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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Crítica/Análise : Bling Ring - A Gangue de Hollywood


“Eu realmente acredito em carma. E acho que essa situação entrou em minha vida para que eu pudesse aprender uma importante lição para crescer e me desenvolver espiritualmente. Posso me ver me transformando em alguém como a Angelina Jolie.”
Alexis Neiers, 18 anos- Membro da Gangue The Bling Ring durante declaração à policia sobre seus crimes.- Ela é interpretada por Emma Watson no longa sob a personagem ‘Nicki’.




Sofia Coppola se destaca no mundo cinematográfico por uma característica bem peculiar: o de conseguir mesclar tramas de cunho complexo e intrínsecos, numa narrativa e estética aparentemente superficial e simples. No geral, seus filmes têm um ‘Q’ de estética de vídeo clipes, são filmes artísticos, não comerciais e que por isso se embrenham em circuitos alternativos, mas sempre estão presentes em premiações e mostras ao redor do mundo. A princípio pelo sobrenome de peso que carrega vindo do pai, mas atualmente por mérito próprio, principalmente depois das indicações e do Oscar ganho por roteiro original com “Encontros e Desencontros’ seu filme mais famoso em sua pequena, mas invejável filmografia.

Explicar a sensibilidade e peculiaridade de Sofia é pertinente, pois para compreender sua nova obra Bling Ring, é se embrenhar nas características que a fazem ser a cineasta que é e entender as escolhas que fez para contar essa historia fantástica, baseada em fatos reais, e que fazem desta película um dos melhores lançamentos desse ano.

Primeiro vamos a historia real: Entre os anos de 2008 e 2009 um grupo de adolescentes com idades entre 17 e 18 anos de idade, moradores dos subúrbios ricos de Los Angeles efetuaram uma serie de crimes, entre roubos e arrombamentos, a mansões e casas de famosas celebridades. Entre elas Paris Hilton, Lindsey Lohan e Orlando Bloom. Eles: Courtney Ames, Tess Taylor, Rachel Lee, Nick Prugo e Alexis Neiers, foram presos e condenados a cerca de 4 anos de prisão, depois de um saldo de mais de US$3 milhões em roubos. O caso ficou conhecido como 'o caso de Calabasas', e os garotos foram intitulados como a Gangue “The Bling Ring” uma expressão que denota futilidade luxuriosa, é usada para retratar em diversos contextos algo com cunho de ostentação.

Vamos ao filme: Baseado no artigo ‘Os Suspeitos Usavam Louboutins’, da jornalista Nancy Jo Sales para a Vanity Fair, o longa da Coppola retrata essa série de invasões deste referido grupo de adolescentes a casas de famosos.

Numa espécie de falso documentário, Sofia Coppola escolhe entre montagens que se assemelham às típicas de programas de reality-show e programas de ‘fofocas’ a lá TV Fama e TMZ, e uma edição lenta, por vezes contemplativa, tratar do assunto de maneira simplesmente demonstrativa. É como se Bling Ring fosse um painel, sem julgamentos ou justificativas que apenas mostra os fatos, tal qual um documentário comum, porem não é assim. Há julgamentos sim, há a visão de Sofia sobre o assunto e seu mundo, mas de forma sutil.

O filme inicia-se com as imagens de uma câmera de segurança, mostrando os 5 jovens pulando os portões baixos de uma mansão e logo em seguida escapando da-li com uma grande carga de mercadorias, entre roupas, bolsas, sapatos, joias e quadros.
Logo em seguida, caímos num emaranhado de imagens pontuadas por  trechos de um interrogatório, ora por imagens de casas luxuosas e carros caros, tudo ao som de uma trilha sonora alta, potente e atual, numa espécie de eletro rock, com um ‘pé’ no hip pop. Essa é a base para transitarmos por câmeras estáticas, câmeras na mão, intercalações de câmeras de vários formatos, tudo numa fotografia clara, clean, com luz por diversas vezes estourada e monocromáticas- o branco, dourado e prateado dominam muitas vezes as casas dos quinteto protagonista.

Isso serve justamente para nos por a par da superficialidade e riqueza daquele mundo. Quando Marc (Israel Broussard) um garoto aparentemente tímido, sem amigos chega a escola alternativa destinada a jovens infratores, expulsos de suas antigas escolas, porem para jovens de famílias ricas ou ‘endinheiradas’, ele logo é abordado por  Rebecca (Katie Chang), garota de uma beleza que prende a atenção, bem vestida de salto alto que logo o convida para seu circulo de amigos. Assim, logo Marc conhece Chloe ( Claire Julien), Sam, (Taissa Farmiga) e Nicki (Emma Watson). Logo no primeiro dia, Marc confessa sua aparente homossexualidade a Rebecca e esta por sua vez, sem temer ou fazer cerimônia, o coloca dentro de um aparente hobby comum dela: Invadir casas e abrir carros para fazer pequenos roubos. Não, nenhum deles precisam do dinheiro. O ato é apenas por diversão, lazer, anti-tédio, por que é fácil.

Isso porque Los Angeles, a parte Hollywoodyana – não teme roubos ou assaltos. É um lugar onde só convivem a alta classe daquela sociedade.

