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sábado, 27 de julho de 2013

Crítica: Amor Pleno

"Quando escalamos uma montanha, vamos ao estágio da maravilha (wonder)".



Sob essa premissa, o diretor e roteirista Terrence Malick surge com sua nova obra intitulada ‘Amor Pleno’ (no original “To The Wonder”); uma escalada bela, poética, transcendente porem vazia.

Quando se fala de Terrence se torna quase redundante pela maioria de critica e publico, dizer que estamos frente a um dos diretores mais conceituais e com identidade visual marcante contemporânea. Os traços de Malick denunciam suas obras quase que instantaneamente. Seja pelos longos planos contemplativos, seja pelas escolhas de atores sempre – ou quase sempre- em papeis de não estrelas, onde o meio toma a frente do todo; ou seja, onde o cenário se torna protagonista a frente dos atores.

Em “Arvore da Vida” seu filme anterior, e com certeza mais bem sucedido, ainda que divida opiniões de publico – no geral foi aclamado por critica e premiações, mas devastado pelo publico-, é sem duvidas o seu filme mais conhecido; Malick conseguiu reunir todos os elementos que aludem a si, em seu maior e melhor grau, seja na parte técnica quanto na narrativa em si. Em ‘Amor Pleno’ a historia é outra.

O que vemos em Amor Pleno, é a desconstrução do amor, tanto sentimento quanto força. Malick alude esse sentimento de forma visual, em cada detalhe, em atos, em sons, em ruídos, em gestos; quase como se ele tentasse nos mostrar o invisível através de suas câmeras e longos planos de contemplação e parcimônia. Mas sem a profundidade dada em Arvore da Vida. O que não é ruim, mas também não é bom.

Com uma fotografia estonteante e planos arrebatadores que beiram a perfeição fílmica, onde cada cena por si só é um espetáculo a parte, orquestradas por uma trilha sonora instrumental que nos leva pela passagem de tempo descompassada das sequências unicamente como um amigo nos guiando e  não como algo que manipula. Qualquer emoção que se possa ter com o que é mostrado é única e exclusivamente fruto da percepção de seu espectador, não é planejado ou ‘indiciado a’. Alias, toda a parte técnica do longa é primoroso, seja pelos enquadramentos ora assimétricos, ora com simetria e planejamento esmerados, sejam pelas cores em planos conglomerados, num designer sonoro e visual impecável, seja pelas metáforas e simbolismos contidos na montagem – uma cela de cavalo, uma cerca de uma casa nos remetendo a sensação de aprisionamento, um bando de pássaros voando nos remetendo a liberdade ou mesmo o maravilhoso e inteligente simbolismo do casal andando sobre as areias de solo instável, nos demonstrando adiante a inconstante relação deles tal qual o solo pisado em outrora; – quanto a narrativa, num texto poético e lúdico com referencias literárias, inclusive bíblicas. Planos em sua maioria espelhados evidenciando a dualidade nos seres humanos em sua busca entre o certo, o errado, o querer e o sentir.

Mas o problema nasce na linguagem. Malick é um experimentador, um artista conceitual, que testa conceitos e técnicas, sem deixar transparecer suas referencias e sem se preocupar em explicar cada uma delas. O cinema de Malick foi criado e nos é apresentado com a única razão de nos fazer sentir ou compreender algo seja lá o que for. Fica claro a percepção e intenção de repetir e reafirmar algo que ele trouxe desde Arvore da Vida, a busca humana por compreensão, por  compreender o ato de sentir, por compreender o ato de querer compreender.

Nesse ponto Amor Pleno é quase uma busca existencialista do amor. De todas as suas formas. Sua confusão, a maneira que ele faz sofrer, a maneira que ele sufoca e transcende a maneira que ele dúbio e simples, a maneira que ele é sombrio e poderoso. Ele questiona o amor inclusive na religião, questionando na fé, na dependência – em certo momento o roteiro declama “somos impelidos a dever sentir amor. Pois deus disse que devemos amar, gostando, querendo ou não querendo nos devemos (no sentido de dever, ser obrigado) a amar. Nascemos para isso”; esse sentimento tão complexo a nós mesmos.

Para isso ele se utiliza de 3 tramas paralelas. A primeira de Neil -  Ben Affleck -  e Marina - Olga Kurylenko -, um casal de amantes, ela francesa com uma filha de dez anos, ele americano, que trabalha numa construtora e que tentam a todo custo entender a si mesmos quanto a esse amor que sentem um pelo o outro. Sem protagonistas definidos, talvez seja de Olga a atenção maior que o filme confere, começando por nos apresentar a sua visão de mundo e terminando com ela ao final, sendo dela a maior parte de exibição em tela, sendo dela os momentos mais sensuais e visualmente carismáticos do filme, ela é a mocinha. Ainda que seja a meu ver de Affleck o alicerce de tudo, uma vez que é através do personagem dele que todos os outros mantêm uma coerência espacial em si.
Depois temos Affleck revivendo um antigo amor do passado, uma possibilidade que não foi e pode retornar com Jane - Rachel McAdams belíssima tal qual Olga, com uma sensibilidade que aflora à tela; principalmente de Olga-; que perdeu uma filha no passado e tenta resgatar as esperanças na confiança ao Amor.
E por fim temos Quintana - Javier Bardem-, como um padre católico que enfrenta uma crise silenciosa com sua fé. Onde ele busca continuamente a reafirmação de que ELE- Deus- esta ali o guiando através do amor transcendente (pleno?); e que infelizmente- ainda que Javier nos entregue uma sempre competente atuação- não se elucida com o restante da trama, talvez apenas em seu 3° ato em tela.

