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terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Critica/Resenha - Pan (Peter Pan)

"Segunda a esquerda, e reto até o amanhecer"




Dirigido por Joe Wright ( "Desejo e Reparação" e "Orgulho e Preconceito") e roteirizado (original) por Jason Fuchs, "Pan" resgata mais uma vez o universo criado por J.M. Barrie, e traz à tela por incrível que pareça, uma história inventiva e criativa sobre a origem do garoto que podia voar e conversava com fadas.

Com direito a uma inesperada versão à capella de “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana, o filme narra feito fábula mesmo, a origem de Peter, até sua já conhecida jornada como Peter Pan na terra do Nunca, contra as dicotomias do Capitão Gancho.

Peter (Levi Miller) é um garoto de 12 anos que vive em um orfanato em Londres, no período da Segunda Guerra Mundial, apos ser deixado ainda recém nascido por sua mãe às portas do local. 
Um dia, ele e várias crianças são sequestradas por piratas em um navio voador, que logo é perseguido por caças do exército britânico. O navio escapa e logo ruma para a Terra do Nunca, um lugar mágico e distante onde o capitão Barba Negra (Hugh Jackman) escraviza crianças e adultos para que encontrem pixum, uma pedra preciosa que concentra pó de fada (Pó de pirlimpimpim). Em pleno garimpo, Peter conhece James Hook (Gancho) (Garreth Hedlund), um garimpeiro refém, que tem planos para fugir do local.
Após uma confusão nas minas, Peter é sentenciado a morte num precipício, mas ao ser empurrado para o abismo, ele descobre que pode voar e que assim pode ser o garoto escolhido para cumprir uma antiga profecia.

O roteiro é inventivo ao respeitar o universo já conhecido da fabula, e basear ele para criar uma origem que nem mesmo nós achávamos necessária ou existente. Quem já se.perguntou quem é a mãe de Peter ou porque dele poder voar, ou porque ele e o Gancho se odiavam e etc...
Tudo aqui é desenrolado de maneira natural sem aparentar ser didática ou um filme de curiosidade forçadas. Pelo o contrário.

As ligações inclusive metafóricas, de alegorias e analogias, bem como todo o viés psicológico que acarretam o imaginário da Terra do Nunca ficam claros e bem estabelecidos. A estrutura do roteiro respeita o seu publico alvo - infantil - mas, não subestima a inteligencia das mesmas ao manter uma coesão nada forçada na narrativa - considerando que estamos na Terra do Nunca, claro-.

A fotografia e os efeitos visuais são outro espetáculo a parte. O mundo estrutural da Terra do Nunca é sensacional. bonito de se ver e verossímil com as leis daquele universo.
Muitos reclamaram do ritmo do filme, como as passagens das sereias,- todas com o rosto da Cara Delevingne - mas eu particularmente achei bem encaixada na narrativa. Principalmente ao usarem elementos da natureza para remeter ao passado. Uma arvore que conta a historia que se passou, e as águas que guardam memorias em suas profundezas - e afinal a água simboliza justamente isso, sentimentos, emoções e sensações de evocação.

Já o elenco é bem interessante e cumprem bem seu papel: Garrett Hedlund como o futuro Capitão Gancho, mesmo em sua mazela a lá Indiana Jones, trás uma ambiguidade lasciva e divertida pro personagem. Se observarmos bem, o Gancho nunca foi de fato o vilão da trama, mas sim um anti-heroi. Um arqui-inimigo de Peter. Levi Miller como Peter Pan, é vigoroso e bem expressivo mesmo nas cenas de mais dramaticidade. Ele convence como o Peter que conhecemos das fabulas. Inclusive demonstrando a transformação do Órfão inteligente e maduro, para o garoto despreocupado e brincalhão que conhecemos. E Rooney Mara como a 'selvagem'  Tigresa, introduz uma humanidade que serve de ponto de choque entre a maturidade da vida adulta e a infantilidade da Terra do Nunca. é interessante que seu papel e sua caracterização funcionam muito bem para a vermos tanto como uma adolescente quanto como uma adulta. E essa analogia entre as duas fases da vida, bem como os dois mundos existente, servem de apoio para as transformações e motivações dos personagens centrais.
Mas é mesmo Hugh Jackman como o famigerado e exagerado Barba Negra - o grande vilão da trama - que desempenha o melhor papel. Excêntrico, o ator parece se divertir no papel, e alias, seu figurino é o que mais merece atenção. Dotado de cores pretas e vermelhas, a direção de arte já denuncia e alude para o vilão que ele é, desde os primeiros momentos. 