Em seguida o roteiro assinado também por Sofia, nos conduz numa sucessão de furtos, roubos, arrombamentos – dessa vez na companhia dos já Cinco íntimos amigos, a casas de famosos. O esquema funcionava dessa forma: 

Olha, a paris Hilton estará num evento em Miami “// “Serio? E onde ela mora, pode verificar para mim no Google?”// “É perto daqui, vamos ate lá?”

Assim. Simples, rápido, fácil. Literalmente o crime a um clique de distancia.

Essa forma de conduzir a narrativa através da superficialidade inclusive da própria narrativa sem se importar ou se deter em se aprofundar em temas como o uso indevido de drogas, a maneira como as mansões e as ruas de Los Angeles não tem segurança, como as informações privativas estão a fácil acesso na internet, como tais jovens de famílias estabelecidas decidem se embrenhar num mundo tão perigoso e fútil; não importam para Sofia. Por que Bling Ring mostra a visão da ostentação. A visão de jovens e pessoas no geral que veem na fama o alicerce de suas vidas. Num mundo onde a independência, o acesso a informações, as possibilidades e o vazio comum do século dentro das pessoas é tão presente no nosso dia a dia. O roubo é apenas uma catarse para impulsionar a adrenalina do ato. O principal objetivo é ostentar. 

Roubar e postar as fotos junto as joias, e marcas famosas, no Facebook. Contar sem discriminação o que fizeram com a sensação de que estão arrasando. E arrasam! Em seus mundos, eles se tornam espelhos e não mais sombras de suas celebridades que tanto admiram. Nas mãos de qualquer outro diretor, tal trama não resistiria em traçar um caminho inverso, talvez semelhante aos “Os Bons Companheiros” ou “Trainspotting” ao se embrenhar fundo naquela sociedade e mundo decrépito que escolheram retratar. Teríamos um Bling Ring profundo, de cunho dramático. O que não seria ruim. Porem não pertinente com a proposta se Sofia. O que Sofia quis mostrar, como sempre demonstra em seus trabalhos, é o vazio dessa juventude, o vazio do mundo ao qual ela mesma faz parte, a banalização de conceitos éticos e morais, o descaso muitas vezes dos pais de tal juventude que alimenta com dinheiro e não com valores. Ela mostra o mundo que vemos diariamente e ao qual participamos,. Através das fotos que postamos em nossas contas virtuais, em como nos sentimos importantes ao sair com um tênis caro nas ruas, em como admiramos e imediatamente amamos ou odiamos o dono da Ferrari que passou na rua. Sofia mostra como aos poucos a sociedade começou a cultuar e criar seres de marfim e diamante, sem nada por dentro. Ou melhor, sem nada aparente por dentro. 

Porque quando analisamos Chloe, Nick, Mac, Rebecca e Sam, vemos transtornos de cinco jovens que querem ser mais do que são. Que nasceram sobre o ouro, mas que querem um sentido para aquele ouro ao qual possuem. Que querem ser vistos, mesmo que seja por seus Chanel, Gucci, Tiffany, Cartier e Marc Jacobs.

Aliada a uma trilha sonora certeira com destaque para a faixa de abertura "Crown on the Ground" do Sleigh Bells, e que vai de Azealia Banks e Kanye West a Rihanna, Frank Ocean e MIA; que sintetiza esse mundo tanto nos sons como em suas letras e artistas, o filme ainda tem o ponto positivo de trazer atuações comedidas, mas surpreendentes. 

Ainda que Emma Watson roube as cenas em que aparece, seja pelo seu talento natural em emprestar olhares e entonações coerentes para sua Nicki mesquinha e cínica, que alias é a personagem mais engraçada de um modo ruim, pois ela dentro os cinco é a mais superficial de todas, a típica patricinha tal mãe tal filha que só quer ser a Angelina Jolie- como sua mãe ensina-a a ser, baseada nos ensinamentos de 'O Segredo'- que se entope de antidepressivos e calmantes, dados pela própria mãe, e que tem uma das melhores cenas do longa que é o final, com sua entrevista onde ela olha diretamente para a câmera; é de Katie Chang e Israel Broussard, o destaque. A dupla é a protagonista do longa e seguram com um amadurecimento surpreendente as cenas que exigem ora que demonstrem a escassez de seus personagens ora a profundidade exalada pelo olhar de ambos e a tensão crescente na relação de amizade intensa que ambos adquirem no longa. Assim como Claire Julien e Taissa Farmiga que estão corretas em seus respectivos papeis.

A única falha de Bling Ring esta talvez na escolha ou falha de colocar ao publico, nós, o conhecimento de uma cena em que seguranças pessoais de uma das celebridades roubadas, veem um vídeo de uma das invasões onde Marc surge claro nas imagens, e logo depois o filme segue por mais meia hora sem nenhuma volta à cena. Ela não tem nenhum sentido dentro da narrativa.