Esses 4 personagens nessa tríade de tramas, nos conduzem por um emaranhado filosófico e reflexivo na busca e degradação mental, emocional e sentimental do amor. É algo quase que Freudiano tal qual Arvore da Vida foi. São recortes e telas inteiras de pensamentos, questionamentos, erros, acertos, e fragmentos de atos e situações- muitas representadas por personagens sem nome, ou mesmo voz/dialogo – em crise por essa falta de fé no amor- seja ele de qual forma for. Assim obviamente o filme recai em discursos quase que religiosos a todo o momento, o que é de se esperar levando-se em conta a vertente tão religiosa demonstrada por Malick em seu mais recentes trabalhos. Algo que me desagrada, não pela religião em si, mas pela obviedade encontrada na narrativa aonde se vinha tendo um posicionamento tão mais interessante e complexo-; mas que é funcional a trama. Mas essa linguagem onde sempre é escolhido 'o mais' ao invés 'do menos', se torna o ponto mais intragável com relação a Malick- o elemento 'me ame ou me odeie'-.
Para Malick tudo é importante, ele se desliga completamente da máxima do cinema onde diz que qualquer coisa que não esteja em função da narrativa deve ser cortado na edição. Para Malick tudo é importante ainda que essa importância não se evidencie ou realmente não o seja, para ele é, e isso é desgastante por vezes.

Volto a Affleck para elucidar seu personagem, que ainda que pareça extremamente entendiante e insignificante em tela- devido a sua baixa participação ativa entre as cenas-, é a persona mais instigante e complexamente trabalhada enquanto elemento vivo de sentimentos ali. Neil surge vazio, frio, distante diante do espectador, contudo desperta o lado mais arrebatador e apaixonante de Marina e Jane. Se as duas são simples e puramente a paixão, a entrega e o medo, o desespero - caracterizados pela devastação do meio, da natureza, da vida, a feminilidade soberba e radiante, vital porem frágil -, é Neil que carrega todo o esmorecimento do sentimento amor em si. Quase como um vassalo do que busca, continuamente analisando, sentindo, refletindo, de forma catatônica as vezes, de maneira quase onírica em seu silencio. A complexidade do que ele sente e tenta sentir e entender por aquelas duas mulheres - inclusive o mal que faz a elas- e sobre si mesmo, é representado pela ausência de expressões. A leitura do que ele sente e do que ele é, é formada pelo espectador que coloca nele as reações e impulsos que bem lhe servirem. É como se seu personagem fosse apenas um corpo oco em função daquilo que o preenche. Quando ha sexo ele se entrega a sensualidade, quando ha ternura ele se entrega a fragilidade, quando há alegria ele se entrega a felicidade, quando ha dor ele se entrega a confusão, quando há desespero ele se entrega a raiva. Ele é a catarse que o filme busca entre o equilíbrio do controverso e do inverso do Amor - sempre iniciado com letra maiúscula-. Tal elaboração é fruto do roteiro que criou tal peculiaridade a seu personagem e não exatamente às limitações já claras e sabidas do ator.

Os personagens que ora permanecem em silencio – principalmente Affleck que quase não tem diálogos -, ora apenas sussurram inaudivelmente, ora falam em espanhol, italiano, inglês e francês através de personagens secundários, vão remoendo uma teia de retalhos cada vez mais confusos e inorgânicos sobre o tema, enquanto explodem na tela elementos belíssimos quase palpáveis da natureza, sua força e fragilidade em angulações peculiares que nos transpõem ao que se é visto. É melancólico, é contemplativo.

Os personagens são meras ilustrações dos sentimentos e do sentido invisível buscado pela premissa, ao Amor. E obviamente quando se escolhe tal linguagem sem linearidade, sem estrutura fixa, causa estranhamento e por vezes uma pedante experiência, mórbida, escassa de apego ou mesmo chata para se usar a palavra correta. Os minutos se arrastam e parece que estamos sendo levados a lugar algum. Ledo engano, claro; mas definitivamente não é um cinema fácil de assistir, de se absorver. Soa pretensioso, soa forçado, soa de fato desnecessário- o que talvez seja, talvez não.

O filme é grande, porem esta longe de ser maravilhoso ou tão relevante quanto seu anterior. Isso por que Malick cometeu o erro de tentar se manter na linha tênue entre o mesmo de antes e o inovador- causado pela expectativa criada justamente por seu anterior-. O que se tem em tela é um concha, um emaranhado de ideias geniais e interessantes, únicas, mas sem definição alguma, um labirinto camuflado por uma rígida e espetacular rede de imagens e técnicas infalíveis. O seu 'mais se tornou 'menos' mas jamais 'nada'.

É belo, mas não convence. É instigante, mas não inspira. É poético, é sensível? É; mas falta. É impressionante, mas esquecível.

