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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Critica: De Pernas Pro Ar 2


Prestes a abrir sua primeira sex shop nos Estados Unidos, em sociedade com Marcela (Maria Paula), Alice (Ingrid Guimarães) tem um novo desafio: levar para a América do Norte um produto erótico inédito. Muito agitada e obsessiva, Alice também precisa descobrir como equilibrar a ambição profissional e a vida pessoal, já que seu casamento, novamente, está em risco. A situação começa a ficar fora de controle na festa de inauguração da 100ª loja SexDelícia no Brasil, quando ela tem um piripaque por excesso de trabalho e é obrigada pelos médicos a passar uns dias no Spa Desestresse. Ao sair da clínica para encontrar a sócia nos Estados Unidos e fechar negócio com investidores americanos, Alice vive as mais inusitadas situações para esconder da família que, na verdade, está lá a trabalho e não a passeio, como tinha dito.

Com direção de Roberto Santucci, De Pernas Pro Ar 2 compensa suas falhas anteriores e consagrasse como uma das comedias românticas mais bem feitas que nosso pais produziu na atualidade, numa narrativa coesa, hilária, repleta de talentos e artifícios técnicos acertados.

Se Em De Pernas Pro Ar, o diretor Santucci demonstrava um potencial interessante mas uma latente covardia em desenvolver esse potencial, aqui em De Pernas Pro Ar 2, sua continuação, ele demonstra segurança, coesão e coragem em levar a tela um filme despretensioso e extremamente eficaz em sua proposta.

A trama novamente nos leva para a vida de Alice- vivida pela deslumbrante Ingrid Guimarães que não só reafirma seu posto como uma comediante exemplar, mas que vai alem e ao demonstrar ser uma atriz experiente e com extrema técnica de atuação que compreende e desenvolve seu personagem lhe dando naturalidade e confiança- em sua empreitada pelos negócios. Sua Sex Shop hoje em dia desponta como um negocio de sucesso, com mais de 100 filiais pelo Brasil. Assim, quando é chegada a hora de expandir os negócios e torna-lo globalizado, Alice imerge numa sucessão de horas intensivas de estresse e trabalho para conduzir com maestria e rigor tudo, ao lado de sua melhor amiga e sócia Marcela  - na correta e sempre ‘caliente’ Maria Paula -.

Mas apesar de seu relacionamento com o marido ter encontrado uma certa concessão; dessa vez Alice abre mão da própria saúde em prol de seu sucesso profissional o que lhe obriga após um piripaque que é vastamente noticiado, inclusive indo parar no youtube; a se internar numa clinica que se assemelha a um SPA, para desestressar e trabalhar essa sua compulsiva mania de trabalho desenfreado. Lá ela conhece inúmeras figuras, cada qual com um vicio/problema que lhes tiram por momentos a sanidade, como uma atriz que confunde seus personagens e as famas destes com sua vida pessoal – a hilária Tatá Werneck, - ou mesmo um ex-jogador de futebol viciado em sexo, seja com que pessoa for – no caricato escrachadamente parodiando o jogador de futebol Warner Loove, personagem vivido pelo ator Luiz Miranda, -.

Mas Alice não consegue se conter diante de uma proposta irrecusável de abrir uma filial milionária em Nova York e após dar um jeito ‘profissional’ de sair da clinica, parte em viagem com a família rumo aos EUA com o falso pretexto de tirar férias; para conseguir fechar contrato.

De Pernas Pro Ar 2 a partir daqui, após ter preparado toda a narrativa para seguir o enredo de forma coesa, parte em sequencias desenfreadas de hilaridade e situações imprevisíveis de humor, alternando-se com o romance entre Alice e seu marido que devido a ausência de interesse da esposa e de um certo deslize do marido também entra em novo conflito mais intenso- e mais justificável – que o anterior do primeiro longa.

As piadas e diálogos possuem um timing cômico excelente, respeitando o entendimento de seu publico e o tempo correto entre uma sequencia e outra. Isso faz com que o desenvolvimento ocorra de uma forma mais linear e condizente com o enredo, tornando a linguagem do filme aceitável. O filme não se arrasta em momento algum e nem corre demais. Tem o tempo exato.
Como uma das cenas mais hilarias do longa, que acontece no momento de uma apresentação crucial para a empresa, e que Alice enfrenta certo "efeito de reação". A cena é extremamente eficaz e bem conduzida.

Isso alem de demonstrar um trabalho eficaz de montagem e edição, revela um apreço e um cuidado perceptível do roteiro, dessa vez escrito por três pessoas - Paulo Cursino, Marcelo Saback e inclusive da própria Ingrid Guimarães. Isso doou a trama diálogos mais consistentes e inteligentes, dinâmicos, situações cômicas estruturalmente coesas, alem de conferir uma dramaticidade e uma construção de personagens mais solida também. Alice é a personagem mais bem trabalhada dessa vez,. O filme já inicia nos mostrando um vídeo caseiro, onde ela surge ainda criança dizendo quais seus sonhos para a vida adulta. O que diz muito sobre a personagem e ajuda a compreender seus atos, seus erros, suas ações. Isso é imprescindível para a historia.