Seja na demonstração certeira de mostrar o tom cínico e preocupante de Nicki quando numa montagem genial, é mostrado ela entediada pedindo para irem roubar, para logo em seguida mostrarem ela convincentemente mentindo e dizendo ser vitima dos amigos aos policiais, seja pelo longo plano em que é mostrado Chloe em casa com a família numa cozinha muito clara, em total frieza de relacionamento interpessoal, onde apenas com o som de sirenes de carros de policia aumentando ao fundo, vemos ela percebendo aos poucos que sua prisão esta eminente enquanto seu pai lê uma noticia no jornal, seja pela imprudência demonstrada por seus atos através do roubo de uma arma carregada, e levada por Sam ate a casa de seu namorado, onde a mesma dispara por acidente e ainda assim nenhum dos dois se preocupa ou se alarma com o ocorrido, ou seja pela fala de Marc a investigadora que cuida do caso após serem presos, quando ele cita que ele mesmo se impressiona em como ele ficou famoso, como as pessoas fizeram fã clubes para ele, dizendo que o amam, como ele recebeu num único dia mais de 800 solicitações de amizade no Facebook não por uma ação altruísta mas justamente por algo que aparentemente prejudica a sociedade, e ele ainda destaca o como a sociedade americana é fascinada pela vibe ‘Bonnie & Clyde’ de ser; Bling Ring é uma interessante e pertinente pré-tese acerca de uma realidade crescente em nossa sociedade e o declínio desenfreado na mesma frente a nós – o que dizer da sequência em que os jovens; Rebecca e Marc; entram pela primeira vez na mansão de Paris Hilton, repleto de fotografias dela mesma estampando cada centímetro quadrado do vasto local?-.

Ainda que este esteja para ‘Bonnie & Clyde’ como ‘Os Bons Companheiros’ esta para ‘Trainspotting’, Bling Ring é sim um filme para ser visto analisado – Alias, ate talvez seja o equivalente aos referidos filmes citados para nosso novo século - , principalmente a ser discutido e para ser usado como alerta de uma vazio desenfreado, que seduz e esta cada vez mais cheio. Por mais que pareça um filme direto, Sofia e seu filme são existencialistas afinal.

Se no inicio conseguimos desejar uma Rebecca em nossas vidas, conseguimos emoldura-la como uma ‘diva’, ao final, nos sentimos tão culpados, mesquinhos e decrépitos quanto os cinco jovens presos. 

Coppola nos faz refém e cúmplices daqueles crimes, daquelas declarações, daquelas desculpas e justificativas vãs. Ela nos coloca - seja você jovem ou não - frente a um espelho, e deixa em nossas mãos o martelo, para quebrarmos ele, ou para deixa-lo intacto e usar o martelo para quebrar apenas o Marfim que permeia os olhos daqueles que o assistem. Um bom filme.




Trailer:





 Ficha Técnica: 

Direção: Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Annie Fitzgerald, Carlos Miranda, Claire Julien, Emma Watson, G. Mac Brown, Gavin Rossdale, Georgia Rock, Israel Broussard, Janet Song, Katie Chang, Leslie Mann, Lorenzo Hunt, Marc Coppola, Stacy Edwards, Taissa Farmiga
Produção: Roman Coppola, Sofia Coppola, Youree Henley

Fotografia: Harris Savides


(Membros da Gangue Reais e seus respectivos Atores/personagens no Filme)
















domingo, 28 de julho de 2013

Crítica: Elena


“O vazio, mesmo quando cheio é pesado demais. O vácuo também preenche, também esgota.” 




Tudo começa com um sonho. Um sonho de Elena sobre Petra, onde Petra sonha que Elena e ela estão em cima de um muro. Não, onde Petra esta procurando Elena pelas ruas de Nova Yorque, longe de casa, enquanto Petra permanece em cima do muro, e cai. Elena morre. Não, Petra morre e Elena sai à procura de Petra. Não, Petra e Elena morrem e sua mãe sai à procura das duas e a encontram abaixo do muro. Não.

Entre sonhos, realidades, fatos e poesias, Petra Costa, estreia na direção com seu primeiro longa metragem intitulado Elena. Um híbrido entre ficção e documentário, onde ela e sua irmã mais velha Elena que dá nome ao longa se confundem em tela, transpassando gerações, dor, falta, procura e todo um lirismo psicológico, junguiana e atormentador na prova de que laços sanguíneos são de longe os fios que nos ligam ao mundo do outro.

Elena viaja para Nova York com o mesmo sonho da mãe: ser atriz de cinema. Deixa para trás uma infância passada na clandestinidade dos anos de ditadura militar. Deixa Petra, a irmã de sete anos. Duas décadas mais tarde, Petra também se torna atriz e embarca para Nova York em busca de Elena. Tem apenas pistas. Filmes caseiros, recortes de jornal, um diário. Cartas. A todo momento Petra espera encontrar Elena caminhando pelas ruas com uma blusa de seda. Pega o trem que Elena pegou, bate na porta de seus amigos, percorre seus caminhos. E acaba descobrindo Elena em um lugar inesperado. Aos poucos, os traços das duas irmãs se confundem já não se sabe quem é uma quem é a outra. A mãe pressente. Petra decifra. Agora que finalmente encontrou Elena, Petra precisa deixá-la partir.

