igreja da Cientologia mistura aspectos da psicoterapia com elementos religiosos do hinduísmo, budismo e cristianismo. Os seguidores da cientologia acreditam na imortalidade, sendo que os seres humanos vão evoluindo até chegar ao estado de iluminação. Esta evolução não ocorre em apenas uma vida, mas sim em várias vidas através do processo de reencarnação. O ser espiritual, que é imortal, é chamado de “thetan”.

Os adeptos desta igreja passam por um processo científico para atingir o autoconhecimento. Entrevistas, exames, e até testes com detectores de mentiras (polígrafo) são usados neste processo. Os resultados deste processo são guardados para que os adeptos possam, futuramente, verificar o progresso obtido.

A Explicação acima é pertinente aqui, uma vez que o longa O Mestre do diretor Paul Thomas Anderson, permeia a todo instante o nascimento dessa religião cientifica, sem o caráter documental, verídico, mas de forma abrangente.

O filme trata da fundação da Causa, uma organização religiosa criada por Lancaster Dodd (Hoffman) nos anos 50, depois dos horrores da Segunda Guerra Mundial. Freddie Sutton (Joaquin Phoenix) é um alcoólatra, veterano da Marinha, que volta da guerra e regressa ao lar, aflito e inquieto quanto ao seu futuro. Ele se torna aprendiz de Lancaster Dodd, mas começa a questioná-lo quando o culto ganha proporções de fervor cego.

Ao contrario do que fizera por exemplo em Magnólia ou mesmo Sangue Negro, Thomas Anderson, entrega aqui um filme muito mais abrangente ao grande publico, porem não menos emblemático. Não temos as inúmeras interligações de tramas durante o enredo. Seguimos uma linha única na trama, que se dá através do relacionamento de Dodd e Freddie, e a relação de ambos com as ideologias trazidas através dos ensinamentos estudados – e aparentemente criados - pelo Dodd, denominado a fundação A Causa; que posteriormente se tornaria a religião conhecida atualmente como Cientologia.

A trama intercala momentos da vida conturbada de Freddie, suas atribulações pessoais, emocionais e sentimentais, a sua adaptação ao modo de vida de Dodd.

O filme inicia-se numa praia, com vários marinheiros recém-chegados da Guerra, se divertindo e relaxando. Entre eles esta Freddie, que parece alheio ao restante de seus colegas, se concentrando apenas a conseguir obter a água de um coco sem se cortar ou mesmo a explicar suas teorias mirabolantes de como se livrar de um caranguejo que se atraque com seu saco escrotal.

Em dado momento, os marinheiros fazem uma mulher de areia, e Freddie participando da descontração, surge para simular sexo com ela. No primeiro momento os marinheiros riem e se divertem com a cena, porem aos poucos- já com a trilha sonora quase inexistente em cena- os risos vão cessando e dando lugar a expressões preocupadas.  Após um corte seco, vemos Freddie de costas se masturbando loucamente, para em seguida deitar-se carinhosamente abraçando-se com a mulher de areia, que assume assim uma conotação entre mescla de uma situação pós-coito de satisfação e carinho, e a maternal, de um filho abraçando a mãe após um carinho qualquer.

Essa cena de abertura já diz muito sobre o que esperar de Thomas Anderson e seu O Mestre.
Logo o roteiro nos conduz sobre a mente problemática de Freddie que constantemente assume uma postura curvada, quase de desamparo, com as mãos nos quadris de tempos em tempos, como se buscasse ali um autocontrole, firmar-se para não cair. Isso já nos apresenta o trabalho de composição de personagem assombroso de Phoenix, que mantém suas feições paralisadas, um olhar entre a loucura e o sofrimento intenso, a fala enrolada e embarcada, um andar torto, e uma respiração falha. 

O Trabalho e atuação de Phoenix é algo descomunal e intenso, de tal modo que seria quase que impossível tirar todas as atenções dele. Seu personagem é extremamente emblematico e desafiador, não só pelas caracteristicas fisicas, mas pela carga emocional que ele carrega. Freddie é um homem visivelmente atormentado por seu passado. Numa cena fabulosa e que revela uma atuação intensa de Phoneix, de entrega, qm que ele se submete a uma especie de hipnose, respondendo uma serie de perguntas rapidas sem poder piscar. A tensao ali que ja é um deleite a parte, revela todos os medos do personagem e traça o porque de seu comportamento violento, sexual, de medo e desafio a autoridades- que encontra sua ironia justamente na figura do Mestre- e seu medo de se entregar a loucura, o que apesar de ela ser visivel, o mantem lucido na maior parte do tempo. 

Mas ocorre o impossível. Isso porque tanto as personas de Hoffmam e seu Dodd e de Amy Adams e sua Peggy (esposa de Dodd) são extremamente bem compostas da mesma maneira. Os niveis de atuação se equiparam assim como a força de seus respectivos personagens.

Hoffman convence no papel de Mestre. Sempre demonstrando analisar cada conversa, cada ato, cada situação, cada pessoa, sempre aparentando um cansaço na respiração, próprio de figuras de poder. Inclusive, tendo na maior parte do tempo uma serenidade latente mas que ao simples questionamento de suas ações, como ao ser questionado por suas crenças, se apresenta imediatamente tão violento e intolerante quando Freddie, o que devido a seu caracter aparentemente brando, acaba surgindo assustador sempre que explode de repente. 

Mas realmente é de Amy Adams e sua Peggy um dos personagens mais interessantes numa teia de personas instigantes.

Isso porque, Peggy assume muitas vezes com sutileza extrema, captada apenas através de detalhes, o papel de verdadeira comandante dentro da congregação e dentro da própria família  As decisões que não lhe agradam parecem tomar força e fracassarem, seus olhares e presença em tudo que o marido faz é latente também, é dela a voz final, é dela a força e motivação – e ordem- quando em certo momento ela quer que o marido e Freddie parem de beber.

Nisso entra a fantástica cena em que Dodd esta se preparando para dormir, fazendo a higiene pessoal em frente ao espelho no banheiro e sua esposa Peggy surge. Ela faz um discurso revelador de sua posição dentro da trama, enquanto de maneira quase que torturante o masturba enquanto exige e ordena que ele não beba mais e volte a ser o Mestre para seus seguidores. Toda a cena é mostrada com os atores de costas, de frente a um pequeno espelho, e não há nada de sensual ou sexual ali, apesar de ser sugerido. É extremamente tenso a maneira que se desenrola a cena justamente por vir a tona o real papel e força da personagem de Peggy na trama. Assim seu personagem ganha uma dualidade de valores mais intensa, não por acaso sua cena final no longa é extremamente desconcertante por sua fala, e igualmente o fato dela sempre surgir – na maioria das cenas- trajando vestes na tonalidade magenta, que nada mais é que a junção do azul e do vermelho. E Amy Adams transpõe essa força e intensidade  de seu personagem de maneira bem interessante, principalmente em seus olhares sempre numa mescla de raiva e desconfiança com medo e tristeza.

Essa relação de sua personagem com a trama se dá também numa cena peculiar- e extremamente bem conduzida- quando estão todos reunidos numa sala, enquanto Dodd canta e dança. Freddie visivelmente alcoolizado tal qual Dodd, esta sentado num canto extremo da sala apenas observando a cantoria. E nesse momento seus pensamentos lascivos voltam a domina-lo, fazendo-o enxergar todas as mulheres completamente nuas. Isso se dá por uma pequena panorâmica que gradualmente vai revelando- transformando- as vestes das mulheres, revelando seus corpos nus sem que elas se deem conta disso. Inclusive Peggy, que se encontra quase que invisível em cena sentada no outro extremo da sala. E mesmo que esta também acabe sendo desnudada, e mesmo que toda a cena seja reflexo da imaginação de Freddie, ainda assim Peggy lhe lança imediatamente olhares de desaprovação, como se esta conseguisse saber exatamente o que se passava pela mente de Freddie naquele instante.