Um filme leve e divertido, mas principalmente respeitoso que evoca não só a nostalgia de uma fabula clássica a todos nós, mas que atualiza uma ideologia que como a fabula já denunciava, estamos a cada dia perdendo mais.

Recomendo.

Trailer:



Ficha Técnica:

Gênero: Aventura
Direção: Joe Wright
Roteiro: Jason Fuchs
Elenco: Levi Miller, Hugh Jackman, Rooney Mara, Amanda Seyfried, Cara Delevingne, Kathy Burke, Garrett Hedlund, 

Fotos:











sábado, 28 de novembro de 2015

Crítica: O Pequeno Príncipe


''O essencial é invisível aos olhos.''



''Só se vê bem com o coração.''
''Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.''

Tais frases icônicas, permanecem desde 1943 no imaginário de milhares de pessoas ao redor do mundo. Sejam crianças ou adultos, O Pequeno Príncipe escrito pelo escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry, é considerado um dos livros mais famosos da historia da literatura. Considerado também infantil; ele é uma das raras exceções em que seu publico alvo se subverte para se tornar universal, devido a riqueza de parábolas e metáforas com a vida adulta que o livro trás.
Em 1974, o cinema se arriscou a produzir uma adaptação do livro. Dirigido por
Stanley Donen; o filme que apostou numa especie de comedia musical, trazia Gene Wilder no elenco.
Veja o trailer abaixo:



Dessa vez, o diretor Mark Osborne, apoiado pelo roteiro de Irena Brignull, arriscaram em trazer o "Pequeno" novamente às telas grandes, mas desta vez em forma de animação.

Nessa nova animação, uma garota acaba de se mudar com a mãe, uma controladora obsessiva que deseja definir antecipadamente todos os passos da filha para que ela seja aprovada em uma escola conceituada. Entretanto, um acidente provocado por seu vizinho faz com que a hélice de um avião abra um enorme buraco em sua casa. Curiosa em saber como o objeto parou ali, ela decide investigar. Logo conhece e se torna amiga de seu novo vizinho, um senhor que lhe conta a história de um pequeno príncipe que vive em um asteroide com sua rosa e, um dia, se encontrou com ele - um aviador perdido no deserto do Saara -  em plena Terra.

O primeiro que tem que se dizer sobre essa animação, é que ao contrario do que possa parecer aos saudosista e aos novos admiradores do principezinho, o filme não é uma adaptação do livro. Na realidade não é nem mesmo uma versão. Pois, a historia do Príncipe é apenas base para empurrar e estruturar a narrativa que é sobre a historia da pequena garota. Assim, essa animação, na realidade, é baseada no livro.
Isso é importante para que não se crie a expectativa lúdica de que a experiencia em tela sera a mesma do livro.

Dito isso, é muito interessante e valida a maneira que a roteirista escolheu de calcar a jornada da garota rumo a descoberta do que é ser adulto, através da historia do pequeno príncipe.

O que o roteiro quis, foi fazer uma reflexão paralela das ideologias de Antoine, com a vida real. Quase adotando um sentido religioso e de fé ao Príncipe nesse sentido. Pois o velho aviador parece crer que a existência do pequeno é o que o sustenta para aguentar a vida cotidiana tão pesada e as vezes cruel. Nesse ponto é interessante o fato de que o aviador velho da animação, seja o mesmo aviador narrador do livro e que por excelência seja o próprio Antoine num universo paralelo onde ele envelheceu ate esta tenra idade e tenha conhecida uma pequena garota simpática e curiosa.
Isso porque o velho aviador da historia, não apresenta o pequeno príncipe para a garota, como se fosse uma historia que ele ouviu e esta repassando. Mas, como uma historia que ele viveu, ele escreveu e desenhou. a construção logica do roteiro peca em alguns diálogos, como por exemplo o uso de uma fala da garota, que é extremamente inteligente e racional, e problematiza o fato de não ser possível que o aviador tenha encontrado um garoto no deserto. Por que crianças não poderiam sobreviver tanto tempo naquele ambiente inóspito e porque pelo seu conhecimento da escola, não havia evidencias de vida em planetas pequenos. Ela então diz que a unica possibilidade era se ele viesse de uma estrela. Ora, estrelas são corpos quentes, onde ali sim, não poderia haver vida. Esse detalhe pequeno e irrelevante, mas que mostra um desleixo na construção da logica da personagem, cuja a logica é justamente sua principal característica.