Essa é a sinopse e nada poderia ser mais acertado para essa ARTE em todos os sentidos que a palavra e expressão comportam.

Em Elena acompanhamos Petra refazendo os passos da irmã mais velha, que saiu do Brasil rumo à Nova York atrás de seguir a carreira de atriz de cinema. Esse também era o desejo da mãe de ambas, nunca posto em prática. Ela e o marido enfrentaram a ditadura militar brasileira e teriam sido dois das centenas de militantes mortos na guerrilha do Araguaia se não fosse o fato de Elena estar na barriga da mãe- seis meses de gestação-, o que impediu seus pais de embarcarem para a morte da guerrilha. Quando Elena cresceu, após a separação de seus pais, quando Petra ainda tinha sete anos de idade, ela foi estudar e trabalhar em Nova York, buscando seu sonho de ser atriz de Hollywood, aonde chegou inclusive a conhecer Coppola.

O que se sabe é que Elena esta ausente da vida de Petra, e essa após cerca de 2 décadas desde que Elena partiu para NY, resolve recriar os passos de sua irmã Elena em busca de seu paradeiro, reencontrá-la ainda que a descoberta de onde Elena foi parar seja ao mesmo tempo acalentadora e devastadora.
O filme inicia-se com um recorte de imagens de Petra andando pelas ruas de NY, narrando um sonho que teve com sua irmã, onde neste, Elena esta em cima de um muro num emaranhado de fios elétricos. Quando ela olha de novo, ela nota que é ela mesma que esta no muro e não sua irmã. Ela se desespera e tenta se desvencilhar dos fios, cai e morre.

Essa narração em off ao som de Mamas & Papas - Dedicated To The One I Love criam uma rede de significados e de preparação para o longa que na sequencia usa uma sucessão de intercalações entre fatos documentais de lembranças resgatadas por textos narrados, por sons gravados em fita cassete antigo - uma espécie de diário em áudio de Elena, já que esta odiava a própria letra - e imagens de vídeos antigos e caseiros, com filmagens atuais de Petra caminhando a esmo por ruas e becos numa angulação sem simetria e com uma lente que nos faz emergir numa espécie de sonho sendo recordado, refazendo os passos da irmã.
Essa sequencia inicial, já nos coloca a par do que é Elena. Um filme poético, lúdico, de tal imersão visceral e condução emocional ao espectador típicos dos filmes de ficção.

Isso porque, apesar de se tratar de um documentário extremamente pessoal, Elena consegue criar uma conexão com o publico, dos mais variados tipos, e jeitos, idades e épocas. O filme é atemporal num nível artístico raro de se encontrar atualmente não só nos produtos documentais nacionais, mas no geral de realizadores que se embrenham por esse campo do cinema. Quando se opta por realizar uma obra pessoal, com vivencias pessoais, corre-se o risco obvio de limitar sua obra a um nicho de pessoas que conhecem previamente ou que viveram aquela experiência. Porem com Elena isso não acontece por mais que fique claro que a busca e compreensão e sentido de existir daquele filme seja totalmente relevante a diretora, o filme consegue dialogar com o mundo ao propor uma discussão mais ampla, do que a simples busca por compreensão a uma perda e uma saudade. Elena discursa sobre nosso próprio Eu. Sobre nossos próprios sentimentos, sobre nossa própria busca, sobre nossas dores pessoais. Isso é raro.

Aliado a uma trilha sonora marcante, com belas composições e pontuadas com montagens de imagens repletas de simbolismos, como câmeras difusas e na mão, planos abertos contemplativos e imagens desfocadas, ou mesmo retalhos de quadros e elementos da natureza como folhas intensamente vermelhas aludindo a lembranças passados, ou mesmo fluxos de rios e mares, sons de água como fluxo de vida compõe um cenário narrativo perfeito para as narrações em tom suave e extremamente feminino de Petra; que narra de forma pausada mas expressiva cada momento de sua busca pela historia da irmão.

Petra como personagem visual em tela mal aparece de frente, com exceção das imagens de arquivo antigo quando esta era uma criança. Porem quando ela surge, ela se confunde tanto com as imagens de Elena passadas que fica difícil diferenciar quem é quem. A mãe de ambas entra então na narrativa como mais um elemento do tempo para compor essa ideia de que as épocas, os sonhos e as dores daquela família se confundem na vertente feminina ali. Petra é sua mãe e sua mãe é Elena, como Elena também é Petra.

A edição entre os arquivos antigos e os especialmente filmados agora para o longa conseguem se fundir, dando uma linearidade inclusive na arte final, tanto em cor e textura quanto no designer e figurino geral, conseguindo uma fotografia em parcimônia com o todo. O ritmo também é excelente, a procura, a documentação e confusão citada na descrição do longa, adquirem tons de poesia fílmica mesmo ainda que exerçam o papel fundamental em atos distintos. E um texto rico, que em parte é fruto de Elena, de suas memórias; mas em sua maioria da sensibilidade de Petra e claro da terceira, a mãe das duas; que é sensacional do inicio ao fim em seus relatos. As metáforas visualmente falando caem como uma luva e uma dor a mais em tudo isso. Porem é uma dor com prazer; uma dor sofrida e bela que com certeza vale o ingresso, a paciência, as lagrimas e o nó da garganta.