Mas uma coisa não se pode negar: Essa montanha deve ser escalada, ainda que se caia no meio do caminho. A subida vale a pena, nem que seja para chegar ao topo, tirar uma foto, postar aos amigos e descer novamente.




PS: Detalhe para a ultima cena do filme, onde ma espécie de ilha com um forte em tons de cinza, sobre uma vastidão de mar em clima ameno/frio sintetizam toda a atmosfera do longa. 


Trailer:



Ficha Técnica

País de Origem: EUA
Gênero: Drama
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Produção: Sarah Green
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Trilha Sonora: Hanan Townshend
Elenco: Ben Affleck; Olga Kurylenko; Rachel McAdams, Javier Bardem e Tatiana Chiline
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento: 2012















quarta-feira, 22 de maio de 2013

Critica: Meu Namorado é Um Zumbi




Um zumbi (português brasileiro) ou zombie (português europeu) é uma criatura fictícia que aparece nos livros e na cultura popular tipicamente como um morto reanimado ou um ser humano irracional. Histórias de zumbis têm origem no sistema de crenças espirituais do Vodu afro-caribenhos, que contam sobre trabalhadores controlados por um poderoso feiticeiro.
Esta criatura é um ser humano dado como morto que, segundo a crença popular, foi posteriormente desenterrado e reanimado por meios desconhecidos. Devido à ausência de oxigênio na tumba, os mortos vivos seriam reanimados com morte cerebral e permaneceriam em estado catatônico, criando insegurança, medo e comendo os vivos que capturam. Como exemplo desses meios, pode-se citar um ritual necromântico, realizado com o intuito maligno de servidão ao seu invocador.

A figura dos zumbis ganhou destaque num gênero de filme de terror, principalmente graças ao filme de 1968 "Night of the Living Dead" (A Noite dos Mortos Vivos) do diretor George A. Romero.

No entanto, com o tempo a figura do Zumbi se tornou muito mais emblemática, uma vez que tal simbologia nessa criatura, carrega criticas existem cias a humanidade e a sociedade, como emprego de valores de moral, ética e humanistas mesmo. O bicho Homem versus o meio que se instala. Series atuais como The Walking Dead por exemplo utilizam dessa força cultural do zumbi para criar o alicerce para dissertar de temas políticos e antropológicos.

Porem, aqui com "Meu Namorado é um Zumbi" tudo isso cai por terra, o terror, o drama, a critica - aqui ela permanece, mas não tão incisiva, obviamente -, o que há é uma sátira bem feita e coerente que respeita o gênero que se apoderou, que não se leva tão a serio o suficiente- na maneira em que se vende- e por isso mesmo encanta e diverte ao conseguir criar um mundo zumbificado próprio a lá Romeu e Julieta das comedias - e aqui pode se orgulhar da seriedade do projeto em assim ser.

Em um cenário pós apocalíptico  somos apresentados a uma realidade que tenta sobreviver a devastão por longos 8 anos. Não se sabe exatamente o que ocasionou o surto de epidemia que transformou as pessoas em zumbis. Entre os sobreviventes há um esquadrão que criou um grande muro para separar a humanidade viva da humanidade morta. Esse esquadrão é chefiado pelo general Grigio (John Malkovich) que quer exterminar todos os Zumbis da face da Terra.
Em meio aos Zumbis temos R.(Nicholas Hoult) jovem que não se lembra de seu próprio nome, apenas que se iniciava com a letra R, e que em meio a um ataque, acaba comendo o cérebro do namorado de Julie (Teresa Palmer), filha do general Grigio e que faz parte do batalhão de resgate a suprimentos aos sobreviventes; adquirindo assim suas memorias e nutrindo um sentimento de amor pela mesma.

Com essa premissa, o filme que é narrado em voz off pelo zumbi R. nos conduz num mundo onde os Zumbis nada mais são do que vegetais orgânicos, corpos vazios com resquício de consciência  A fome deles, é explicada, pela vontade impulsional do corpo de querer sentir algo vivo novamente. Ao comer cérebros  eles conseguem sentir e reviver as memorias e lembranças dos que comem, sentindo se assim parte do mundo novamente.
Ambos os zumbis, permanecem lutando com essa pequena parte de consciência m osmose, para continuarem assim, num estado de latência  entre a morte total e essa reanimação. Muitos repetem suas funções diárias a esmo. Como o guarda do aeroporto que continua mesmo depois de morto a exercer seu serviço de segurança por exemplo, ou o faxineiro que não larga sua vassoura e pano de chão.
R. é um dos que conseguem balbuciar algumas palavras- apesar que na narração em off onde nos explica toda a historia sua fala é normal e clara-; e tem o habito de colecionar lembranças, vinis que gosta de escutar, objetos que lhe tragam alguma sensação de recordação.

Assim o roteiro já deixa claro que não pretende recriar um mundo fantástico com suas próprias leis, mas sim formar um montante de referencias literárias, filmicas e pop's para transformar a projeção num recorde cômico do cultuamento dado e recebido pelos zumbis na nossa atualidade. A referencia a Romeu e Julieta inclusive ja parte desse pressuposto inverso ( os protagonistas tem o nome iniciado por R e J).

