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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Crítica: Once (Apenas Um Vez)


"Eu não a conheço, Mas a quero ainda mais por isso"



Pelas ruas de Dublin, um jovem (Glen Hansard) toca suas composições próprias para arrecadar alguns trocados. Passando um dia por acaso, uma pianista imigrante tcheca (Markéta Inglová) se encanta pelas melodias e entra, sem querer, na vida do escocês. Quando menos percebem, os dois estão compondo canções sentimentais juntos, mas encontram algumas dificuldades para dar início a um romance. Ela é casada e ele vem de um relacionamento amoroso frustrado.

É fascinante como Once (Apenas Uma Vez) consegue imprimir verossimilhança e delicadeza em seu enredo, que parece simples, mas que esconde uma complexidade de relacionamentos intensa.
Desde o inicio, somos apresentados a um filme com ares de documentário, seja pela sua fotografia nada rebuscada, seja por seus planos oscilantes com câmeras sempre em mãos, imagens por vezes desfocadas, enquadramentos desconexos, planos ora muito abertos, e ora fechados demais, ou mesmo por sua montagem com seus cortes repetidamente secos e suas elipses de tempo e espaço bruscas. Tudo isso poderia caracterizar erros ao filme. Mas aqui é o maior acerto que o diretor John Carney poderia fazer. Auxiliado por um roteiro competente e bem amarrado do próprio Jonh, Once nos apresenta um romance/musical que nos convida a participar de seu enredo, como espectadores do nascimento de uma romance tímido, complicado, belo e extremamente natural.

As atuações de Glen e da aqui estreante Inglová são soberbas. Seja pelo modo que Glen caracteriza seu resignado e machucado musicista, que tem o sonho de se tornar cantor e musico que escreve suas letras para um amor do passado – uma ex-namorada que o traira -, que tem de lidar com a falta de dinheiro e a preocupação de seguir seu sonho e deixar o pai já de idade a mercê; seja por Inglová que imprime uma personagem humana, sofredora e guerreira, sem perder a delicadeza e introspecção. Mãe e filha dedicada, que cuida da família em  meio aos problemas financeiros, e que tem de lidar com a ausência do marido que jamais aceitou sua paixão pela musica, alem de viver sob o fantasma de ser uma cidadão imigrante.

Mas como um belo musical que também é, Once encontra seus melhores momentos em sua trilha sonora, com belas canções- aproximadamente 20 durante a projeção – que não são apenas pano de fundo na historia. As canções aqui executadas com maestria por Glen e Irglová, fazem parte da narrativa. Cada cena musical tem o tom de um verdadeiro vídeo clipe. E é gostoso observar como é inteligente a escolha eficaz de transpor a narrativa da trama, de acordo com o final, ou o enredo de cada musica. Cada musica executada tem o papel não só de nos inserir na situação emocional da cena, como nos da pista do que estar por vir em seguida.
Amparados por um extremo bom gosto na iluminação e composição de cenas, o filme ganha seu brilhantismo em 3 cenas distintas.

A primeira, quando os dois estão numa loja de venda de instrumentos musicais, e se colocam a cantar uma das composições de Glen, que ele fizera originalmente para a ex-namorada.
Irglová assume o piano pela primeira vez ate então.
A câmera passeia em meio a cena, meio afastadas num travelling fantástico de apresentação. Conforme a musica avança em seus lindos acordes e letra – que rendeu a eles o Oscar de Melhor Canção por 'Falling Slowly' – a câmera se aproxima, em um lindo contra-plongée que imerge suas trocas de olhares e verdadeira paixão pela musica. É o amor, como a musica fluindo e nascendo. Ao fim da musica, um plano fechado em ambos, quase faz com que o espectador esboce um sorriso como seus personagens de contentamento. É interessante observar como aqui fica ainda mais evidente um fato: apesar das musicas terem sido compostas originalmente para a ex- namorada dele, elas se encaixam tão mais completamente e de modo tão explicito a Irglová, que a alusão de que é ela a "mulher" correta, fica ainda mais bonito e de bom gosto.

A segunda se dá quando já amparados por um seleto grupo de músicos, ambos estão prestes a gravar seu primeiro CD. Irglová se encontra numa sala de estúdio vazia, imersa no escuro, com apenas um foco de luz, sobre um piano preto – que por alguma razão dá a sensação de estarmos vendo tudo a luz de velas, mas não de maneira romântica, mas de maneira melancólica - . Ela se coloca a cantar e tocar uma musica de autoria própria. É o momento mais tocante da projeção. A maneira que Irglová emprega sua voz de forma sufocante e ainda assim suave, onde cada silaba soa como uma suplica, versando sobre um amor dolorido, mas sincero, é de partir o coração.

E o terceiro momento se encontra em seu final, nada clichê, alias; surpreendente, onde nos despedimos de Once da melhor forma possível, através de uma parede de janelas pequenas e parede de tijolos expostos, como se a vida ali apresentadas, estivessem livres para serem o que quiserem, e nós novamente entendermos que não passamos de meros espectadores desses momentos, nos despedindo num belo travelling de afastamento. É Fascinante.

Once consegue emocionar, divertir, apaixonar e ao mesmo tempo entristecer.
Nos coloca em meio a reflexão de que nem sempre todo amor encontrado pelo caminho deve ser consumado, ou mesmo que para o amor verdadeiro, não é preciso nada alem de uma boa trilha sonora para acompanhar seus passos.
Um filme gostoso de assistir, que encanta, embala e faz seu som. Ótimo, sublime e impecável.

Uma extensa serenata de amor que oscila entre a beleza e a melancolia, num romance jamais consumado (?) e por isso mesmo inesquecível.




Ficha Técnica: 

Diretor: John Carney
Elenco: Alaistair Foley, Catherine Hansard, Glen Hansard, Kate Haugh, Senan Haugh, Darren Healy, Gerard Hendrick, Bill Hodnett, Markéta Irglová, Danuse Ktrestova, Pat McGrath, Sean Miller, Geoff Minogue, Leslie Murphy, Mal Whyte.
Produção: Martina Niland
Roteiro: John Carney
Fotografia: Tim Fleming
Duração: 85 min.
Ano: 2006
Gênero: Romance
Classificação: 12 anos







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