Quando enfim ficamos sabendo qual o destino final de Elena, o baque é tão forte e t tamanho apelo emocional- sem ser forçado ou piegas- em tela para o espectador, que as lagrimas caem de forma branda, sofrida porem natural. O filme é uma experiência dolorosa aqueles que sentem o que Elena sentiu aqueles que sentem essa necessidade existência igual de Petra de seguir e começar a viver e de sua mãe de continuar.

O esquecimento e as lembranças, os sonhos com a realidade, o ficcional com o documental, o prazer e a dor se fundem em tela- após toda a confusão inicial- e criam uma obra coesa e definitivamente soberba.
O que é importante salientar é que Elena é uma viagem não só por dentro dos sentimentos e procura de Petra ao resgate a sua irmã Elena desaparecida dentro de si, mas uma viagem profunda aos maiores medos e angustias do espectador, seja o medo da morte, o medo da perda, o medo da falta e o pior deles, o medo de sentido para a vida.

Sem duvidas Petra criou uma obra de destaque. Um tributo lúdico e extremamente sensível sobre sua própria historia e sobre sua irmã, eternizando-o não só em suas memórias e sentimentos, mas nos de cada pessoa que se deixar apresentar por ela.

Um filme obrigatório aos corações que buscam acalento na busca da vida, nem que seja para se ver ‘doendo’ um pouco mais. Um filme corajoso não só pelo risco de trazer isso tudo em tela e errar, mas acertar em cheio e ainda remoer uma angustia que amedrontaria qualquer ser humano seja ele quem for.

Uma Obra prima, uma pintura audiovisual obrigatória, daquelas de dançar chorando ao som da lua, nas águas de Elena...


"Me vejo tanto em suas palavras que começo a me perder um pouco em você"
"Me afogo em você (...) em Ofélias..."
"Espelhos dentro d'água"


 Trailer:

 

 Vídeo de campanha para o longa feita por atores após assistirem o filme: Quem é Elena?


Ficha Técnica:


Gênero: Documentário
Direção: Petra Costa
Roteiro: Carolina Ziskind, Petra Costa
Produção: Daniela Santos, Julia Bock
Fotografia: Janice d'Avila, Miguel Vassy, Will Etchebehere
Duração: 82 min.
Ano: 2012
País: Brasil










sábado, 27 de julho de 2013

Crítica: Amor Pleno

"Quando escalamos uma montanha, vamos ao estágio da maravilha (wonder)".



Sob essa premissa, o diretor e roteirista Terrence Malick surge com sua nova obra intitulada ‘Amor Pleno’ (no original “To The Wonder”); uma escalada bela, poética, transcendente porem vazia.

Quando se fala de Terrence se torna quase redundante pela maioria de critica e publico, dizer que estamos frente a um dos diretores mais conceituais e com identidade visual marcante contemporânea. Os traços de Malick denunciam suas obras quase que instantaneamente. Seja pelos longos planos contemplativos, seja pelas escolhas de atores sempre – ou quase sempre- em papeis de não estrelas, onde o meio toma a frente do todo; ou seja, onde o cenário se torna protagonista a frente dos atores.

Em “Arvore da Vida” seu filme anterior, e com certeza mais bem sucedido, ainda que divida opiniões de publico – no geral foi aclamado por critica e premiações, mas devastado pelo publico-, é sem duvidas o seu filme mais conhecido; Malick conseguiu reunir todos os elementos que aludem a si, em seu maior e melhor grau, seja na parte técnica quanto na narrativa em si. Em ‘Amor Pleno’ a historia é outra.

O que vemos em Amor Pleno, é a desconstrução do amor, tanto sentimento quanto força. Malick alude esse sentimento de forma visual, em cada detalhe, em atos, em sons, em ruídos, em gestos; quase como se ele tentasse nos mostrar o invisível através de suas câmeras e longos planos de contemplação e parcimônia. Mas sem a profundidade dada em Arvore da Vida. O que não é ruim, mas também não é bom.

Com uma fotografia estonteante e planos arrebatadores que beiram a perfeição fílmica, onde cada cena por si só é um espetáculo a parte, orquestradas por uma trilha sonora instrumental que nos leva pela passagem de tempo descompassada das sequências unicamente como um amigo nos guiando e  não como algo que manipula. Qualquer emoção que se possa ter com o que é mostrado é única e exclusivamente fruto da percepção de seu espectador, não é planejado ou ‘indiciado a’. Alias, toda a parte técnica do longa é primoroso, seja pelos enquadramentos ora assimétricos, ora com simetria e planejamento esmerados, sejam pelas cores em planos conglomerados, num designer sonoro e visual impecável, seja pelas metáforas e simbolismos contidos na montagem – uma cela de cavalo, uma cerca de uma casa nos remetendo a sensação de aprisionamento, um bando de pássaros voando nos remetendo a liberdade ou mesmo o maravilhoso e inteligente simbolismo do casal andando sobre as areias de solo instável, nos demonstrando adiante a inconstante relação deles tal qual o solo pisado em outrora; – quanto a narrativa, num texto poético e lúdico com referencias literárias, inclusive bíblicas. Planos em sua maioria espelhados evidenciando a dualidade nos seres humanos em sua busca entre o certo, o errado, o querer e o sentir.