Referencias não faltam, temos um protagonista que se assemelha em seus atos ao robô Wall-e, temos uma protagonista que é fisicamente parecida com a crepuscular inexpressiva Kristen Stewart (porem esta tem expressão), há ideologias sobre a cultura pop, desde musicas clássicas em vinis ate a qualidade do som virtual. Alias é interessante como essa alegoria é datada, onde seres inanimados, onde não humanos conseguem adquirir humanidade a mais do que os próprios humanos de fato.

A produção de orçamento modesto consegue delimitar bem seus limites, focando em efeitos escrachados  quase toscos por vezes, mais uma vez aludindo a filmes antigos do genero, em virtude de um designer bacana e eficiente, com uma ambientação coerente com sua proposta.

Mas se 'Meu Namorado é um Zumbi' tem realmente algo para se orgulhar é sua impecável e sensacional trilha sonora que passeia desde Bob Dylan e Bruce Springsteen à Guns N’ Roses, Feist e Scorpions. Tudo embalado por cenas que aludem inclusive ao filme "Uma Linda Mulher".

Risadas não faltam, diversão e coerência dentro da proposta e ate mesmo uma critica social contra o preconceito exacerbado e politica, no simbolismo do muro que nos remete ao lendário muro de Berlin.

Assim, 'Meu namorado é um Zumbi' acaba que consegue cumprir seu papel de divertir, de provar que nem toda obra dita adolescente água com açúcar precisa ser incoerente ou ruim para existir, e que pode sim se tornar cultuada com boas referencias, respeito ao gênero empregado e principalmente saber lidar com o fato de ser uma comedia cult da nova geração. Sabendo que não é excelente, sabendo seus limites, tornando-se assim uma boa surpresa para aqueles de mente aberta se permitirem entrar na viagem. Muito bom.


Trailer: 



FICHA TÉCNICA
Diretor: Jonathan Levine
Elenco: Dave Franco, Teresa Palmer, Nicholas Hoult, John Malkovich, Analeigh Tipton, Rob Corddry, Cory Hardrict, Rochelle Okoye,
Produção: David Hoberman, Todd Lieberman, Bruna Papandrea
Roteiro: Jonathan Levine
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Duração: 98 min.
Ano: 2013
País: EUA
Classificação: 10 anos








segunda-feira, 13 de maio de 2013

Critica: A Caça


"Você terá de esperar um pouco, mas os animais voltarão”. 




Caça é a perseguição de um animal a outro ou de um ser humano a outro, normalmente com intenção de abate. É uma prática usada pelos animais carnívoros ou omnívoros para obtenção de alimento. Muitas espécies utilizam a caça, cada qual com técnica especializada levando em conta as características físicas do animal caçador e da presa. Geralmente usam emboscadas, perseguição em velocidade e/ou trabalho em grupo, sempre visando, dentre os possíveis alvos, os mais frágeis, como animais velhos, doentes ou recém-nascidos.

Caça humana 

O Homem também utiliza a caça. Antes da civilização, esta era a principal fonte de alimento de muitos dos grupos humanos. Porém, a expansão populacional e o desenvolvimento da civilização tornaram o extrativismo natural – a coleta, a caça e a pesca – insuficientes para o abastecimento da população. A obtenção dos alimentos é provida primordialmente pela agricultura e pela pecuária, tendo a pesca resistido até os dias de hoje, atingindo escala industrial.
Embora a caça por sustento ainda resista até os dias de hoje, ela ocorre em pequenas comunidades isoladas, como algumas tribos indígenas, por exemplo. Outra modalidade de caça, a esportiva, ganhou importância com o passar dos séculos.

Caça Esportiva

Esta modalidade de caçada não visa a obtenção de alimentos, mas a conservação de tradições, a emoção da perseguição e ou do abate, entre outras.
Com a extinção ou ameaça de extinção de algumas espécies, foi necessária a criação de normas reguladoras da caça, que só é permitida em locais determinados, para certas espécies, em épocas determinadas e em quantidade limitada. Em alguns países, a proibição é total.

'Jagten', que em tradução livre do dinamarquês para o português seria algo do tipo "procurar", e veio traduzido sob o titulo de A Caça para o Brasil é o mais recente filme do diretor Thomas Vinterberg e não só faz jus a dualidade do nome, como proporciona um retrato assustador da sociedade, numa critica intensa sobre moral, ética e atribuições de valores.

Mads Mikkelsen é Lucas, um recreador numa creche dentro de uma comunidade da Dinamarca. Extremamente bondoso e sociável  Lucas é amigo de todos e mantém uma relação de amizade e afeto com todas as crianças e moradores da comunidade. Recém divorciado e morando só apenas com sua cachorra Fanny, Lucas vive frustrado por não conseguir manter muito contato direto com seu único filho, devido ao divorcio conflituoso.
Um dia, Lucas vê sua vida virar de cabeça para baixo quando uma das alunas da creche no qual trabalha, vai ate a diretora da instituição e diz que Lucas lhe mostrou o órgão sexual. A partir daí um ode de ódio e discriminação se sucede por todos os moradores e Lucas se vê perdido.