A animação ainda traz um visual incrível.

A vida real da garota é representada em computação gráfica. A cidade, os adultos, os carros, tudo em linhas de simetria extrema, retas, sem ''imaginação alguma''. Cores cinzas e opacas, numa unilinearidade sóbria e sem vida. Tudo em constante movimento mas, sem sentimento. Sem riso ou alegria.

A exceção é justamente a casa do velho aviador. Disforme, repleta de cores vivas, que contrasta absurdamente com o cinza da urbanidade. É interessante esse cuidado com a direção de arte. Representar a metáfora da vida adulta tão "chata" aos olhos na ideologia do Livro com a construção da arte aqui.
Já o velho que não se esqueceu como é ser criança mantém a cor em seu dia a dia, e por isso é visto como louco biruta pela sociedade geral. Que não o entende e nem o aceita. Eles tem medo do velho.

Mas, o real encanto fica por conta da animação em stop motion, que representa a história paralela do príncipe. O aviador narra a história para a garota e vemos o desenrolar em um stop motion rico em detalhes e fluidez de movimento. É fascinante.

E aqui, inclusive o entendimento artístico do universo da obra pra realidade é satisfatório. Uma vez que a computação, justamente seria a tecnologia humana, do adulto humano artificializando o natural. E o que seria a fantasia fantástica do mundo do pequeno príncipe, com o stop motion tão clássico e originário do cinema em seus primórdios. Esse detalhe é bonito de se constatar.

No entanto, o maior problema do filme está no não entendimento aparente ou na ambição furada de não compreender a mensagem simplista que o livro trás. Sim, suas mazelas são complexas. Tanto que conquistam adultos até hoje. Mas sua mensagem base é simples. É imaginativa. É utópica.
E o filme aqui tenta racionalizar essa mensagem a partir do segundo ato.
A sensação que fica é a de que ironicamente, o melhor do filme é justamente sua técnica regrada e ''adulta'', e não seu roteiro, seu sentimento.

É um projeto ambicioso e muito interessante, mas que peca ao tentar recriar uma obra que não precisa e nem deve ser recriada, somente revista. É diferente essas duas mazelas.
O terceiro ato, apesar de valido, principalmente para aqueles que não conhecem a historia original, representa uma especie de 'traição' ao original para aqueles que conhecem as aventuras do Pequeno.
O essencial ficou visível aos olhos e não se mostrou muito bem.

Assim, o Pequeno Príncipe é uma experiencia valida pela sua beleza, pela historia base que carrega, mas que frusta por demonstrar que afinal de contas, não importa quão lindo visualmente ele possa ser, ele ainda assim, é uma animação feita para crianças, mas criada por adultos.

É, adultos são tão chatos... Eles nunca entendem...

Ps: A raposa - em todas as suas faces - é a coisa mais querida do mundo, como não poderia deixar de ser.


Trailer:



Ficha Técnica:

Gênero: Animação
Direção: Mark Osborne
Roteiro: Irena Brignull
Elenco: (vozes) Albert Brooks, Benicio Del Toro, Bud Cort, Jacquie Barnbrook, James Franco, Jeff Bridges, Jeffy Branion, Mackenzie Foy, Marcel Bridges, Marion Cotillard, Paul Giamatti, Paul Rudd, Rachel McAdams, Ricky Gervais, Riley Osborne
Produção: Alexis Vonarb, Aton Soumache, Dimitri Rassam
Fotografia: Kris Kapp











segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Resenha (breve): Beira Mar





