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domingo, 30 de dezembro de 2012

Critica: Historias Que Só Existem Quando Lembradas


“- Eu não posso continuar fingindo que faço parte desse lugar.
- mas afinal, a que lugar você pertence?”



Jotuomba é um pequeno vilarejo em que ninguém morre há muito tempo e o cemitério está trancado com cadeado. Cada morador cumpre sua função e assim seguem os dias. Madalena (Sonia Guedes) faz pão para o armazém do Antônio (Luiz Serra). Como todos os dias, ela atravessa o trilho, onde o trem já não passa há anos, limpa o portão do cemitério trancado, ouve o sermão do padre e almoça com os outros velhos habitantes da cidade. Vivendo da memória do marido morto, Madalena é acordada por Rita (Lisa E. Fávero), uma jovem fotógrafa que chega na cidade fantasma de Jotuomba, onde o tempo parece ter parado.

Sinopse acertada de uma premissa instigante, bela e extremante sensível e perturbadora.
Com um dos títulos mais belos do ano, “Historias Que Só Existem Quando Lembradas” cria uma fabula atemporal e anacrônica sobre um vilarejo estático no tempo e espaço, onde as memórias são a chave para sua sobrevivência arquetípica.

O filme que conta quase sempre com enquadramentos estáticos, no meio da tela, nos mostra um pequeno vilarejo esquecido no tempo. Rachaduras nas paredes, sem animais visíveis, relógios quebrados, poeiras no soalho e nas estantes. Onde o cotidiano se repete continuamente sem cessar. Madalena (numa fabulosa interpretação de Sonia Guedes) segue sua vida numa repetição quase cronometrada: acorda ainda de madrugada, faz o pão e o assa. Leva-os logo de manhã ate o armazém de Antonio ( numa atuação sóbrio e repleta de tons cômicos de Luiz Serra), onde ela se encarrega de enfileirar e arruma-los na estante, a contra gosto de Antonio que ao fazer o café – que Madalena julga ser ruim – reclama do modo em que ela dispõe os pães. Então ambos sentam-se do lado de fora do armazém para tomarem seu café da manhã, enquanto conversam amenidades ou ficam em permanente silencio. A tarde, se encontram com os outros – aproximadamente- dez habitantes do vilarejo, todos velhos, onde se sentam a uma mesa de madeira ao ar livre, rezam e almoçam juntos. Em seguida parte para a única igrejinha existente e ouvem o sermão do Padre. À noite, Madalena volta para sua casa, onde escreve cartas pequenas a seu finado marido Guilherme. Cartas que ela endereça a ele numa rebuscada letra e guarda numa caixa de papelão antiga.
No dia seguinte, tudo se repete outra vez. As mesmas falas, os mesmos gestos.

Ate que a chegada de Rita, uma jovem andarilha fotografa, que pede hospedagem na casa de madalena, muda sutilmente a rotina de todos no vilarejo, apenas por sua presença.
É tocante notar as diferentes sutis que o roteiro imprime a narrativa com a chegada da nova personagem. E principalmente o contraste desta com o todo do filme. Rita é jovem, dinâmica, independente, questionadora e observadora, cabelos tingidos e curtos, que usa roupas atuais e porta diversas câmeras e um Ipod.
Tudo em Rita se contrasta diretamente com os moradores e o próprio vilarejo sem nome.
Ao redor, o tempo parece ter se extinguido. Como Antonio diz em certo momento do filme “Aqui nós nos esquecemos de morrer”.

Seus moradores parecem se fundir aos poucos, as pedras e as paredes rachadas. Como se fossem um único organismo remanescente de uma Era antiga. Quase uma cidade fantasma. 

Contando com uma narrativa densa e misteriosa, com ares de terror e suspense latente, em parte pela escolha de montagem eficaz e correta de acostumar o expectador àquela rotina dos moradores, fazendo com que uma minima mudança, um minimo utensilio a mais ou a menos chame nossa atenção imediatamente; o filme traz uma esplêndida fotografia repleta de texturas saturadas, com imagens deslumbrantes e bucólicas e planos inspiradores e enquadramentos belos e funcionais, para mostrar a emprestar o tom de contemplação, feito obras de natureza morta que o enredo exige. Sem muitos diálogos, o filme ainda tem o bônus de não possuir trilha sonora, provindo no silencio ou nos sons ambientes, como a respiração de seus personagens; seu maior trunfo.

Numa direção segura de Murrat, 'Historias Que Só Existem Quando Lembradas', cai fundo em reflexões humanas, de vida, morte e caminhos a se seguir. Coloco em xeque nossas lembranças e sonhos e nossa visão de mundo vivo diante do fatídico fim que é o descanso eterno. Esteja nas metáforas contidas nas fotografias em preto e branco com superexposição, onde seus personagens surgem quase apagados, como espíritos intrusos de um mundo vivo; seja nos cadeados em volta do único cemitério da cidade, onde a entrada é proibida e tem a fachada repleta de flores cultivadas com afinco por Madalena. Seja na rotina estática e repetitiva, ou mesmo no olhar de seus moradores sempre vazios e desconfiados.

Numa sequência de tirar o fôlego, em que Madalena aceita por fim tirar uma fotografia de si, o filme ainda recai sobre uma alusão ao eterno que as fotos captam. Mágico.

Ao final, o filme nos brinda com uma tocante, bizarra e enregelante reviravolta, permeada por um fio cômico peculiar, provando que se tornou não só um filme a ser lembrado, como também jamais esquecido.

Trailer



FICHA TÉCNICA

Diretor: Júlia Murat
Elenco: Sonia Guedes, Lisa E. Fávero, Luiz Serra, Ricardo Merkin, Antonio dos Santos, Nelson Justiniano, Maria Aparecida Campos, Manoelina dos Santos, Evanilde Souza, Julião Rosa, Elias dos Santos, Pedro Igreja
Produção: Lucia Murat, Julia Murat, Christian Boudier, Julia Solomonoff, Felicitas Raffo, Juliette Lepoutre, Marie-Pierre Macia
Roteiro: Julia Murat, Maria Clara Escobar, Felipe Sholl
Fotografia: Lucio Bonelli
Duração: 98 min.
Ano: 2011
País: Brasil, Argentina, França
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Classificação: 12 anos









3 comentários:

Muito bom o filme. Recomendo a todos.

Gostei, chorei de emoção. Belo.

Gostei, chorei de emoção. Belo.

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