Mas o problema nasce na linguagem. Malick é um experimentador, um artista conceitual, que testa conceitos e técnicas, sem deixar transparecer suas referencias e sem se preocupar em explicar cada uma delas. O cinema de Malick foi criado e nos é apresentado com a única razão de nos fazer sentir ou compreender algo seja lá o que for. Fica claro a percepção e intenção de repetir e reafirmar algo que ele trouxe desde Arvore da Vida, a busca humana por compreensão, por  compreender o ato de sentir, por compreender o ato de querer compreender.

Nesse ponto Amor Pleno é quase uma busca existencialista do amor. De todas as suas formas. Sua confusão, a maneira que ele faz sofrer, a maneira que ele sufoca e transcende a maneira que ele dúbio e simples, a maneira que ele é sombrio e poderoso. Ele questiona o amor inclusive na religião, questionando na fé, na dependência – em certo momento o roteiro declama “somos impelidos a dever sentir amor. Pois deus disse que devemos amar, gostando, querendo ou não querendo nos devemos (no sentido de dever, ser obrigado) a amar. Nascemos para isso”; esse sentimento tão complexo a nós mesmos.

Para isso ele se utiliza de 3 tramas paralelas. A primeira de Neil -  Ben Affleck -  e Marina - Olga Kurylenko -, um casal de amantes, ela francesa com uma filha de dez anos, ele americano, que trabalha numa construtora e que tentam a todo custo entender a si mesmos quanto a esse amor que sentem um pelo o outro. Sem protagonistas definidos, talvez seja de Olga a atenção maior que o filme confere, começando por nos apresentar a sua visão de mundo e terminando com ela ao final, sendo dela a maior parte de exibição em tela, sendo dela os momentos mais sensuais e visualmente carismáticos do filme, ela é a mocinha. Ainda que seja a meu ver de Affleck o alicerce de tudo, uma vez que é através do personagem dele que todos os outros mantêm uma coerência espacial em si.
Depois temos Affleck revivendo um antigo amor do passado, uma possibilidade que não foi e pode retornar com Jane - Rachel McAdams belíssima tal qual Olga, com uma sensibilidade que aflora à tela; principalmente de Olga-; que perdeu uma filha no passado e tenta resgatar as esperanças na confiança ao Amor.
E por fim temos Quintana - Javier Bardem-, como um padre católico que enfrenta uma crise silenciosa com sua fé. Onde ele busca continuamente a reafirmação de que ELE- Deus- esta ali o guiando através do amor transcendente (pleno?); e que infelizmente- ainda que Javier nos entregue uma sempre competente atuação- não se elucida com o restante da trama, talvez apenas em seu 3° ato em tela.

Esses 4 personagens nessa tríade de tramas, nos conduzem por um emaranhado filosófico e reflexivo na busca e degradação mental, emocional e sentimental do amor. É algo quase que Freudiano tal qual Arvore da Vida foi. São recortes e telas inteiras de pensamentos, questionamentos, erros, acertos, e fragmentos de atos e situações- muitas representadas por personagens sem nome, ou mesmo voz/dialogo – em crise por essa falta de fé no amor- seja ele de qual forma for. Assim obviamente o filme recai em discursos quase que religiosos a todo o momento, o que é de se esperar levando-se em conta a vertente tão religiosa demonstrada por Malick em seu mais recentes trabalhos. Algo que me desagrada, não pela religião em si, mas pela obviedade encontrada na narrativa aonde se vinha tendo um posicionamento tão mais interessante e complexo-; mas que é funcional a trama. Mas essa linguagem onde sempre é escolhido 'o mais' ao invés 'do menos', se torna o ponto mais intragável com relação a Malick- o elemento 'me ame ou me odeie'-.
Para Malick tudo é importante, ele se desliga completamente da máxima do cinema onde diz que qualquer coisa que não esteja em função da narrativa deve ser cortado na edição. Para Malick tudo é importante ainda que essa importância não se evidencie ou realmente não o seja, para ele é, e isso é desgastante por vezes.