'Eu sei quem eu sou 
Eu sei, eu sei,
eu sei, eu sei
Eu sei quem eu sou
Eu sei quem eu sou
Eu sei onde estou 
Eu sei quem eu sou"


Esse trecho faz parte de uma musica chamada ''NoPorn'' do grupo Xingu, e faz parte da trilha sonora do filme ''Beira Mar'', dirigido com competência pelos cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.
O filme foi selecionado para o 65º festival de Berlim.
Coloquei esse trecho, por que Beira Mar fala sobre a adolescência, e esta, como todos nós sabemos - ou saberão - se trata justamente da magia e do terror de tentar entender quem se é no mundo.
Pois bem, Beira Mar possui a competência de tratar do assunto de maneira despretensiosa, de maneira natural, e pra isso ocorrer, grande parte do mérito esta nos diálogos por vezes ate banais dos personagens e principalmente pela dupla de protagonistas - Mateus Almada e Mauricio José Barcellos -, que claramente são inexperientes em termos de segurança na atuação, mas que justamente por isso, se encaixam perfeitamente para a trama.

O filme é lindo esteticamente, uma fotografia que investe bastante em profundidades de campo, imagens turvas, movimentos dispersos de câmera, cores frias, que passam tanto o clima de monotonia quanto de apreensão própria dessa parte da vida. A adolescência não é fácil, não é colorida. Ela é profunda, é embaçada, é fria, ainda que tenha seus momentos de prazeres intensos e alegrias que permanecem pelo resto da vida. O som é algo que me incomodou bastante.
O problema de Beira Mar, é que ele demora dois atos inteiros para parecer se encontrar. Como se o filme usasse de metalinguagem extrema, parece ser um adolescência que inicia ditando seu ritmo, batendo no peito que sabe quem é, que se conhece, mas que ao longo da narrativa se confunde. Fala, fala, fala; mostra, mostra, mostra, mas não chega a lugar nenhum.

A sensação que fica é que não ha historia. Não ha trama. Parece que estamos vendo apenas momentos de dois adolescentes numa viagem. Só.

Isso se deve pelo fato, dos diretores terem escolhido o caminho inverso da máxima narrativa que se aprende no cinema, de que o filme precisa se justificar, se fazer entender ate o final de seu primeiro ato (por volta de 20/30 minutos de historia). Nada é explicado de inicio. Não sabemos qual o conflito que impulsiona aqueles dois garotos naquela viagem, naquele peso aparente que ambos carregam nos olhares que se desviam, nos silêncios que presenciam e protagonizam, no riso bobo, que logo vira melancolia e osmose. É visível que ambos possuem alguma carga emocional de conflito interno, que encontra um escape na amizade e intimidade que parecem ter um com outro. Mas, o que é? como é? onde é? quando é esse conflito?

Não nos deixam saber.

Se por um lado poderia ser um exercício interessante ainda mais pela temática proposta, no filme não funciona. E o mistério deixa de ser mistério que prende, para se tornar algo 'broxante' que enjoa e cansa. O filme possui 1 hora e 23 minutos de duração, mas a sensação que fica é que tem mais de duas horas.

O filme tem sido vendido como um filme ''adolescente com características gays.'' Titulo que faz com que haja uma especie de antecipação no espectador para que pelo menos se espere algo relacionado a isso. 

Percebe? 

O filme perde a oportunidade de desenvolver a complexidade que criou.
Mas, o terceiro ato, os momentos finais o filme dá show. Tudo que se esperava acontece, ele se justifica e brilha.

Mas, precisava de 1 hora de enrolação?
Enfim, um bom filme sobre descobertas da vida, que poderia ser mais, mas talvez ainda não seja maduro o suficiente.
BAH, recomendo!

Ps: O sotaque do sul é simplesmente fascinante 


Trailer:



FICHA TÉCNICA:

PAÍS DE ORIGEM: Brasil
ANO: 2015
DIREÇÃO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
ROTEIRO: Filipe Matzembacher e Márcio Reolon
FOTOGRAFIA: João Gabriel de Queiroz
MÚSICA: Felipe Puperi
DIREÇÃO DE ARTE: Manuela Falcão
PRODUÇÃO: Filipe Matzembacher, Márcio Reolon, Tainá Rocha








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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Crítica: "Que Horas Ela Volta?"