Com uma narrativa densa desde o principio, o filme nos carrega dentro de uma atmosfera contemplativa, com ritmo lento em todo seu primeiro ato de preparação. Quando o filme recai sobre o segundo ato, a tensão e o choque dominam a tela. São suessões de julgamentos de frieza, de ataque, de degradação que chocam o espectador por fazer parte do nosso dia a dia, mas que mal enxergamos.

Lucas é tirado de sua propria vida e imediatamente julgado e condenado por todos, por seu melhor amigo, por sua namorada, por sua ex-esposa, colegas e desconhecidos. São olhos e dedos acusadores no mercado onde ele não pode mais entrar ou mesmo na igreja onde sempre foi rezar.

Vemos em tela o como julgamentos pre estabelecidos podem subjugar toda uma figura de um Homem a ponto dele se transformar num verdadeiro arremedo de tudo que fora antes.

Quando uma criança inocente lhe diz que alguém lhe fez mal, em quem acreditar? Na criança ou no adulto?
A verdade, os fatos, importa diante disso? Qual seria nossa posição diante de algo assim?

O filme é competente em criar uma teia de acontecimentos e situações que nos deixem a merce de nós mesmos. É claro - e isso não é 'spoiler'- que Klara a menina que acusa Lucas do ato proibido, conta a historia após uma contrariedade por parte de Lucas. Porem resta a duvida: mas o que aconteceu de verdade? ate que ponto o abuso foi real ou apenas imaginação de uma criança confusa e irritada?

Porem a maior reflexão do filme é conseguir bater fundo nas nossas emoções ao nos colocar diante de um espelho, de um verdadeiro teto de vidro espelhado fincado em raízes tão profundas de preceitos e preconceitos de nós mesmo, que incomoda, enraivece, causa náusea moral.

Aliado a uma fotografia quase monocromática que parece nos estabelecer continuamente no Outono - ainda que o roteiro seja pontuado por passagens de tempo distintas como o inverno, o natal..- o que causa ainda mais a sensação de peso e melancolia.

A critica e reflexão se estende desde os pais inábeis da menina, à conduta inadequada que o irmão mais velho adota diante dela. São elementos e mais elementos desconstruídos ao longo do filme que mostram como é fácil e cruel criar um labirinto de equívocos e desambiguação social.

A metáfora que também é usada de forma literal, para o ato da caça - a comunidade é formada por caçadores, todos legalizados, homens que aprendem a caçar na temporada de caça a partir dos 16 anos de idade, quando viram 'homens' de fato dentro de sua cultura-;. Lucas nada mais é do que mais um cervo diante do abate. sem chance de luta ou defesa. São armas, pedras e martelos lhe massacrando, perseguindo e caçando a espreita, por todos os lados.

Ele é transformado de um dia para o outro de caçador a caça, num bicho, que deve ser exterminado.
Não por acaso o diretor brilhantemente nos conduz a um final triste e assustador.

E Mads Mikkelsen esta extremamente impressionante no papel de 'caça' aqui. É notável perceber seu olhar antes afável ir se desconstruindo a ponto de vermos uma morte em vida, ao lhe ser tirado cada pedaço de orgulho e sentido de vida. Atuação essa que lhe rendeu o premio de Melhor Ator no Festival de Cannes.


A procura pela justiça - legal e moral - é continuamente testada, e deixada em segundo plano. O que vale é a verdade e a certeza absoluta que esta na palma da mão de cada um.

"Lá na frente esta o alvo que se arrisca pela linha
Não é tão diferente do que eu já fui um dia
se vai ficar, se vai passar? Não sei!
E num piscar de olhos lembro o tanto que falei, deixei, calei, e não me importei- mas não tem nada!
Eu tava mesmo errada.
cada um em seu casulo, em sua direção
vendo de camarote a novela da vida alheia. Sugerindo soluções, discutindo relações
Bem certos de que a verdade cabe na palma da mão.
Mas isso não é uma questão de opinião. E isso, é só uma questão de opinião."



Esse trecho sintetiza bem os valores do filme.
Pesado, cruel, intenso, bem elaborado, eficiente e real.

Num panorama onde não verdadeiros vilões além de nós mesmos representados por cada personagem ali em tela, o filme ainda conta com elenco afiado.

Um tapa na cara, ou um tiro de espingarda em quem esta na mira e segura o rifle mesmo assim.
Bom filme.

Trailer


Ficha Técnica: 

Diretor: Thomas Vinterberg
Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Ole Dupont, Rikke Bergmann, Katrine Brygmann, Allan Wibor Christensen,
Produção: Sisse Graum Jørgensen, Morten Kaufmann, Thomas Vintenerg
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm
Fotografia: Charlotte Bruus Christensen
Trilha Sonora: Nikolaj Egelund
Duração: 115 min.
Ano: 2012
País: Dinamarca
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos










Critica: Weekend



Ator revelação e melhor produção no British Independent Film Award, vencedor da maioria dos destivais com temática gay da Tchecoslováquia, Hamburgo, LA Out Fest, San Francisco e Toronto, além de vencer como melhor roteiro no Festival Dinard, roteiro do prêmio do jornal Evening Standard, Prêmio dos Jovens em Ghent, revelação de diretor pelos críticos de Londres (Haigh), além de melhor ator e melhor filme dramático em Nashville. É com essa bagagem que Weekend, filme inglês do diretor Andrew  Haigh e, pouco mais de 90 minutos, chega ate o espectador de forma definitiva e extremamente surpreendente.