Volto a Affleck para elucidar seu personagem, que ainda que pareça extremamente entendiante e insignificante em tela- devido a sua baixa participação ativa entre as cenas-, é a persona mais instigante e complexamente trabalhada enquanto elemento vivo de sentimentos ali. Neil surge vazio, frio, distante diante do espectador, contudo desperta o lado mais arrebatador e apaixonante de Marina e Jane. Se as duas são simples e puramente a paixão, a entrega e o medo, o desespero - caracterizados pela devastação do meio, da natureza, da vida, a feminilidade soberba e radiante, vital porem frágil -, é Neil que carrega todo o esmorecimento do sentimento amor em si. Quase como um vassalo do que busca, continuamente analisando, sentindo, refletindo, de forma catatônica as vezes, de maneira quase onírica em seu silencio. A complexidade do que ele sente e tenta sentir e entender por aquelas duas mulheres - inclusive o mal que faz a elas- e sobre si mesmo, é representado pela ausência de expressões. A leitura do que ele sente e do que ele é, é formada pelo espectador que coloca nele as reações e impulsos que bem lhe servirem. É como se seu personagem fosse apenas um corpo oco em função daquilo que o preenche. Quando ha sexo ele se entrega a sensualidade, quando ha ternura ele se entrega a fragilidade, quando há alegria ele se entrega a felicidade, quando ha dor ele se entrega a confusão, quando há desespero ele se entrega a raiva. Ele é a catarse que o filme busca entre o equilíbrio do controverso e do inverso do Amor - sempre iniciado com letra maiúscula-. Tal elaboração é fruto do roteiro que criou tal peculiaridade a seu personagem e não exatamente às limitações já claras e sabidas do ator.

Os personagens que ora permanecem em silencio – principalmente Affleck que quase não tem diálogos -, ora apenas sussurram inaudivelmente, ora falam em espanhol, italiano, inglês e francês através de personagens secundários, vão remoendo uma teia de retalhos cada vez mais confusos e inorgânicos sobre o tema, enquanto explodem na tela elementos belíssimos quase palpáveis da natureza, sua força e fragilidade em angulações peculiares que nos transpõem ao que se é visto. É melancólico, é contemplativo.

Os personagens são meras ilustrações dos sentimentos e do sentido invisível buscado pela premissa, ao Amor. E obviamente quando se escolhe tal linguagem sem linearidade, sem estrutura fixa, causa estranhamento e por vezes uma pedante experiência, mórbida, escassa de apego ou mesmo chata para se usar a palavra correta. Os minutos se arrastam e parece que estamos sendo levados a lugar algum. Ledo engano, claro; mas definitivamente não é um cinema fácil de assistir, de se absorver. Soa pretensioso, soa forçado, soa de fato desnecessário- o que talvez seja, talvez não.

O filme é grande, porem esta longe de ser maravilhoso ou tão relevante quanto seu anterior. Isso por que Malick cometeu o erro de tentar se manter na linha tênue entre o mesmo de antes e o inovador- causado pela expectativa criada justamente por seu anterior-. O que se tem em tela é um concha, um emaranhado de ideias geniais e interessantes, únicas, mas sem definição alguma, um labirinto camuflado por uma rígida e espetacular rede de imagens e técnicas infalíveis. O seu 'mais se tornou 'menos' mas jamais 'nada'.

É belo, mas não convence. É instigante, mas não inspira. É poético, é sensível? É; mas falta. É impressionante, mas esquecível.

Mas uma coisa não se pode negar: Essa montanha deve ser escalada, ainda que se caia no meio do caminho. A subida vale a pena, nem que seja para chegar ao topo, tirar uma foto, postar aos amigos e descer novamente.




PS: Detalhe para a ultima cena do filme, onde ma espécie de ilha com um forte em tons de cinza, sobre uma vastidão de mar em clima ameno/frio sintetizam toda a atmosfera do longa. 


Trailer:



Ficha Técnica

País de Origem: EUA
Gênero: Drama
Direção: Terrence Malick
Roteiro: Terrence Malick
Produção: Sarah Green
Fotografia: Emmanuel Lubezki
Trilha Sonora: Hanan Townshend
Elenco: Ben Affleck; Olga Kurylenko; Rachel McAdams, Javier Bardem e Tatiana Chiline
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento: 2012















quarta-feira, 22 de maio de 2013

Critica: Meu Namorado é Um Zumbi




Um zumbi (português brasileiro) ou zombie (português europeu) é uma criatura fictícia que aparece nos livros e na cultura popular tipicamente como um morto reanimado ou um ser humano irracional. Histórias de zumbis têm origem no sistema de crenças espirituais do Vodu afro-caribenhos, que contam sobre trabalhadores controlados por um poderoso feiticeiro.
Esta criatura é um ser humano dado como morto que, segundo a crença popular, foi posteriormente desenterrado e reanimado por meios desconhecidos. Devido à ausência de oxigênio na tumba, os mortos vivos seriam reanimados com morte cerebral e permaneceriam em estado catatônico, criando insegurança, medo e comendo os vivos que capturam. Como exemplo desses meios, pode-se citar um ritual necromântico, realizado com o intuito maligno de servidão ao seu invocador.

A figura dos zumbis ganhou destaque num gênero de filme de terror, principalmente graças ao filme de 1968 "Night of the Living Dead" (A Noite dos Mortos Vivos) do diretor George A. Romero.

No entanto, com o tempo a figura do Zumbi se tornou muito mais emblemática, uma vez que tal simbologia nessa criatura, carrega criticas existem cias a humanidade e a sociedade, como emprego de valores de moral, ética e humanistas mesmo. O bicho Homem versus o meio que se instala. Series atuais como The Walking Dead por exemplo utilizam dessa força cultural do zumbi para criar o alicerce para dissertar de temas políticos e antropológicos.