"Senzala e casa grande pós-moderna" - André Gatti



Dirigido e roteirizado com maestria por Anna Muylaert, O Filme "Que Horas Ela Volta?" é um retrato novo da escravidão velada existente no País à menos de 15 anos atrás, e que ainda encontra suas características na atualidade, entre ''normas pré estabelecidas'' na sociedade. É uma cronica fílmica de diferença de classes, de dominação e dominados, onde ''gentilezas embranquecidas'', são disfarces de chibatadas endurecidas à calos nas mãos.
Protagonizado por Regina Casé numa atuação envolvente - e ate de certa forma - pueril, o filme traça entre sutilezas e sensibilidade - no sentido de se ater a detalhes de gestos, olhares e palavras/tom de voz - um cotidiano de realidade que nos atinge dia após dia, desde que nos entendemos por gente.
"A pernambucana Val se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino vai prestar vestibular, Jéssica lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica."
Regina Casé é Val, uma empregada domestica que passa seus dias entre lavar roupas, arrumar a mesa, servir janta, café da tarde, almoço, lavar pratos, varrer a casa, limpar a casa, arrumar camas, quartos, servir água, colocar prato, tirar prato, estender roupa, ser baba, garçonete... Uma "segunda mãe" para o filho dos patrões, e assim ser considerada 'quase da família'. O problema esta nesse ''quase''. O ''quase'' implícita limites. Limites esses estabelecido por sua classe social. E é aqui que o filme se torna obra. O que o filme retrata é a desumanização que ha em nossa sociedade, ao estabelecer condutas de acordo com nosso status social. De acordo com nossa etnia, nossa "origem". 


Jessica surge como uma mulher empoderada sim, mas que ao primeiro momento diante da hipocrisia condicionada de todos nós, aparenta ser uma mulher cínica e ambiciosa que não sabe seus limites. Quando no entanto a existência dela sob aquela casa burguesa do Morumbi em São Paulo é a unica célula coerente de quebra de paradigmas. O "Não saber seu lugar" de Jessica é justamente a metáfora do que ocorre no nosso cenário politico atual. Jessica é o tapa na cara, do patrão, do cis branco, do machista, do xenofóbico pró meritocracia que tem que aguentar o pobre, o negro, a trans, o nordestino, a mulher; sendo arquiteta na FAU e pegando o mesmo avião que eles. Avião, e não mais carroça ou somente ônibus.

É doloroso notar a ingenuidade resignada de Val a cada ordem que recebe. Por que para Val e tantos outros Brasileiros; classe A não se mistura com classe C. Por que se entende que existe ''sorvete de patrão'' e ''sorvete de empregada''. Porque se entende que quem limpa a piscina não pode usar ela. Nesse sentido, Jessica - vivida com surpreendente atuação por Camila Márdila - é a quebra de reflexão na narrativa, ao escancarar esses tais limites e formas de conduta ao não se submeter a eles em nenhum momento. É o tapa na cara, do gueto indo pra faculdade e não sendo apenas matéria de curso onde antes ele - eu, nós - não entravamos.
Se não bastasse o texto minuciosamente trabalhado, Muylaert ainda nos brinda com um cenário de ataque machista, na figura do aparente chefe de família - vivido por um apático Lourenco Mutarelli - que nunca precisou trabalhar na vida, e que vê na menina filha da empregada seu direito de macho de te-la como posse.
Tecnicamente o filme é um esmero a parte, Desde os planos cuidadosamente pensados para simbolizar as relações de poder e vulnerabilidade - Val constantemente aparece ao fundo da tela ou ao lado esquerdo, ou mesmo em cores mais apagadas que os demais - , o som - que sempre foi um problema em nosso cinema por questões de verba mesmo - aqui é limpo, funcional e sem nenhuma falha ou dificuldade de compreensão.
O mesmo se aplica a seu filho Fabinho - o jovem ator de "O Ano Que Meus Pais Saíram de Férias", Michel Joelsas - que por mais 'fofo' que aparente ser, revela traços desse machismo e domínio burgues que lhe é dado, em pequenos gestos, em pequenas frases, não menos nocivas. É interessante notar também que a relação de mãe e filha no filme - onde o filme internacionalmente esta recebendo o titulo de "A Segunda Mãe" por isso - se estabelece de forma dura mas profundamente bela, quando se nota, que o afeto de Val por Fabinho, não é exatamente afeto a ele, mas um reflexo de seu amor e cuidado de mãe que gostaria de ser destinado a filha que morava longe. Val vê em Fabinho o seio que não pôde dar a filha por anos. O filme ainda nos brinda com uma das cenas mais emblemáticas e belas que assisti esse ano, a cena final da piscina. Como bem diria Cazuza: "a piscina esta cheia de ratos" sim! E que bom. A sociedade terá que se acostumar com suas Val's e Jessica's. As Barbaras terão que aceitar sim, que os pires e as xícaras, já não são mais uniformes. Agora é preto no branco.
Constelação de estrelas!