A fotografia aqui também surge mais trabalhada e cuidadosa, toda delineada em tons claros que nos situam bem em cada ambiente mostrado. Há uma sutil mudança no tom e na luz da fotografia quando o filme passa para Nova York por exemplo.

O sexo e a auto suficiência feminina mais uma vez e pano de fundo da trama, e de forma totalmente natural também.

O núcleo de apoio também surge soberbo, com momentos e personagens marcantes em situações impagáveis. Destaque para os personagens da empregada vivida pela ótima atriz Cristina Pereira; e para uma participação rápida, mas essencial em uma das cenas de um Garçom brasileiro, natural de Governador Valadares num restaurante em que Alice e a família vão almoçar. O personagem é vivido pelo inventivo e camaleônico ator  Rodrigo Sant’anna (mais conhecido pelo seu papel como Valéria Vasques  no humorístico de qualidade duvidosa Zorra Total). A  sequencia toda em que ele surge é de uma comicidade inspiradora.

Mas o que realmente chama a atenção em De Pernas Pro Ar 2 é a naturalidade que o enredo e as situações surgem em tela. Mesmo que no inicio alguns diálogos surjam perigosamente caricatos, no desenrolar da trama, tudo se torna coeso. Há preparação e desenvolvimento que culminam num clímax correto. Dando ao espectador a sensação de que estão testemunhando situações corriqueiras naturais de comicidade e não que estão vendo uma serie de diálogos e atos ensaiados e piadas prontas num especial de TV humorístico, que alias é a grande falha que muitas comedias românticas possuem, não só as nacionais.

De Pernas Pro ar 2 se coloca num terreno pouco trabalhado pelo Brasil. O gênero comedia romântica que é sinônimo de bilheteria em muitos países inclusive no nosso, mas que nunca foi um gênero que o país costumava realizar. Ou ao menos realizar de forma seria, com preocupação clara em entregar ao publico um produto, uma obra de qualidade narrativa e técnica. De Pernas Pro Ar 2 prova que é possível sim isso acontecer.

E o que se obtém alem de uma hora e meia de riso fácil, gargalhadas frenéticas e certos momentos de tensão, é uma obra contundente  interessante, eficaz e extremamente deliciosa de se ver, rever e rever quantas vezes for preciso.

Tal eficiência se reflete no publico, que largamente demonstra sua aprovação ate os instantes finais - dos créditos - do longa.

Excelente!

 Trailer



Ficha Técnica
  
Diretor: Roberto Santucci
Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Maria Paula, Denise Weinberg, Cristina Pereira, Eriberto Leão, Christine Fernandes, Luiz Miranda, Alice Borges, Tatá Werneck, Pia Manfroni, Wagner Santisteban, Rodrigo Sant’anna, Eduardo Mello
Produção: Mariza Leão
Roteiro: Paulo Cursino, Ingrid Guimarães, Marcelo Saback
Fotografia: Nonato Estrela
Duração: 99 min.
Ano: 2012
País: Brasil
Gênero: Comédia









sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Critica: De Pernas Pro Ar


Alice (Ingrid Guimarães) é uma executiva workaholic que pouco dá atenção ao marido João (Bruno Garcia) e ao filho (João Fernandes). Tendo o trabalho como foco principal de sua vida, é abandonada pelo companheiro no dia em que recebe a chance de uma promoção. Com esse choque de realidade da vida que ela considerava perfeita, Alice se atrapalha e falha na apresentação que a tornaria diretora de marketing da empresa. Desempregada e desquitada, ela conhece Marcela (Maria Paula), uma vizinha sensual que é dona de uma sex shop e que decide fazer Alice levar uma vida mais descontraída.

De Pernas Pro Ar, do diretor Roberto Santucci, prova que vai contra a ideia de seu titulo e nos concede uma deliciosa comedia, repleta de situações cômicas impagáveis, a confirmação de um talento nato e uma característica no nosso cinema que já havíamos esquecido, mesmo que tudo isso venha embalado em covardia.

O filme é uma delicia do inicio ao fim. Tem seus momentos cômicos mais mornos para se reafirmar como comedia, e não comedia romântica necessariamente- mesmo que possua um paralelo que conduz toda a narrativa no casamento da protagonista-. Mas o foco é o humor.