Porem, aqui com "Meu Namorado é um Zumbi" tudo isso cai por terra, o terror, o drama, a critica - aqui ela permanece, mas não tão incisiva, obviamente -, o que há é uma sátira bem feita e coerente que respeita o gênero que se apoderou, que não se leva tão a serio o suficiente- na maneira em que se vende- e por isso mesmo encanta e diverte ao conseguir criar um mundo zumbificado próprio a lá Romeu e Julieta das comedias - e aqui pode se orgulhar da seriedade do projeto em assim ser.

Em um cenário pós apocalíptico  somos apresentados a uma realidade que tenta sobreviver a devastão por longos 8 anos. Não se sabe exatamente o que ocasionou o surto de epidemia que transformou as pessoas em zumbis. Entre os sobreviventes há um esquadrão que criou um grande muro para separar a humanidade viva da humanidade morta. Esse esquadrão é chefiado pelo general Grigio (John Malkovich) que quer exterminar todos os Zumbis da face da Terra.
Em meio aos Zumbis temos R.(Nicholas Hoult) jovem que não se lembra de seu próprio nome, apenas que se iniciava com a letra R, e que em meio a um ataque, acaba comendo o cérebro do namorado de Julie (Teresa Palmer), filha do general Grigio e que faz parte do batalhão de resgate a suprimentos aos sobreviventes; adquirindo assim suas memorias e nutrindo um sentimento de amor pela mesma.

Com essa premissa, o filme que é narrado em voz off pelo zumbi R. nos conduz num mundo onde os Zumbis nada mais são do que vegetais orgânicos, corpos vazios com resquício de consciência  A fome deles, é explicada, pela vontade impulsional do corpo de querer sentir algo vivo novamente. Ao comer cérebros  eles conseguem sentir e reviver as memorias e lembranças dos que comem, sentindo se assim parte do mundo novamente.
Ambos os zumbis, permanecem lutando com essa pequena parte de consciência m osmose, para continuarem assim, num estado de latência  entre a morte total e essa reanimação. Muitos repetem suas funções diárias a esmo. Como o guarda do aeroporto que continua mesmo depois de morto a exercer seu serviço de segurança por exemplo, ou o faxineiro que não larga sua vassoura e pano de chão.
R. é um dos que conseguem balbuciar algumas palavras- apesar que na narração em off onde nos explica toda a historia sua fala é normal e clara-; e tem o habito de colecionar lembranças, vinis que gosta de escutar, objetos que lhe tragam alguma sensação de recordação.

Assim o roteiro já deixa claro que não pretende recriar um mundo fantástico com suas próprias leis, mas sim formar um montante de referencias literárias, filmicas e pop's para transformar a projeção num recorde cômico do cultuamento dado e recebido pelos zumbis na nossa atualidade. A referencia a Romeu e Julieta inclusive ja parte desse pressuposto inverso ( os protagonistas tem o nome iniciado por R e J).

Referencias não faltam, temos um protagonista que se assemelha em seus atos ao robô Wall-e, temos uma protagonista que é fisicamente parecida com a crepuscular inexpressiva Kristen Stewart (porem esta tem expressão), há ideologias sobre a cultura pop, desde musicas clássicas em vinis ate a qualidade do som virtual. Alias é interessante como essa alegoria é datada, onde seres inanimados, onde não humanos conseguem adquirir humanidade a mais do que os próprios humanos de fato.

A produção de orçamento modesto consegue delimitar bem seus limites, focando em efeitos escrachados  quase toscos por vezes, mais uma vez aludindo a filmes antigos do genero, em virtude de um designer bacana e eficiente, com uma ambientação coerente com sua proposta.

Mas se 'Meu Namorado é um Zumbi' tem realmente algo para se orgulhar é sua impecável e sensacional trilha sonora que passeia desde Bob Dylan e Bruce Springsteen à Guns N’ Roses, Feist e Scorpions. Tudo embalado por cenas que aludem inclusive ao filme "Uma Linda Mulher".

Risadas não faltam, diversão e coerência dentro da proposta e ate mesmo uma critica social contra o preconceito exacerbado e politica, no simbolismo do muro que nos remete ao lendário muro de Berlin.

Assim, 'Meu namorado é um Zumbi' acaba que consegue cumprir seu papel de divertir, de provar que nem toda obra dita adolescente água com açúcar precisa ser incoerente ou ruim para existir, e que pode sim se tornar cultuada com boas referencias, respeito ao gênero empregado e principalmente saber lidar com o fato de ser uma comedia cult da nova geração. Sabendo que não é excelente, sabendo seus limites, tornando-se assim uma boa surpresa para aqueles de mente aberta se permitirem entrar na viagem. Muito bom.


Trailer: 



FICHA TÉCNICA
Diretor: Jonathan Levine
Elenco: Dave Franco, Teresa Palmer, Nicholas Hoult, John Malkovich, Analeigh Tipton, Rob Corddry, Cory Hardrict, Rochelle Okoye,
Produção: David Hoberman, Todd Lieberman, Bruna Papandrea
Roteiro: Jonathan Levine
Fotografia: Javier Aguirresarobe
Duração: 98 min.
Ano: 2013
País: EUA
Classificação: 10 anos