Um tapa na cara fílmico de extrema delicadeza, dor e revolta real que já chegou se tornando uma obra prima de Orgulho pro cinema nacional, mas de vergonha para nossa sociedade diante do mundo.





"Tipo campos de concentração, prantos em vão

Quis vida digna, estigma, indignação
O trabalho liberta, ou não
Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu? extinção
(...)
Médico salva? Não! Por que? Cor de ladrão
Desacato invenção, maldosa intenção
Cabulosa inversão, jornal distorção
(...)
Cura baixa escolaridade com auto de resistência
Pois na era cyber, ceis vai ler
Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer, e vai ver
Que eu faço igual burkina faso
Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço
É tipo moisés e os hebreus, pés no breu
Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu
(cê é loco meu)" - Trecho da música "Boa Esperança" - Emicida


** Como nota, Gostaria de salientar o contentamento que me dá notar uma obra tão bela e pertinente, com toda essa aclamação sendo cria de varias mulheres profissionais. Desde o protagonismo ate a equipe de produção geral.**


Trailer:


Ficha técnica



Elenco: Regina Casé, Karine Teles, Lourenco Mutarelli, Michel Joelsas, Helena Albergaria, apresentando Camila Márdila, com as participações especiais de Luís Miranda, Theo Werneck e Antônio Abujamra
Direção: Anna Muylaert
Roteiro: Anna Muylaert
Produção: Fabiano Gullane, Caio Gullane, Debora Ivanov e Anna Muylaert
Produção Executiva: Caio Gullane e Claudia Büschel
Direção de Fotografia: Bárbara Alvarez
Direção de Arte: Marcos Pedroso e Thales Junqueira
Figurino: Claudia Kopke e Andre Simonetti
Maquiagem: Marcos Freire e Andre Anastácio
Som Direto: Gabi Cunha
Montagem: Karen Harley
Produção: Gullane
Produção Associada: Africa Filmes
Coprodução: Globo Filmes
Distribuição: Pandora Filmes






segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Resenha: Jogos Vorazes - A Esperança: parte 1


"É a pior tortura do mundo. 

Esperar enquanto se sabe que não ha nada que se possa fazer..."

"Aquilo que nós mais amamos, é o que acaba por nos destruir"
"Se nós queimarmos, você queimará conosco!"


A série foi inspirada no mito grego de Teseu e o minotauro e nos gladiadores romanos. Valores como lealdade, guerra, pobreza, verdade e amor são abordados durante a trama. A série em si é carregado de DRAMA e possui críticas sobre a sociedade vivida por nós e pelos habitantes da Capital.

Pequena introdução aos meus queridos amigos e principalmente colegas, para entenderem do que se trata e perderem o possível preconceito midiático com o filme.

A maior sacada de Jogos Vorazes, é que ele ao contrario do que ele mesmo se vende, não fala sobre os jogos em si. Os Jogos são alegoria e metáfora para algo mais complexo e maior. Jogos Vorazes é em suma, um filme politico e de estrutura social.