Ainda com relação as atuações, os embates entre Freddie e Dodd se dão de maneira intensa. Mestre versus discípulo. pai versus filho – algo recorrente também na filmografia de Thomas Anderson, a relação pai e filho-. Com o auxilio de câmeras que captam as cenas recorrentemente de baixo pra cima, numa angulação que transpõe à tela a relação de que Dodd é superior a Freddie em todos os sentidos, - com exceção magistral do inicio do terceiro ato em diante que os planos começam a ter continuamente um nivelamento-  o filme ainda ganha ares de Thriller ao conseguir evocar o suspense de quando essa relação tempestuosa ira se desmanchar. Isso porque desde o inicio da relação Dodd-Freddie há uma latente lacuna entre os dois, que ao mesmo tempo em que os conecta, os coloca num limite de tensão – muitas vezes sexual inclusive, já que o interesse de Dodd por Freddie as vezes ultrapassa a conotação paternal e ditatorial e parte para olhares de lascividade homoafetiva- que sugere claramente que estão a ponto de descarrilhar.

Ate porque Freddie e Peggy são os únicos dentro da congregação que parecem possuir um controle, uma espécie de influencia em Dodd, e assim uma relutância em seguir seus passos cegamente. Por mais que Freddie surja como um filho rebelde que ainda assim segue as doutrinas de Dodd, ele também encontra lugar para desafia-lo e se questionar, mesmo que não proferindo-as sobre o sentido de tais atos e ideologias e crenças.

Tudo isso ajuda a compor de maneira profunda as relações e por sua vez as personas dos personagens dentro da trama. Mesmo que a cientologia esteja ligando tudo, é nas relações intrínsecas de seus personagens que o longa ganha força e discorre, numa quase psicanálise.

Não por acaso ha analogias diversas a figuras de testes de psicologia a todo instante, seja nos quadros nas paredes ou nas imagens que compõe a arte dos ambientes.

Aliados a uma fotografia delineada, repleta de tonificações, é das cores o grande feito dela. Em especial a presença das cores Azul – que representam continuamente a relação de Freddie com o mar, onde este desponta como divisor de seus ideais  Uma vez que foi durante a Guerra pelo mar que Freddie adquiriu seus medos, receios e limitações. Suas neuras e tormentos. Onde continuamente surge um plano das águas do mar divididas por um rastro deixado por uma embarcação, em um tom mais claro de azul, que tanto nos remete as soluções alcoólicas de Freddie, como a própria divisão de suas crenças e escolhas-; e o Vermelho – que surge como antecessor dos interesses de Freddie. Geralmente associados as suas necessidades sexuais em suas mulheres. O vermelho é característico em varias passagens em que notamos quando Freddie ficara abalado ou demonstrara interesse afetivo/sexual por algo. E nisso é interessante constatar a escolha de introduzir o personagem Dodd na historia, trajando apenas um Robe de banho na cor vermelho, assim que conhece Freddie.-.

Algo que deve ser salientado antes de tudo, é que esse filme foi capturado em Película em 65 mm,- que era comum e não é usado deste a década de 20 aproximadamente- o que confere ao filme não só um visual extremamente grandioso e envolvente com uma profundidade de campo fotográfico belíssimo, como também nos dá a sensação real de que estamos vendo um filme da década de 50, ainda que a qualidade da imagem seja extremamente qualitativa. 

Ainda temos a presença de travellings sensacionais durante toda a projeção e belos planos abertos revelando um cuidado e competência de direção de arte.

O filme comete talvez um único equivoco, ao surgir quase que arrastado do inicio ao fim. Mesmo que possua uma trilha sonora divertida, com ares da década de 50, e uma edição coerente com a trama; o filme que possui pouco mais de duas horas e meia, parece se arrastar ate encontrar seu final. Isso porque o filme exige esse desenvolvimento mais lento justamente para que cada detalhe se apresente da maneira devida. 
Para que o tempo faça moradia ali. Mas uma vez que estamos falando de um filme que sucumbi a ordem de Obra e passa a ser um produto, esse “ritmo” acaba afastando o telespectador que não esta acostumado com a filmografia de Anderson ou mesmo com essa cautela em transpor as ações. Mas isso é irrelevante diante do resultado, que para quem se dispor a emergir não se arrependera.

Como todo filme de Thomas Anderson, há mais perguntas do que respostas no meio do caminho, mesmo que sua cena final surja de maneira quase decepcionante, revelando uma compreensão quase que explicita de todos os fatos ali mostrados, ainda assim, não há como afirmar que qualquer interpretação feita seja a correta, e é aí que o filme brilha e desponta.

O Mestre assim, se torna extremamente relevante em sua proposta, nos entregando uma obra bem conduzida, bela de se ver e instigante ate seus créditos finais.

Seja na crença ou não, é de Paul Thomas Anderson, Amy Adams, Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix e talvez Tom Cruise o gole final.


Trailer



FICHA TÉCNICA

Diretor: Paul Thomas Anderson
Elenco: Amy Adams, Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix, Laura Dern, Jesse Plemons, Rami Malek, Jillian Bell,
Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi, JoAnne Sellar
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Fotografia: Mihai Malaimare Jr.
Trilha Sonora: Jonny Greenwood
Duração: 138 min.
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos











sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Critica: As Sessões




O novo filme do diretor Ben Lewin, As Sessões, propõe uma reflexão acerca das limitações do corpo, sem cair em pieguices e conferindo um tom extremamente humano e sensível a uma historia real.

É importante salientar que o filme é baseado num livro chamado 'As Sessões, Minha Vida como Terapeuta do Sexo' da escritora e terapeuta Cheryl T. Cohen. O Livro relata, o trabalho dela com seus pacientes/clientes nos mais de 4 anos de profissão que exerceu. E Mark O'Brien é o primeiro desses pacientes relatados no livro e o qual o filme segue pela trama.

O filme relata A história de Mark O'Brien (John Hawkes), um bem sucedido escritor e poeta, que aos 7 anos de idade, contraiu poliomielite, paralisando-o do pescoço para baixo. Apesar de ainda possuir sensibilidade por todo o corpo, ele não é capaz de move-lo. Nem mesmo de respirar sozinho durante o sono. Para isso ele conta coma  ajuda de um tubo/cama que recebe o nome de Pulmão de Ferro, que continuamente fica ligado lhe fornecendo ar durante a noite, quando ele esta dormindo . Mark esta em meio a uma pesquisa sobre sexualidade entre deficientes físicos, para compor seu novo livro – ele escreve com a ajuda de uma maquina de escrever, utilizando a boca e um pedaço de madeira-. 

Com aproximadamente 38 anos de idade, Mark de repente se vê na necessidade de ter um amor de uma mulher e de experimentar o sexo pela primeira vez. Mark é virgem. E também perspicaz e inteligente como é, sabe que sua condição não se arrastará por muito mais tempo. Extremamente católico, Mark com a ajuda de seus terapeutas e de seu - amigo- Padre Brendan (William H. Macy), ele embarca numa onda de experiências, que surgem a si como misteriosos, conflitivas e extremamente interessantes.

O roteiro de Lewin, confere um drama leve, sem criar sensacionalismo ou abusar do tema, para sensibilizar ou chocar o espectador. Muito pelo contrario. 
O filme tem um tom leve e muito gracioso, ao mostrar as situações descobertas e experimentadas por Mark de maneira natural. Sem se preocupar em sexualizar nada e nem mesmo esconder nada. Os fatos são mostrados como são. Mas não de maneira cruel ou mesmo com tom de piedade e tristeza, mas com sensibilidade de ver um problema, uma limitação de corrente de uma doença, ao qual seu portador aceitou a tempos e que as pessoas que o amam, ao seu redor não tem ressalvas. É natural. É algo que faz parte de sua vida.

Nessa procura pela primeira relação sexual, Mark acaba se deparando com a terapeuta sexual Cheryl T. Cohen (Helen Hunt).

“Qual a diferença entre você e uma prostituta”? 

é a pergunta que recorrentemente Cheryl, mãe de família  casada e extremamente metódica e profissional, precisa lidar no seu dia a dia, inclusive com o espectador, que antes de sua chegada, espera por uma prostituta. Porem, ela não exerce essa profissão. Uma terapeuta sexual, ou terapeuta do sexo, é exatamente o oposto de uma prostituta. Ela lida com o sexo em sua plenitude, com a sexualidade, a desinibição, a descoberta dos prazeres, mentais e físicos de seu cliente/paciente. O ato sexual é apenas um detalhe diante da real terapia- sempre documentada por ela em diversos diários e um gravador de voz- que ela faz.