Com naturalidade, destreza e simplicidade, Weekend consegue fazer rir, emocionar, entristecer, mas principalmente emocionar e apaixonar.
Com um pequeno orçamento, calcado em pouco mais de 120 mil euros. Esse filme pode ser considerado um filme alternativo e artístico. Com características comuns ao gênero  temos planos bem conduzidos, com com fotografia clara mas que se descuida em certos pontos, justamente pela produção mais simples e sem muitos recursos. Ainda assim, temos enquadramentos bem interessantes e inventivos com destaque as cenas em que vemos o casal principal dialogando.

Lembrando o 'clima' de Antes do por do Sol e Antes do Amanhecer, o filme nos conduz numa narrativa progressiva que versa diante de diálogos e situações cotidianas num curto espaço de tempo, no qual vamos descobrindo e remontando os dois personagens. O que importa em Weekend são as personas dos personagens, seus anseios, seus medos e sonhos.

A sinopse é insuficiente quando se constata o conteúdo do filme. Na sinopse temos:

Depois de sair para jantar com seus amigos héteros, Russell ( Tom Cullen) decide tentar a sorte numa boate gay. Ele sai de lá com Glen (Chris New ) e os dois passam a noite juntos. Na manhã seguinte, Glen pede para gravar um depoimento de Russell sobre a noite anterior, dando início assim a uma intimidade inesperada entre os dois. Eles continuam juntos o resto do fim de semana, indo a bares, fazendo sexo, se drogando e contando histórias de suas vidas um para o outro. Mas o relacionamento entre eles está prestes a chegar ao fim: em poucos dias Glen se mudará para os Estados Unidos.

A premissa, que aparenta lidar com algo 'mais do mesmo' principalmente com a temática gay, surpreende ao não cair nos clichês um pouco difíceis de se escapar do gênero  e nos mostrar um filme totalmente coesa, promissor, com atuações criveis e humanas, e um roteiro extremamente bem conduzido e escrito, que foca nos diálogos rápidos e naturais que criam uma aproximação e identificação com o publico, seja este homossexual ou não.

Reflexivo, o filme trás a tona questionamentos interessantes mas sem contudo levantar nenhum tipo de bandeira ativista. O ativismo e ideologia ficara por conta de cada espectador. Como por exemplos as conversas de Russell e Glen sobre o casamento gay e como se dá a vida gay num mundo hétero  É o olhar de dentro para as pessoas de fora, e o olhar de dentro para os mesmo olhares de dentro mas que as vezes não conseguem enxergar direito justamente por estarem tão perto.

Sem trilha sonora, o que intensifica a experiencia de imersão diante daquelas duas vidas representadas e apresentadas a nós, o filme ainda tem o mérito de delimitar cada instante de mudanças, utilizando o sexo e as drogas de forma funcional. Geralmente o que vemos, são filmes com temática gay, abusando do artificio 'choque' para transmutar e transgredir valores, através do ato sexual, da nudez, das drogas e crime. Mas muitas vezes, tudo que se vê, é a estereotipagem de um mundo que já sofre justamente pelos pre conceitos que lhe atribuem. a relação homossexual é tão natural, que deve ser mostrada no cinema contemporâneo assim. De forma sincera, verdadeira. E Weekend consegue criar isso em poucos minutos. O sexo surge aqui como forma de demonstrar a afeição e a proximidade do casal principal. As drogas, são mostradas como um reflexo social atual e mais uma vez como simbolo para a construção e evolução daquela relação.
Nada ali esta por acaso. mesmo uma conversa sobre uma caneca comprada num brechó é relevante e tem contexto.

Ainda é importante salientar uma das passagens mais interessantes e instigantes do filme, em que um dos personagens explica para o outro uma das vertentes do sexo. O sexo casual na concepção das pessoas.

Através do sexo, falando do sexo ali, é possível mapear as pessoas..Porque quando conhecemos alguém novo, numa balada por exemplo, viramos uma especie de tela em branco.
Essa nova pessoa não te conhece; não sabe nada de você. Então ali podemos pode ser quem quisermos como quisermos, porque o sexo casual, a chamada 'pegação de balada' nos dá o poder, a sensação de que podemos apagar quem somos e recriar aquilo que queremos ser, onde queremos chegar.
E é nessa arquitetura, que esta quem somos. Somos aquilo que esta entre essa tela em branco do que queríamos/queremos e quem realmente somos. O vão entre esses dois paralelos é que somos nós de verdade. Apenas por essa teoria concebida o filme já valeria a pena.

Durante a projeção, vemos uma desconstrução de valores e de conceitos estabelecidos diante daquelas duas personas. Um, jovem salva vidas, gay assumido apenas para seu melhor amigo, órfão e tímido  Outro, gay assumido, artista e que leva a vida pelo agora sem nenhuma timidez. Sem cair no romance água com açúcar e jamais sendo piegas ou romantizado demais, ainda nos brinda com uma resolução honesta e sincera, sem se deixar levar pelo caminho mais fácil e por isso mesmo obvio. Assim engrandecendo-se diante de sua aparente pequenez  se tornando uma grande obra, uma grande obra de arte - com repetição na palavra- honesta.