Há uma sequência sensacional envolvendo um apetrecho sexual e um jogo de futebol infantil. Impagável.
Mas o destaque esta com a atriz Ingrid Guimarães que reafirma seu posto como uma das atrizes comediantes mais inventivas e naturais que possuímos na atualidade. Seu personagem e extremamente coeso e em nenhum momento surge forçado ou inverossímil. Ela convence como mãe, convence como empresaria, convence como uma mulher recatada e convence como uma mulher liberta de seus próprios conceitos, limitações e prioridades e claro, de sua libido. Toda a ação dela explode em tela com uma naturalidade impressionante. De tal forma que é impossível não se identificar ou se cativar. Que alias é uma característica que há tempos o cinema nacional havia esquecido.

O filme transborda bem comum. Nos dá aquela sensação de que estamos assistindo algo natural, em nenhum momento o espectador se coloca abaixo ou inferior aos personagens ali mostrado, não há veneração, um querer estar ali. Ele nos da a sensação de que tudo ali pode sim ocorrer e ocorre em nossas vidas, no cotidiano. Ao contrario dos filmes essencialmente hollywoodianos que tem a característica focada na contra corrente. Onde os filmes compram e vendem a ideia de que as tramas ali mostradas devem ser ofertadas e nos dê a sensação de querer viver uma vida fictícia como a que esta sendo mostrada esquecendo-se da nossa, sem dar soluções para as nossas reais.

Mas não é totalmente correto. Pois peca em alguns momentos, mais pela expectativa e potencial do que pelo andamento.

O roteiro assinado pelo Marcelo Saback e Paulo Cursino introduz a ideia de libertação feminina. E isso é excelente. O Brasil, assim como o mundo ainda é extremamente machista quando o assunto é sexo. Mesmo que nosso país desde a Era das pornochanchadas tenha um desprendimento ao assunto, ao tema, ele ainda é visto como algo estritamente masculino, voltado ao sexo masculino. E quando sai desse nicho, cai no estereótipo comum e acaba sendo nada mais do que clichês cômicos ou um tabu, sendo apenas sugerido mas nunca explicitado para algo alem do apenas chamar a atenção.

De pernas Pro Ar, promove uma redescoberta ao tema e convida o espectador, principalmente a mulher a conversar, a direcionar sua visão para o próprio corpo, para o próprio prazer. Ao tratar do orgasmo, o roteiro nada mais faz do que passar a ideia de que a mulher deve sim olhar mais para si mesma e entender que é igual ao homem na busca pelo prazer, pela realização pessoal e profissional, que não deve aceitar apenas oferecer prazer ou o que quer que for sem receber  mesmo em troca. A narrativa é bem estruturada nesse sentido, ao mostrar a personagem Alice nesse caminho, se transformando se descobrindo- e a metáfora com a montanha russa é excelente nesse sentido-. 

Porem o filme conforme avança na narrativa vai se perdendo e acaba caindo no mesmo lugar comum de sempre, de que não existe uma com relação entre trabalho, família e prazer. Principalmente entre trabalho e família. Que a mulher deve sempre escolher ou o trabalho ou ser a dona de casa, mãe e esposa. Que não há possibilidade viável de conciliar as duas coisas. Mas a pior ideia vendida é a da submissão novamente imposta, caracterizada pelo momento que a Alice aceita se encontrar com o marido novamente. A atitude e principalmente a resolução, faz cair por terra toda a concepção criada na premissa do roteiro. E isso é uma falha, um erro ou simplesmente uma covardia em se manter num foco muito mais interessante, que era o inicial.

Mas nem mesmo essas falhas tiram a eficácia da produção. O filme é tecnicamente correto. Inclusive em vários planos e cenas realmente bem montadas, sem contar na edição – destaque para a sequência inicial-. Esta longe de ser algo soberbo, alias bem longe, mais pela falta de coragem do que por falta de competência ou potencia.

De Pernas Pro Ar revela a volta a essa característica comum que nosso cinema sempre possuiu, de aproximação a seu publico sem focar apenas em criticas sociais ou políticas. É um filme leve, divertido, com uma ótima fotografia e edição e que nos dá momentos de lazer, demonstrando algo que muitos olhos de fora  e de dentro também se esquecem: que sabemos rir. E não só diante das desgraças...

Criou uma possibilidade interessante que agradou a publico e criticas no gerais e que demonstrou mais uma vez que o cinema esta também aqui.

Um bom filme.

Trailer




Ficha Técnica

Diretor: Roberto Santucci
Elenco: Ingrid Guimarães, Bruno Garcia, Maria Paula, Denise Weinberg, Antônio Pedro, Flávia Alessandra, Marcos Pasquim, Cristina Pereira, Charles Paraventi, João Fernandes, Ricardo Barrão, Antônio Pedro
Produção: Mariza Leão
Roteiro: Marcelo Saback, Paulo Cursino
Fotografia: Antônio Luis Mendes
Trilha Sonora: Fabio Mondego
Duração: 101 min.
Ano: 2010
País: Brasil
Gênero: Comédia
Classificação: 14 anos