Aqui o trabalho de Hunt ajuda muito em dar verossimilhança a trama, uma vez que a atriz - que não conta com uma de suas melhores atuações, ate por que o papel não exige em momento algum isso dela -; encarna uma persona natural, cotidiana, que passa credibilidade e realidade. Acreditamos que se trata de uma mãe dedicada, de uma profissional dedicada, de uma mulher de meia idade dedicada, de uma esposa dedicada.
Ela se coloca nua, diversas vezes em tela, mas sem um pingo de sexualidade.

Mas o destaque fica por conta da atuação de John Hawkes. O ator por não poder se movimentar, entrega uma atuação com o olhar. Toda emoção, tristeza, alegria, excitação, medo, nervosismo que seu personagem lida, é transmitido pelo ator através do olhar de maneira realmente exemplar.

Contando ainda com alguns planos interessantes como o da cena em que Cheryl e Mark estão prestes a ter sua primeira relação sexual, onde a câmera passeia de forma contemplativa pelo aposento, registrando pedaços do corpo de cada personagem, e enfim fechando o plano nas expressões deles. Delicado e inventivo.

Por fim, As Sessões consegue ser um filme humano, sensível e coeso ao transpor a tela uma situação com outros olhos, sem recair no melodrama que se esperaria, ou no humor latente- que poderíamos esperar também-. 

O filme é correto, bonito e consegue emocionar e divertir na medida certa. 

 Trailer




FICHA TÉCNICA

Diretor: Ben Lewin
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown, Blake Lindsley, Adam Arkin, Ming Lo, Jennifer Kumiyama, 
Produção: Judi Levine, Ben Lewin, Stephen Nemeth
Roteiro: Ben Lewin
Fotografia: Geoffrey Simpson
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Ano: 2012
País: EUA
Gênero: Drama







quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Critica: Milyang (Secret Sunshine)




Sin-ae é uma jovem mãe que se muda com o filho pequeno Jun para Milyang, uma cidadezinha onde o falecido marido nasceu. Tão logo ela começa a se organizar para dar início a uma nova vida, um outro acontecimento trágico muda o curso de seu destino.

O filme do sul coreano Chang-dong Lee, Secret Sunshine (ou O Sol Secreto em tradução livre para o português// e Milyang no original) traça uma extensa analise de dor, desespero, sofrimento, busca pela fé e a perda dela, numa obra densa, pesada e extremamente bem executada.

Se em Poesia (Poetry) Chang-dong Lee havia nos presenteado com um filme denso mas delicado ao tratar dos tormentos da vida versus suas belezas, aqui em Secret Sunshine ele se mostra cru, muitas vezes cruel ao transpor a tela os conflitos mais ínfimos e profundos do sofrimento humano, caracterizados pelo luto interno e externo de uma mãe viúva.

Sin-ae após o falecimento de seu marido, resolve abandonar tudo e se mudar com seu filho pequeno Jun para a cidade natal de seu falecido esposo. A Cidade é Milyang. Logo no inicio, Sin-ae surge perdida na estrada com o carro quebrado, pedindo ajuda ao celular.

A cena que mostra em plena estrada as duas vias- a qual ela surgiu e a que ela esta rumando- com o carro quebrado a esmo, parado no meio da estrada quase que completamente deserta, já caracteriza o que vira pela frente.

As feições jovens de Sin-ae são de extrema tristeza a todo momento. Uma tristeza que vai se revelando aos poucos. Uma expressão que demonstra logo de cara seu sofrimento pela perda do marido. Tristeza essa que se alonga ate a figura do filho pequeno, que dialoga pouco, mas demonstra nos atos e na cabeça sempre baixa sua igual tristeza pela morte do pai.

Aliado ao silencio, o diretor vai nos conduzindo por uma sucessão de cenas espaçadas e muitas vezes de edição lenta, que vão compondo a nova vida que se apresenta a Sin-ae. Uma vida de possibilidades para recomeçar.