Um Filme singelo que mais pessoas precisam conhecer.


Trailer:



Ficha Técnica:


Diretor: Andrew Haigh
Elenco: Tom Cullen, Chris New, Jonathan Race, Kieran Hardcastle, Vauxhall Jermaine, Sarah Churm, Martin Arrowsmith,
Produção: Tristan Goligher
Roteiro: Andrew Haigh
Fotografia: Urszula Pontikos
Trilha Sonora: James Edward Barker
Duração: 96 min.
Ano: 2012
País: Reino Unido
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos












segunda-feira, 29 de abril de 2013

Critica/Analise - A Professora de Piano


Um retrato visceral e extremamente degradante do interior humano, não de seus sentimentos, mas de seus desejos. A Professora de Piano, filme do Austríaco Michael Haneke, é tudo isso e mais. Um filme que cai fundo no poço sombrio do Desejo que Lars Von Trier com seu exímio Anticristo, chamou de "mal humano delicioso, misterioso e necessário" - claro que na interpretação das entrelinhas-.

Comparo aqui as duas Obras de Lars e de Haneke, porque um, - cineasta -esta para o outro - cineasta -, de maneira absoluta. Ao menos no que diz respeito a mostrar toda a aversão humana em varias camadas, sem poupar o espectador em nenhum momento. Porem se com Lars, o ‘botão’ apertado dentro de cada um é o dos sentidos, sentimentos e emoções e ética em convenções sociais. Aqui com Haneke, em especial A Professora de Piano, o botão socado, é o da moral humana, física, e unilateral. É o psicológico que é trabalhado, de maneira arrebatadora, quase cruel.

O filme que é baseado em um livro do escritor austríaco Elfriede Jelinek e venceu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2001, além dos prêmios de Melhor Atriz e Melhor Ator, respectivamente para Isabelle Hupert e Benoit Magimel (a primeira incontestavelmente merecido), conta a historia de Érika Kohut (Isabelle Hupert), uma professora de piano numa clássica escola de musica o Conservatório de Viena. Érika vive com a mãe num pequeno apartamento e detém uma relação de passividade e controle com ela. É uma professora hostil com seus alunos e impassível de qualquer demonstração de emoção. Quando conhece o jovem  Walter (Benoit Magimel), Érika cai numa perturbação acerca de seus costumes, desconfianças e mistérios, num ode de implosão de seus desejos e loucuras.

O filme conta com uma paleta de cores frias, com cenários assimetricamente bem posicionados e uma concepção de cena repleta de artefatos e objeto, que dão aos ambientes uma sensação claustrofóbica e confusa. Tudo é cheio demais, com cores iguais e indiferentes. Com exceção de raros momentos da própria Érica com seu vermelho em destaque, seja no batom ou no chapéu aristocrático.

Com a característica do silêncio - marca dos filmes de Haneke-  para se compor as cenas, o filme quase não tem trilha sonora. Ao não ser pelas intervenções inevitáveis dos dedilhares de piano ao longo da projeção. É importante ressaltar também a atuação da atriz veterana Annie Girardot que vive a mãe de Érika. Sua fragilidade em contraponto com seu tom sempre controlador, rígido e extremamente assustador, compõe bem o clima que o filme exige.

Clima esse de peso e incômodo a todo instante.

O filme traz uma sucessão de convenções que vão desde a perversão ate a loucura, ambos em graus extremos e doentios. É um filme que causa nojo, aversão, choca, cria tensão e impressiona pela crueza e frieza que trata de assuntos que verdadeiramente mutilam a consciência e o senso comum de moral e dignidade aceita em sociedade.

São cenas como um autoflagelo genital com uma gilete, espancamento, estupro, agressão a uma idosa, tapas entre mãe e filha, afeto sexual entre mãe e filha, masturbação, cenas de sexo explicito com direito a esperma de desconhecidos em pedaços de papel higiênico serem cheirados sem discriminação. Tudo perverso, tudo de forma insana. Sem planos que escondam nada ou que se utilizem da edição para abrandar os momentos. Pelo contrario. 

Somente com sons ambientes, onde podemos ouvir a respiração, o engolir da saliva de cada personagem, vemos tudo isso passivamente em longos planos, em longas tomadas que parecem não ter fim, mostrando cada segundo de cada ato. Para chocar, para criar tensão e por isso mesmo fascínio. E com ele a culpa.

Haneke cria o choque e o incômodo não tanto pelas cenas, afinal tais cenas não chegam a ser tão violentas ou tão degradantes, não mais do que nossa realidade, não mais que Jogos Mortais ou mesmo Dogville mostraram. O choque esta justamente na vontade e interesse que ele cria no espectador em querer ver mais. Em ser levado a atuar como um voyeur diante daqueles atos.

Isso mais do que qualquer outra coisa vista, é o que faz com que A Professora de Piano se torne uma experiência cruel e fascinante, e talvez única a cada um que o assiste. Ele exprime tudo que ocultamos. E lidar com o desejo, com o sexo, as vontades, a dor humana é algo delicado. Sempre perigoso sempre extremo. E Haneke consegue fazer isso solenemente bem.