A arena dos Jogos - por mais que remeta ao clássico Livro/Mangá/Filme "Battle Royale" -, é apenas um detalhe para amarrar o embate dos personagens. Alias, como nota, a intenção de ambos é diferente; em ''Royale'', a intenção dos Jogos, é de adversidade e opressão, para mostrar os preceitos humanos, tanto psicológicos, quanto comportamentais. Em Jogos Vorazes, o Jogo, na arena, é alegoria. Ali, o que importa não são os preceitos comportamentais humanos - apesar da base ser a mesma -, mas sim o como que cada personagem representa uma ala social dentro da estrutura politica global. Cada personagem e ação dos mesmos, representa um nicho. O real tema aqui, não é amor adolescente e nem só a ação (alias, demorei para compreender, mas o filme não pode ser classificado como ação ou aventura somente, e sim como drama). Ele mostra a complexa estrutura social e politica da humanidade, especialmente o processo de revitalização e reimplementação do fascismo diante de um povo; com o apoio ou opressão da mídia nisso.

Vejam: O sistema politico aqui, é composto por Distritos que suprem a Capital, que domina todos os distritos. Detém de acordo com o poder econômico, todos os suplementos naturais e sintéticos DOS DISTRITOS e seus moradores, e em troca, fornece uma suposta paz, baseado em uma especie de ditadura militar  e entretenimento.
Em suma, A capital domina os pobres - independente de cor, raça e religião - os massacra e escraviza, os mantem vivos, apenas com o suficiente para sobreviver e com o apoio da mídia - televisiva por exemplo - os manipula, entretendo-os como gado ou uma briga de galos.

Ai entra os Jogos Vorazes em questão. Nada mais é, do que obrigar um povo oprimido a matarem-se, para pura diversão dos mais abastados e em troca eles fazem esses próprios oprimidos entenderem, que isso é o preço a se pagar em troca de "ruas mais seguras", mas que não ha mais direitos civis de liberdade ou democracia... Não ha liberdade de expressão. Para se ter ideia do cenário apocalíptico e tão atual com o nosso, o cinema em si, seria uma ameaça, ainda mais os de critica social.

O que acontece aqui nessa terceira parte é a desconstrução pouco a pouco desse sistema, onde distritos vão caindo e guerreando, mas entendendo que precisam se unir num discurso de esquerda, para reerguer uma nova estrutura social e politica baseada mais na democracia. Para isso a maior arma dos revolucionários e do governo (Capital) é justamente a mídia. Já que a população foi tão condicionada a acreditar em tudo que lhes é imposto na tela como verdade absoluta (vide, Jornal Nacional e a crença de que tudo que a Globo, Record, Veja; dizem é absoluta verdade incontestável), ocorre uma guerra midiática (já estamos em Uma alias galera, aqui no Brasil mesmo, só pegar o exemplo das atuais eleições à presidência), onde a protagonista antes manipulada pela direita  - exemplificando  de forma leiga para a realidade nacional, ou Conservadora para a realidade EUA - (opressora aqui no caso), vira simbolo da revolta da esquerda -  exemplificando de forma leiga para a realidade nacional, ou Progressista  para a realidade dos EUA (distritos no caso).

Porem a questão é mais complexa como toda politica, uma vez que ela estando nesse sistema, independente do lado, ela estará sendo manipulada. Mas a questão é; ate que ponto uma manipulação sera melhor que a outra, já que um muro tem apenas dois lados e não três?

Dirigido por Francis Lawrence e roteirizado por Peter Craig e Danny Strong, Jogos Vorazes - A esperança parte 1, conta com a seguinte sinopse: Quaternário pela resistência ao governo tirânico do presidente Snow (Donald Sutherland), Katniss Everdeen (Jennifer LAWRENCE) está abalada. Temerosa e sem confiança, ela agora vive no Distrito 13 ao lado da mãe (Paula Malcomson) e da irmã, Prim (Willow Shields). A presidente Alma COIN (Julianne Moore) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) querem que Katniss assuma o papel do tordo, o símbolo que a resistência precisa para mobilizar a população. Após uma certa relutância, Katniss aceita a proposta desde que a resistência se comprometa a resgatar Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e os demais Vitoriosos, mantidos prisioneiros pela Capital.

E é nesse clima que o filme assume paletas de cores mais frias e sóbrias, puxadas para o cinza e tons pasteis, abandonando a fantasia e tom fantástico dos dois longas anteriores e assumindo características mais reais. É notável o modo como Francis demonstra uma direção segura e firme ao introduzir um clima de guerra ao filme, com a utilização de movimentos de câmera, planos e montagem paralela - alias, que montagem eficaz! - que não só dão o tom de urgência e perigo às cenas, como formam um ritmo narrativo que prende.