Ela é professora de piano, e monta uma pequena escola. Com a ajuda de um simpático homem, ela começa a adquirir alunos e aos poucos a se situar na nova realidade.

Porem, não demora muito, para o roteiro nos mostrar que realidade é essa. Sin-ae chora e sofre pela morte de um marido que a traia. Ela se mudou para uma cidade que ao contrario do que ela queria – o anonimato para recomeçar- , a conhece extremamente bem e apesar dos sorrisos e pêsames carinhosos que a recebem, a veem como um louca viajante.

Sin-ae é ateia. E descobre cedo que Milyang é uma cidade que tem uma fé latente. Uma fé católica.
Nesse ponto, o roteiro introduz uma estrutura extremamente interessante em quebrar as expectativas previas do espectador acerca daquela cultura que estamos sendo inseridos. Ao transpor o catolicismo na cultura oriental. A fé é vista de maneira plena, sem ser didática ou mesmo imposta em nenhuma momento. Os únicos momentos em que somos impelidos a lidar com ela, é justamente quando surgem personagens – como a dona da farmácia a frente da casa de Sin-ae, que continuamente tenta evangeliza-la e traze-la para o conforto de Deus.

Ao que Sin-ae se mostra cética e relutante. Como no excelente e revelador dialogo em que esta vendedora diz:

“Vê? Deus esta em tudo, ao nosso redor. Não precisamos vê-lo para senti-lo. Ou melhor, podemos senti-lo e vê-lo sim. Vê esse raio de sol? Deus esta nele também.”

E Sin-ae responde, indo ate o feixe de luz e contemplando-o:

“Sim vejo. Esse raio de sol é apenas um raio de sol. Você não vê?”.

Então, numa reviravolta visceral e inesperada, a narrativa recai numa constante de desespero e agilidade.

Algo extremamente brutal surge na vida de Sin-ae que não só a leva a um verdadeiro inferno, como lhe deixa a mercê da crença. Ao qual logo se mostra mais um desespero em sua vida.

Esse quadro melancólico em parte é conseguido pelo magistral e impressionante trabalho da atriz Do-yeon Jeon que vive Sin-ae. A maneira que ela se entrega em tela impressiona e assusta. Sua dor espiritual, vai além, atinge o corpo. E é arrebatador ver como a atriz consegue imprimir essa dor tão intensamente e ainda assim sem parecer exagerada ou caricata. Pois a dor que a personagem experimenta é latente, quase palpável. O sofrimento se torna quase que um personagem em tela. É falta de ar, um grito esganado, sufoco, insônia, desamparo.

O que se vê em tela não é bonito. Mesmo com o cuidado da direção de arte e da fotografia sempre bem delineada e ironicamente clara do filme; o que vemos é o abismo em que uma mulher pode chegar inclusive indo aos limites do descontrole mental.
E o silencio quase que a todo instante, inclusive nos diálogos que são poucos, ajudam a expressar esse quadro.

Assim, Secret Sunshine não é um filme fácil. Ele nos coloca diante da dor de maneira contemplativa, mas de tal forma que conseguimos sentir alem de nos sensibilizar com o que é visto em tela, mas justamente por apenas podermos contemplar, causa uma sensação de impotência, ao constatarmos que estamos ali apenas visualizando o fundo do poço sendo transpassado por mais camadas abaixo.

Mas o que mais impressiona talvez e choca nisso tudo é que o longa propõe a reflexão de que a dor é a própria prova de que estamos vivos.

Um filme pesado, mas que merece ser visto e sentido profundamente tal qual sua proposta sugere. Um olhar além dos raios do sol, revelando as sombras secretas que se escondem diante da luz que vemos todos os dias. 

Uma obra em todos os sentidos.

 Trailer


Ficha Técnica

Diretor: Chang-dong Lee
Roteirista: Chang-dong Lee, Chong-jun Yi
Elenco: Do-yeon Jeon , Kang-ho Song , Yeong-jin Jo, Mi-kyung Kim, Yeong-jae Kim, Seo-hie Ko, Myeong-shin Park
Fotografia: Yong-kyou Cho
País: Coréia do Sul
Ano: 2007
Gênero: Drama
Duração: 142 min.