São personagens castos, tímidos, alunos que são humilhados, em prol de viver um sonho. A arte tratada como mascara de convenções que escondem o limbo psicológico e sensorial de uma mulher de meia idade eximia, assimétrica em cada detalhe, nas roupas, nos tons de pele, no andar rígido, no olhar sem emoção, nos cabelos presos, na voz forte de palavras duras. Érika não sorri, e quando o faz é por pura aversão e descontrole. Não a embeleza. Érika não sente nem dor, nem remorso. Uma personagem ambígua que, contudo, na arte brilha e causa ternura.

Simbioticamente, o filme traça a construção de tal personagem de maneira cuidadosa e lenta. Porem em nenhum momento clara. Tal qual seu interior, Érika é uma incógnita talvez ate para ela mesma. Se a principio podíamos imaginar se tratar de uma mulher presa dentro de seus medos, causados pelo controle e escravidão emocional que criou com a mãe a quem é submissa, mas carrega sentimentos de amor e ódio  no momento seguinte as ações de Érika demonstram uma personagem dúbia, incerta e extremamente inconstante, a beira de um colapso. Colapso que pode vir através de um grito, de violência  de descontrole, ou mesmo de sangue e crime. 

Aos poucos o filme vai compondo um panorama de inserção a mente de Érika  que parece ver na dor e na subversão um atrativo inexplicável. Érika nada mais é do que uma criança descobrindo seu próprio cerco sensorial, intrínseco na carne, na pele, nos fluidos corporais. É através do sexo- não feito, apenas visto e sugerido- que Érika implode, liberta o lado sombrio despertado por Walter, que tenta conciliar seus instintos básicos de satisfação com o sentimento de apego, amor talvez; criado pela primeira vez com a presença desse homem. Os sentimentos se misturam a ponto dela não saber mais diferenciar em seus sentidos o que é desejo, afeto, amor, paixão, tesão. Tudo se mescla. A ponto de seu corpo sucumbir tal ponto, levando-a a agressão dela mesma. Seja por suas mãos ou pelas de outros.

E para isso, o filme não se priva em permanecer preso - tal qual Érika - nas convenções da linguagem cinematográfica  que exigem um delimitamento claro das motivações e ações, e assim, das resoluções de seus personagens. O filme não é aberto, mas seus personagens o são. E isso configura uma amplitude maior a obra, a discussão que ela traz em pauta, assumindo um estudo não só mais de Érika, ou das repressões e mistérios do Desejo humano, mas sim de toda uma sociedade baseada em regras, e estruturas de senso comum que nem sempre se adequam a todos os becos existentes em cada um. Qual de nós não é um pouco perverso? Qual de nós não é um pouco imoral? Qual de nós não esconde horrores que  a face serena ou endurecida não deixa transparecer?

Não que o filme ou mesmo Érika seja detentora de empatia, ou mesmo que o espectador consiga ou deva se identificar. Não. Obviamente que não. Mas a busca da personagem é clara: descobrir e conviver com o que é, com o que sente. E isso é comum a todos nós. 

Nesse ponto o filme se assemelha com o sentido de busca pela Perfeição versus o Bizarro promovido por Cisne Negro do Darren Aronofsky. Desde a relação sem figura paterna entre mãe e filha – Érika tem seu quarto, que não possui chaves, mas, contudo dorme todos os dias na mesma cama que a mãe – bem como o extremo entre o autocontrole através da privação do sexo e o descontrole por isso mesmo e liberdade do seu Eu, da verdadeira essencial através do desejo descontrolado e arrebatador.

A Professora de Piano não é um filme fácil, não é um filme fácil de digerir – como curiosidade, na cena de vomito, o vômito é real, e pelo ensejo, é impossível não destacar a atuação completamente entregue de Isabelle Huppert durante cada instante do filme, seu ar robotizado, quase psicótico, sem linhas de expressão, rígida que impressionam e arrebatam – que assusta justamente por ser tão gélido e ao mesmo tempo tão parte de cada um que o assiste. Uma parte que ninguém jamais admitira, mas que sentira. Incomodara. Causara medo, e também que fará parte dos pensamentos do espectador durante muito tempo, após o fim dos créditos finais.

Como bem diz um dialogo nos minutos iniciais da projeção: "A loucura só encontra seus benefícios na arte. Mas a arte só se beneficia da loucura, quando esta a suporta. A ponto de ser arte e fazer arte. A Arte não provém da loucura, mas dos instantes antes dela. E nisso esta obra se prova e justifica bem.

Brutal, tal qual, um grande concerto de piano.

"Os cães latem
Chocalham suas correntes
E as pessoas dormem em suas camas"


Trailer



FICHA TÉCNICA

Diretor: Michael Haneke
Elenco: Isabelle Huppert, Benoît Magimel, Annie Girardot, Anna Sigalevitch, Susanne Lothar, Cornelia Köndgen.
Produção: Yvon Crenn, Christine Gozlan, Veit Heiduschka, Michael Katz.
Roteiro: Michael Haneke
Fotografia: Christian Berger
Duração: 130 min.
Ano: 2001
País: Áustria / França
Gênero: Drama