Ia evitar falar sobre as atuações, mas é impossível não notar o plausível estudo de personagens que o roteiro exibe aqui nesta "A Esperança", ao mostrar os desdobramentos psicológicos diante dos efeitos que a guerra e os Jogos (sempre em letra maiúscula) trouxeram àquela realidade.
A protagonista Katniss assume o papel de heroína, não pelas ações que executa, mas pela situação que se encontra e pela imagem que se constrói. Alias, esse é um mérito do filme/serie no geral. Ele não elege heroínas e heróis apenas por excelência da situação, mas pelos desdobramentos que constroem eles como heróis. Heroísmo é imagem (só se tornam heróis, àqueles que anunciam essa imagem como tal, caso contrario, sem a imagem trabalhada, somos apenas bem feitores, e isso não vende).

O poder que isso traz para a critica midiática que o filme faz é enorme. E infelizmente tão real e contemporâneo; que Jogos Vorazes poderia facilmente assumir o papel de filme de terror.
Outro ponto positivo e a dualidade e dubilidade que os personagens assumem aqui. Onde cada ação traz uma reação adversa, igualmente e potencialmente destruidora.

Não por acaso, a cena em que há a destruição de uma represa, representa semioticamente bem a situação de Panen. a Capital é a represa, contida e controlada, mas limitada àquelas que estão do lado interno do concreto que prende aquelas águas. Quando a rebelião começa explodindo aquela represa, a água se dissipa, afogando e arrastando a tudo e a todos - seja pela falta da água do lado interno, quanto pela inundação do lado externo. E aí que é a questão: quando a rebelião começa, é água feroz - voraz - para todos os lados. Como conter? E ate que ponto essa contenção não se tornara uma nova represa fechada?

Alias, os signos nessa serie/filme são interessantes e complexos ao demonstrar a coesão com que a autora dos livros- já que mesmo não lendo a eles, sei que são a base para o roteiro - constrói, indo alem da simples aventura adolescente.
Não por acaso, a protagonista que tem como simbolo de luta, o arco e flecha, durante toda a projeção, deve lançar de uma a duas flechas no total. Porque aqui, nesta guerra, as armas são o de menos. A guerra vai alem de corpos mutilados e assassinatos. A guerra é estrutural e não somente física, ainda que ela atinja o corpo.

E quando um blockbuster consegue se ater a ter a preocupação em educar, refletir e questionar seu espectador, sem deixar de lado a ação/explosões mas sem se limitar a apenas isso, é de se aplaudir.
Ponto para a trilha sonora atual e pop que o filme adotou, bem como a sonoplastia que deve lhe render algumas premiações ou indicações.

Se for para apontar um defeito, talvez seja algumas questões técnicas pontuais, nada graves, nada que comprometa a narrativa e o andamento do filme, e talvez a escolha da divisão em duas partes. Sem ter lido os livros é difícil afirmar que não era necessária a divisão, pois não sei quanto conteúdo ainda falta - narrativamente - para sua conclusão. Mas o terceira ato do filme, fica comprometido em sua resolução, uma vez que o ritmo catártico é interrompido em seu climax. Ainda que para aquela estrutura, todos os conflitos ali concentrados tenham sido resolvidos, a trama como um todo sofre.

Assim, eu gostaria muito de ter visto um filme só, ainda que fosse durar 5 horas - coisa que ele poderia se beneficiar, já que novamente aponto que sua métrica rítmica foi precisa -.
No mais, ao final da projeção, é quase impossível não assoviar com a canção do tordo, e não sucumbir a vontade de levantar a mão esquerda, e estender os três dedos da mão e beija-la em tributo ao distrito 12...

Ótimo!


"Are you, are you
Coming to the tree?
Where they strung up a man they say murdered three."


Ficha Técnica:

Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson
Elizabeth Banks, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Peter Craig, Danny Strong
Fotografia: Jo Willems
Ano: 2014

Trailer:





Música d'O Tordo: